18 de fevereiro de 2013

Trail do Monte Serves


Já não me lembro como cheguei ao conhecimento desta prova já que, em comparação com outras do género, que agora até começam a ser muito procuradas, esta foi pouco divulgada (na minha opinião). Isso levou a cerca de 200 participantes e ao meu receio de me estar a meter no meio de um grupo restrito de atletas de trail de um campeonato diferente do meu...
Então o que é que eu fiz? Perguntei a um amigo meu que mora na zona onde se realizou a prova - Forte da Casa - se não queria participar também. Ele é corredor habitual, apesar de não participar em provas, por isso sabia que se ia aguentar bem, e até melhor que eu, mas ao menos já não seria a única "amadora". Ihih.
Mas os meus receios foram infundados. Quando cheguei ao local, de facto, apercebi-me de que este, em comparação com as provas de estrada, parece-me ser um grupo mais restrito, já que reconheci várias pessoas que tinham estado presentes no Trail de Bucelas, sobretudo senhoras que, por serem menos, também são mais facilmente identificáveis, e sabia que algumas delas tinham andado mais ao menos ao meu ritmo na competição anterior.

A zona de partida e chegada seria a Escola Secundária da zona. Era uma zona residencial, sem problemas de estacionamento, e pude deixar o carro a cerca de 100 metros, o que foi bom já que estava bastante frio, e depois de levantar o dorsal voltei para dentro da viatura para "aquecer".

A 15 minutos da partida, dirijo-me para os portões da escola, desta feita faço um (verdadeiro) mini-aquecimento e encontro o Vitor. Uns minutos depois chega o meu amigo. Reunimo-nos por ali, porque era onde as pessoas se estavam a concentrar, mas não havia qualquer pórtico ou indicação de Meta. Supusemos que a partida fosse os limites do portão. Entretanto um senhor da Organização avisa os atletas em relação à sinalização e fitas que tinham sido roubadas no percurso, procedendo à descrição de todo o trajecto e respectivas curvas a que tínhamos de estar atentos. Ora, uma pessoa só consegue acompanhar estas indicações até certo ponto, e após 2 ou 3 minutos eu já me sentia perdida e ainda nem tinha começado a prova. Bom, haveria de ir alguém à frente que eu pudesse seguir, pensei, e esperei pelo melhor.

É dada a ordem de partida e lá seguimos, alguns respeitando os limites da estrada e outros atalhando logo pela relva. Nem pensei muito: são trilhos, são trilhos, segui pela relva também.



Estes primeiros quilómetros acabam por ser sempre muito semelhantes: algum congestionamento provocado tanto pelas descidas inclinadas em single-tracks - ou carreiros de cabras, em bom português - como pelas subidas mais rigorosas e enlameadas. Não tenho grande memória dos primeiros 2km, 3km, excepto ter avistado as portagens de Alverca ao fundo, essa linda paisagem..., e sentir-me anormalmente cansada logo desde início, dizendo aos companheiros que me acompanhavam para seguirem sem mim.

Hã, que bela paisagem!:)
O meu amigo eventualmente acabou por seguir, mas o Vitor manteve-se para trás, o que resultou numa prova em que pode dar asas à sua carreira fotográfica, enquanto esperava por mim. (Todas as fotos deste post são da sua autoria).

Assim está melhor!

Os primeiros quilómetros, talvez até cerca do km8, já não me recordo bem, foram maioritariamente a subir. E não eram cá subidas fofinhas, eram subidas para doer mesmo. Foi preciso muita, muita argumentação mental para continuar a pôr uma perna à frente da outra e preferia nem olhar para cima. O Vitor lá ia falando, talvez para me distrair, e eu só respondia com monossílabos - sou a melhor companheira de corridas de sempre.

"Não posso falar, é a subir."

"Continuo a não poder falar".

Por volta dos 6km(?), vejo um rapaz sozinho à beira da estrada, com algumas garrafas de água e reparo que estamos a passar o primeiro abastecimento. Reparo também que as garrafas não vão chegar para todos... Fiquei com a última garrafa. O que vale é que algumas pessoas atrás de nós traziam mochilas de hidratação, mas mesmo assim. Estranhamente, o segundo abastecimento, que só esperávamos lá mais para a frente, acho que nem foi 2km depois, o que até acabou por ser bom, para quem não teve direito a água no primeiro. É aqui também que o rapaz da água, mui simpaticamente, anuncia "Preparem-se, que daqui para a frente é sempre a subir".

...

Entretanto há quem tire fotos...

Mas, antes disso, foi algures entre abastecimentos que passámos numa zona mais perigosa para quedas, já que era sempre a descer por entre relva e palha húmida, num terreno quase sem carreiros visíveis. Foi aqui que a minha adrenalina disparou e até me esqueci do cansaço! Tinha que me ir agarrando a ramos de árvores e arbustos, mas escorreguei tantas vezes que alguma tinha de ser e acabei por cair mesmo. Foi numa zona de relva, por isso foi mais um deslizar feminino por ali abaixo do que um tralho "à homem", por isso não magoei nada para além do ego. ;) Depois da queda, olho à volta para ver se ninguém me viu (viram), levanto-me (muito rapidamente), confirmo se não tenho nada ferido (confirmado) e sigo. Exatamente por esta ordem de prioridades.

Daqui para a frente sinto-me com mais energia - nada como ter um encontro imediato com o chão para nos despertar - e já só vou tornar a ter dificuldades mais à frente, numa zona de terreno semelhante a este das quedas, mas sempre a subir. Aí ainda considerei sentar-me e não me mexer mais até mandarem uma equipa de resgate buscar-me (o meu cérebro cansado é muito dramático), mas a determinação o orgulho venceu.



Penso que foi a partir daqui que a questão com a sinalização do percurso se começou a complicar. Passávamos muito tempo sem ver setas ou fitas de qualquer espécie e não fosse, de tempos a tempos, avistarem-se outros atletas ao fundo, teria achado que estávamos perdidos algumas vezes. Então, quando passámos numa zona algo degradada antes de entrar em Vialonga, achei mesmo que não podíamos ir bem. Não tínhamos avistado nenhum colaborador ao longo de todo o percurso, para além dos dois rapazes do abastecimento, e não se viam marcações de espécie alguma. Valeu-nos algumas pessoas da zona que nos iam indicando por onde os restantes atletas tinham seguido mas, o problema, é que se um estivesse mal, estavam todos.
A verdade é que esta foi a zona mais problemática da prova, com várias pessoas a atalhar percurso (com ou sem conhecimento) e algumas a ter mesmo de telefonar para a organização a pedir indicações. Já só à saída desta área urbana é que encontramos um agente a controlar o trânsito, o que nos encaminhou novamente na direcção certa.

No km15 esperava-nos um último golpe cruel, saindo do asfalto e entrando novamente em trilhos, com outra bela subida jeitosa a fazer jus ao seu nome. Quase que dava para escalar. Ao atingir o topo, foi sempre a descer até à meta, que, mais uma vez, assumi que fosse a entrada da escola, e foi aí que parei o relógio, apesar de não estar ali nada, nem ninguém, a assinalar a chegada dos atletas. Foi outra atleta que já tinha terminado que me disse que tinha de me dirigir à zona de entrega dos dorsais um pouco mais à frente, para dar o meu número, e foi isso que fiz. Uma Meta uma bocadinho anticlimática.

Tenho a dizer-vos que demorei quase tanto a fazer os meus 16,3km de prova (a distância variou bastante de pessoa para pessoa) como a fazer a minha Meia Maratona!* Ufa! Há muito tempo que não "corria" estes minutos todos.

Esta não é a foto da meta mas é uma foto bonita para terminar.


Conclusão: Não se pode negar que houve falhas organizativas, razão pela qual nem chegou a haver classificação. A própria Organização já veio admitir, em vez de tentar transferir culpas, o que só fica bem. Se no meu último evento tive a felicidade de poder dar os parabéns, desta vez ficam apenas estes reparos. Acho que são coisas que podem acontecer, desculpáveis se houver verdadeiro empenho para as melhorar. Entretanto, prometeram emendar-se na prova que se segue - Trail de Arruda dos Vinhos, daqui a duas semanas. Eu não irei estar presente, mas caso algum de vocês vá, espero que a experiência já seja diferente e estou cá para ler que sim!
Fica só uma sugestão, que não tem a ver com o assunto acima: como ainda há falta de civismo por parte de pessoas que continuam a abandonar as garrafas de água pelo meio do percuso, em pleno mato, se calhar será melhor optar-se por abastecimentos em copo, que, por uma questão de comodidade, depois são deixados no local, ou perto.

Agora a minha experiência enquanto "atleta": Cada vez estou mais convencida que gosto mesmo é disto e que é uma variante da corrida pela qual espero optar de futuro. É um desafio constante para além do tempo no relógio. No entanto, tenho de ser humilde e admitir que a minha forma física ainda não é a adequada a grandes aventuras. Ainda. É todo um conjunto de músculos e posturas distintos dos usados em provas de estrada. Aliás, para minha surpresa, ontem quase nem me doíam as pernas, mas doíam-me bastante os músculos dos braços e ombros! Mas vou com calma, testando aqui e ali, aprendendo.

Isto devagarinho vai lá!


*O "resumo em números" será feito na revisão de treinos semanal.
 

21 comentários:

  1. Pena os contratempos de organização... porque do teu relato pareceu-me uma prova interessante de se fazer. :)

    Dado o meu péssimo sentido de orientação, o mais certo era ainda andar pelas portagens de Alverca a perguntar pelo calhau 354 e como chegar ao cruzamento do abeto arraçado de eucalipto. Algo a ver, quando me estrear nessas andanças (os sapatos de trail já vêm a caminho, já não posso voltar atrás :s).

    Li isto ontem e fiquei com mais interesse pela coisa. Uma perspectiva interessante, a biofilia.
    http://www.runnersworld.com/trail-running-training/trail-racing-101?page=single



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  2. Mais um excelente relato de prova e o bichinho dos trilhos veio mesmo para ficar, não é?
    Quando passar a minha "1/2 Maratona" faço o meu baptismo nos trilhos. Penso que será a 14 de Abril nos 20km de Sesimbra.
    Bjs e boas corridas.

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  3. O que interessa é que you kept going ;) Agora vê se descansas esses braços :)

    Beijinhos e tem uma boa semana :)

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  4. Estava à espera do teu post para ler um relato como deve ser do trail do Monte Serves.

    Beijinhos

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  5. Excelente relato! Até a parte que poderia ser mais, digamos, dramática, está com humor.

    Curioso o facto de te doerem pouco as pernas mas sim braços e ombros.
    Coincidentemente, a seguir à minha Maratona também me doíam os braços na covinha do lado contrário ao cotovelo (deve ter um nome mas não sei), talvez por ter andado 5 horas com os braços naquela posição.

    É notório que gostas dessa variante de provas, força para mais!

    Beijinhos :)

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  6. Bluesboy: Não sei se os portageiros seriam de grande ajuda... :) Foi uma prova desafiante, em que atravessámos locais bem bonitos, outros nem tanto, há que dizer. Gostei muito do artigo, obrigada. Não sabia, mas confirmo que sou "biofílica"! :)

    Tiago: Fazes bem em esperar por depois da Meia, para não dispersares treinos. Eu agora sinto-me assim... Por isso acho que também já só me torno a inscrever noutro depois de 24 de Março. Vais ver que depois não queres outra coisa! ;) Beijinhos

    Joana: True! Isto dos braços e costelas é que realmente... :) Beijinhos

    V: Um "bom" relato é subjectivo, mas obrigada. :) Ainda não li muitos resumos desta prova, fora das críticas no fb... Gostava de ver mais perspectivas... Beijinhos

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  7. João: É verdade, braços e costas! No meu caso, especialmente os ombros (?). Por isso é que acho que tem muito a ver com a postura, que tem de ir sendo trabalhada. O facto de não me doer as pernas pode ter tido a ver com o valente duche de água gelada que levaram, mesmo para prevenir! :)
    Como já aprendi hoje, acho que tenho aquilo que se chama "biofilia"... ;) Beijinhos

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  8. Grande lição de vida, quando se cai, toca a levantar para continuar, ainda com mais ânimo desta vez! Mas não esquecer de verificar se alguém viu a queda ou não :p
    Beijinho*

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  9. Em grande Rute...parabéns pelo relato e pela prova. Mais uma experiência e um bom treino. Pena as falhas da organização, mas esperemos que aprendam com os erros. Gosto de ver que estás motivada. Já vi, que tal como eu, apanhas-te o "virus do Trail".
    Beijinhos e boa semana

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  10. Grande aventura essa, felizmente que acabou por correr tudo bem.

    Estou a pensar fazer o chamado mini trail de Sesimbra (20Km nao me parece muito mini lol) em Abril, mas o que te aconteceu nesse com a falta de fitas e desorientação é sempre o meu medo nas provas de Trail.

    Boa Recuperação.

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  11. Apesar dos contratempos percebe-se que foi um desafio interessante e uma experiência diferente. Embora uma pessoa andar meio perdida possa ser um pouco assustador se não tivermos ninguém por perto.
    Beijinhos e boas corridas.

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  12. Parabéns , foi uma "bela" aventura...

    ...e ainda bem que não te magoaste, mais uma experiência de saber feito ! (até nos tombos) :D

    boa continuação...
    bons treinos...
    e boas provas...

    ajB

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  13. Lady V: Eheh.. :) A lição está no levantar sempre. ;) Beijinhos

    Carlos: Obrigada. Foi outra experiência, nem sempre corre tudo a 100%, mas faz parte. Beijinhos

    João: Nessa prova terão de ter mais atenção, já que é de outra envergadura. Imagina o pessoa do Mini e do Ultra perdidos pelos montes de Sesimbra! :) Acredita, o pior não é o serem 20km , é a elevação!! Beijinhos e bons treinos

    Isa: Sim, quem fica mais para o fim, se não tiver companhia, anda ali uns tempos isolado... Tudo bem, desde que esteja o caminho bem assinalado. Beijinhos

    ajb: Também há que aprender a cair... ;) Mas aqui foi sorte, com mistura de terreno fofo. :) Havia por lá muitos buracos e tubos..
    .. para quem fosse mais lançado era bem perigoso. Beijinhos e boa semana...

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  14. Olá menina,
    Desde os tempos em que ia para a serra de Sintra, e ainda vou ás vezes, andar de bicicleta, pensava que era muito interessante fazer alguns daqueles percursos que a serra tem a correr. Não sou muito adepto das descidas(falando de bicicletas), sou sim das subidas (mas quem sobe também desce não é verdade?)e aquela zona tem, como deves ter visto na corrida do fim da europa, zonas fantásticas para o trail.
    O único problema é que para ir correr tenho que levar o carro (que não gosto muito), o que não acontece com a bicicleta que posso logo ir de casa.
    Claro que nesta altura estou mais virado para a estrada, que não me agrada totalmente pois o impacto que tem nas pernas é alguma coisa a ter em conta, no "monte" sempre temos zonas que absorvem os impactos, por vezes ainda bem. Depois do meu "objectivo" concluído fica um espaço em que ainda não sei como o vou preencher. Gostava de baixar dos 45 aos 10K, incentivar os meus filhos a fazer uma meia maratona comigo, bom, existem muitas possibilidade em aberto, uma delas será certamente experimentar uma prova deste tipo. No ano passado andei a ver a prova "entre serra e mar" mas as inscrições já estavam esgotas. bom, mas quando lá chegar logo vejo.
    resta-me dar-te os parabéns pela prova,as quedas também fazem parte desde que não fiquemos magoados, claro.
    Bons treinos para a meia, já falta pouco.
    Manuel Nunes

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  15. Manuel: A ideia de fazer uma Meia com os filhos era engraçada! Em Outubro depois tem a Corrida do Monge, aí para os lados de Sintra. Mas não sei se calha muito perto da Maratona... O importante é encontrar novos pontos de motivação. Obrigada e bons treinos.

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  16. Parabéns pela prova. Trail run é para poucos e você mandou super bem!!
    Adorei os seus registros fotográficos.

    beijos e bons km's!!

    Helena
    correndodebemcomavida.blogspot.com.br

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  17. Helena: Obrigada. Bons kms para ti também! :) Beijos

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  18. essas provas em trilhas pra mim são sempre um desafio! e dos bons! gosto disso, de usar as pernas, e os braços, e da tensão nos trechos mais técnicos! parece que é tudo mais intenso quando corremos nas trilhas, incluindo aí a intensidade do medo de cair e os próprios tombos:)

    mas pra ser divertido mesmo, acho que a prova tem que estar bem sinalizada! que não tem graça nenhuma a gente ficar tentando adivinhar se está ou não no caminho certo:)

    beijinhos!

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  19. Elis: É isso mesmo, o desafio é maior e a recompensa também. Além de que a paisagem é quase sempre melhor que nas provas de estrada. Esta prova foi uma mistura de trail com orientação. :) Beijos

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  20. Olá, foi tal e qual, o que me leva a entender é que entregaram a organização ao sr. professor de educação física daquela escola e ele pensou (sem qualquer maldade) que a prova era apenas um belo encontro de "trailistas", que desejavam apenas passar uma boa manhã de domingo a correr por montes e vales, mas esqueceu-se que não é bem assim, muitos vieram de longe a gastar dinheiro em viagens e levam as provas a sério. Esperemos que melhorem, cumpram o prometido e que o Trail de Arruda dos Vinhos seja um bom trail. Vou dar o benefício da dúvida e participar nessa prova. Belo texto!

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  21. João: Olá. Tenho pouca experiência em trilhos e foi a minha primeira prova através da CDTN, por isso não sei qual a experiência deles nestas provas mas, por comparação, 2 semanas antes tinha estado no Trail de Bucelas, 1º evento, e a Organização esteve impecável. Para além da falta de sinalização, não saber onde termina a prova nem haver controlo nenhum de qualquer espécie achei estranho... É como diz, parecia uma manhã de convívio de corrida pelos montes, e não uma prova! Espero que a experiência em Arruda já seja melhor! Obrigada pelo comentário, boas corridas.

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