22 de janeiro de 2013

Nascidos para Correr

«Uma tribo secreta, superatletas e a mais espectacular corrida do mundo que ninguém viu.»

O livro.

 
 
Terminei a semana passada de ler o livro de Christopher McDougall. Segundo o autor, o livro  nasceu de uma simples pergunta: "Porque me dói o pé?". A partir daí, McDougall entra numa epopeia de exames e médicos, pedindo uma segunda, terceira e até quarta opinião, na esperança de contrariar o diagnóstico que não se conforma em ouvir: Se calhar era melhor deixar de correr.
Em busca de uma resposta para as suas (e da grande maioria dos atletas) lesões, depara-se com a história da lendária tribo Tarahumara, ou os Rarámuris, conhecidos por percorrerem centenas de quilómetros por trilhos inóspitos, descalços ou com umas simples sandálias de borracha, as huaraches. Os Tarahumaras vivem no México, e é para lá que McDougall se dirige.
Aí, irá conhecer Caballo Blanco, um americano que se converteu ao estilo de vida do desfiladeiro e que o apresentará aos superatletas, convencendo-o a co-organizar uma das maiores competições que permaneceu quase anónima e que defrontará os tarahumaras, no seu terreno, a atletas ultramaratonistas dispostos ao desafio.
 
Apesar de o livro estar escrito ao jeito de ficção - por vezes parecia-me estar a ler uma história - os factos são reais. Nomes como Ted "Pé Descalço" McDonald, Scott Jurek e Jenn Shelton, apenas para referir alguns, entram na história como participantes desta curiosa prova e embora acredite que sejam levemente caricaturados para propósitos da narrativa, não deixam de ser grandes (e reais) atletas.
 
Enquanto conta a história que levou à realização de uma corrida de 80km pelos desfiladeiros mexicanos, Chris McDougall partilha algumas das conclusões médicas e científicas a que chegou depois da sua pesquisa acerca da "indústria da corrida", a pressão da marcas e como nascemos geneticamente programados para correr (a teoria do "Homem Corredor", que achei muito interessante.) Basicamente, leva-nos a questionar o lobbie das marcas desportivas e a efectividade dos ténis de centenas de euros. O capítulo 25 é inteiramente dedicado a esta questão, onde expõe, e cito, as "verdades dolorosas":
Nº1: As melhores sapatilhas são as piores.
Nº2: Os pés gostam de levar uma boa tareia
Nº3: Os seres humanos foram concebidos para correr sem sapatilhas.
 
Todos estes são pontos de livre discussão, que devem ser lidos com espírito crítico. No entanto, acho que levantam boas questões.
 
Não fiquei deslumbrada com o livro, se calhar porque tinha expectativas altas, mas acho que dá uma boa leitura e vale a pena ser lido por todos aqueles que gostam de correr.
 
Para terminar, algumas citações:
 
- "Esse era o verdadeiro segredo dos tarahumaras: nunca se esqueceram de como é gostar de correr. Lembravam-se de que correr era a primeira bela arte da humanidade, o nosso acto original de criação inspirada. Muito antes de rabiscarmos gravuras em cavernas ou de tamborilarmos ritmos em troncos ocos, aperfeiçoámos a arte de combinar a respiração e o espírito e os músculos numa autopropulsão fluida sobre terrenos acidentados. (...) Nascemos para correr; nascemos porque corremos. Somos todos parte do Povo Corredor." - in Teoria do Homem Corredor.
 
- "Para lá do limite máximo do cansaço e do sofrimento, poderemos encontrar reservas de força e tranquilidade que nunca sonharíamos ter; fontes de energia nunca antes minadas por nunca antes nos termos obrigado a ultrapassar o obstáculo."  - Scott Jurek, citando William James.
 
- "Prepara-te - gritou-me Eric quando passávamos um pelo outro na margem do rio. - É muito mais difícil do que te lembravas". - Eric Orton para McDougall, um belo exemplo de como animar alguém a meio de uma corrida dura pelos montes.
 
- "Vence o percurso - disse a mim próprio. - Mais ninguém. Vence só o percurso." - McDougall, a meio de uma quebra física e mental na corrida tarahumara.
 
- "Não quero cá ninguém para nada, excepto para correr, confraternizar, dançar, comer e passar um bocado connosco. Correr não é para fazer as pessoas comprar coisas. Correr é liberdade, pá." - Caballo Blanco.
 
 
 
Já leram o livro, que acharam? Alguém já correu com ténis minimalistas (ou até mesmo do género dos Vibram FiveFingers)?
 
 
Quem quiser saber mais sobre esta fascinante tribo, um pequeno vídeo: Super Athletes of the Sierra Madre.
 
 

12 comentários:

  1. Eu já li o livro e adorei. E o mais engraçado é que já tinha o livro mesmo antes de descobrir que adoro correr e na altura também achei muito interessante, apesar de não me ter feito ir para a rua correr.

    Quando comecei a correr é que um dia me lembrei de voltar a ler o livro e nessa altura já o li com outros olhos. Continuo a achá-lo um livro muito interessante e aconselho-o a qualquer pessoa que corra e que goste de ler.

    Beijinhos

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  2. eu nao sou menina de gastar munto dinheiro em sapatilhas... se calhar se tivesse comprava uns nike+ com o resto do equipamento todo. lol
    assim tenho uns puma de 19€.

    Beijinhos ***
    e bons treinos

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  3. Sem dúvida que nascemos geneticamente programados para correr e em grandes distâncias.

    Era assim que os nossos antepassados caçavam animais muito mais rápidos. Iam correndo atrás deles que fugiam a enorme velocidade. Mas os humanos continuavam sempre sem parar e recuperavam quando o animal parava para descansar pois tinha muita velocidade mas menor resistência.

    Os nossos antepassados ultra-maratonistas continuavam a correr, correr, até que apanhavam o animal vencido pela exaustão.

    Fomos programados para correr mas criámos um estilo de sociedade que nos formata mais e mais para o sedentarismo.

    Beijinhos :)

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  4. Isa: Em termos de escrita gostei mais do livro do Jornet, mas também são livros completamente diferentes. Este vê-se bem que é um cronista americano pela forma como escreve (que eu até não desgosto, atenção!) :) Achei muito interessante e até divertido. Beijinhos

    Troll: Olá "troll"! :) Ainda bem que andas por aí... ;) Se te sentes bem com os teus Ouma é o que interessa! Beijinhos

    João: É isso mesmo, venciamos a caça pela exaustão! :) E depois outras características físicas, nomeadamente ao nível dos ligamentos e locomoção do pescoço, que só existem em mamíferos "corredores". Achei interessante! Beijinhos

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  5. Gostei bastante do livro.
    Em relação ao calçado minimalista, ainda não me convenceram, gosto de correr com bom amortecimento.

    Beijinhos

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  6. Eu já o li assim mais ou menos :), o que significa que o li na diagonal. Não me convenceu para uma leitura integral e atenta, mas percebi que era bem interessante naquilo que conta de real sobre esses "corredores" fantásticos. Tenho que ver esse outro livro de que falas...

    Sentir os pés no chão, digo eu, é uma das coisas boas de correr. Por isso, não gosto de ténis cheios de amortecimentos, gel, suspensão, etc. Corro com uns skechers go run e com uns Nike Free. São, acho eu, uma espécie de introdução ao minimalismo. Também tenho uns Mizuno mais "normais" mas não dão grande prazer...

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  7. Li o livro em inglês, gostei apesar de não ser uma leitura fácil neste idioma. Não sei se sabem mas o Caballo Blanco faleceu a cerca de uns meses... Acredito que tenhamos sido todos, ou a maior parte, grandes ultramaratonistas. Acho que conservo algumas características ancestrais, tipo o meu pé estranho...

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  8. V: Eu acho que o mais importante é sentirmo-nos confortáveis a correr, o resto são teorias mais ou menos divergentes (embora concorde que existe um lobbie das marcas, como em tudo..). Beijinhos

    Pedro: Acho que se nota que McDougall não é escritor, é cronista (não sei se o livro terá também sido resultado de algumas crónicas publicadas), mas eu até gosto do típico humor na escrita. Não sei se será o melhor livro de corrida, mas é uma referência importante. Gostei do Correr ou Morrer (Jornet), chegava a ser poético em algumas partes! :) Mas não se pode comparar os propósitos, este é mais informativo. O meu preferido continua a ser o do Murakami, porque ele leva a vida que eu queria (sim, eu queria levar a vida de um homem japonês de 60 anos eheh ;) ): a escrever, viajar e correr. Boas leituras!

    Silvio: Quando andei a pesquisar sobre ele li algo sobre isso, parece que morreu a correr, o que se calhar foi o que ele sempre quis...
    Só uma questão: o que achaste do livro do Karnazes? Vale a pena? Fiquei com dúvidas depois do filme.
    Pé estranho?? :) Boas corridas!

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  9. Gostei muito do livro. Deu vontade de sair correndo e não parar!

    Do Jornet, achei poético como vc disse mas as vz ele fica meio cansativo, por isso ainda não consegui terminar de ler.

    Vou ler o do Karnazes, uma amiga me enviou, depois te conto o que achei.

    Bjs

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  10. Infelizmente ainda não tive oportunidade de ler nenhum dos livros que tens referido... mas estão na minha lista para este ano! :)

    Quanto ao calçado minimalista, bem eu uso uns Nike+ Free Run, apesar de não serem totalmente minimalista, são muito próximos disso, pois têm muito pouco amortecimento. E isso acaba-se a sentir com o acumular de km's...

    Por isso estou já em busca de uns substitutos, desta vez menos minimalistas...
    Apesar de acreditar que este tipo de ténis sejam de alguma forma benéficos para as nossas pernas, mas requerem muito treino e muitas horas de adaptação... e inicialmente sendo apenas um par de ténis secundário, para uns treinos mais ocasionais.

    Está quase ai o grande dia... já ando a sentir as borboletas na barriga por causa do "Fim da Europa" lol

    Boas corridas, beijinho***

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  11. Luciana: Compreendo que tenhas achado o livro do KJ um pouco cansativo (às vezes ele divaga!). Depois diz então o que achaste do Marathonman. :) Bjs

    Pedro: Pois, acho que é mesmo uma questão de habituação e evitar fazer muitos kms neles de seguida... Não penso aderir ao "minimalismo", mas achei a teoria curiosa. Pode ser que as asinhas das borboletas te dêem uma ajuda no dia! eheh ;) Beijinhos e boas corridas!

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  12. @Corre como uma menina

    Foi o livro que gostei mais de ler dos 3. Vale a pena lê-lo. Eu comprei por 5€ e foi um excelente investimento. "Devorei-o" em pouco tempo.

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