14 de fevereiro de 2013

O treino do Valentim

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No momento em que se baixa para compor os atacadores, ele vê-a. Pelo canto do olho, cabelo escuro preso num elástico verde, algumas madeixas soltas que escorrem ao lado do rosto. Está a fazer aquecimentos. Ele massaja o músculo do gémeo numa dor que não tem, apenas para poder continuar a observá-la discretamente. Acha-a bonita.

Ela prepara-se para começar a correr. Afasta o cabelo que o vento teima em despentear e põe-no pela décima vez para detrás da orelha. Sente que alguém observa este seu gesto. Olha para o outro lado do passeio e vê-o. De cabeça baixa, parece concentrado numa dor muscular. Deve ter sido só impressão. No entanto, demora o olhar. Moreno, t-shirt técnica preta e calções. Acha-o bonito.

Ele já não pode continuar a fingir a auto-massagem durante muito mais tempo. Levanta-se e põe os óculos de sol, embora, olhando o céu cinzento, não precise. Confere o relógio e aguarda os satélites.

Ela começa a correr.

Ele espera o que considera um mínimo respeitável e parte pouco depois. Ainda a consegue ver, a cerca de 100, 150 metros. Mantém o ritmo, não a quer passar tão cedo. Seria uma pena.

Ela tem vergonha de olhar, mas tem a certeza que ele vem atrás. Sente na espinha aquele desconforto embaraçado, com um misto de adrenalina cúmplice, de quem aceita um desafio silencioso. Começa a acelerar.

Ele mantém-na à distância de um olhar, que os óculos escuros não denunciam. Àquela hora, muitas são as pessoas que se juntam no passeio à beira-rio para fazer exercício. Algumas correm, outras passam de bicicleta, mas a maioria caminha. Ele ainda consegue distinguir ao longe, fintando quem passa, a sua t-shirt azul. Tem a impressão que ela aumentou ligeiramente o ritmo, e não quer ficar para trás. Começa a acelerar.

Ela observa uma embarcação que passa e ouve o som de uma gaivota que se sobrepõe ao das ondas. Hoje não trouxe os auriculares e isso permite-lhe estar muito mais alerta. Mantém a respiração controlada a dois tempos e interroga-se se ainda estará a ser "seguida". Hoje sente-se leve, não será fácil apanhá-la. Resiste à vontade de espreitar sobre o ombro e endireita-se, esperando que, por favor, a sua falta de elegância a correr passe despercebida.

Ela corre.

Ele corre mais.

Os quilómetros vão passando e o tempo e as energias esgotam-se.

Ele está tão perto que já consegue distinguir a humidade no cabelo, e no pescoço, que lhe desce pelas costas. As costas dela. Foram uns bons quilómetros, mas sabe que o jogo tem de terminar. Resiste à tentação de lhe tocar quando passa. Além disso, é desnecessário, tem a certeza que ela sabe que é ele que está ali, e que a  ultrapassa.

Ela ouve passos atrás de si, cada vez mais próximos, e sabe que é ele. O orgulho instiga-a a apertar o passo, o que lhe descontrola o respirar, e sente a cara enrubescer de vergonha, fúria e esforço. Deixou de se preocupar com a forma e o decoro e olha para o lado. Ele passa por ela e diz-lhe adeus, a lata. No entanto, ela não deixou de reparar nas gotinhas de suor que se lhe formavam na testa e desciam pelas têmporas. Também vai cansado, não foi uma disputa fácil.

Ele achou que tinha ido longe demais com o acenar ao ultrapassá-la, provavelmente iria pagar por isso depois. Mas não conseguia deixar de rir ao lembrar-se do seu ar de incredulidade irritada. Valeu a pena. Olha para o relógio, está quase.

Ela ouve o típico som que assinala a passagem de mais um quilómetro, ou o final de treino, no seu relógio. Uns metros à frente, ele pára e vira-se para trás, leva as mãos ao alto e faz uma pequena dança da vitória. "Que idiota, ainda goza", pensa ela. Carrega também no botão de stop do seu relógio e pára finalmente, agarrando-se às pernas para respirar. Ele continua a observá-la, com um riso entre o divertido e o provocador.
 

- Hoje deste luta! - exclama ele.
 
Ela rende-se, como sempre acontece depois deste jogo, e sorri. Estica o braço e agarra na mão que ele lhe estende. Está escorregadia, a dela também. Empoleira-se em bicos de pés e dá-lhe um beijo nos lábios salgados.
 
- Um dia, ainda te vou ganhar, espera só!

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Nota: Os factos e os intervenientes desta história são fictícios, inspirados pelos frequentes treinos da autora neste cantinho à beira-rio. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.



Valentins ou não, hoje desafiem os/as vossos/as companheiros/as sedentários/as a ir correr com vocês. Ou um amigo, uma amiga, o irmão, a Mãe... Numa competição saudável a dois. Tudo em nome da saúde desse nosso belo órgão, que é o coração.

Boas corridas!




20 comentários:

  1. Coração cuja saúde passa não só pelo exercício mas também em ser acariciado com belas histórias como esta.

    Gostei!

    Beijinhos e venham mais histórias bonitas

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  2. Adorei o texto ;) Bom dia para ti e boas corridas. Beijinhos

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  3. Que texto bonito :) A saúde do coração, gostei! :) Espero que um dia essa situação te aconteça mesmo, era giro :)

    Por acaso ultimamente eu e o Pedro temos feito exercício juntos, e é bem romântico (e até sexy) :p

    Beijinhos e bom dia :)

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  4. Espectacular. Um excelente dia para ti e bom treino com o teu "Valentim".

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  5. Gostei.
    Até acho que está preciso demais para ser ficção. Acho... ;)

    Beijos!!!

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  6. Bonito texto. Gostei. :)

    Peço desculpa por não seguir o teu desafio, mas hoje é dia de desafiar a cara metade para isto :D

    http://www.yadig.com/uploads/biz-logo/haagen_dazs3_ph_alb_070320112851.jpg

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  7. João: E os corações bem que precisam de "histórias bonitas" ultimamente, para os manter com saúde... Beijinhos e tem um bom dia!

    City Girl: Obrigada, um bom dia para ti também! Beijinhos

    Joana: É claro que é romântico e sexy. Tudo pela saúde do coração. ;) Beijinhos e tem um bom dia

    Tigas: Obrigada. Hoje não há treino, mas um bom dia para ti também! Beijinhos

    Pedro: Eu tenho uma imaginação muito fértil. ;) Beijos e um bom dia para ti e a Carla

    Bluesboy: Obrigada. Também não me parece nada mal! Mas podem juntar as duas coisas e usar o gelado como alimento de recuperação pós-treino. :) Um bom dia para ti!

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  8. muito bonito. podemos acompanhar a cena beeeeemmmm de perto, não tivessemos já todos nós corredores vivenciado, assistido ou apenas desejado uma idêntica.

    Escreves bem. Gostei de ler :)

    BEijinhos

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  9. Muito bom, tens jeito para a coisa.

    Boas corridas! ;)
    Rui

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  10. Nunca é demais dizer, escreves muito bem. Um texto apropriado ao dia.

    Beijinhos.

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  11. Ana: Obrigada. É como dizes, já todos assistimos, vivenciámos ou desejámos histórias assim. :) Beijinhos

    Rui: Obrigada pelo comentário. Boas corridas para ti também!

    V: :) Sabes que o nome Valentim, infelizmente, não me lembra o Santo, mas sim outra personagem bem menos apelativa do nosso panorama nacional... Ainda estive para mudar o título, mas pronto! Desde que o nome não estrague a imagética da história, tudo bem. ;) Obrigada e beijinhos

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  12. ...moral da historia ???

    ...o homem , seja o teu Valentim ou outro qualquer , ganha sempre a corrida !! ...é isso ??? ehehhehe......







    (just kidding) ;)
    ...até porque eu não consigo apanhar nenhuma dessas corredoras (as Valentinas , portantos) , correm que se fartam , e depressa...deve ser do susto !!! :D


    bons treinos e boas corridas...
    ajb

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  13. ajb: Mas porque é que quase toda a gente assume que a personagem feminina sou eu??! É por correr pouco e desengonçada? Obrigadinha. eheh :) A moral da história é: quando encontrares a tua valentina, ela vai-te deixar ganhar... ;) Bjs e boas corridas

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  14. Anónimo15/2/13

    Sim, os sedentários que se cuidem...Bonita a história... felicidades para eles. Bjs

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  15. Chegava de mais um treino, era noite e curiosamente não havia frio lá fora,
    Entrei na estrada que conduz a minha casa, tirei a t-shirt molhada enquanto aliviava a pressão dos atacadores.
    O polar apitava esporadicamente, tinha sido um treino intenso e o coração ainda não se tinha recomposto.

    De calção e tronco nú parei ao pé do portão e meti a chave para entrar, Uma luz exterior acendeu e iluminou toda a área da casa. senti passos femininos apressados na minha direcção, imóvel de t-shirt na mão esperei a sua reacção, ela sorriu olhando-me de alto a baixo…senti um ligeiro torpor pelas costas! Uma sensação conhecida e inexplicável…! Arranjei o cabelo e fitei-a enquanto o suor me escorria pelo rosto

    Sensualmente, olhou o meu peito enquanto me arrancou a camisola encharcada da mão, num tom calmo e profundamente dominador, disse:

    - “ Sabes que horas são? Não te esquivas de fazer o jantar é que hoje é o dia dos namorados sabias..? e os miúdos já tomaram banho? Ligaste á tua mãe? O meu irmão mandou uma mensagem para amanha ires ter com ele…bla,bla,bla´´

    Rodei a chave e ri-me que nem um perdido.
    Que belo e familiar dia de S. Valentim..:)


    ;)
    J

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  16. Mais um texto magnifico....gostei muito dos pormenores...foi escrito por alguem que sabe do que escreve :D
    Beijinhos e bom fim de semana

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  17. Anónimo: Obrigada pelo comentário. Bjs

    Jorge: Ahahahaha! Cada um tem o que merece!! :D Por acaso a tua história poderia ser a continuação da minha, 15 anos depois... eheh ;) Bjs e bom f-d-s

    Carlos: Obrigada. Por acaso nunca tive um treino destes, é pena. Acho que ficava mais rápida num instantinho. :) Beijinhos e bom f-d-s

    Carla: Obrigada, espero que tenhas tido um bom dia! ;) Beijinhos

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  18. Olá menina,

    Este é talvez o maior desafio para mim,
    escrever um livro, aliás, é o único que
    me falta concluir dos 3 que dizem que
    um homem deve fazer em vida.

    Por vezes não é só o querer. Vou
    continuar a tentar, talvez um dia
    consiga.
    Activar novamente o gosto pela escrita
    foi também um dos meus objectivos ao
    iniciar o blog, mas o que acontece é que
    ao tentar escrever qualquer coisa as
    ideias não surgem, vou continuar a tentar.

    Continua também pois tens jeito, quer
    seja realidade ou ficção.
    Boa prova,

    Manuel Nunes

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  19. Manuel: Já leva avanço, que eu ainda só plantei uma árvore! :) Eu gosto muito de ler/escrever, e não digo que um livro não faça parte dos meus sonhos mais audazes, mas depois sinto-me sempre tão pequenina em relação aos verdadeiros escritores... Leio livro tão bons que penso que nunca seria capaz de escrever uma coisa assim. É verdade que também há livros "menos bons", mas também não queria fazer parte dessa lista! :) Continue a escrever, nunca se sabe! Já tem algo em rascunho?
    Obrigada e bons treinos!

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