5 de dezembro de 2013

Treino por trilhos de Sintra #2 - Peninha

 
"Conta-se que, em tempo de D. João III, andava por esta serra uma rapariga muda, pastoreando um rebanho de ovelhas, das quais se extraviou uma. Procurando-a, foi encontrá-la sobre o rochedo, onde, aparecendo-lhe Nossa Senhora, sob a forma de uma formosa menina, lhe deu fala.
Correu o povo ao sítio, e ali se encontrou uma imagem da Virgem, feita de pedra, a qual foi transportada para a ermida de S. Saturnino, que era perto dali.
Três vezes a imagem desapareceu da ermida e apareceu entre os penedos; e foi por isso que o povo se resolveu a construir ali uma pequena capela, que foi feita à custa de esmolas." (...)
Lendas de Sintra - Peninha

Uma das razões pelas quais a Serra de Sintra é tão fascinante, para além da óbvia beleza natural, é todo o misticismo e simbolismo que alberga. Se há local onde seria perfeitamente natural dar de caras com cavaleiros medievais a caminho de uma cruzada, avistar uma fada ou saltar-nos um unicórnio para o caminho, é este. A criança em mim adora isso. Quem é que eu quero enganar, a adulta que sou adora isso. É fácil acreditar em lendas e magia em lugares como este.
Por isso é que faço questão de pesquisar a história por detrás dos locais que escolho para explorar. E o destino deste "treino" (irei manter a designação "treino" porque, apesar de pouco ter corrido, perdi 900 calorias, para verem o empenho com que encarei a caminhada!) foi a Capela de Nossa Senhora da Penha, mais conhecida por Santuário da Peninha.

Lembram-se de no último treino em Sintra, na Pedra Amarela, ter avistado o pico da Peninha?

Parece que é "já ali", não é?... :)

Nessa altura decidi que o próximo treino teria esse local como destino, de preferência efectuando um percurso circular, para não repetir caminho.

O local de partida tornou a ser a Barragem do Rio da Mula mas, desta vez, contornando a barragem pela direita, com a ideia de ir sempre a subir em direcção à Pedra Amarela, que não fica exactamente a caminho mas é local de desvio obrigatório.

Dia e hora: sábado, cerca das 9h.

Passando pela barragem, logo após umas centenas de metros em estradão, bendita a hora em que resolvi perguntar: "onde é que vai dar este atalho por entre as árvores à esquerda?", porque graças a isso a primeira parte do treino acabará por ser feita através de um bonito carreiro no qual atravessámos várias pequenas pontes sobre um curso de água. Se não me engano, é este o conhecido Trilho das Pontes.

Infelizmente, esta é a única foto, e sem grande qualidade,
que tirei nesse local.

Como se trata de um percurso pitoresco ajuda a distrair do facto de estarmos a subir. Mais à frente, torna-se a entrar em estradão e aí não há como enganar, estamos mesmo a subir. Como vos disse na outra vez, começar o treino nesta direcção é logo apanhar com uma subida de mais de 3km. Maravilha.

Como estava frio, e a zona tem muitas sombras, acabou por ser um bom aquecimento.

Fez-se então o desvio até ao Cabeço da Raposa para confirmar se as vistas naquele lado ainda estavam bonitas.

Estavam.

E continuámos.


A partir daqui as coisas vão ser um pouco improvisadas. Tinha-se uma noção do caminho a seguir: "para cima, à esquerda", mas claro que isso é muito fácil de ver no alto de um miradouro de vista desafogada, não tão simples quando estamos embrenhados no meio da serra, com árvores altas e centenárias que nos bloqueiam a orientação.

No entanto, correu tudo bem. De tempos a tempos conseguia-se alcançar um marco orientador e fomo-nos aproximando do objectivo, evitando sempre a estrada, exceptuando algumas centenas de metros. Por azar, nesta parte desliguei o gps sem querer e quando reparei já tinha perdido uns bons quilómetros do percurso, o que posteriormente acabou por resultar naquelas linhas rectas, feias, a cortar o mapa do treino.



Nem imaginam como olhar ali para aquela linha me faz confusão. Quase tanto como terminar um treino sem acertar os quilómetros (18,47 km, que é isso?! :) )

Quando estamos quase a chegar à Peninha passamos pela fonte das Pedras Irmãs. Perto havia um local de merendas e como na altura não sabíamos que o Santuário estava já ali a 600 metros (aventuras sem trajecto gravado no gps dá nisto), aproveitámos para parar para o primeiro abastecimento.

A bela da placa, que só vi depois.

Nunca tinha ouvido falar deste local das Pedras Irmãs, por isso claro que quando cheguei a casa tive de ir pesquisar do que se tratava e porque tinha esse nome.




Bom, não descobri muito quanto à origem do nome, mas descobri que se trata de um local de escalada livre, onde as pessoas se deslocam para trepar as rochas de várias dificuldades.

O que significa que o atalho que queria fazer (antes de ver a placa) tratava-se, de facto, de um caminho válido, ao contrário do que espíritos menos aventureiros disseram...


O que queres dizer com "isto não é nenhum caminho"?...

Em minha defesa, depois daquela última rocha havia mesmo um caminho, que agora nunca saberei onde ia dar. Humpf.

Mas o que interessa é que acabámos por dar com o local que dá nome ao treino, o Santuário da Peninha.



Aqui, nem a ermida nem o palacete podem ser visitados (acho), mas podemos subir até ao topo para ver as vistas, que é sempre o objectivo primordial.


Quem já participou no Grande Prémio Fim da Europa reconhece o local em baixo?


Apesar de estar um dia frio, não estava vento. Ou melhor, não estava vento em mais local nenhum excepto neste, ou não estivéssemos nós com vista para o Guincho e a Roca. Sopravam aquelas rajadas gélidas que nos fazem levar as mãos às orelhas para confirmar se ainda estão no sítio. Por essa razão a visita foi breve, até porque ainda havia muitos quilómetros pela frente, de regresso.

Estávamos mais ou menos com 10km feitos e, como daqui em diante o objectivo era regressar ao local de partida sem repetir percurso, a improvisação atingiu níveis máximos. Tanto que acabámos por ir dar ao Penedo, daquelas zonas residenciais típicas de serra na qual nunca tinha estado e, para ser sincera, nem sabia bem onde estava, só sabia que tinha de continuar a ir "para a direita". Acabou por resultar bem, porque se foi dar a outro daqueles caminhos perdidos de Sintra, cerrado e bonito, onde as árvores rangiam (a sério, apanhei grande susto...) e cogumelos despontavam a meio do percurso.

A certa altura temos de percorrer a berma da estrada, que acabará por nos levar até à zona dos Capuchos (finalmente uma zona conhecida!) que sabíamos não ficar longe da Barragem da Mula.
Infelizmente a visita ao Convento dos Capuchos teve de ficar para outro dia, pelo que ficará tema para uma próxima história destes treinos por Sintra.

Terminou-se assim com 18,5km (ao menos certifiquei-me de acertar ao meio quilómetro) de treino registado, que correspondeu a perto de 21km de treino efectivo. E uma média de 10.22min/km, o que para "caminhada" e um acumulado positivo acima dos 600 metros, não está mau.



Claro que o que fica disto é mais uma bela manhã de sábado frio, em que conheci as pedras que são irmãs e descobri um caminho onde as árvores rangem.

Eu volto.



19 comentários:

  1. E fiquei um pouco mais bem disposto, obrigado.
    É sempre agradável ler os teus relatos e quase, mas quase sempre fico cheio de inveja, da boa.
    Uma das coisas que sempre me atraiu no btt é exactamente isso que escreveste, é por aqui, algures, e lá se vai indo.
    Os Trails me aguardam:).
    Quanto ao tudo o resto...
    I'll be back
    ( espírito natalício, claro)
    PS: CLARO que havia por ali um caminho, só tu é que percebeste???tsssttt

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  2. Rute, em versão mix de atleta, exploradora, aventureira, contempladora.
    Esses treinos devem dar-te um gozo! :)

    Beijinhos e continua assim a divertir-te!

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  3. Fantástico o teu treino, a descrição e as fotos. Só faltou dizer de que tipo eram os cogumelos? Isto tudo que dizer que tás boa do joelho, não é???
    Beijinhos

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  4. jnr: Ahaha, sabes que era para escrever "I'll be back", ao estilo Exterminador, mas depois achei demasiado dramático. ;)
    De nada. :) E a política do "é por ali" também faz parte da experiência!
    Bjs
    PS: Eu sei que visto daqui parece apenas uma parede de rochas rodeada de silvas sem jeito nenhum, mas *era* um caminho. Obrigada por reparares. :)

    João: Dão, é verdade. :) Embora desta vez me tenha sentido limitada... mas melhores dias virão. Beijinhos

    Carlos: Tenho de arranjar daqueles livrinhos de identificação de cogumelos (sim, tal coisa existe...) :) Estamos quase no Natal, fica aqui a dica para o Santa Claus. :)
    Infelizmente ainda não estou a correr. Esta foi apenas uma caminhada intercalada com períodos muito curtos de "experiência". Vou esta semana ver como me sinto.
    Beijinhos

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  5. Sem dúvida que tem vistas bonitas :)

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  6. Não podendo correr muito, estas caminhadas por Sintra são o ideal.
    Grande passeio/treino!
    E grandes fotos!

    Beijinhos

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  7. Lady V: Sim, é verdade. Beijos

    V: É um bocadinho compensação, mas não é a mesma coisa... :( Isto é uma chatice agora.
    Beijinhos

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  8. ...antes de mais , "isso é um caminho" !!
    Eu fiz-lo a descer numa prova nesta zona ! :P

    ...depois essa malta de "espírito menos aventureiro" , são uns tótós do caraças !! :D
    (que me desculpem, mas tem que se chamar pelos nomes) ! :)
    ..., acho que é mais para não ouvir a choradeira e a falta de paciência, que o espírito aventureiro "acalmou" um bocado. :) (preso por ter e por não ter) neste caso "ter pernas ou não" ! :D

    ...e desculpe ser desmancha-prazeres , mas por essa serra , o que não faltam é caminhos , aliás é caminhos por todo o lado , haja pernas e joelhos para saltar , subir , descer e sabe-se lá mais o quê , e achas um "caminho" !!
    É fácil , entras pela mata adentro e tá feito o caminho ! :D , em principio vai dar a algum lado :)


    ...ou seja nesta serra , "Happiness is my default position."


    PS:
    Espectáculo de post , parabéns.
    ...e parabéns pelo treino\caminhada !

    ajb

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  9. Ai, estes teus relatos em Sintra andam a inspirar-me! Ando há que tempos para explorar essa serra, conheço-a (mal) como turista, falta-me a vertente caminheira ou corredora! Será para breve!

    Beijinhos e as melhoras!

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  10. A: Realmente esta malta de espirito menos aventureiro... :) Não é "só caminhos", pode ser um caminho enganador e não levar a lado nenhum. Mas este levava. :P
    "Happiness is my default position é muito bom". :) And true.
    Bjs

    RBR: Vai, é um escape aqui tão perto. Vens de lá como nova. :) Obrigada, beijinhos

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  11. Sintra é aqui tão perto e só lá fui correr em provas.
    Percebe-se que te fez bem lá ires.

    Espero que estejas melhor. Estou a enviar energia positiva :)

    Beijinhos

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  12. Isa: Não está fácil... mas "treinos" assim dão mais força.
    Obrigada. :) Beijinhos

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  13. Hello!

    Fico mais descansada quando dizes "fomos", "vimos", "fizemos"...quer dizer que levas companhia e a tua mãe fica assim mais aliviada (e eu também).
    Mesmo no anda/corre, parece que fazes o percurso com uma "perna às costas"...(ou com um "joelho" às costas :))

    O cenário parece-me brutal, mas ideia que fico sempre que vou para esses lados, é de ventania descomunal!

    Continua a ser intuitiva nos caminhas que escolhes. Acerta-se um dia e erra-se no outro. Faz parte do percurso!...pelo menos numa prova não oficial, não importa quando isso acontece :)

    Beijos e bom f-d-s!
    Enviei mensagem fb. Viste?

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  14. Lu: Olá! É verdade, em Sintra tem sempre de ser com companhia, não conheço bem e não arrisco. E sozinha fico mais limitada na escolha do percurso, porque não posso ir assim por qualquer atalho à aventura (bom, com companhia às vezes também não...) :)
    Desta vez estava o tempo muito agradável (excepto lá nos cumes), ias gostar do passeio.
    Vi a msg, estava à espera do f-d-s para responder com mais calma. :)
    Beijinhos grandes

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  15. Ok... muito bom :) Estás lá muito perto. Chegaste a ir a esta igrejinha antiga? (ver 3ª e 4ª fotos a partir do final)

    http://www.gaitadefoles.net/fotos/livroroque/index.html

    Uma zona sagrada sem dúvida.

    Até aos anos 60 faziam cirios com gaiteiro, dando 3 voltas à igreja.

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  16. Zémi: As fotos do Guincho e do Cabo da Rocha foram tiradas no final do caminho que se vê na 5ª foto a contar do fim. Passa-se por essa igreja que, supostamente, será a da lenda, mas confesso que não espreitei lá para dentro. Não me digas que perdi algum tesouro misterioso de história e lendas! Volto já lá. :)
    PS: Adoro a sonoridade da gaita-de-foles, devo ter antepassados escoceses... ;)

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  17. Fiz esse percurso em 2012 , ate publiquei no meu blog. O maximo que ja fiz, foi da vila de sintra ate a praia do guincho. Levou 9horas ida e volta = )

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  18. Mas foi a andar... ihihihih correr nao e a minha praia.

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  19. raparigamoderna: 9h de passeio, bem bom! Podes não ir a correr mas é um belo exercício, numa zona linda. :) Bjs

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