6 de março de 2012

Três coisas à terça # Livros, meus queridos livros

Os livros são uma das minhas grandes paixões. É a liberdade de viajar quando estamos presos na nossa rotina, poder viver outros enredos, conhecer outras culturas, experimentar outras vidas. Tudo isto com a salvaguarda de poder virar a página com um simples movimento de dedos, ou até encerrar definitivamente as folhas de uma história que não nos agrade.
Tenho sempre um livro à cabeceira e, mesmo que passe vários dias sem lhe pegar, tenho de ter um livro para ler, senão sinto-me inquieta, como se me faltasse algo. Quem me conhece, sabe que ando sempre com um livro atrás, excepto em viagens. Nas viagens quero estar alerta, nos livros quero estar absorta. Dois mundos, duas paixões tão distintas na sua dinâmica e tão semelhantes no objectivo. Viajar é descobrir, ler é descobrir, e nós o sujeito com fome de aprender.

Com tudo isto, é muito difícil limitar-me a três livros da minha vida. Vou destacar três, não por serem os preferidos, mas porque os livros, ou os seus autores, me deram a conhecer mundos de escrita ímpar, pela época em que foram escritos, pela temática ou pelas emoções que me suscitaram. Há sempre tanto por descobrir nas páginas de um novo livro!

Já dizia Fernando Pessoa: A literatura, como toda a arte, é a confissão de que a vida não basta.


1) O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde


Esta, para mim, acaba por ser uma escolha óbvia porque adoro literatura vitoriana. Adoro os ambientes obscuros, as personagens atormentadas, a criação de uma atmosfera tensa em que as personagens estão em constante luta com os seus demónios internos. E, ao mesmo tempo, o contraste com todo o requinte, opulência  e aparente superficialidade da época.

Dorian Gray, bon vivant, obcecado pela sua aparência, torna-se a paixão platónica de um pintor que quis imortalizar a sua beleza num quadro. Este livro foca a atracção pelo belo, a angústia pela sua efemeridade e até que ponto se pode corromper a alma na procura da beleza eterna. Tem um lado sobrenatural e, a meu ver, um dos melhores finais na história da literatura de época.

Curiosidade: Na FNAC, este livro costuma estar na secção de literatura Gay. Não sei se devido à vida do polémico escritor, que chegou a estar preso por suposto envolvimento "impróprio" com um jovem, ou se devido à temática do próprio livro, onde temos um pintor, homem, obcecado pelo seu modelo, o Dorian Gray. No entanto, durante a leitura, nunca achei que houvesse algo  mais do que a obsessão pelo belo. Este pintor queria captar a beleza que, por acaso, era de um homem. Posso até concordar que haja algum homoerotismo por detrás, mas este livro ultrapassa a noção de amor físico. Não é disso que se trata.


2) As Intermitências da Morte, José Saramago


Eu sei... Saramago! É um escritor que levanta muitas polémicas e confesso que também não foi amor à primeira leitura. Afinal, porem adolescentes de 15 e 16 anos, no secundário, a lerem o Memorial de um Convento, não é a melhor forma de criar gosto pela obra de um escritor que, admito, não é fácil. Saramago escreve para si próprio e é preciso tempo para aprender a lidar com a sua forma de contar histórias. Porque é isso que ele faz, nota-se na sua escrita a voz de alguém que conta uma história e que se perde por descrições e apartes para depois voltar ao fio da sua meada.
Demorei a apreciar esta dinâmica, mas depois de concluir o primeiro livro tive de ler o segundo, e o terceiro, e... e...
Não gostei de todos da mesma forma, alguns achei genialmente bons (O Ano da Morte de Ricardo Reis) e outros, apesar de toda a polémica que suscitaram (O Evangelho Segundo Jesus Cristo), não me entusiasmaram por aí além. Mas fui sempre voltando a Saramago.
"No dia seguinte ninguém morreu" é assim que começa a história de As Intermitências da Morte. (Como é que podemos deixar de ler um livro que começa desta forma?!)
Como seria se, um dia, as pessoas deixassem de morrer? Aquilo que, à primeira vista, parece ser o sonho de toda a gente, acaba por revelar a crueza e ironia da vida humana.
É um livro com uma temática pesada mas que é explorada de uma forma muito engraçada, que tanto nos deixa a pensar como nos faz sorrir com a pertinência das situações. Acabamos até por ser solidários com a própria Morte, que encarna aqui uma personagem incompreendida e surpreendentemente compassiva. De momentos hilariantes, em que assistimos a uma negociação sobre a melhor forma da Morte avisar da sua chegada, de forma a não causar transtornos (carta com aviso de 7 dias) até ao dilema do sentido da existência. No fim fica a dúvida: pode a Morte ser capaz de amar? Leiam!

Nota: Se és um leitor novo a Saramago, aconselho que comeces pelo célebre Ensaio Sobre a Cegueira. Se gostares, segue para os próximos!


3) A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón


Este é, dos três livros, o mais consensual. Quase toda a gente que o lê, gosta de Zafón.
Eu não conheço muito da sua obra, mas um dia tirei este livro por acaso da estante na biblioteca e chamou-me a atenção. Ponto nº 1: a história passa-se em Barcelona, ponto nº 2: é uma história sobre livros. Convenceu-me logo só com estes dois pontos, nem foi preciso mais!

É no grandioso cenário gótico de Barcelona, com a sua atmosfera espectral, que entramos numa história de mistério e descobertas. Este livro tem a componente fantástica, que eu gosto, num ambiente realista do contexto da ditadura franquista.
Daniel Sempere, a personagem principal do livro, é um menino que, no dia em que completa 11 anos, acorda triste porque já não se consegue lembrar do rosto da sua mãe. O pai, para o animar, leva-o a um local que poucos conhecem em Barcelona, o Cemitério dos Livros Esquecidos. Nesta biblioteca secreta e labiríntica estão todas as obras abandonadas pelo mundo, à espera que alguém as descubra. É a partir de um livro que Daniel aí encontra, curiosamente com o mesmo título do livro, A Sombra do Vento, que se vai desenrolar toda a história. É que esse livro tem um segredo.

Resumindo, A Sombra do Vento é um livro que se lê bem e rápido e que nos desperta um fascínio renovado pelos livros.



Bem, é tudo! Se aguentaram a ler até aqui, dou-vos os parabéns! E é sinal de que gostam de livros tanto quanto eu.

Amanhã regresso com a programação habitual de choradinhos, parvoíce q.b., corrida e gulodices. Não necessariamente por esta ordem.

E agora eu quero saber:

- Qual o último livro que leram?
- Qual o livro que mais vos marcou?

8 comentários:

  1. eu gosto muito de Saramago, o meu preferido dele: Ensaio sobre a Cegueira (mas detestei o filme) e o q menos gostei: viagem de um elefante...

    O último livro que li foi "A Princesa de Gelo", da sueca Camilla Lackberg, é meio policial e gostei muito :)

    beijinhos

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  2. Tu fazes cada descrição dos livros que... fico cheia de vontade de ir já já comprar este e aquele e mais outro. E ler!

    O que me vale (com grande tristeza minha) é que bolsa tem os cordões apertados e para comprar livros só muito esporadicamente e acabo sempre por dar prioridade a livros para a filhota...

    Sou grande admiradora do Saramago, e conheço uma parte da sua obra. Como tu, concordo que não é fácil, não gosto de todos da mesma forma, e ele há os que AMEI (só por exemplo: "Todos os nomes", ou o Memorial, e o que elegi como o livro mais chato que já li em toda a minha vida: "Viagem a Portugal"; e como tu, o "Evangelho" não me impressionou por aí além...

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  3. Ana: eu também não tenho muito dinheiro para livros, infelizmente, por isso é que estou inscrita em 2 bibliotecas! :)
    Depois é um conflito interno, porque eu gosto de TER os livros, sobretudo quando amei a história.
    Aproveito alfarrabistas e promoções de vez em quando. Um dia terei a minha própria biblioteca! :)

    Beijinhos, meninas!

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  4. Eu leio tãoooo pouco.
    Não me lembro exactamente qual foi o último livro que li...
    Sei de alguns que gostei muito e as Intermitências da Morte e o Homem Duplicado, ambos do Saramago foram dois deles.
    E eu tenho vários livros em casa que nunca li, uns que comprei porque queria ler e para ver se me incentivava a ler, outros que me ofereceram e... ñ leio.
    Por falta de tempo...
    Mas tenho que tentar gerir melhor o meu tempo e ler.

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  5. ohhh,
    eu nao li nenhum desses...
    o livro que estou a ler é: Cronicas do passaro de corda (já estou quase no fim, e agora é que está a ficar mesmo fixe!!! quer dizer... estou a ter uma relação de amor/ódio com este livro)
    e ao mesmo tempo de lia esse, li o sunset park do paul auster, que até se lê bem. é porreirinho.

    e o meu preferido foiiiiii KAFKA À BEIRA MAR. pronto... adorei tudo do livro...

    sinceramente, e com alguma vergonha o digo, nunca li samarago.

    PS: estava a pensar em historinhas muitos curtas, que transmitam só sentimentos momentaneos. do tipo: "ah, e lá estavas tu vestido de zorro, super sexy, quando uma senhora me empurra e eu caio e fico danada com a mulher" LOL

    PS2: a maça estava muita boa!
    eu nunca fui fã de maça assada, porque ás vezes achava-a muito doce, outras vezes muito acida, mas assim fica muita boa e nada enjoativa! Gostei da receita :D

    Beijinhos e um belo dia para ti :D

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  6. Olá :) Já li o primeiro e o segundo.

    O primeiro confesso que não gostei muito, o segundo gostei bastante - também gosto de Saramago, e além disso gosto bastante da temática 'e se agora de repente...?' (ninguém morresse, ninguém nascesse - como nos Filhos do Homem, etc).

    O último livro que li foi o Hamlet do Shakespeare! :P Li-o para o Clube de Leitura, porque o tema era 'livros que inspiraram filmes da Disney', e o Hamlet foi o livro (neste caso a peça) que deu origem ao argumento do Rei Leão (e quem é que não AMA o Rei Leão???) :) Gostei muito mesmo! (mas qualquer semelhança com o Rei Leão é pura coincidência diga-se). Agora estou a ler o Pride and Prejudice em inglês (grande erro porque é mesmo difícil, acho que vou comprá-lo antes em português senão nem daqui a 3 meses!)

    Beijinhos :D

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  7. Anónimo8/7/13

    Olá! Sou a tal pessoa que está a ler o teu blog. Era só para dizer que uma vez li "O principe da neblina" do Carlos ruiz Zafon e, pareceu-memuito infantil... Ele escreve livros para crianças, ou eu é que não percebi um significaso escondido?
    (de vez em qdo vou ter de comentar alguns posts,... muito fora do tempo, mas...)

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  8. Do Zafón só li dois livros: "A Sombra do Vento" e "Marina". O Marina é um livro juvenil (parece, aliás, uma versão juvenil do Sombra do Vento). Mas o primeiro gostei bastante e não achei que fosse para um público mais jovem (embora nada contra, que às vezes gosto de leituras mais "light") :)

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