27 de dezembro de 2013

Trail do Cabo Espichel

Quando eu e o amigo, agora também colega de equipa, Vitor, chegámos a Azoia, bastou pôr um pé fora do carro para ver que também o novo solstício anunciava a sua chegada com uma bela manhã glacial. Por essa razão, eram ainda poucos os atletas que por ali andavam, optando por se resguardar nas instalações do Grupo Desportivo União da Azoia.

O levantamento dos dorsais, em mesas divididas por número, foi rápido e sem incidentes e, sendo ainda cedo para um aquecimento enfrentando o calor ártico que se fazia sentir, aguardámos na sede, onde muita gente aproveitava para beber um café quentinho antes da prova. Devido ao ajuntamento, foi possível encontrar e ficar à conversa com amigos e conhecidos das corridas, entre os quais o Sílvio, que ainda não conhecia pessoalmente.

Apesar de o trail de 30km, no qual o Vitor iria participar, começar às 9h, ou seja, meia hora antes dos meus 15km, resolvi juntar-me a ele no aquecimento e depois ficar a ver partir os atletas do trail longo, ligeiramente (ok, muito) cheia de azia por não poder juntar-me a eles.


Felizmente, o Nuno, que lê aqui este cantinho e que quando falei pela primeira vez da lesão me ajudou com alguns conselhos e sugestões, uma vez que já passou pelo mesmo, encontrou-me nesta altura em que ia começar a sentir pena de mim própria e veio falar comigo. Assim, em vez de ir chorar um bocadinho para o carro (brincadeira!!), ficámos um pouco na conversa, porque se há coisa que une mais as pessoas do que a corrida, é uma lesão semelhante.

Quando, às 09h25, me fui dirigindo para a zona da partida ia um pouco apreensiva. Já tinha tomado a decisão mais sensata, de alterar a inscrição para a distância menor, já tinha decidido nem olhar para o relógio, para não pensar em tempos, e sabia que nos últimos treinos já não tinha sentido dor, mas desde o Trail do Zêzere que não corria tantos quilómetros seguidos, e mesmo nesse dia tinha feito grande parte a andar. Ou seja, a intenção era boa, mas sabia que arriscava sempre um bocado ao juntar-me ao entusiasmo da competição, mesmo sendo um trail. Só faltou benzer-me, ao jeito de um jogador da bola ao entrar em campo, antes de cruzar a linha de partida quase na cauda das dezenas de atletas que tinham ficado para os 15km.

Por acaso a corrida até começou com uma meia volta a um campo de futebol, saindo depois da povoação, sempre a direito, em estrada de terra, até ao Cabo. Na altura não olhei para o relógio e não podia saber, mas fiz os primeiros 3km numa velocidade demasiado elevada, para mim, e para trilhos. É um dos perigos de irmos ali no meio de muita gente, parece sempre que vamos mais devagar. No entanto, estava a correr por intuição e a intuição estava a ser boa.



Como dizia, não parecia que estava a ir "rápido". Fui sempre com a ideia de contenção, de salvaguardar a resistência um bocado perdida, para além de não querer desencadear sinais de alarme do joelho. Como o terreno era praticamente plano e o trajecto sempre a direito, aproveitei para travar com algumas fotos.



Chegando ao Farol temos o primeiro posto de controlo: um rapaz e uma rapariga, com uma maquineta na mão, onde tínhamos de picar o ponto com os nossos chips presos ao dedo, um pouco à semelhança do método utilizado em provas de Orientação, o que achei bastante prático e eficaz.

Passando o Farol, começamos a dirigir-nos para o Santuário de Nossa Senhora da Pedra Mua (ou do Cabo Espichel).



Tendo sido comum até aqui o percurso das duas distâncias, penso que agora havia uma placa que apontava para as arribas, 30km, e para seguir em frente, para os 15km. Aqui senti um baque no coração. Devia ter sido tão gira aquela parte a subir e descer as escarpas...

O que vale é que a passagem por dentro do Santuário foi interessante ao ponto de me distrair do que não podia e aproveitar o que corria.


Pátio interior, com bastante areia.
Caso me tivesse esquecido, estes 200 metros recordaram-me como correr em areia mole não é nada agradável para os músculos.

Saindo  do edifício começamos a descer. Nada de muito técnico, mas o suficiente para achar melhor caminhar.

Sempre se tiram mais umas fotos...



Estava a achar o percurso bastante fácil e até comentei isso com o Nuno, que tornei a encontrar novamente nesta parte. Nada de subidas doidas nem de descidas suicidas, tudo muito acessivelzinho. Só por causa disso, enganámo-nos no caminho a seguir (toma lá emoção), mas apenas umas dezenas de metros, nada de grave.

Suponho que porque, na altura, a atenção estava mais concentrada nesta vista:


do que em olhar para a frente e ver aonde colocar os pés, o que é sempre um erro nestas provas.


Nesta zona começamos a ultrapassar atletas da prova dos 30km, que já se tinham andado a divertir (e cansar) nas arribas. Contavam-se cerca de 8km de prova e não tardava muito para o primeiro abastecimento.


Pela primeira vez numa prova de trail não tinha levado nada comigo. Nem mochila de hidratação nem sequer um cinto com um cantil. Como estava frio e não contava fazer uma prova cansativa, para além de serem "apenas" 15km, achei que não justificava ir carregada. Gostei da experiência de andar a correr livre, sem peso, pelos campos, mas acho que não torno a repetir. Não gosto de ficar dependente dos abastecimentos e senti falta de dar os meus golinhos de água, só para molhar os lábios. É que mesmo com a manhã gelada que estava, cinco minutos depois da prova começar já ia cheia de calor, e isto apenas de t-shirt e corta-vento.

O primeiro (e único, do trail curto) abastecimento, aos 9km:

 

Bebi logo dois copos de água de seguida e aproveitei para comer um bolo-ou-espécie-de-barrinha que eles lá tinham e que era muito bom. Ganhou bastantes fãs.

Daqui para a frente não vou tirar mais fotos pela simples razão de ter começado a ficar cansada. E nem imaginam como fiquei contente por conseguir correr ao ponto de ficar cansada, coisa que já não acontecia há algum tempo! Comecei a sentir as dores musculares, o ardor típico nas coxas e gémeos e dei-lhes as boas-vindas, estas dores são incomparavelmente melhores que as outras. Parecia uma maluquinha feliz por estar a ficar esgotada, até devia ir com um sorriso parvo. Lembro-me de já para o final começarem a surgir mais subidas, daquelas pouco inclinadas mas longas, e eu ir ali a arrastar-me em êxtase, tão lentinha e tão cansada, com música dentro da minha cabeça.

Surge a separação dos 30km, para a esquerda, mas nem pensei nisso, só pensei no caminho que tinha, e tenho, pela frente, sempre em frente. Vejo outros atletas ao fundo, sei que estamos a chegar e, por momentos, distraio-me neste sentimento absorto em que o cansaço e a satisfação comungam tão bem.
Erro crasso.
Nunca nos podemos distrair numa prova de trail.

Quando vejo os outros corredores mais à frente a pararem e a olharem para todos os lados vi logo que já íamos enganados. Algures depois da separação dos percursos e na entrada da localidade ficou algum desvio por tomar. Tivemos de voltar para trás e perguntar a algumas pessoas que passavam o caminho para o GDUAzoia. Valeu-nos mais de meio quilómetro extra no trajecto, mas eventualmente demos outra vez com a sinalização (que estava bem feita, foi mesmo distracção).

Este imprevisto veio cortar um bocadinho o momento beatífico que estava a viver, mas acabei por cortar a meta com 15,5km, cheia de força (como quem diz...). Claro que das primeiras coisas que fiz após chegar foram alongamentos. ;)



Como podem ver pelos dados, foi um trail bastante acessível. Acho até que, se não fosse a actual situação, era um trail passível de ser feito na íntegra a correr, o que é muito raro neste tipo de provas, pelo menos para mim.

Este facto teve a ver com alterações de última hora e negação de licenças, que também acabaram por afectar o T30km, diminuindo o ganho de elevação. Apesar disto, acho que foi uma primeira edição do Trail do Cabo Espichel muito bem conseguida, com nota especialmente positiva para o sistema de chip e controlos de tempo.

A nível pessoal, e preferindo terrenos mais acidentados como já sabem, acabou por ser o trail ideal, aquele de que precisava sem saber. Calminho, relativamente pouca gente, sem muita exigência física, para uma reconciliação esperançada com o meu joelho. Agora é ficar pronta para os próximos!

21 comentários:

  1. Tudo correu bem, e quando assim é, melhor não podia ser :)
    Parabéns por esta prova e pela recuperação.
    Até já andava o pessoal todo a fazer macumbas, por isso essa lesão tinha que desistir de chatear a Menina. Malvada! Fosse chatear alguém não atleta...

    Beijinhos e que tenhas um 2014 o melhor possível! :)

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  2. Que fotografias bonitas, tinhas uma excelente vista a acompanhar o trail!
    Ainda bem que o joelho não te massacrou :)
    Beijinho

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  3. Depois deste bonito relato, julgo que se der será uma das provas a incluir em 2014....

    Continuação de boa recuperação companheira de equipa :D
    Beijinhos

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  4. João: Ainda tenho reservas em dizer que já estou recuperada, mas sem sombra de dúvidas que estou melhor.
    E fiquei com boas lembranças da Azoia. :)
    Beijinhos e bom ano para ti também!

    Lady V: É verdade, vista de balcão para o mar. :) A parte do joelho melhos ainda. Beijinhos

    Piolha: Se fizerem uma 2ª edição é uma prova a conheceres, aconselho. Obrigada!:) Beijinhos

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  5. Olá Rute!
    Não tiveste dores no joelho, isso é muito bom sinal.
    Foi uma 1ªedição bem conseguida, percurso bem sinalizado e bonito.
    Gostei da viagem na tua companhia.

    Um grande ano de 2014 para ti e para os teus!
    (acima de tudo muita saúde)

    Beijinhos

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  6. V: Sim, é bom sinal! :)
    Vamos ver se as dificuldades são ultrapassadas e fazem uma 2ªedição, é um local que merece.
    Obrigada pela boleia!
    Beijinhos e bom ano de 2014

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  7. Ai, ai, ai a menina...não levar mochila por serem "só" 15km. Não pode ser...por acaso este parece ter sido acessível, mas é um erro...pelo menos líquidos, e não custa nada. Por esta vez passa :)
    O mais importante foi que não te doeu o joelho e te sentiste feliz novamente a correr - muito bem.
    Beijinhos e aproveito para te desejar um excelente 2014, cheio de bons kms e nenhumas lesões.

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  8. Qual recuperação, qual não levei mochila por serem apenas 15km, qual não não estava atenta...15,5km!!!Mon Dieu, como foste capaz, oh sacrilégio
    :)
    Por aqui se nota que estavas esgotada, se não de certeza que corrias um Sprintizinho de 500m APENAS para acertos, certo;)?
    Um bom 2014, gostei dos relatos dos teus passeios, prefiro os dos treinos e ainda mais os das provas, bem vinda de volta!:)
    Bjs

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  9. Carlos: Eu ia para um passeio... ;) Por acaso fazia-se bem sem levar água, eu é que preciso de hidratar de 5 em 5 min. :)
    Obrigada!
    Beijinhos e kms saudáveis e felizes para 2014

    jnr: O pior não são os 500m, são os 500...e 30!!! :) Mas as provas são a minha exceção inevitável ao efeito borboleta. ;)
    Vamos ver se é um regresso em força... pelo menos energia (=calorias) para gastar não me falta!
    Bjs e bom ano para ti

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  10. Rute, fiquei mesmo contente por a prova ter corrido bem e ser o que tu precisavas (sem o saber). O teu mapa sempre diz: Tipo de evento: Evento especial. Ele lá sabe!

    Essa parte de se conhecerem em pessoas, quem te acompanha e te dá dicas para a recuperação também é boa :)

    Ah! tu também usas a expressão "cheia de azia"!!! pensei que era só eu e o homem!

    Sempre que fui ao Cabo Espichel apanhei uma ventania descomunal...pelas fotos, o teu dia até parecia estar calminho.

    És assim um bocadinho para a masoquista - "estas dores são incomparavelmente melhores que as outras"...cada qual com a sua pancada, mas isso soa-me a "50 shades of Grey" (mesmo sem nunca ter lido!)AhhhAhh.

    Beijinhos grandes e bom fds!

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  11. Lu: O "evento especial" sou eu que atribuo, acho sempre que "corrida" não é suficiente para descrever estas provas. :)
    Nem imaginas a quantidade de gente que já teve uma lesão semelhante... andavam era por aí escondidos! ;)
    "Cheia de azia", "aziada".. há que dizer as coisas como elas são! eheh :P
    Por acaso não estava muito vento, não. Só umas quantas rajadas geladas.
    São as "50 shades of running".. ;)
    Bjs gds, bom f-d-s!

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  12. Paisagens muito belas! Mesmo do género que eu gosto, serra e mar! A questão da água faz-me a maior das confusões, basta pensar que já tenho pouca para ficar logo em stress!
    Desejo-te um bom ano de 2014 e boas corridas!

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  13. Paulo: É um local bonito, mais um, que conheci a correr. :)
    Sim, por norma também prefiro não ficar dependente de terceiros, porque prefiro ir bebendo aos bocadinhos do que logo 1 ou 2 copos de seguida. Foi um teste. ;)
    Bom ano 2014 para ti e família! Bjs

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  14. ...entre serra e mar a paisagem é sempre muito boa !
    Belas fotos.

    Parabéns pela prova , e principalmente pela recuperação da lesão .

    bons treinos e provas


    Bom ano novo

    ajb

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  15. A: Ainda não quero dizer que já estou "recuperada", mas estou "melhor"... :)
    É um local bonito, mas Sintra é mais! ;)
    Bom ano e kms felizes!

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  16. Ainda bem que o joelho não deu sinais. Tas a planear fazer o Trail de Bucelas em Fevereiro?

    Beijinhos e bom 2014.

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  17. João: Obrigada. Sim! :) Se tudo correr bem (e vai correr!!) ;) Beijinhos e feliz 2014

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  18. Olá Rute,
    Ao jeito de George Lucas, podemos dizer que este foi "O Regresso da Menina" :)
    E que regresso dado que tudo correu bem. Este Trail junto ao mar proporcionou paisagens fantásticas, conforme as tuas fotos mostram.
    Melhor, só mesmo fazendo os 30k. Eles antes de chegarem ao farol desceram quase até ao mar. Deve ter sido brutal.
    Obrigado por mais este excelente relato e desejo que tenhas um Feliz Ano, aliás um Ultra 2014, com muita saúde, treinos e muitos trilhos :)
    Bjs, Nuno
    Ps: Espero que hoje nos Olivais também corra tudo bem.

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  19. Olá Nuno!
    Não fui aos Olivais. Como andava assim não me inscrevi e como este ano o meu pai também não podia ir, não ia ser o mesmo sem ele. Tive pena, mas agora a prioridade é ficar boa.
    Sim, fiquei com pena de não descer e subir as arribas. :)
    Obrigada e muitos kms felizes para 2014!
    Bjs

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  20. Ainda ando a por a leitura em dia, e por isso ainda não tinha tido tempo de vir aqui ao teu cantinho. Também ando numa maré de azar: ainda não estou 100% do meu pé e entretanto juntou-se uma tendinite no ombro (que me deu água pelas barbas!). Mas hoje, já estou quase boa.
    Ao ler este relato lembrei-me do meu trail de Barcelos, também o fiz meia-lesionada e a sensação, posso dizer, não é de todo má porque pelo facto de ir mais devagar e cautelosa acabamos por apreciar as vistas e a envolvente da prova de outra forma.
    Beijinhos e bom ano!

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  21. RBR: Dá para ir com outra calma, mas também nunca se vai 100% segura (eu pelo menos ia com um bocado de receio). Esperemos que 2014 nos seja mais favorável!
    As melhoras, um grande ano te espera! :)
    Beijinhos

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