19 de março de 2013

Medo e amor

 
Hoje foi o meu último exame. Tudo normal. E então, para festejar, fui correr até à beira-rio.
 
 
 
 
Não foi uma corrida particularmente rápida, nem longa (6km), mas foi uma corrida livre. Livre das preocupações e do medo dos últimos dias. Do medo que é inflamado pelos nossos fantasmas e que nos pesa ao ponto de nos tirar o ar. Do medo que nos paralisa e tira o prazer dos pequenos passos. Do medo que nos faz temer coisas que não estão lá.
 
Ainda não estou em forma de corrida. Os medicamentos, que tenho de tomar durante 2 semanas, dão-me sono e moleza, mas, ao menos, na minha cabeça começo a ter paz, o resto do corpo há-de acompanhar.
 
Esta foi a parte do medo.
 
Agora a parte do amor.
 
Hoje, perfeito como qualquer outro dia seria, é dia para homenagear aquele que estava lá quando comecei a andar e quando comecei a correr também. (Estava lá, e continuar a estar, em muitas outras situações, mas quero manter-me no tema.)
 
Sempre me lembro de ver o meu Pai correr, não o conheço de outra forma. O Pai Que Corre faz parte do meu Pai desde que, pequenina, a minha mãe às vezes me levava a vê-lo nas provas. Lembro-me em especial de uma Meia Maratona, na Nazaré, em que ele participou. Eu deveria ser muito nova, porque o meu irmão ainda não tinha nascido e eu olhava cá de baixo para a minha Mãe, tão grande lá em cima (hoje em dia é a minha pequenina de metro e meio). Nesse dia, passei a manhã na praia, a brincar com a minha Mãe. Quando o meu Pai terminou a prova, foi ter connosco, pegou-me e levou-me com ele a saltar as ondas. Na altura, não sabia, nem me importava, que ele tinha batido o seu recorde na distância, mas ele estava feliz e levou-me a saltar as ondas. E criou esta imagem, com som das minhas gargalhadas de criança, de que ainda me lembro.
 
Por ter memórias tão felizes, assim que abriu um Grupo Desportivo no meu antigo bairro, quis inscrever-me (isso e o facto de todos os meus amigos andarem lá também). Tinha 6 anos, e passei a acompanhar o meu Pai nas provas, desta vez, como "atleta"! E ele esteve lá, na minha primeira corrida, de 500 ou 750 metros, a acompanhar-me de longe, com medo que desistisse. Não só não desisti, como nunca mais parei.
 
Quer dizer, parei. Parei durante muitos anos, quando o Grupo Desportivo fechou e depois entrei na adolescência, e depois veio a faculdade, primeiro emprego... Desculpas.
O meu Pai não parou. Já não participava em provas, devido a uma lesão que lhe deu cabo do joelho, mas, de vez em quando, lá saía para ir dar a sua corrida. Sempre foi o seu tempo feliz, das gargalhadas da memória.
 
Por isso, quando há cerca de ano e meio lhe disse que ia começar a correr outra vez, ele estava lá e percebeu. Correu comigo os meus primeiros 10km e, alguns meses depois, acompanhou-me durante parte da minha primeira Meia Maratona.
 
Espero ainda contar contigo durante muitas corridas e "corridas". Obrigada, Pai.
 


14 comentários:

  1. Ainda bem que já estás melhor! :)
    Agora vais ver que voltas rapidamente aos treinos habituais e vais poder desfrutar da melhor forma da tua segunda meia-maratona.
    Beijinhos e vemo-nos domingo!

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  2. É curioso como os nossos papás são sempre o nosso abrigo, não é? Hoje desmaiei (outra vez!) dentro da cirurgia (já sou famosa por isso, raios!) e mal saí do bloco a primeira coisa que me apeteceu (e que fiz) foi ligar ao meu pai para ele me dar mimos. Mesmo tendo ali o Pedro e os meus amigos, não há nada tão bom como o mimo do papá, o mesmo que só me chateia quando estou em casa a dizer que nunca estudo, o mesmo que me diz que o meu quarto é uma balda e o mesmo que me diz sempre que nunca gasto dinheiro nenhum da conta e que me pergunta se ando a comer direito. Não há nada como o papá, e espero que conserves o teu (e eu o meu!) durante muitos muitos anos :)

    Ainda bem que já te sentes melhor :)

    Beijinhos! :)

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  3. Boas notícias, portanto :)

    Parabéns ao senhor seu pai, que tem uma filha com um dom para a escrita que sim senhor... :)

    Bjs

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  4. Bonito e sentido texto.

    Tens que voltar à Nazaré mas agora como atleta. É uma Meia imperdível. É a "Mãe" da Corrida para Todos em Portugal. Correr lá é fazer parte da história.
    E uma vez indo lá, não se quer deixar de voltar.

    Beijinhos e tudo de bom. Põe o medo de lado e deixa o teu amor pelas corridas vencer



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  5. Isa: Na melhor forma não sei, mas mais serena espero estar! Beijinhos e até lá.

    Joana: Desmaiaste??! Então? Espero que já estejas melhor. Pai é sempre a primeira referência de pilar que temos (se tivermos sorte), por isso é normal esse abrigo. Beijinhos e obrigada pela força!

    Bluseboy: Obrigada! :) Melhores notícias, sim... mas vou com calma! Beijinhos e boa semana.

    João: Talvez lá vá correr em breve. O meu Pai pode ir também e esperar na praia com a minha mãe. Só que depois não o pego ao colo para saltarmos as ondas! ahah :) Ele ainda está lá (o medo), mas abafado. O amor está sempre. Beijinhos

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  6. Excelentes noticias, fico contente por estar tudo bem contigo - isso é o mais importante, perder os receios completamente e voltar a estar em forma é num instantinho.
    Parabéns ao teu pai...bela história a vossa...gostei muito..
    Beijinhos e bom regresso às nossas corridas

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  7. Lindo, este post.
    São estas memórias que quero ajudar a criar para a minha filha.
    O pai é um atleta nato, desde sempre.
    Eu comecei a gostar de correr em 2010, mas parei, engravidei e estou 'mortinha' por voltar a correr. A miúda, de 4 anos, já se entusiasma com as corridas dos pais e até já pergunta, quando lhe damos ténis novos: «Estes são para eu ir correr contigo?» :)

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  8. Carlos: Um dia a tua filha também se vai lembrar de ti assim... :) Beijinhos

    LGG: :) Obrigada. Com 4 anos, se forem momentos felizes, ela vai lembrar-se de certeza! Bom regresso às corridas.

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  9. Hola ;))

    Grande Homenagem ao pai, sem duvida que terá ficado orgulhoso.

    li o texto por mais que uma vez e há tantas semelhanças, como gostaria de poder dizer ao meu pai o quanto me sinto feliz por ele me ter ensinado e apoiado em tudo. os primeiros passos e as primeiras corridas foram tambem com ele..

    bj
    e as melhoras da nossa atleta

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  10. Ainda bem que os exames não mostraram nada de mal. Agora é voltar calmamente aos treinos.
    Quando falas da família, a tua escrita ainda fica melhor. Ainda me lembro do texto sobre o teu irmão.

    Beijinhos e até domingo na ponte.

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  11. Jorge: Hola! :) Não é preciso dizer, eles sabem sempre... Obrigada, beijinhos.

    V: Já não há muitos treinos a fazer, mas espero que ao menos dê para que a 1/2 seja uma experiência boa.
    Deve ser o amor que inspira a escrita! :)
    Beijinhos

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  12. Isso são boas notícias. Adorei ler a tua homenagem ao teu pai, repleto de boas recordações. Beijo

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  13. Que linda homenagem ao teu pai! Ele estará mais que orgulhoso destas palavras! Bem verdade que foi ele que provocou em ti todas estas belas recordações.

    A vida é feita de momentos, daí ser importante a cada dia que passa tentarmos ter essa atenção, não viver por viver... viver com emoção e intensidade!

    Muitos beijinhos lindona e continua assim! Espero que o teu pai te acompanhe por muitos e longos anos!

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  14. Sweet: Sim, finalmente! Obrigada, beijo grande.

    Alex: Muitas vezes são os pequenos momentos, à primeira vista insignificantes, que ficam e que nos lembramos mais. Obrigada. Beijinhos grandes.

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