14 de maio de 2012

17ª Corrida Terry Fox

O meu dia de prova ideal: dormir bem, acordar sem stress, tomar o pequeno-almoço com calma, fazer um "aquecimento" de 3 km de minha casa até ao local da partida e depois correr com família e amigos, num ambiente descontraído e de brincadeira. Ter garrafas de água com fartura e um geladinho à espera na meta. Terminar com a sensação de dever cumprido, saber que a minha contribuição fez a diferença e isso valer por mil recordes pessoais. Poder voltar para a casa a pé, num misto de corrida/caminhada de "arrefecimento".

Esse dia é o dia da Corrida Terry Fox.

Já é o terceiro ano em que participo, mas este ano acabou por ser especial, e já vão perceber porquê.

Como vivo perto do Parque das Nações, local onde foi o evento, e os sábados são o dia em que geralmente faço o treino mais "longo", sabendo que a Corrida Terry Fox seriam cerca de 5km, pela primeira vez na vida, fiz uma pequena corrida antes da corrida, num aquecimento de 3 km, da porta de minha casa ao Pavilhão de Portugal.

Pelo caminho, fui passando por outras pessoas que já envergavam a t-shirt Terry Fox Run, que gostei muito mais este ano,

The Terry Fox Run for cancer research.

e pelo slogan inspirado da Olá.

Gosto desta partilha, sobretudo se for servida com cobertura de chocolate.

Escusado será dizer que, com o calor que estava (o sol não apareceu, mas estava o tempo húmido e abafado), cheguei lá já a transpirar como se tivesse corrido a Maratona do Deserto.

Meta.


Fiz a inscrição, vesti a nova t-shirt que me ficava a nadar (minha culpa, deveria ter pedido para ver os tamanhos) mas que depois também já não quis ir trocar, e fiquei à espera dos retardatários.

O Mural

Assim que começaram a chegar, fomos buscar um balão cada um, que depois são largados quando se ouve o tiro de partida, num efeito muito bonito.


Passava pouco das 11h quando se dá início à prova, que consiste em 3 voltas a um circuito. Claro que, quem quiser, pode correr/caminhar apenas uma ou duas e, quem se sentir com energia, pode até correr mais (algumas das pessoas com quem fui, gajos, claro, deram quatro voltas. Alguns porque até aguentavam mais, e outros pura e simplesmente para não ficarem mal vistos. Como eu disse, gajos...). É bom ver como cada vez participam mais famílias inteiras, por vezes até 3 gerações, com a avó a caminhar de mão dada com a neta, e outras pessoas que chegam a levar a família canina, com a respectiva t-shirt! Tudo o que sirva para angariar mais dinheiro para a Investigação Oncológica é bem-vindo.

No final, quando cruzamos a meta, temos direito ao já habitual diploma e a um geladinho da barraquinha da Olá.

Prémios.

Pareceu-me que este ano havia mais gente do que o ano passado, o que é bom, para uma corrida que acaba por não ser tão divulgada como merecia. Na edição anterior angariaram-se cerca de €12.000 e o objectivo deste ano era superar esse valor. Espero que sim, porque nenhum dinheiro é demais no combate a esta doença horrorosa.


E agora a situação que ainda agora, quando me recordo, me emociona:

A minha mãe não participou na corrida, mas fez questão de passar no local e inscrever-se na mesma, para contribuir, e, enquanto eu, o meu irmão e o meu pai corríamos, aproveitou para ir às compras ao Continente. Quando terminámos, fomos esperá-la à zona das caixas.

Quando estava à espera, um senhor que estava a pagar as compras na caixa, e que eu já tinha reparado que olhava para nós, aproxima-se de mim e, em inglês, pergunta-me que corrida era aquela, que já tinha visto muitas pessoas passar com a mesma t-shirt. Eu expliquei-lhe e ele então abre um pouco a camisa, mostra-me a zona do peito onde tem um penso, e diz-me que é do cateter, e que ele, neste momento luta contra um cancro. Ao lado, tem uma menina muito bonita, que apresentou como a sua filha, de 4 anos. Muito envergonhada, nunca falou durante o tempo todo que estivemos ali, mas olhava-me sempre com os olhos muito grandes e azuis, que baixava quando olhava para ela.
O senhor tem cancro do pâncreas, e sabe que as probabilidades não são boas. Infelizmente, é um dos cancros com menor percentagem de cura, e ele sabe. Disse-me que nunca fumou, não bebe álcool, e que nunca ninguém na família tinha tido cancro. Foi apanhado de surpresa e o que mais lhe custa é saber que pode não vir a ver a filha crescer... Bem, nesta parte eu já fazia um esforço enorme para não chorar, porque o senhor estava mesmo emocionado e fez questão de vir ali, falar com uma desconhecida, apenas porque ela tinha uma t-shirt de uma corrida de combate ao cancro. Agradeceu-me, a mim, e a todos os que participaram, por ter contribuido! A mim, que não me custou nada, que correr é uma coisa que faço com gosto e que ainda tive direito a um gelado. Uma manhã que me deu prazer e que o senhor, mesmo assim, achou que me devia agradecer.

Na altura não disse nada de jeito. Apesar de o inglês ser uma das minhas línguas de trabalho, não me vinham palavras para expressar o que deveria ter dito. Agora que pensei nisso, sei o que poderia ter dito e feito mas, mas altura, apenas lhe toquei no braço e disse "It's gonna be ok".
Muito original e útil, sem dúvida...
Espero que ele tenha entendido tudo o que lhe quis transmitir com essa frase. Sei que, provavelmente, aquele momento serviu apenas para ele desabafar, e que não haveria muito que lhe pudesse ter dito, mas fiquei a sentir-me impotente.

Espero, sinceramente, que fique tudo bem.

Por norma, não falo muito da minha vida privada no blogue mas, dada a situação, posso dizer que, neste momento, tenho alguém na família em luta. É jovem, e as probabilidades, espero, estão a seu favor. Mas já tive um caso de cancro do pâncreas na família, em que não ficou tudo bem. Pelo contrário, antes do fim do sofrimento, ficou muito, muito mal. Todos sabemos como o cancro é mau, mas só quando o assistimos em primeira mão é que vemos como rouba a vida, lenta e dolorosamente, mesmo de quem tinha uma energia inesgotável.

Como alguém que, como eu, tem uma relação fantástica com o pai, pensar que aquela menina dos olhos doces pode crescer sem o dela, toca-me muito. Pensar que pode por, algum momento, aperceber-se do sofrimento horrível do pai, é desumano. Ninguém merece, mesmo.

E por isso é que, se és daquelas pessoas que acha que uma pessoa não faz diferença. Enganas-te, faz. Por pouco que aches que seja, é sempre muito para alguém.
Se estiveste na Corrida Terry Fox neste sábado, fica a saber que há pelo menos um senhor com uma filha linda, que ficou muito agradecido pelo teu tempo e pela tua contribuição.

E eu também agradeço à Luciana, que leu sobre a corrida aqui no blogue e foi participar pela primeira vez, trazendo mais gente para contribuir. (Tenho pena de não te ter visto por lá, mas ainda bem que gostaste). Se alguém leu sobre a corrida aqui no blogue e participou, já valeu de alguma coisa o dia em que me lembrei de criar um blogue, para deixar de chatear os meus amigos e passar a chatear desconhecidos (voluntários) com as minhas aventuras no desporto e afins.

T-shirt: parte de trás.

T-shirt: parte da frente.


Se por algum acaso de sorte algum dia o senhor vier a ler o meu blogue, fique a saber que estou a torcer por si. E por todos. 

 It's gonna be ok.



Boa semana!


10 comentários:

  1. Eu é que agradeço por teres divulgado. A minha mana disse logo que se a corrida fosse patrocinada por um banco muito mais gente saberia, mas ao mesmo tempo, saber que o trabalho é todo voluntário tem mais valor.
    Já agora...a minha mana está nos meus blogs "Também leio" e chama-se Cristiana. Ela também meteu um post sobre a corrida.
    Eu não comi o gelado, mas elas dividiram pelas duas...
    Viste pelas fotografias que o meu chapéu era o mais "ramalhoso"? Para a próxima, combinamos um sitio para nos encontrarmos :)
    Felizmente, não tenho muitos casos próximos de cancro (muito graves!) mas acho que são causas que têm de ser apoiadas e não me custa despender 5€ por causas como esta. Realmente vi pessoas com a t-shirt na mão, mas sem irem fazer a prova. Penso que o fizeram como prova de solidariedade e isso é muito bonito :)
    Quando me deparo com situações como tu tiveste fico sem palavras, mas com a esperança que..."it´s gonna be ok".
    Beijos grandes e obrigado!

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  2. Espero que ele tenha entendido tudo o que lhe quis transmitir com essa frase. Sei que, provavelmente, aquele momento serviu apenas para ele desabafar, e que não haveria muito que lhe pudesse ter dito, mas fiquei a sentir-me impotente.

    Se eu já estava a chorar quando escreveste isto, quando cheguei ao fim então parecia a III Guerra Mundial das lágrimas. Acredita que eu percebo o que sentiste. Não fiz a diferença na corrida mas falei dela a quem estava cá, e todos os dias eu tento fazer a diferença. Com o blog, com as pessoas com quem lido. E não é nada, nada fácil. A sensação de impotência é tão, tão grande.

    Mas acredites ou não as tuas palavras ajudaram. São só palavras, mas têm em si um significado muito para além disso: Esperança. Fé. Luta. Não desistir. Aproveitar ao máximo.

    E acredita, pela minha experiência, ouvires ajuda tanto. Simplesmente ouvires. E partilhares a mensagem para quem quiser ouvi-la e partilhá-la também.

    Muito obrigada por teres partilhado a mensagem comigo :)

    Beijinhos :)

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  3. Foi uma amanhã animada e feliz, então :)

    beijinhooos

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  4. grande corrida, literalmente, motivo mt mt nobre, cada vez mais gente que tem de conviver com a realidade de ter cancro ou de alguém querido ter um ! e essa situação do sr.! eu acho que desatava mesmo a chorar !
    heiaaa k geladinho bom !! dv saber mesmo bem no finald e uma corrida !
    bjocas grandes e boa semana

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  5. Parabéns por participares e por divulgares estas iniciativas...são estes pequenos gestos que podem fazer a diferença em algo tão grande como o cancro é. Fiquei com lágrimas nos olhos a ler a história do senhor...e são tantas e tantas a pessoas nessa situação.

    Deve ser muito boa a tua sensaçao que fazer algo ao te alcance por elas =).

    um beijinho, boa semana, e boas corridas!

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  6. Só não desatei num pranto com o teu post porque estou no trabalho e fiz um esforço enorme para não perder a postura.
    Também tenho uma pessoa da minha família a combater o cancro (da mama), não é jovem mas neste momento está tudo estável, felizmente. Estive a trabalhar este fim de semana, como sabes, mas espero para o ano estar livre e poder contribuir para uma causa tão importante, cada um de nós pode fazer mesmo toda a diferença.
    Estiveste no lugar certo à hora certa, e só o facto de ouvires e do senhor saber o que estavas a fazer por "ele" ajudou, acredita.
    E fico a torcer pelo "It's gonna be okay."

    Beijinho grande*

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  7. Bem...se há palavras que me tocam...a palavra cancro é uma das que mais o faz...já tive casos na familia, os mais recentes levaram-me a minha amada avó e madrinha com quem vivia e que me faz falta todos os dias de forma brutal! Levou-me a minha bisavó que ficou de certa forma a amparar-me a perda da minha avó e que acabou por nao resistir.. e nao levou o meu pai, mas há uns 12 anos +- o cancro bateu á porta, o meu pai venceu-o com muita luta e agora voltou, e ele está dando luta e ainda está no estrangeiro a trabalhar nas obras, bem mais magro, mas tem sempre um sorriso apesar de ja ter falado em suici.... E eu estou cá, posto coisas alegres, mas sabe Deus por vezes como estou em pedaços... Mas se nos dermos á tristeza, ela vence-nos! Se tenho depressao?sim tenho...nao consigo falar de mim sem desatar a chorar e por isso nao falo:) e nem psiquiatras nem psicólogos ajudam nisto, ja experimentei e senti-me um ratinho de laboratório. Alem disso nao preciso andar drogada, preciso viver e viver bem e ter os que amo perto! Portanto, o que aqui deixo é que sei bem o que é viver ao lado dessa maldita doença, e é horrível! não dá para descrever, só se pensa nisso, vive-se anestesiado à espera do pior, mas no entretanto, vai-se sorrindo, porque a alegria junta as pessoas, a tristeza afasta...E agora em tom de conclusão, só tu pra me pores a falar destas coisas que nunca falarei no blog:) beijinhos e muitos parabéns pela iniciativa! eu nao corro muito(nada) só caminho rápido, mas se houvesse perto de mim iria, quanto mais nao fosse pelo gelado claro:p agora a sério, qualquer donativo nestes casos é precioso! Um óptimo dia!

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  8. Cancro é das palavras que eu mais tenho medo de ouvir...
    Uma corrida por um motivo como este é um gesto muito nobre.

    Percebo que tenhas ficado sem palavras e com certeza o senhor tb percebeu e também deve ter percebido nas entrelinhas tudo aquilo que querias dizer-lhe mas que não conseguiste verbalizar.

    Bjinhos

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  9. Uma corrida antes da corrida?
    Eu ainda tenho muito feijão a comer para te chegar aos calcanhares :P

    Por vezes a vida prega-nos cada partida.. doenças dessas já levaram todo o tipo de entes queridos e familiares, a tanta gente.. mas a investigação está em luta para conseguir travá-las.. e um dia chegaremos lá!

    Concordo contigo, cada pessoa faz a diferença, mesmo que não se note, faz toda a diferença! Prova disso foi o agradecimento que esse senhor te deu, sem te conhecer de lado nenhum..Também espero que ele melhore, ninguém merece viver sem o pai, e ninguém merece que a vida lhe seja roubada pelo cancro..

    Se a pessoa da tua família é jovem e tem boas hipóteses, espero que lute com toda a força e que vença! Não se pode desistir.. mas isto é frase feita e já todos sabemos né? Mas que dizer mais, quando não há nada a dizer que mude a situação? :\

    It's gonna be ok **

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  10. Muito bom este post. Gosto muito das tuas descrições e das fotos.
    Espero que tudo se resolva com o teu familiar.
    Perdi a minha sogra quando estava grávida e tudo por que passámos foi difícil...
    Beijinhos.

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