29 de novembro de 2016

Maratona do Porto




- FORÇA, RUTE!

O apoio, por parte do público, tem sido fenomenal. Até para um bicho do mato, como eu, mais habituada à assistência silenciosa das árvores, à passividade dos rochedos e ao murmúrio suave dos ribeiros, esta energia é contagiante. Com o nome impresso no dorsal, é frequente recebermos um incentivo personalizado. Até ao momento, estou a ganhar ao Artur, que corre ao meu lado, por uma boa margem neste apoio individualizado. Ele diz que é por eu ser rapariga, mas eu acho que é porque não consigo deixar de sorrir. Olho as pessoas nos olhos e sorrio. Não tenho de olhar para o chão para ver se há alguma raiz exposta, para ir atenta a pedras escorregadias ou baixar a cabeça para não ver quanto falta até ao cimo da encosta. Posso ir a ver os atletas que regressam e tentar encontrar amigos e conhecidos, posso observar as pessoas ao longo do percurso e agradecer à altura.



Vou a sentir-me bastante bem. Como não foi uma prova planeada não tenho qualquer pretensão ou expectativa em termos de resultados. Estaria preparada para ter de caminhar, se fosse preciso, mas tenho conseguido manter sempre um ritmo confortável. No entanto, num cantinho da minha mente, nunca deixou de pairar o espectro d'O Muro. Onde estaria ele? Quando o encontraria? Como seria? Vou a caminho do km 30, o ponto de retorno antes de chegar à Ponte do Freixo, quando me cruzo pela última vez com os colegas de equipa que já seguem na direcção contrária. Dou um high-five ao João que grita: "agora é até à meta!". Ele vai muito bem, vamos todos muito bem, mas numa Maratona o "muito bem" não pode durar sempre, ou pode? Faltam-me 12 km, os últimos 12 km, "metade" da Maratona. O espectro d'O Muro adensa-se.




No dia anterior, eram quase seis da tarde e estava eu sentada na estação de comboios da Gare do Oriente, quase a choramingar. O dia não tinha corrido nada como planeado. Àquela hora, já deveríamos estar no Porto, a postos para um jantar de amigos, e não ali, ainda em Lisboa, depois de um dia bastante angustiante. Felizmente, depois tudo se veio a compor, mas uma série de contrariedades no Sábado deixaram-me bastante nervosa e a pensar se aquilo não seria um qualquer SINAL celeste para não ir fazer a Maratona... O stress deixa-me, claramente, virada para a espiritualidade.
Esta véspera stressante e atípica, sem respeitar refeições e hidratação, aliada à falta de treinos específicos para uma prova deste calibre, deixou-me ainda mais insegura relativamente à minha preparação. "Vamos para uma festa" - dizia-me o Artur - "é isso que tens de pensar, que vais para divertir-te e fazeres o melhor que conseguires". E eu acenava que sim, embora sem qualquer fé. Naquela altura eu ainda não sabia que seria isso que a Maratona do Porto iria ser para mim: uma festa.

Os primeiros dez quilómetros passaram bastante rápido. Após cruzar a linha de partida, ao som de Highway to Hell, continuava sem saber por qual estratégia, se alguma, deveria optar. Intervalar corrida com caminhada? Talvez fosse o melhor, dada a pouca preparação. Mas tinha em mim a curiosidade de saber se era capaz de fazer os 42 km sempre a correr. A distância não era nada de novo para mim, mas o estilo de corrida sim. O ritmo certo, contínuo, sem variação extrema de cadência, sem paragens, sem grande desnível. Como iriam os meus joelhos lidar com o impacto repetido no asfalto? Era o que mais me preocupava, não queria sair dali com alguma lesão. No fim, influenciada pela energia do pelotão que me rodeava, comecei um bocadinho mais entusiasmada do que se calhar devia, optando pela estratégia profissional do corre-para-aí-e-depois-quando-começar-a-doer-aguenta. Highway to Hell, assim seja.


Depois de passar a rotunda do Castelo do Queijo, fiz um telefonema. O pelotão já se tinha espaçado um bocadinho, perdido nas curvas e contracurvas do início e na passagem pelo porto de Leixões, onde pudemos observar os primeiros atletas que já vinham em sentido contrário. Tanto o meu ritmo como a minha respiração ainda se mantinham confortáveis, mas também seria muito mau sinal se assim não fosse, uma vez que íamos apenas com uns 11 km de prova.
Seguia-se uma longa recta sempre junto ao rio, até chegar à zona da Ribeira, e tinha de aproveitar esta parte relativamente calma, e enquanto ainda conseguia manter uma conversa coerente sem ter de arfar a cada sílaba, para ligar à minha Mãe. Não é muito habitual falar ao telefone enquanto corro, sobretudo em provas de estrada, mas era um telefonema do qual dependia a minha paz de espírito e, enquanto não o fizesse, não iria conseguir desfrutar a prova na plenitude. Claro que não fui ali de telemóvel encostado à orelha, como se estivesse na esplanada! Pus os auriculares, para disfarçar, e, felizmente, algumas frases bastaram para saber que estava tudo bem. Daí para a frente, até ao final, já ninguém me tirou o sorriso da cara.

O percurso é animado por algumas bandas a tocar de tantos em tantos quilómetros e corro ao ritmo da música. Não me consigo lembrar que canções passavam, mas na minha cabeça eram alegres e tinham dança. Tão bom correr com esta leveza! Está bem que só passaram 16 km, mas esta leveza é da alma, e não do corpo, e acredito que isso acabou por fazer muita diferença. Passamos por uma discoteca after-hours, de cujas janelas abertas nos chega um som electrónico, repetitivo, e o cheiro a fumo de tabaco. Pessoas que ainda não foram à cama dançam e acenam-nos de lá de dentro e eu aceno cá de fora. Cada um a pensar que está no melhor lado da festa.



Já estou a chegar à Ponte D. Luís quando começo a sentir uma pontada no joelho esquerdo... Na minha cabeça solto uma rajada de interjeições com vírgulas do Norte. Era a única coisa que me podia dar cabo desta experiência, raios! Abrando. Também não tenho nada que estar a correr a ritmos para os quais não treinei. Confortáveis, sim, mas provavelmente não geríveis para a totalidade da prova. Acalmo-me. Pode ser que seja daquelas dores que aparecem e depois passam.
Quando estou a atravessar o tabuleiro pedonal da ponte, um homem grita-me um incentivo personalizado, com tanta emoção que parece que me conhece. Por momentos até pensei que fosse mesmo alguém conhecido, mas não. Deve ter reparado que, naquela altura, estava mesmo a precisar de uma força extra. Mais uma vez, fiquei agradecida pelo fantástico apoio de quem assistia.


Devido à preocupação com o joelho, os quilómetros até à Afurada acabarão por ser o meu momento mais baixo de toda a prova. Quando passei a marca da Meia Maratona o ritmo já tinha abrandado um bocado e o facto de agora estarmos a correr em piso empedrado não ajuda. Tento fugir para o passeio mas toda a gente à minha volta parece que teve a mesma ideia e não consigo. Felizmente dá para nos distrairmos com o fluxo de atletas que já vem no sentido contrário e acabo por ver algumas caras conhecidas. Algumas vão tão concentradas que nem me ouvem chamar por elas, mas ainda consigo ver e acenar à Isa e ao Vitor e mais à frente trocar umas palavras de força com o João.

Quando dou por isso já estou no ponto de retorno e a dor no joelho eclipsou-se. Ainda bem! Começo a notar algum cansaço nas pernas, mas nada que não seja suportável. Ao nível do cárdio também tudo estável. Vamos com cerca de 29 km de prova quando começo a ver as primeiras pessoas a parar para caminhar, sobretudo na pequena rampa de acesso à Ponte Dom Luís. Para minha admiração, faço-a com relativa facilidade e sem destabilizar a respiração. Consigo manter uma cadência certinha e isso dá-me confiança de que irei conseguir manter o ritmo de corrida. Também ajuda muito o facto de não existirem montanhas na cidade do Porto! (Aliás, se me perguntarem, a Maratona não teve subidas. ;))
No entanto, está a chegar a fase crítica dos 30 km e não quero permitir-me a euforias antes de tempo e depois bater com a minha enorme cabeça inchada num Muro monumental. Calma. Faltam-me 12 km, os últimos 12 km, "metade" da Maratona.



FOME. Tenho muita FOME! É só isso em que consigo pensar quando chego aos 32 km de prova.

Para trás ficou o túnel da ribeira onde a música Eye of the Tiger se fazia ouvir em repeat e onde ecrãs espaçados a cada cinco metros passavam a famosa cena da corrida do Rocky. Foi um toque engraçado da Organização e que a mim muito me agradou porque, como como já partilhei uma vez no blogue, é uma das minhas cenas favoritas do filme e que aqui resultou numa inspiração inesperada. Acho que foi neste momento que tive a certeza que iria aguentar correr até ao final. Aliás, os primeiros (milhares) é que já tinham chegado à Meta, senão até tinha a certeza de que era capaz de ganhar a prova! :)


Como não se sentir motivado ao ouvir o Eye of the Tiger, como?!

Mas, como estava a dizer: FOME. Não sei se foi da pouca disciplina alimentar da véspera, se do facto de ter tomado o pequeno-almoço muito cedo, mas vou passar a prova inteira com o estômago a reclamar alimento. De tal forma, que todos os géis que ingeri, bem como as bananas consumidas nos abastecimentos, servirão mais para mitigar a carência já existente do que propriamente para dar energia extra. Nunca tal me tinha acontecido, nem mesmo em ultras que me duraram o dia inteiro. Nesta fase da prova começo a preocupar-me, não fosse dar-me a fraqueza numa altura tão crítica.
Mais à frente, vejo um rapaz que segurava um cartaz com a frase: "DESPACHA-TE! TENHO O ASSADO NO FORNO." Já o tinha visto duas vezes ao longo da prova e, desta vez, tive de me rir, quando ele, olhando para nós, aponta para o cartaz e comenta: "Eu não quero ser chato, mas...". Ia com quatro horas de prova, era hora de almoço, e mal sabia ele a fome que trazia naquele momento! Já não me lembro o que lhe respondi e rimos todos com a situação. E este foi o sinal de que estava mesmo a ter um dia bom.

Quem já correu comigo, e com qualquer atleta no geral, sabe que há ali uma ou outra fase nas provas em que o sofrimento começa a bater e o humor se torna um bocado instável. A mim dá-me para começar a resmungar com tudo ou, quando estou mesmo no fundinho mais fundo do poço, baixar a cabeça e não falar nem responder a ninguém. Se alguém que estiver a assistir me der uma força, o máximo que consigo fazer é retribuir com um esgar que pretendo passar por um sorriso mas que de certeza mais se assemelha a um AVC. Mas hoje não. Hoje vou sorrir e brincar do início ao fim. O universo decerto quis equilibrar a balança, concedendo-me um dia feliz depois de um dia menos bom. Domingo foi o Yang para o Yin do Sábado.

Portanto, vou feliz mas, claro, não sou a Super -Mulher. Óbvio que aos 35 km as minhas pernas já pesavam e bem. No entanto, nunca senti aquela necessidade premente de parar, aquela sensação de não conseguir dar mais um passo que seja, que já senti em outras provas. Se calhar, foi nesta fase que a experiência das Ultras ajudou. Passo novamente pela discoteca after-hours, pela qual tinha passado à ida, umas horas antes, e ainda continuo a achar que estou no melhor lado da festa.
Ultrapassamos várias pessoas nesta fase. Foi algo que me impressionou, o número de atletas que faz os últimos quilómetros a andar, alguns até parados, visivelmente com bastantes dores. Agradeço o dia bom, porque eu sei o que é quase chorar com a perspectiva de ter de continuar a correr e hoje não foi esse dia. Íamos com cerca de 37 km, a 5 km do final, quando finalmente tive a coragem de verbalizar aquilo que já sabia na minha mente há muito: "Vou conseguir correr até ao fim!"

Se há pouco vos disse que esta Maratona não tinha subidas, abro agora uma ligeira excepção. No regresso até à rotunda do Castelo do Queijo, sou capaz de apostar que aquilo é a subir, apesar de não ter reparado que fosse muito a descer quando o tinha feito no sentido contrário! É que parece que nunca mais acaba, livra! Mas o facto de estarmos a passar muita gente, e ninguém nos passar, ajuda a manter a moral.

Quando finalmente lá chegamos, ultrapassamos o pórtico que anuncia 1 km até ao final e, os momentos restantes até cruzar a Meta, ficam gravados na memória em câmara lenta, ao som de Vangelis. O speaker que, antes da curva para a subida da meta, grita o meu nome e diz que já está, que sou maratonista, atletas que já terminaram e que passam por mim e me dizem o mesmo, que já está, mas ainda não está, falta um último esforço naqueles duzentos metros finais de subida, já a sentir todos os músculos das pernas a queimar, as dezenas de rostos das pessoas encostadas às grades, que aplaudem, o pórtico ao fundo, com as letras PARABÉNS, o relógio que não chegou ainda às 5 horas de prova, as meninas com os pompons que formam um corredor à nossa chegada, o cruzar do tapete, parar o relógio, ouvir as palavras "és uma Maratonista". Agora sim, já está.

Digo: "afinal não foi tão mau como pensava", admirada, contente. Digo-o ao Artur, que cruzou a Meta atrás de mim, digo-o ao Carlos que lá estava a filmar a nossa chegada. Vou repeti-lo várias vezes, a várias pessoas, e rio-me como se tal constatação fosse muito engraçada. AFINAL NÃO FOI TÃO MAU COMO PENSAVA!

E cá está, a crónica de uma ultramaratonista que se tornou maratonista. Sei que não é o percurso mais comum e que resulta talvez numa experiência um pouco diferente de quem faça uma Maratona pela primeira vez como prova de maior distância. Não foi, de facto, tão mau como pensava, embora isso não signifique que tenha sido fácil! Não foi mesmo!!! É difícil explicar. É óbvio que não ia correr para bater nenhum tempo específico, e isso faz toda a diferença. Também sei que ia preparada para a dor, porque já lidei com ela várias vezes, e talvez isso me tenha ajudado mentalmente. Apenas não sabia como o meu corpo ia reagir a tanto tempo e impacto de corrida contínua. Posso já ter feito uma prova de 100 km, mas acho que nunca tinha corrido 42 km seguidos sem caminhar. Esse passou a ser o desafio, saber se conseguiria fazê-lo, assim que vi que me estava a aguentar bem. E consegui! Não foi nenhum tempo extraordinário (4:52:50), mas foi o meu tempo, o meu tempo sempre confortável, sem parar, e fiquei orgulhosa disso. Não estava certa de conseguir fazer menos de 5 horas e muito menos fazê-lo sempre bem-disposta, portanto foi um bom resultado para mim. Sobretudo, porque ia acagaçada com a falta de treino! Mas acho que a falta de pressão e expectativas, aliadas ao facto de nunca ter esticado para lá de um ritmo confortável e, porque não, tudo isso aliado também a um pouco de sorte, ajudaram a que tivesse uma boa primeira experiência.

Não sei se farei outra Maratona tão depressa. Esta deixou-me uma recordação perfeita, assim como foi. Sei que, se algum dia quiser correr outra, vou querer fazê-lo "como deve de ser", preparada, com treinos específicos, para dar o meu melhor, sair da zona de conforto. Toda aquela preparação que faz parte da viagem e que desta vez saltei. E sei também que, por enquanto, não é para aí que o meu coração pende. Mas ainda bem que, um mês antes, houve alguém que me convenceu que participar numa Maratona poderia ser uma festa. E fico feliz porque foi mesmo.

8 de novembro de 2016

Das ultramaratonas à Maratona

E eis que, três anos depois da minha última prova de estrada, fiz uma Maratona.



Um mês antes:
- "Surpresaaa! Inscrevi-te na Maratona do Porto!"

Alguém que, a tão pouca distância do evento, vos faz uma surpresa destas, é:
a) alguém que tem plena confiança nas vossas capacidades e quer proporcionar-vos um dia feliz;
b) alguém que serve uma vingança fria e vai gostar de vos ver a penar durante algumas horas;
c) ambas as respostas acima poderão estar correctas.
Respondam nos comentários.

Sei que o meu percurso não é o mais convencional, já que fiz 15 ultras, incluindo uma de três dígitos, antes de participar na "prova mítica". No entanto, como já uma vez escrevi por aqui, correr uma Maratona nunca foi um sonho meu. Não era algo que estivesse completamente excluído, mas era uma ideia constantemente adiada. Tinha feito apenas duas meias-maratonas de estrada quando comecei a participar em provas de trail e, desde que descobri os trilhos, todos os meus objectivos se viraram para aí. É nos trilhos que me sinto mais livre, mais feliz e, embora não tenha sido intencional, os anos foram passando e nunca mais tornei a participar numa prova de estrada. Inclusive, não fazia treinos longos em estrada há - literalmente - anos.

A ideia de participar na Maratona do Porto foi primeiro abordada numa conversa pouco depois do OMD. Sem nenhum outro objectivo até ao final do ano, e ainda a alguns meses de distância, parecia uma boa altura para, finalmente, estar presente na prova de que todos falam. Mas não fiquei convencida. Na minha cabeça, só fazia sentido fazê-lo por paixão, por uma enorme vontade, e, honestamente, isso eu não tinha. Depois, com a rebaldaria total de treinos que se revelaram os meses seguintes, a ideia foi completamente posta de parte. Ou assim pensava eu...

E é assim que, cerca de um mês antes, me vejo confrontada com a possibilidade real de estar presente. Só tinha duas opções: não ir, ou ir, e aguentar-me à bronca. (Bom, ok, tinha sempre a opção de encurtar para a Family Race).

Nesse espaço de tempo fiz dois treinos "longos" em estrada, de 21 e 22 km, só para testar se ainda aguentava correr sempre a um ritmo certo e contínuo, e pouco mais. Óbvio que não foram treinos suficientes, nem significativos. Sabia que não estava preparada para competir na Maratona (e, por "competir", entenda-se dar o meu melhor) mas também não o faria levianamente. Os anos e muitos quilómetros de base deixavam-me, talvez, preparada para participar. Era a isso que tentava agarrar-me. Mas sabia também que tinha, pelo menos, uma coisa a meu favor: a minha capacidade de aguentar várias horas de sofrimento. É, as ultras fazem-nos isso!

Portanto, foi esse o espírito com que fui para o Porto. Sem expectativas, sem pressão. Iria agradecer o presente, desfrutar da festa da corrida e, quando a dor aparecesse - e sabia que iria aparecer, mais tarde ou mais cedo (eu esperava que mais tarde) - tinha de cerrar os dentes e aguentá-la.

E não é que correu bem?!


2 de novembro de 2016

O armário

Todos aqueles que correm têm "O" armário. Pode até nem ser um armário. Pode ser uma gaveta, um canto no guarda-fatos, uma cesta no quarto, um alguidar no fundo da lavandaria... Mas o conceito é o mesmo. "O" armário é o baú de recordações da corrida, o depósito têxtil das nossas conquistas, o emaranhado físico das provas feitas, o caos suado do nosso esforço. Vulgarmente é também conhecido por "o armário onde estão as tshirts".

Ao início todo ele é religiosamente organizado. A primeira tshirt, depois a segunda, guardadas com o cuidado de uma peça de museu extremamente valiosa, que é posta a arejar de tempos a tempos, em algum treino (mas não muito, para não estragar). Depois, com o passar do tempo e a gradual participação em provas, o armário começa a ganhar dimensões assustadoras. De tal forma, que até temos medo de enfiar demasiado o braço naquela confusão, não vá dar-se o caso de sermos sugados para uma outra galáxia de planetas de algodão, poliéster e tecido técnico. Outras vezes, chego a suspeitar que no armário habita um monstro devorador de tshirts, pois só isso explica que não consigamos encontrar aquela tshirt azul com as letras cinzentas, daquela prova de 2012, que queríamos mesmo usar no treino de hoje, apesar de termos outras dezenas à disposição.

Os dias vão passando, acabamos por tirar sempre a tshirt que está mais à mão, enquanto olhamos de soslaio para o interior do armário e pensamos que temos de o organizar "um dia destes"...

No meu caso, como a situação já estava a adquirir contornos que poderiam pôr em causa a minha integridade física*, tive de enfrentar o mostro e arrumar O armário.

*(a sério, o armário fica num ponto mais elevado e, sempre que tinha de tirar uma tshirt, tinha de fechar rapidamente a porta, não fosse dar-se um desabamento das restantes e eu só vir a ser encontrada dias mais tarde, soterrada sob quilos de pano colorido.)

O Antes.

O que eu não contava, é que este acto de arrumar fosse abrir uma caixa de Pandora de recordações e nostalgia, o que dificultou bastante o meu trabalho.

- "Xiiii, a t-shirt da MINHA PRIMEIRA PROVA! Não a via há anos, enterrada no meio dos destroços das outras tshirts, mas, decididamente, tem significado, não posso desfazer-me dela."

S. Silvestre dos Olivais 2011.
A Primeira.

- "OMD, a PRIMEIRA VEZ QUE BAIXEI DA HORA AOS 10 KM! Nem pensar em doá-la, vou guardá-la para sempre, mesmo que não a use nunca porque o tecido causa-me alergia no pescoço ao raspar enquanto corro.

Corrida Dona Estefânia 2012.
Era sempre a direito, perfeita para bater recordes, e assim foi.

A estas seguiram-se a da primeira Meia-Maratona, da primeira prova de trail, da primeira Ultra... A ideia era guardar as melhores, deitar fora as que já estivessem em más condições e juntar outras quantas, que já não uso, para doar. Mas como é que uma pessoa escolhe entre filhos? Como?!

Agora fora de brincadeiras, é engraçado as memórias que ficam associadas a uma peça de roupa e que me ocorriam quando pegava em cada uma. Sabiam que a banda sonora do Indiana Jones fazia parte da minha playlist na minha primeira prova? (Ahah, que totó...) Sabiam que o meu pai esteve presente na prova em que baixei da hora e me acompanhou, também, em parte da minha primeira Meia Maratona? E que fiz parte de uma equipa de estafetas na Maratona de Lisboa 2012? Que foi nesta prova que me comecei a apaixonar por Sintra? Que assei de calor no Almonda de 2013 e que, por causa disso, essa prova ficou para sempre riscada da agenda para mim, mesmo que noutras edições, entretanto, até tenha chovido? Que Mafra se tornou especial, no dia em que fiz o Raide à Tapada? Que, mesmo sendo uma tartaruga, fiz aqui o meu primeiro pódio? Que, por esse país fora, conheci locais e pessoas que, provavelmente, nunca teria conhecido de outra forma? Eu sabia disso tudo, mas já não me lembrava. Só foi preciso arrumar o baú das memórias.

O Depois.

Bom, não sei se esta crónica vos vai dar vontade de fazer arrumações - provavelmente não - mas eu gostei desta viagem ao passado. "Corro para criar memórias", como já por aqui escrevi um dia (e, já agora, os 26km da Lagoa de Óbidos foram a minha primeira prova nocturna, feita com um frontal muito fraquinho, que quase não durou a totalidade da prova. Felizmente, tinha três companheiros de corrida.)

Acabei por me desfazer de menos tshirts do que aquelas que gostaria. Por outro lado, ainda sobram bastantes para um dia mandar fazer uma manta de retalhos da minha "carreira" desportiva.

Exemplo de um "race quilt", dos muitos encontrados por essa net fora.

- "Ah, e tal, tudo muito bonito. Mas, e correr que é bom, pá?"

Pois, cá vamos! Já corri mais, mas também já corri menos (ver meses que se seguiram ao OMD). Sempre sem falhar aos fins-de-semana, menos consistente durante a semana (nada de novo, portanto). Mas depois falamos melhor sobre isso.
No entanto, o meu Garmin, tal como algumas das minhas tshirts, já merecia uma reforma. Tenho-o desde 2012, o que não parece assim tanto, mas sabemos bem que, em termos de tecnologia, é quase como se fosse pré-histórico. O modelo foi descontinuado e, talvez por isso, tem dado muitos problemas na actualização e transferência dos treinos, para já não falar dos dias em que se recusa a treinar (não apanha satélites). Assim sendo, ainda não tenho as contagens destes dois últimos meses. Vou instalar uma aplicação no telemóvel entretanto, só para ter algum controlo. 

E vocês? Como anda a vossa colecção de retalhos para a futura manta de feitos desportivos?

18 de outubro de 2016

Por trilhos do Gerês (a PR3)

Aqui há uns tempos alguém estava a falar das suas férias em Beja e perguntou-me: "Já foste a Beja? Tens de ir!", e a primeira coisa que pensei foi: "Hmmm... Será que há alguma prova que possa fazer em Beja?".

Não sei em que momento da minha vida passou a ser indissociável conhecer sítios novos e fazer uma prova. Já nem sei como fazia antes. Ia assim, uns dias para um local novo, sem sequer verificar se ia haver algum trail na zona??! Depois chego lá e faço o quê? Descanso? Relaxo junto à piscina? Vou a bons restaurantes regionais? Passeio pelas ruas turísticas? Sinceramente, não sei o que as pessoas fazem quando não passam metade de um dia, no mínimo, a correr, e a outra metade a arranjar coragem para levantar a carcaça morta da cama. Ver museus e visitar monumentos não é a mesma coisa se não estiver cheia de dores musculares ou, pelo menos, tiver uma ou duas bolhas nos pés!

Mas bom, o certo é que houve um dia em que esse clique (o fusível a queimar?) se deu, o que significa que agora não há sítio a que vá que não tenha de ter uma prova anexada ou, à falta dela, um treino programado pelas redondezas. E foi isso que aconteceu no Gerês.

Excerto de um poema de Miguel Torga, exposto na Pedra Bela, Gerês.

Depois do fim-de-semana em Arga, não sabia como iriam estar as minhas pernas, mas uma pessoa não pode simplesmente ir ao PNPG e NÃO correr, não é verdade?
Claro que, por ali, o que não faltam são opções de trilhos. Existem dezenas de rotas assinaladas, o difícil seria escolher. Felizmente, um casal alemão que estava de partida deu-nos os mapas impressos de algumas Pequenas Rotas que tinham percorrido, o que deu um enorme jeito, derivado à tendência que alguém tem de perder-se, mesmo em percursos assinalados... Uma das rotas de que tinham gostado mais começava a poucas dezenas de metros do local onde estávamos alojados, e foi mesmo por essa que começámos.

Pequena bucha antes de iniciar o percurso.
A estudar o mapa!

A PR3, também conhecida por Trilho dos Currais, começa na zona do Vidoeiro e segue um percurso circular de cerca de 10km (diz a placa, mas é um pouco mais). Passa por alguns locais icónicos do Gerês, como a Pedra Bela e, como o próprio nome indica, atravessa diferentes currais, ou zonas de pastoreio, e respectivas cabanas dos pastores.

A placa prevê uma duração de 4 a 5 horas.
Quantas horas acham que demorámos? Resposta no final da crónica.

Sendo o primeiro dia no Gerês, ia eu cheia de vontade de CORRER TODOS OS TRILHOS! Acontece que este percurso começa com uma enorme subida. Cerca de 600 D+ em menos de 3 km, pelo que tínhamos visto no mapa. Mas uma coisa é analisá-la no mapa, outra é estar lá e fazê-la. Digamos que foi uma bela caminhada de 3 km, que despertou os músculos ainda mal adormecidos do GTSA.


No entanto, gostei bastante desta parte. Depois de nos afastarmos cada vez mais da vila e andarmos durante umas centenas de metros por atalhos que cortam a estrada nacional e os parques de merendas à sua berma, entramos por trilhos de árvores retorcidas e verdura luxuriante, a lembrar a minha Serra de Sintra.
Nesta parte, o terreno é também bastante rochoso, por vezes com escadinhas escavadas na terra, para ajudar à sua subida. Corria também alguma água, sobretudo devido à humidade nos locais em que a vegetação tornava o local mais cerrado, mas, pelo que me pareceu um pequeno leito no trilho, penso que na época das chuvas se formem pequenas ribeiras por ali abaixo, o que trará uma nova componente de desafio ao percurso.


Foi também nesta parte que começámos a avistar, de tempos a tempos, medronhos no chão, mas sem se avistar nenhum medronheiro nas redondezas. Além disso, parecia que apareciam estrategicamente dispersos, como se alguém estivesse a querer deixar rasto. Mais ou menos como na história de Hansel e Gretel, mas, em vez de assinalarem o caminho com migalhas, assinalaram com medronhos. (Bom, sempre são mais resistentes que migalhas.) Há-de, para sempre, permanecer um mistério, já que nunca chegámos a ver nenhum medronheiro mas também não vimos mais ninguém no trilho. O Mistério dos Medronhos Perdidos (dava um belo nome para um romance policial).

De vez em quando, existia uma abertura por entre as árvores e avistava-se o topo.

"Ainda??! Parece que não avançámos nada!"

Quando estamos a cerca de 1 km do topo, entramos numa área mais aberta, de pinhal. Por enquanto havia bastantes sombras, mas já dava para perceber que ia ser um dia (e treino) quente.


Chegando ao final da subida, vamos dar a um bonito descampado, local do primeiro curral, o Curral da Lomba do Vidoeiro, se não me engano.


Não tivemos muita sorte porque as cabritas deviam andar a pastar para outros lados, mas assim deu para explorar sem receio de levar alguma marrada.


O abrigo dos pastores estava extremamente bem conseguido, com uma porta em madeira e um banquinho em pedra no interior, notava-se ser bastante resistente aos elementos.

A cuscar, a medo, não fosse saltar dali alguma cabrita enraivecida.

Pequeno T0, soalheiro, com uma vista fantástica (deve pagar imenso de IMI... eheheh).


Bastou correr cerca de quilómetro e meio - sim, ali já dava para correr à vontade! - para descobrirmos onde andavam as cabritas (e algumas vacas) escondidas.


Olá!

Era o Curral da Carvalha das Éguas, local onde o Artur se recordava de ter passado quando participou no Peneda-Gerês Trail Adventure.


Daqui para a frente seguir-se-ão alguns quilómetros relativamente planos e bons de correr, antes de se iniciar novamente a descida.




O percurso estava bastante bem assinalado e notava-se que as marcas de tinta tinham sido reforçadas recentemente. Apenas tivemos dúvidas quando já íamos com cerca de 6 km e apareceu uma zona de cruzamento sem indicação. Foi preciso avançar alguns metros pelos dois caminhos para ver qual deles estava assinalado. De resto, mesmo em locais com várias opções, havia quem tivesse posto placas ou indicações adicionais.

Uma seta feita com pedras, a indicar a saída à direita do estradão.

Depois de atravessarmos o Curral da Espinheira, seguido de uma zona de pinhal e uma área florestal repleta de fetos, vamos dar a um dos pontos altos do percurso.


O Miradouro da Pedra Bela, a mais de 800 metros de altitude, fica numa pedra imponente, que não podia ter escolhido melhor sítio para "nascer".


A montanha, os rios que serpenteiam a serra, a confluência dos rios Cávado e Caldo, a Portela do Homem... tudo de ali se avista, tudo dali é belo, e daí o baptismo desta pedra, cuja vista influenciou autores como Miguel Torga, neste poema que se encontra na rocha do miradouro.


Vista montanha.
Parece que o "Krupicka" também andava por ali a fotografar a paisagem! ;)

O Carlos Sá tem uma foto/vídeo publicitário neste exacto local.
Eu tenho quase o mesmo estilo. :P

Depois da Pedra Bela segue-se o início da descida até à vila, intercalando entre trilhos muito técnicos, cheios de pedras e raízes, com estradão e alguns troços da estrada nacional.


É num desses troços junto à estrada que vamos aproveitar para abastecer de água e comer qualquer coisa. O Gerês é farto em água e fontes, mas na zona da serra onde tínhamos andado não havia nenhuma.


Enquanto comíamos, tínhamos estes espectadores:



Alguns com ar mais amistoso e outros mais mal-humorados (deviam estar com fome e nós não partilhámos.)

Foi também apenas aqui, a cerca de 2 km da vila, que vamos apanhar os únicos caminheiros que vimos em todo o percurso e que pareciam estar a percorrer a mesma rota. Já não íamos ser os últimos!

A chegada à vila é feita junto a algumas habitações e vinhas, em piso empedrado e estradão.


Chegando à estrada, algumas centenas de metros mais à frente, a meta.



E agora, quanto tempo acham que demorámos?

- 3h10. E isto com várias paragens para fotos, explorações, e para comer. Portanto, das 4 a 5 horas previstas, é possível fazê-lo em bastante menos tempo se forem em ritmo de corrida (mas não deixem de parar para apreciar a paisagem).

Diria que é um percurso de dificuldade média-alta, apenas porque se ganha bastante desnível logo de início e alguns dos trilhos são muito técnicos. De resto, os quilómetros centrais permitem um ritmo de corrida solta, e vão sentir-se leves e livres, qual Heidi ou Marco (riscar o que não se aplica) a correr pelas montanhas.

No dia seguinte, o estado das coisas não permitiu grandes correrias, mas ainda deu para explorar mais uma PR (PR10 - Trilho da Preguiça. Podem ver algumas fotos no Instagram). O Gerês é maravilhoso, e nem sequer precisa de haver uma prova de trail para justificar a visita, podem fazer a vossa.

Mais informações e mapa de percurso do Trilho dos Currais, aqui.

14 de outubro de 2016

GTSA: Trail Longo 23km

"Bom, lá terá de ser...", e enfio os pés nos ténis ainda húmidos.

Na noite anterior, depois de terminar o Sunset Trail, tinha ido a um café pedir jornais velhos para meter nos ténis, de forma a absorverem a maior parte da água. Ajudou, mas, obviamente, aquelas poucas horas nocturnas não foram suficientes para os secar por completo. Além disso, também a mochila e o seu conteúdo tinham ficado completamente encharcados. O dia está agora a nascer, com o céu limpo, tenho esperança de que ainda sequem até ao início da prova.

Depois de perder a partida da Ultra e dos 33 km, por segundos, em Dem, ainda fui, no entanto, a tempo de ver os atletas passar após a primeira volta à vila. Entramos, em seguida, num dos dois cafés que estão junto à partida e parece que passou por ali um tufão. O tufão GTSA, que assalta esta pacata localidade todos os anos no final de Setembro, trazendo consigo, por arrasto, os seus cerca de mil atletas e as respectivas bexigas nervosas, juntando-lhe a necessidade urgente de cafeína.
Daqui, partiremos depois num dos autocarros que nos levariam até S. João da Montaria, local onde tem início a prova dos 23 km.


S. João da Montaria.

De todas as distâncias que o GTSA oferece, acabei por optar por esta pois, tal como vos tinha dito, na minha opinião, cobre uma das partes mais bonitas do percurso da Ultra. Apesar das alterações que sabia que iria haver este ano, pelo menos o Vale do Âncora e as suas cascatas estavam garantidos. Geralmente chego sempre a esse local já com 40 km de prova e demasiado cansada para poder apreciar a vista como deve de ser. Desta vez seria diferente (ou, pelo menos, esperava que sim!)


Havia bastantes atletas à partida, só para os 23 km eram quase 500, aos quais se juntavam os atletas dos 13 km durante os primeiros quilómetros. Temi logo um enorme congestionamento quando se iniciassem os trilhos, mas os primeiros quilómetros foram todos muito rolantes. Três quilómetros passaram e ainda estava a correr... Cinco quilómetros... Sete quilómetros sem parar ou caminhar uma única vez! Quem só fizer provas de estrada (ou for melhor atleta) e estiver a ler isto, pensa: "Uau, sete quilómetros seguidos a correr... E então?!", mas para mim, em trilhos, sobretudo sendo em Arga, estava a ser estranho.


Já não me consigo lembrar bem, mas quer-me parecer que esta parte do trajecto foi um pouco alterada em relação aos anos anteriores. Decididamente, não me lembro de ser tanto estradão rolante mas, tendo feito uma prova na noite anterior, não me estava a queixar, pelo contrário!

Pararei pela primeira vez aos 7,5 km no primeiro abastecimento, junto a esta bonita ponte.


Estava uma confusão enorme de gente no abastecimento, pelo que tentei não perder muito tempo. A média estava a ser boa, mas sabia que agora iria iniciar-se uma subida contínua até aos 15 km, começando pelos trilhos junto ao rio Âncora, e queria tentar espaçar-me um pouco do "pelotão" (o que, numa corrida com muito mais de 500 atletas, é um pouco complicado.)

A fugir tão depressa que até desfoco a foto! :)
(E, sim, tinha a mochila mal ajustada mas não me apetecia parar para ajustá-la
e estragar o momentum de corrida. Vocês reparam em tudo! :P)

O que mais diferencia estas distâncias de uma Ultra (para além dos quilómetros, obviamente) é a quantidade de gente em prova. Nunca estamos sozinhos. E isso era algo ao qual já não estava habituada, confesso. Ter de ir ao ritmo do grupo, esperar que os da frente avancem ou ter a pressão de levar um carreiro de atletas atrás. Ou tentarem ultrapassar mas sem avisarem por qual lado o pretendem fazer (por vezes não há espaço e nem sempre a esquerda é a melhor opção) ou então eu tentar ultrapassar alguém e sentir que essa pessoa fica "picada" com isso! Foi engraçado. Por outro lado, a dinâmica do grupo - as conversas, as piadas e, mais para a frente, as discussões dos casais quando já vão cansados (eheh) - acaba por trazer alguma distracção.

E assim chegamos às cascatas.


Até então vinha muito bem - "olhem para mim, a correr tanto, apesar da prova de ontem! #muitaforte" - mas bastou iniciarem as subidas mais escaladas para perceber que afinal não estava assim tão forte. Não é que me sentisse cansada, mas as pernas é que não estavam tão frescas como pensava. Apercebi-me de que, mais para a frente, iria começar a ter problemas mas, por enquanto, estava a aguentar-me.


Por um lado, acabei por desfrutar muito mais do ambiente, já que não vinha com um pulmão a saltar-me pela boca e cheia de dores "nas cruzes", como nos anos anteriores, mas, por outro, não dava para parar um segundo que fosse, pois vinha sempre gente atrás.


Não fui eu que tirei as fotos - ou me agarro a troncos e árvores ou saco do telemóvel, não domino a técnica conjunta. E, mesmo assim, sabe Deus como nunca rebolei por ali abaixo. Felizmente, há quem seja mais ágil do que eu, o que resulta em bonitas fotos para mais tarde recordar e ilustrar esta crónica.


Este ano também havia muito mais água, talvez resultado da chuvada da noite anterior, o que tornava a travessia ainda mais cautelosa e lenta.


Uma das coisas engraçadas desta zona, e apesar de já ser a quarta vez que a percorro, é que esqueço-me sempre de como é longa. Quer dizer, são cerca de três ou quatro quilómetros, mas parecem muitos mais. Quando julgamos que já passámos o pior/melhor e recuperamos um bocadinho da corrida,



Voltamos aos trilhos inclinados, ao rio e às cascatas.


Lembro-me que, em 2015, comecei a ficar farta (blasfémia!) e não via a hora de terminar esta parte, mas, este ano, fi-la relativamente bem.



Além disso, já sabem como gosto de água, e os ténis até ainda estavam molhados do dia anterior e tudo.


Ao longos dos 12 km já percorridos, já tinha sido possível ver algumas das marcas deixadas pelo incêndio, mas, apenas quando saímos da zona do rio, e já depois da separação do percurso dos 13km, quando começamos a entrar na zona alta da serra, é que se vai tornar mais visível a área ardida.


Sobretudo na zona de floresta, lindíssima, mas que tanto tinha amaldiçoado em 2015 devido à posterior escalada de rochas ("ai as minhas cruzessssss!"), eram bastante visíveis os estragos...


Continuava uma área mágica, embora de beleza triste.



Vai ser já na última subida (como é que vou lá há tantos anos e não sei/não me lembro do nome deste pico! Alguém?!), pouco antes do abastecimento, que irá passar por nós o atleta cabo-verdiano, primeiro classificado da Ultra. E que avanço que ele levava! O segundo classificado, e restante pódio, irá só apanhar-nos na descida, quase trinta minutos depois.


Quanto a mim, até ao abastecimento as pernas já iam bastante preguiçosas, mas depois do abastecimento então, na conquista daquele último piquinho, foi um martírio.

#fmylife... :)

Não conseguia compreender como a alma claramente insensível que me acompanhava ainda estava a documentar fotograficamente este momento.

Grrrshumpshhh#%%&!

Agora, estas fotos já valeram bastantes gargalhadas, mas na altura não estava a achar muita graça. :)


Finalmente, depois de passar pelo famoso T0 (formação rochosa que forma um abrigo natural), é um instante até às ventoinhas. Aqui em cima já eram visíveis os sinais de renovação da natureza, pequenos apontamentos de verde e lilás, no meio do negro e cinza.


Ai estão elas, as eólicas! Símbolo dessa energia natural e renovável, que é o início de uma descida. ;)



No meio da devastação, não eram apenas as flores que davam um ar de vida. Os cavalos da Serra d'Arga, elementos incontornáveis do GTSA, também por lá andavam. Vejam se os descobrem na foto abaixo!


Começamos então a descida daquilo que contávamos ser cerca de 7 km até à meta. Este ano, por uma encosta totalmente nova, contornando a Pedra Alçada.


Ao início, serão uns poucos quilómetros feitos sempre por um empedrado a lembrar uma estrada romana que, por comparação à Pedra Alçada, permite um passo de corrida mais confiante. Não o meu, claro, que já sabem ser o de um pinguim a descer.

Depois, e embora compreenda porque essa alteração teve de ser feita, os quilómetros finais estenderam-se por intermináveis estradões junto a quintas e sem muita beleza cénica. Além disso, cedo nos apercebemos de que a prova teria mais do que os anunciados 23 km, pois quando essa distância apitou ainda se avistava Dem bem lá em baixo. Nesta altura fiquei contente por ter optado "apenas" pelos 23 km, porque já não via a hora de terminar.

Então e a meta, ainda está longe?!

Eventualmente, lá acabamos por ir dar a uma curva já familiar da estrada da localidade, e sabia que, a partir daí, faltariam cerca de 500 metros para terminar. Ainda consegui alargar um bocadinho a passada (aquelas centenas de metros finais são boas para isso) e terminar já esquecida de todos os momentos "maus" e a pensar como este é mesmo um grande evento, em todas as suas distâncias, apesar das condicionantes a que foi sujeito este ano, e que ainda bem que voltei. E como quero voltar!