26 de abril de 2013

Corrida da Liberdade

Ontem participei na Corrida da Liberdade, a prova com um dos nomes mais bonitos do calendário de atletismo, mas a minha disposição não estava de acordo com o espírito de festa que o evento exige. Ainda considerei não ir, mas como era uma corrida em que iria ter a companhia do meu pai e, a última vez em que isso era para acontecer, resultou em DNS, achei que não podia fazer essa desfeita. Além disso, um bocadinho de endorfinas nunca poderia piorar a situação, pelo contrário. Por isso lá fomos, em jeito de celebração antecipada do aniversário do progenitor. Sim, nós celebramos mais um ano de vida, a correr, é uma antiga tradição familiar (começou este ano).

Mesmo que não queiramos, é impossível não nos deixarmos contagiar pelo ambiente expectante e animado que antecede sempre uma prova. Vemos amigos, pessoas conhecidas, as fotografias compõem-se de sorrisos e t-shirts coloridas e, no ar, por entre o cheiro mentolado dos cremes musculares, levantava-se ontem também o cheiro dos cravos. Vermelhos, como não podia deixar de ser. Eu estou lá, mas a minha cabeça perde-se por outros sítios e revoluções.

Depois de uma corrida contra o relógio na fila para a casa-de-banho das senhoras, acabo, a dois minutos da prova começar, num local completamente novo para mim: os primeiros lugares na linha da partida. Tentei chegar-me o mais para trás possível, mas o aperto entre as pessoas já era tanto que optei por encostar-me às grades e rezar para que não fosse atropelada pela frente corredora em debandada.

Ouve-se a sirene de partida às 10h30 e, apesar de alguns atropelos iniciais, saímos do Quartel da Pontinha e rapidamente estabilizámos num ritmo confortável. Ou, pelo menos, a ideia era ser um ritmo confortável, mas esse conceito é diferente para o meu pai e quase apanhei um susto quando olhei para o relógio ao passar do km1. Disse ao meu pai para seguir confortavelmente na frente, que eu já o apanhava... (Ele acabou por ter de abrandar a passada durante toda a prova, para não me deixar para trás).

Não tenho grande memória dos primeiros quilómetros, sei que passaram alguns companheiros de corridas por mim, cujos cumprimentos e breves trocas de palavras sempre dão algum alento. Notem que eu disse: "passaram por mim", e não: "passei por eles", é um dos males de começar quase na frente.

Na passagem junto ao grande Estádio de Alvalade houve várias pessoas a apupar... Não sei porquê, já que até tivemos a benesse de uma pequena descida e isso, a meu ver, é motivo de celebração. Esta parte é a que recordo melhor, não por termos passado junto ao grande Estádio de Alvalade, mas porque tive uma pequena quebra. Estava com calor, havia poucas sombras no percurso e a água tardava em aparecer. Na altura, até pensei que, quando surgisse o abastecimento, ia aproveitar para andar um bocadinho, só para verem como estava desmotivada.

Mas, já depois do km6, lá aparece o abastecimento e resolvi não andar. Sei que se o fizesse ia ser pior e então decidi que, se necessário, abrandaria mais o passo. Segui então, pensava eu, mais devagarinho, enquanto intervalava um gole de água com despejar outro bocado pela cabeça abaixo. Durou pouco aquela água, mas como a partir daí passámos a ter mais sombras, achei que ia conseguir aguentar bem até ao fim.
Já em casa, quando vi os dados da prova, fiquei admirada por ver que o meu ritmo não diminuiu por aí além nesta fase do percurso, foi até bastante consistente do início ao fim, mas estes foram os quilómetros em que estive mais consciente do esforço físico, ao contrário da restante prova, em que fui alheada nos meus pensamentos.

Daqui para a frente, os túneis, embora façam mossa, ajudaram a quebrar um bocadinho da monotonia do percurso recto até ao Saldanha, a meta "moral" dos 8km, uma vez que a partir daí seria sempre a descer até à meta real, cerca de 11km, nos Restauradores.

Já na Avenida da Liberdade, não encontrei motivação para um sprint, mas olhei pela segunda vez para o relógio em toda a prova (o que não é normal, já que, desde que tenho o Mr.G., vou dando uma olhadela a cada quilómetro, para ver as variações de ritmo) e reparei que até estava com um bom tempo, para mim, e lá e puxei um pouco mais pelas pernas em direcção à meta, que se via há muito, mas tardava em aparecer mesmo à frente.



Terminei com 01:01:19, para 10,77 km, um ritmo que, no meu caso, até é bom, mas não é isso que levo desta prova. Nesta Corrida da Liberdade, corri presa nos meus pensamentos e desfrutei pouco da festa que é ser livre e poder correr feliz. Só posteriormente percebi como esta corrida acabou por ser boa para mim (são as endorfinas, é o que vos digo).

Além disso, desta vez o meu pai não cumpriu o contrato de amor paternal e terminou à minha frente... Só o desculpei porque, para todos os efeitos, foi a sua corrida de aniversário.

Obrigada a todos os que me deram uma força e peço desculpa se houve alguém a quem não respondi, estava zen (na negativa). Agradeço sobretudo a companhia no pós-meta, aqueles suados minutos na sauna colectiva ao ar livre, que se formou no garrafão, teriam sido mais complicados sem a distração da conversa.

Até à próxima!



19 comentários:

  1. Tenho muita pena que não tenhas podido aproveitar a corrida ao máximo, como costumas fazer :/ Espero que fiques mais animada para a próxima :)

    Beijinhos! :)

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  2. Gosto desses momentos especiais. E nunca é tarde para começar uma nova tradição familiar, certo :)? Beijo

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  3. Grande estádio???!!! Pfff... :)

    Tenho pena de não ter participado. Fica para a próxima.

    PS: Boa "tradição" familiar. Estou tentado a iniciar a mesma cá em casa, com a minha filha (fez 4 anos na semana passada! lol)...
    Ela bem que me pede para ir correr comigo!

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  4. É interessante que a corrida reflecte muito do nosso estado de espirito. Eu já reinei com uma dor de dentes e em cada passada sentia que estava a treinar num lamaçal... Mas são também estes treinos / provas que nos permitem conhecermo-nos melhor (é coisa para durar uma vida, digo eu).

    Mesmo como calor e com a cabeça em dia não, do que li, acjo que parabti. A prova valeu a pena. E isso é uma boa oisa.

    Bjs

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  5. Somos constituídos por emoções e umas levam a palma a outras. Foi o teu caso ontem mas acabando, mesmo assim, por fazeres uma boa prova!

    Beijinhos

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  6. O que interessa é que fizeste a prova. Depois de correr, de certeza que ficaste melhor.

    Beijinhos e até uma próxima.

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  7. Sweet: É verdade, nunca é tarde. ;) Beijos

    Ricardo: Grande estádio, pois claro! Então se o contornares no sentido da subida, ainda vais achar mais! ;) Mais 2 aninhos e já a podes levar a uma corrida pequenina, ela vai gostar. :)

    Bluesboy: É mesmo caso para levar uma vida inteira (ou muitas maratonas!:P) Obrigada, beijinhos.

    João: Engraçado como às vezes o nosso humor influencia a prestação nas formas mais estranhas... Beijinhos

    V: Claro, há dias melhores que outros e as corridas também são uma aprendizagem. Beijinhos

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  8. Não te vi...ou vi-te e não te reconheci... O certo é que acabámos praticamente com o mesmo tempo :)

    E é sempre assim: podemos ir a medo, com pouca vontade, mas no fim, acabamos sempre por pensar e sentir: "Fez-me bem, ainda bem que vim correr!" - é ou não é?

    Beijinho e até breve, espero :)

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  9. Zen ou não-Zen, mesmo que negativo, o importante é que a fizeste e num ritmo bem bom tendo em conta todas as adversidades, principalmente o calor.

    Beijos!!!

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  10. Ana: Sim, até agora ainda não me arrependi de uma corrida. :) Beijinhos e boa Meia, se sempre fores!

    Pedro: Foste dos poucos que não vi. Ainda estive a falar com a Carla. Beijinhos e boa prova amanhã!

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  11. Menina que corre...a cabeça manda muito.
    Neste caso, ainda bem que o teu pai também ia e te sentiste "pressionada" (positivamente) a ir.
    Ficares em casa, também não ia resolver as questões pelas quais não te sentes no "melhor da festa". Assim, sempre deu para "não pensares em nada" (if you know what I mean...)

    Gostei do "tipo de evento: evento especial". Muito especifico!

    Beijinhos e continuação de um bom fds :)

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  12. Lulu: Nada melhor que pôr o corpo sob pressão para limpar a mente... :) "Evento especial" é das opções que podemos seleccionar no Garmin Connect. Ou era isso ou "Corrida" (também muito específico! ;) )

    Beijinhos e bom resto de f-d-s!

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  13. Acho que também uma das pequenas vitórias desse dia foi por teres realmente ido correr com o teu pai :)
    Parabéns pela corrida!
    Beijinho*

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  14. Para quem ia alheada à corrida até foi um bom tempo. Acho que passei por ti, e vi te um pouco cabisbaixa. Melhores dias virão, a corrida ajuda a mente, como pelos vistos, fez... Bons treinos. Beijinhos

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  15. Lady V: É isso mesmo! Obrigada, beijinhos

    Sílvio: Se calhar consegui manter este ritmo porque não ia a controlá-lo... De outra forma acho que teria abrandado com medo de estoirar!
    Para a próxima diz qualquer coisa, não ia com muita atenção.
    Beijinhos, bons treinos

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  16. Como não vi muitas fotos tuas não tinha a certeza se serias tu...

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  17. Só foi pena nos termos desencontrado :(
    Mas tiveste a companhia do teu pai e isso é muito bom.

    Já se sabe que de vez em quando temos corridas menos boas, mas aguentaste-te bem. Parabéns pela força :)

    Beijinhos

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  18. Isa: A seguir a uma menos boa há-de vir uma boa (espero!). :) Beijinhos

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