1 de junho de 2012

O malvado do pé e o Hadrian's Wall Path

Ponto da situação da dor: mansinha, quase silenciosa, mas continua cá. O pé queixa-se sobretudo se me esquecer e der uma passada mais vigorosa, o que é estranho, porque não me dói quando corro, mas quando flicto mais o pé a andar sinto-a... Tenho posto Voltaren e um saco de bróculos congelados sobre a zona queixosa.
Sinto que fui traída pelo meu corpo (, estou a falar contigo) mesmo na véspera de dois fins-de-semana de prova. Não teria problemas em parar uma semana, se necessário, mas assim é mesmo para me lixar (mentira: eu teria problemas, mas pararia na mesma e viria aqui queixar-me disso todos os dias). Assim sendo, não sei como vai ser.


Ainda bem que hoje tive um dia calminho e pude vir almoçar a casa, sem andar a correr de um lado para o outro.

O almoço

A sobremesa.

Passei a tarde a terminar uns trabalhos e depois não tivemos a habitual Bike Friday por causa do pé, por não saber se faria bem ou não, mas fui levantar o dorsal da prova de domingo a pé, para ver como me sentia (resposta: mais ou menos).

A secretaria estava montada em pleno Arraial dos Navegantes e como já era quase hora de jantar já havia no ar um cheirinho a sardinhas assadas e outras coisas boas...
Cheguei a casa e o que fiz para jantar? Uma pizza. Pfff, não fiquei contente. Amanhã talvez passe pelo arraial para jantar. Um entremeada e uma Sagres é um bom jantar pré-prova, não é?


Cartaz do Arraial





E as novidades do dia ficam por aqui. Agora, a história da famigerada caminhada da lesão. Os que quiserem continuar a ler ponham-se confortáveis, que vai ser longa.



A minha aventura no Hadrian's Wall Path

Um bocadinho de contextualização:

A Hadrian's Wall foi uma de duas muralhas construídas ao longo da Grã-Bretanha durante o domínio do Imperador romano Adriano, no século II. Grande parte dos muros resistiu até aos dias de hoje e o seu percurso pode ser seguido a pé, sendo este trajecto conhecido como o Hadrian's Wall Path, ou de bicicleta, através da National Cycle Route 72. É uma atracção turística popular no norte de Inglaterra e foi declarada Património Mundial pela UNESCO em 1987.

Imagem de Wikipedia


O quê:
- Fazer os 135 km na direcção Este-> Oeste, de Wallsend a Bowness (também pode ser feito ao contrário).

Quando:
-  Nas férias de Verão da faculdade, numa altura em que trabalhei 3 meses numa Tea House em Londres (sim, muito classy e não, não sou uma entendida em chás por causa disso).

Como:
- A pé e com total desconhecimento de causa.

Com quem:
- Na altura partilhava o quarto com uma alemã, com quem tinha combinado, no final do contrato, fazer um inter-rail (mais inter-bus, já que andar de comboio fica(va) muito caro) pelo Reino Unido durante umas semanas, antes de regressarmos aos respectivos países. E assim fizemos.

- Porquê:
- Pois que numa dessas tardes, em viagem, estávamos nós no terraço de um B&B na bonita localidade de Inverness, no norte da Escócia, quando a A. (alemã) se chega ao pé de mim e me pergunta: "Olha, queres ir fazer o caminho tal e tal, que fiquei a conhecer através de uns desconhecidos que encontrei na fila para o pequeno-almoço e que já fizeram e disseram que é giro e levamos as nossas mochilas e a paisagem é gira e o percurso é giro e é tudo giro?" E eu disse: "Está bem".


E agora a história.

Claro que quando eu aceitei a proposta, nunca tinha ouvido falar do Hadrian's Wall Path, nem sequer do próprio Hadrian's Wall e pensei que fosse coisa para durar um dia, no máximo dois, vá, mais ou menos como ir passar um fim-de-semana a passear em Sintra... Por isso, quando terminámos o circuito pela Escócia e nos enfiámos num autocarro em Newcastle que nos deixaria em Whitley Bay, perto do início do percurso, levávamos connosco uma mochilas gigantescas, com praticamente tudo o que tínhamos trazido para Londres, excepto algumas coisas maiores e mais pesadas que tínhamos deixado num cacifo na Victoria Station.

Agora sei que o recomendado para caminhadas longas é que o peso da mochila não exceda os 10% do nosso peso. Eu não pesei a minha mochila, mas devia andar por volta dos 11kg... Ora, eu não peso 110 kg, portanto dá para ver que a percentagem não abonava muito a favor das minhas costas e joelhos e, pelos vistos, nem dos meus pés.
E por falar em pés, não levava comigo nenhuns ténis adequados a caminhadas, mas tinha uma espécie de sapato-bota que eu julgava adequados.
-> Dois erros de principiante e inconsciência e ainda nem tínhamos começado a caminhar.

Nota: Na altura ainda não tinha máquina digital e todas as fotos estão em álbuns na casa dos meus pais. Por isso vou partilhar imagens que retirei da net, até poder digitalizar algumas das minhas.

O caminho, à semelhança do Caminho de Santiago, está sinalizado através de setas amarelas e também da imagem de uma bolota, o "Acorn", símbolo dos Britain's National Trails.

Exemplos de sinalização no caminho.

Imagem de Haltwhistle


Ao início lembro-me que havia partes em que o percurso se fazia em paralelo a uma estrada nacional, o que estragava um bocadinho a ambiência medieval da coisa. Mas deixem-me que vos diga, assim que nos vamos afastando dos grandes centros civilizacionais, parece que voltamos atrás no tempo.

Imagem de Walkopedia

Chega a tornar-se assoberbador, porque podem passar-se às vezes horas sem veres ninguém. No entanto, nunca nos sentimos inseguras, primeiro, porque devido à colocação estratégica da muralha em quase todo o percurso, consegues ter uma visão periférica de toda a extensão à tua volta, segundo, porque de vez em quando avistam-se outros caminhantes ou voluntários do Hadrian's Wall Path que, para além de animarem determinados troços com representações históricas, são muito prestáveis. E, sobretudo, porque desconhecíamos a existência de possíveis animais selvagens e/ou mortíferos na zona. Ignorance is bliss!


Imagem de Walkopedia.

O primeiro dia foi uma festa, porque ainda não tinha dores. Além disso, passas sempre por algum local de interesse, como muralhas de um castelo, templos em ruínas, igrejas antigas e velhos cemitérios (creepy!).

Willowford Bridge
(Imagem de rucsacs)

Temple of Mithras
(Imagem de rucsacs)


E as paisagens falam por si.

Imagem de destination360
Imagem de Wordsworthcountry
Em relação ao alojamento e contrariamente ao Caminho de Santiago, em que há albergues específicos e a preços simbólicos ou donativos para os peregrinos no próprio percurso, as dormidas ao longo do Hadrian's Wall Path fazem-se sobretudo em B&B, que podem reservar-se de véspera, pousadas de juventude, ou quintas e parques de campismo, que podem ficar um pouco fora da rota.


Birdoswald Cottage, para os caminhantes de luxo.
(Muito ao estilo Downton Abbey, não acham?)

Tantallon House
Exemplo de um típico (e mais acessível) B&B da zona.

Nós tentámos sempre dormir em Youth Hostels (excepto na primeira noite), mas os B&B são uma boa opção, por oferecerem pequeno-almoço e um quarto confortável a um preço em conta.

Na primeira noite ficámos na localidade de Heddon-on-the Wall, no primeiro B&B que encontrámos, porque, como já estava com dores, queria era deitar-me. Nessa noite nem saí para jantar e fiquei o tempo todo no quarto a descansar.

No dia seguinte os primeiros quilómetros foram um martírio, mas que ia fazer? Não adiantava parar, a não ser que quisesse apanhar uma camioneta de regresso. Tinha gostado muito do primeiro dia e queria ter toda a experiência do percurso. Nesta altura já sabíamos a distância que tínhamos pela frente, por termos falado com outros caminhantes. Muitos ingleses, alguns alemães, um grupo de três franceses e uma portuguesa (eu) foram as nacionalidades que encontrámos ao longo de toda a semana.

Imagem de Hadrianstriumph.

Conforme fomos avançando para oeste, o percurso foi ficando cada vez mais bonito mas, com as dores, acabei por não desfrutar como gostaria. No segundo dia tinha improvisado um cajado à pastor, com um ramo de uma árvore (que estava caído no chão), para evitar fazer muita pressão no pé, quando passou por nós um casal de turistas alemães que, depois de falarem comigo em inglês e trocarem algumas frases em alemão com a minha amiga (certamente para comentar a minha má figura), ofereceram-me um dos seus bastões de caminhada! Ao início não queria aceitar, mas eles disseram que lhes poderia devolver no último dia, quando nos encontrássemos todos em Bowness. Claro que esta foi uma forma simpática de dizer que não se importavam que eu ficasse com ele, já que devido às várias opções de alojamento e diferentes etapas poderíamos não nos tornar a ver, mas eu sinto-me sempre na obrigação de retribuir gestos de generosidade e decidi ali que iria terminar o percurso nos 6 dias programados e que iria devolver o bastão e pagar um café ao casal tão simpático.

Hoje acho que foi isso que me deu forças a continuar, quando já me sentia de rastos e, inclusive, desatei num pranto sentada numa rocha já no 4º dia, quando as dores começaram a aparecer também no pé direito. Curiosamente, anos mais tarde, quando fiz o Caminho de Santiago, também foi um alemão a dar-me força numa etapa complicada (mais psicologicamente que outra coisa). E ainda dizem que os alemães são um povo frio!



Tendo em conta todo o azar da minha situação, tivemos a sorte de não chover em nenhum dos 6 dias que levámos no percurso (o que no norte de Inglaterra é quase um recorde), só uns ligeiros chuviscos na tarde do segundo dia, porque é óbvio que nas nossas mochilas que pesavam toneladas não ia nenhum impermeável, nem roupa adequada. No entanto, acho que a A. era capaz de ter na mochila dela um mini chapéu-de-chuva, porque aquela mulher sacava as coisas mais incríveis lá de dentro. Falhou em arranjar-me umas muletas, mas tinha um equivalente de Voltaren e até umas meias elásticas -> mil vezes mais preparada do que eu para aquelas andanças, já que, pelo que me deu a entender, os alemães são uns papa-caminhadas e já nascem com botas de trekking calçadas.

Imagem de Hadrianstriumph


Tenho pena de na altura não ter feito nenhum diário da caminhada, porque hoje em dia já me esqueci de muitas localidades em que passámos e monumentos que visitámos. Mas ainda me lembro do dia em que vi pela primeira vez uma "Honesty Box", numa pequena quinta que se atravessava pelo caminho. Uma "Honesty Box" consistia numa caixinha fechada em que as pessoas depositavam o dinheiro de quanto custavam as suas "compras", já que não havia ninguém para atender. Eu explico: estava uma banca junto à passagem com fruta à venda, com o preço e a caixa ao lado, para que as pessoas levassem e pagassem as suas próprias coisas.  Mais tarde tornei a ver uma coisa do género no Caminho de Santiago, num cesto com a inscrição: "Deja lo que ya no quieras e lleva lo que necesitas", em que se viam artigos como protectores solares, barrinhas de cereais, botas de caminhada(!), molas de roupa, champôs e até dinheiro. Sempre me questionei se todas as pessoas seriam honestas a esse ponto, mas eu seria incapaz de enganar alguém que confia desta forma. É uma troca na base da confiança, que penso que a maior parte dos peregrinos/caminhantes sabe respeitar.


 Quando estamos a chegar à recta final, cruzamos uma entrada a desejar sorte no caminho.

Good luck go with you
(a sorte para quem começa na direcção oeste-este)

Ao chegar a Bowness-on-Solway, localidade onde termina (ou inicia, depende de onde se começa) a muralha, confesso que fiquei mesmo aliviada. Adorei a experiência e aconselho a toda a gente que goste de grandes caminhadas e aventuras, bem como de história, mas sinto que não aproveitei muito por só estar concentrada em chegar ao final de cada etapa para descansar os pés. Foi uma inconsciência tão grande ter forçado a lesão daquela forma... Ainda bem que foi no final das nossas férias e que dali íamos regressar a Londres, para voltar para casa.

Quando regressei a Portugal seguiu-se o rol de exames que referi ontem e vários dias em casa sem sair, levantando-me apenas o mínimo indispensável.


E foi assim a minha primeira experiência em caminhadas, que me deu uma armadura rija para as que se seguiram. Qualquer dia falo de outra, se tiverem interesse, claro.


Bom fim-de-semana!



PS: Ah, sim, tornei a encontrar o casal de alemães, devolvi-lhes o bastão e fomos todos lanchar juntos.


15 comentários:

  1. És uma heroína só por teres feito isso tudo :D

    Espero que isso passe realmente, vai alternando o gelo com voltaren se não passar..

    Aos poucos o café passa a ser um hábito, daqui a um mês já não nos vai custar.. digo eu eheh
    o quadrado de chocolate faz muito melhor que o açúcar refinado, portanto foi uma optima troca :D

    Beijinhoos

    ResponderEliminar
  2. heina! que aventura miúda, estou a ver que tens umas aventuras!! Realmente deve ser um percurso LINDO, mas quando se está mal, ou com dores, nunca é a mesma coisa ! e ainda por cima ficas te com um probleminha nada bom! aiai

    beijinhos e bom fds

    ResponderEliminar
  3. ahaha eu sempre que aqui venho ja sei que me vou rir:D o bastao das caminhadas dá um jeitaço, sei do que falo tambem:D beijinhos e realmente nao me lembrava ja que eram estrunfes:D bom fim de semana

    ResponderEliminar
  4. as melhoras do pézinho e bom fim-de-sem

    ResponderEliminar
  5. Olá :D

    Bem, fiquei a babar tanto com as fotos que mandei uma mensagem para o P. com o site do teu blog a dizer 'P. lê e diz se não apetece mesmo ir'! :D Por isso vais ter mais um leitor :P

    A tua descrição fez-me lembrar o meu Inter-Rail, mais especificamente a parte de estares sentada a chorar numa rocha :P Também passei por isso, no 3º dia do nosso Inter-Rail, em que inclusivamente pensei em voltar para casa de tão cansada que estava (porque aquilo foi mesmo violento fisicamente). Mas entretanto passou e só me recordo dos bons momentos que passei (é um grande defeito meu, nunca guardo más memórias e às vezes lixo-me!) :P

    Não recebi o teu primeiro comentário, só o segundo a dizer que o primeiro deu erro! Quando isso acontecer podes fazer actualizar, e o comentário volta a aparecer ;) É o que eu faço ;)

    Beijinhos e tem um óptimo fim-de-semana :D

    ResponderEliminar
  6. Olá outra vez :P

    Já convenci o meu P. a ir (como se precisasse de mais razões para irmos à Escócia!), mas ele acha melhor irmos de moto ou assim :P O teu relato não o convenceu a fazer o percurso a pé (eu queria!!) :(

    Por outro lado, há uma questão importantíssima: há vaquinhas? É que eu só vou se houver vaquinhas, e têm de ser vaquinhas brancas e pretas! :P

    Podes passar lá por casa à vontade :P Estou a precisar de ajuda, eu meto lá as refeições para quando precisar, mas depois apetece-me sempre cozinhar (eu sei, sou esquisita) :P

    Então estivemos decididamente no mesmo RIR :P Que engraçado :P Por acaso não te lembras de uma rapariga de bandolete, não? :D

    Beijinhos :D

    ResponderEliminar
  7. Isso é que foi força de vontade, mesmo. Vê lá se não forças muito no domingo. Beijo

    ResponderEliminar
  8. minha linda, estou via alcatel a escrever-te da terra da minha avo. Saí de lisboa a correr e não tive tempo de comentar nada, e vim aqui só para te deixar um beijinho e as melhoras! Não forces isso mulher!!!
    Beijinhos e um belo fim-de-semana.
    Ps: tenho umas perguntas a fazer-te sobre caminhadas!
    As melhoras moçoila

    ResponderEliminar
  9. Ahhh!!! Boa sorte para amanhã!!!

    ResponderEliminar
  10. Adorei a troca de experiência :)

    Muito Obrigada!

    Acho que nunca tinha lido um post tão grande e palavra por palavra!

    Este fim de semana também fiz uma identica... 70km´s a pé :)

    ResponderEliminar
  11. Hello!
    *O teu titulo poderia ser "Broculos - do pé para a boca". Gostei muito :)
    *Bike - para mim, a bicicleta não é tão agressiva quando estou com dores. Acho que é uma boa alternativa.
    *Hadrian´s Wall Path - só ouvi "falar" disto no teu blog (sempre a aprender. A tua experiencia foi...para a vida!, mas sei que neste campo sou pouco aventureira :)
    Beijos

    ResponderEliminar
  12. Muito bom!
    Até eu fiquei com vontade de ir…
    Agora fico à espera do relato do Caminho de Santiago!

    Beijos

    ResponderEliminar
  13. desculpa lá estava para perguntar no outro dia o que é aquilo no prato, aquelas duas coisas , é carne ?

    ResponderEliminar
  14. Eu já fiz uma aventura desse tipo...Subi o monte Fuji, de bermuda, com pouco dinheiro e sem comida na mochila. Ainda bem que levei muitos rolos de filme (ainda na época de câmera fotográfica com filme). Cheguei lá em cima, depois de trocentas horas de caminhada, dei uma olhadinha, me encostei num canto, tirei um cochilo e voltei...
    Mas foi bem legal!
    Agora...ando meio paradona...mas ainda tenho esperança de me tornar mais ativa!
    Beijão,
    Mel

    ResponderEliminar