9 de março de 2017

Playlist #8 - Os podcasts

Toda a gente tem a sua playlist de corrida (também já partilhei por aqui algumas das minhas). Há mesmo pessoas que não saem para correr sem os seus auriculares. Eu não tenho por hábito ouvir música nas provas ou treinos longos em trilhos mas, confesso, se me esquecer dos auriculares nas corridas durante a semana, sinto-lhes a falta.
No entanto, desde há uns meses que tenho trocado quase sempre a música pelos podcasts. Começou quando voltei aos treinos mais regulares que, obviamente, me custaram um bocadinho. Ouvir um podcast, sobretudo quando o tema me interessava especialmente, distraía-me e ajudava a passar o tempo. Depois tornou-se um pequeno vício. Agora adoro sair para correr, ao mesmo tempo que me ponho a par de mais alguma notícia, uma nova história, dicas ou entrevistas. E reservo a música para aqueles treinos em que me apetece ir "em modo alfa", sem pensar em nada.

Comecei, sobretudo, por podcasts de corrida. Que maior motivação para aguentar um treino difícil do que ouvir algum atleta falar da sua maratona, ou de como começou a correr, ou de quando vomitou diversas vezes dos 78 aos 114 km de uma ultra, ou dos abastecimentos, das lesões, dos truques mentais para ultrapassar as fases más, como manter a motivação, etc, etc.

Uma fotografia do pôr-do-sol, só para quebrar o texto,
sem qualquer ligação ao tema.
Embora seja possível que tenha sido tirada durante um treino.

Como podem adivinhar, existem dezenas e dezenas de sites com podcasts dedicados a este tema. Entre outros, ouvi muitos do No Meat Athlete, que aborda de tudo um pouco, desde nutrição, a métodos de treino e experiências pessoais. Gostei especialmente de ouvir os relatos, na primeira pessoa, de como foi completar a primeira maratona ou, até mesmo, a primeira prova de 100 milhas. São sobretudo conversas informais entre dois amigos, atletas de pelotão, embora por vezes também tenham convidados profissionais.
O podcast Run Faster também é uma boa fonte para quem procura dicas de treinos e recuperação, e abordagem a diferentes métodos, com relatos por parte de profissionais e treinadores ou apaixonados da corrida em geral.
Mais orientado para o ultrarunning, com entrevistas a atletas de elite, como Kilian Jornet, Amy Frost, Anton Krupicka, entre muitos outros, temos o Talk Ultra. Há algumas entrevistas muito engraçadas e outras que se tornam um pouco mais aborrecidas, depende muito da oratória do convidado, mas gosto de ouvir os relatos das suas competições e de como também sofrem e praguejam como nós, os comuns de pelotão. :)
Por falar em entrevistas, já ouviram a experiência do Zach Miller no MIUT 2016, contada ao The Ginger Runner? Está disponível em vídeo no youtube, mas, se tiverem o iTunes, podem ouvi-la aqui (nº 42, ep. 114). Spoiler: diz que foi a corrida mais dura em que participou e conta também como toda a gente ficou impressionada com a sua técnica de enfardamento nos abastecimentos.
A nível nacional, gosto de ouvir as emissões da TSF Runners, embora, sendo episódios curtos, não dêem para a duração de um treino, a não ser que acumulem pelo menos uns três seguidos.

A maioria destes podcasts que referi tem entre 45 a 60 minutos, duração ideal para um treininho durante a semana. Além disso, são gratuitos, podendo fazer-se o download ou ouvir através de uma aplicação no telemóvel.

Ultimamente, e porque, às vezes, correr E ouvir falar de corrida ao mesmo tempo pode ser demasiado, comecei a ouvir podcasts mais generalistas. Há uns meses, depois de ver o documentário Making a Murderer e ficar fascinada e indignada com aquilo, andei numa fase de podcasts policiais. A maioria sobre crimes que nunca ficaram devidamente resolvidos. E tenho a dizer-vos que: primeiro, passei ao lado de uma grande carreira na polícia judiciária e, segundo, se calhar não foi boa ideia ouvir temáticas deste conteúdo enquanto fazia os meus treinos ao final do dia, já de noite.

Ouvir um podcast exige algum nível de atenção que a música dispensa, portanto talvez não seja a melhor opção para um dia que tenham um treino de séries, por exemplo, mas serve muito bem para aqueles treinos mais levezinhos, de recuperação, ou até de ritmo. A não ser que estejam a ouvir um relato sobre um crime e, nesse caso, é perfeito para um treino de fartlek, já que vão acelerar até baterem a vossa FC máxima sempre que ouvirem um ruído ou virem uma sombra suspeita.

Algum de vocês é fã de podcasts? Alguma recomendação? Uma série ou um episódio/entrevista de que tenham gostado especialmente?

6 de março de 2017

TCC - Vila Velha de Ródão

(E: a primeira vez que vi a Analice.)

Depois de um interregno de 7 meses, voltei às ultras. Uma ultra das "curtas" - 45 km - mas, ainda assim, uma ultra.
Regressei, pela terceira vez, a Vila Velha de Ródão. Não sei bem explicar porquê, mas esta prova caiu-me no goto, passe a expressão. Provavelmente por se situar já na transição para a Beira Interior e ter uma paisagem na qual reconheço traços da minha Serra da Estrela e, portanto, transmitir-me uma familiaridade e conforto que associo a lar. Há provas às quais se volta porque são bonitas, outras a que se volta porque são difíceis, e outras a que se volta porque nos sentimos em casa. Sei que há quem não goste de repetir provas, por haver tanto para conhecer e tão pouco tempo, e eu até entendo essa perspectiva, mas, por outro lado, há sempre coisas novas que se descobrem nos sítios do costume, basta ter os olhos e o espírito abertos.


Neste caso, a organização até dá uma ajudinha: o percurso nunca é exactamente o mesmo. Este ano, por exemplo, foi mais ou menos a repetição do percurso de 2016, mas na direcção contrária, o que altera logo toda a perspectiva.
Pessoalmente, preferi esta versão, pois passamos perto da zona industrial logo de início, deixando para trás a fábrica de celulose, com as suas grandes chaminés que mantêm Vila Velha de Ródão debaixo de uma nuvem de fumo branco permanente. Esta fábrica, ainda que importante para o desenvolvimento da região, já que é criadora de muitos empregos e, consequentemente, evita a desertificação a que estão condenadas muitas terras do interior, não deixa de ser uma feia chaga numa, de outra forma, lindíssima paisagem.

Ainda dá para ver o fumo da fábrica, ao fundo.

Ao longo da prova, será piada privada recorrente o cheiro característico do fumo, que deixa adivinhar a proximidade de Vila Velha de Ródão, quando o vento está a favor, mesmo que não a vejamos no horizonte.


Mas este é apenas um pequeno pormenor que não estraga a beleza da prova. Rapidamente deixamos a vila para trás, percorrendo trilhos e estradões na direcção de aldeias e povoações como Tostão, Foz do Cobrão, Vilas Ruivas...

Depois de dois relatos sobre esta prova já não há muito a dizer, excepto reforçar aquele que é, para mim, o ponto alto de todo o percurso: o trajecto junto ao rio Ocreza.


É a parte mais técnica e perigosa, mas também, sem dúvida, a mais bonita. Descemos até à margem do rio,



percorremos a sua berma de terreno fofo, mas irregular,


e depois tornamos novamente a subir,

Portas do Almourão.

através de um trilho rochoso e de grande declive, com auxílio de cordas.



Este percurso pedestre, e a aldeia da Foz do Cobrão, foram um daqueles achados feitos devido ao trail, e que muito agradeço.



Depois, na segunda metade da prova é quando se ganha mais desnível, embora já através de estradões e trilhos mais corríveis.

Portas de Ródão.

Terminando com a icónica passagem pelas Portas de Ródão e a temível e pedregosa subida à Torre do Rei Wamba, bastante insultada por quem já vai com mais de 40 km nas pernas. :)


Mas é nos pontos mais altos que se tem a recompensa das melhores vistas, certo?

Vila Velha de Ródão, e o seu fumo branco, ao fundo.

Torre do Rei Wamba.

Quanto à minha prova, depois de uma prestação feliz em 2015 e não tão feliz em 2016, desta vez tive uma prestação serena. Não esteve isenta de dificuldades, sobretudo de quem está a regressar aos poucos à "forma", mas soube gerir relativamente bem as actuais capacidades. Comecei cá detrás, como de costume, com as primeiras subidas a custarem-me bastante, chegando inclusive a estar em último durante alguns quilómetros, mas depois a recuperar aos poucos ao longo da segunda metade da prova. O característico funcionamento a diesel mantém-se au point. :)

Curiosamente, levei 7h20 a completar a prova, menos 2 minutos que o ano passado e menos 6 que em 2015. Não sendo os percursos exactamente iguais, é difícil fazer uma avaliação, embora a distância seja sempre a mesma. O que é engraçado é que, independentemente de ter achado que a prova correu bem, mal, ou assim-assim, a prestação tem sido constante. Acho que tem muito a ver com o espírito com que estamos no dia, que pode ajudar ou prejudicar a ideia com que ficamos da prova.

Já do "lado de cá" das Portas de Ródão, a 2 km da Meta.

E agora Vila Velha de Ródão ficará também para sempre na minha memória por ter sido a primeira prova em que vi a Analice. Bom, já a tinha visto de passagem, na partida de outras provas, e sabia que era a senhora "que se fartava de correr", mas nunca tinha falado com ela. Foi aqui, em 2015, que a alcancei por volta dos 18 km e seguimos juntas durante algum tempo. Não foi muito, mas o suficiente para ouvir algumas das suas fascinantes histórias que sempre tinha para partilhar. Sei que, passado alguns minutos, segui, ficando a Analice para trás. Confesso que na altura fiquei admirada e, até, um pouco vaidosa, porque ia ficar à frente da Analice! A Senhora Analice! Quer dizer... Como se, pelo facto de ter menos de metade da idade dela, não fosse portanto uma situação natural de acontecer. Mas o facto é que deixou uma marca. O Antes e Depois de Analice, por assim dizer. Dali para a frente, continuei a encontrá-la e alcançá-la em provas, e, em quase todas, ela tinha umas palavras ou, pelo menos, um sorriso para partilhar.
Na altura, não sabia nada do passado dela. Que tinha ganho várias provas, batido recordes. Sabia apenas que era a senhora pequenina que corria que se fartava e estava sempre sorridente.

Hoje em dia toda a gente tem uma opinião sobre quem é ou não atleta, sobre quem compete, quem vai "passear", sobre quem, inclusive, imagine-se, deve ou não participar em provas... Porque: "provas são para competir". É verdade, concordo, é um facto. Os atletas de pódio (e restante liga da frente) são importantes, tanto para a divulgação da modalidade como para a representação internacional. Importantíssimos. Mas depois há todos os outros "campeonatos" de quem participa numa prova, e acho que todos convivem pacificamente e não se atrapalham. Quem compete para ficar à frente daquele amigo que o está sempre a picar, quem compete para ficar à frente do outro que da última vez o passou a 1 km da Meta, quem compete para melhorar o seu tempo do ano anterior, quem compete para chegar dentro do tempo limite da melhor maneira possível... São todas competições ajustadas à realidade de cada um.
E refiro isto porque, como disse, eu não sabia do passado da Analice, não fazia ideia das provas e prémios que já tinha ganho, mas isso não me fez mudar a opinião que tinha sobre ela. Mesmo que nunca tivesse ganho nada, a memória que me fica dela é a de alguém que era feliz a correr. Aspirações competitivas à parte, a verdade é que quem não tiver paixão por aquilo que faz, não vai andar por aqui (na corrida, no trail) muito tempo.

Como disse uma Senhora do trail (outra) por quem passei na prova deste ano: "há tanta gente que quer aqui andar e não pode..." E essa é que é essa. Nós podemos. Aproveitemos então, tudo. Este escape, esta paixão. As alturas boas e as alturas em que vamos ali a maldizer a nossa vida (porque também as há em quase todas as provas, e fazem parte).

A Analice correu, com gosto, até quase aos últimos meses da sua vida. E isso, para mim, é o mais fantástico. O derradeiro sonho.

22 de fevereiro de 2017

Por trilhos de Montejunto

Antes de avançar para os treinos e provas de Fevereiro, não queria deixar em branco um treino especial que houve ainda em Janeiro. E digo "especial", porque voltei a um local onde não tinha sido muito feliz e enfrentei os fantasmas.


Como sabem, a minha última (e também primeira) visita à Serra de Montejunto não tinha corrido muito bem. Não por culpa do local, que é bem bonito, mas por coisas que, pronto, vocês sabem que por vezes acontecem em provas. Bati num muro monumental, rebentei, levei uma marretada... Basicamente, faleci. Sim, foi isso que aconteceu. :) E, na altura, sendo a última prova antes do OMD, foi um grande abalo na minha confiança.
Mas bom, não podia deixar que as últimas memórias de tal local fossem essas, não é verdade? 


Então, e apesar de Montejunto não ter sido a primeira opção, numa manhã fria, mas limpa, de Inverno, voltei ao local "do crime" para salvar a honra da casa.
Como, tirando o percurso da prova, não conhecia os trilhos daquela serra, deixou-se o carro junto ao Quartel da Força Aérea e tentámos recriar algumas partes do trajecto.



O dia estava ventoso e a serra é bastante exposta, valha-nos os tubos/buffs de oferta em várias provas: um para proteger as orelhas e outro para proteger o pescoço, e siga.


Logo à primeira vista, Montejunto tem uma vantagem em relação a Sintra, local habitual dos meus longos: tem maior altitude. 660 metros no seu topo. Claro que o ganho de acumulado não depende apenas disso mas QUERIAS TREINAR SUBIDAS, NÃO QUERIAS?! Agora toma! Pelo menos aqui não conheço o caminho que me espera e vou na inocência, o que às vezes ajuda.


Continuo tão fraquinha, tão fraquinha nas subidas... Mas bom, isso são histórias para outro dia. No entanto, de falta de boa-vontade não me podem acusar. :) 


Os trilhos de Montejunto são bastante pedregosos, mas de vez em quando lá se seguia um estradão, para variar. Um desses estradões, levou-nos até à Torre de Vigia.



Nesse sítio, junto ao marco geodésico, tem-se um belo miradouro natural.




Sem track e sem grandes conhecimentos dos trilhos, acabámos por nos guiar maioritariamente por algumas marcações e percursos definidos


mas, também, por fitas, algumas já visivelmente gastas do tempo e outras recentes, deixadas por anteriores provas!!! A sério, havia imensas...


Será que não recolhem as marcações a seguir aos eventos? É que eram demasiadas para ser só uma ou outra esquecida por lapso. Uma serra tristemente cheia de retalhos.

Montejunto é, assim, uma outra opção para os treinos em serra, embora não tão acessível como Sintra. Não dá para ir tantas vezes. Porém, foi bom voltar a Montejunto. Numa época do ano diferente, num outro clima, embora desafiante de maneira diferente. Não se pode dizer que tenha sido um treino fácil, mas o objectivo de somar desnível foi atingido. E o trauma antigo também foi superado. :)

Treinos por locais diferentes acabam por ser uma alternativa nos meses sem provas, como foi o caso. Uma forma de dar a volta à rotina dos treinos, por assim dizer.

Boas corridas!