24 de janeiro de 2014

Rocky ou Como a inspiração vem dos mais diferentes sítios

Imbuída de espírito saudosista, há coisa de umas semanas assisti à reposição de todos os filmes da saga Rocky, que passaram no canal Hollywood.
Como criança dos anos oitenta, lembro-me de crescer com estes filmes. Para ser sincera, boxe nunca foi um desporto de eleição para mim; ver dois fulanos à pancada não era coisa que me atraísse na altura, e continua a não ser. Mas há uma cena em particular que sempre me ficou na memória e que, estes anos todos depois, apreciei com outro entendimento. É que o Rocky, para além de dar socos e ganchos de esquerda, também gostava do seu exercício de cárdio.

Quem não se lembra da famosa cena em que ele sobe a correr as escadas do Museu de Arte de Filadélfia, festejando ao chegar ao topo, de braços no ar, quase em apoteose, depois de percorrer as ruas do bairro, de sorriso no rosto, saudado por amigos e vizinhos?

Pois, eu também me lembro, mas não é dessa cena que estou a falar.

Refiro-me aos seus primeiros passos, ao início do treino, o dia em que, pela primeira vez, resolve pôr o despertador para as quatro da manhã e sair para treinar.

(Aqui fica a cena, para quem não se lembrar ou nunca tiver visto.)

Na altura, aos meus olhos de criança, esta cena tinha algo de poético. Acordar ainda de noite, engolir um batido de cinco ovos crus, (arrotar), vestir-se, cobrir a cabeça com o capuz e sair para correr as ruas frias e ainda adormecidas da cidade.
Nesta fase, era visível a sua falta de preparação, e o percurso até ao Museu de Arte revela-se um desfile arrastado de esforço, onde a única coisa à espera para o saudar foi uma grande dor de burro ao cimo das escadas. Porém, com o desenrolar da história e dos treinos, vamos assistindo ao claro desenvolvimento da sua forma física. Não interessa que no final do primeiro filme se tenha fartado de levar porrada e perdido contra o Creed, ao fim de 15 rounds bem disputados. O que interessa é que a sua força de vontade o levou a persistir nestes primeiros momentos, em que somos confrontados pela realidade da nossa fraca performance, e deu o seu melhor (e vingou-se no segundo filme).

Mas, como estava a dizer, esta primeira corrida do Rocky na madrugada de Filadélfia foi a que persistiu no meu imaginário de infância. Foi por isso que, mesmo antes de saber que um dia ia amar correr, eu já havia decidido que um dia havia de acordar cedo, calçar uns ténis, puxar o fecho da sweatshirt, subir o capuz, e sair para enfrentar as ruas desertas das manhãs adormecidas. E um dia fi-lo.

Vários anos depois, já o fiz por diversas vezes: acordo cedo (não exageremos com as 4h da manhã, não há necessidade), bebo café (não sou fã de ovos crus) e saio ainda meio a dormir, para treinar antes que o mundo acorde.

Agora, quando tornei a ver o filme, já não me imaginei, mas revi-me particularmente nessa cena. Tal como para quem está a (re)começar, para quem está a recuperar de uma lesão, estes primeiros tempos são difíceis. A confiança fica abalada, o medo de uma recaída está sempre presente, e os pulmões parecem esquecidos do acto de fazer circular o ar de forma eficiente e ritmada, em movimento. Mas continuei a sair para enfrentar as ruas escuras, não da madrugada mas do final do dia, e de capuz posto, porque tem estado de chuva. Temos que estar bem preparados para quando formos chamados ao ringue (há quem lhes chame de "provas").

Por coincidência, o meu percurso habitual de treino também inclui uma escadaria. Não é nenhuma escadaria histórica imponente (na verdade, são umas quantas dezenas de escadas de uma estação velha), mas também sei o desafio que sempre foram. Para manter o paralelismo, são as minhas escadas do Museu de Arte de Filadélfia e servem como validação do meu esforço.
Quando mudei de casa e começaram a fazer parte do meu trajecto, apesar de na altura já correr com regularidade, a ideia de as incluir no final do treino era demasiado assoberbante e preferia contorná-las, fazendo umas centenas de metros extra. Depois, perdi o medo (e a paciência) e decidi enfrentá-las e subi-las a caminhar, o que não deixava de ser um desafio acrescentado para os músculos depois de uns quilómetros em cima. Ao fim de algum tempo, e dependendo do cansaço, já conseguia subi-las sem parar. Eram a minha bitola evolutiva. E agora, devido às circunstâncias, já não lhes punha os ténis em cima desde o ano passado.

Por isso fiquei muito feliz quando, na quarta-feira, depois de várias semanas, pela primeira vez depois da lesão e pela primeira vez desde que arrisquei começar novamente a incluir este marco no meu percurso, cheguei ao fim do treino e consegui subi-las sem a ameaça de dor ou, pior, de um piripaque.




Podem crer que também fiz a minha dança da vitória quando cheguei ao cimo. (Ninguém estava a ver.)


23 comentários:

  1. Ainda vai surgir o vídeo ;)
    Fico feliz com a recuperação e com o regresso.. Ainda que sempre com algum receio, mas é igual em todos!
    Até uma prova qualquer :)

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  2. Desculpa mas não consegui evitar imaginar-te a dar um belo arroto depois do pequeno-almoço. ;)
    Também sou fã do Rocky Balboa. Já vi todos os filmes várias vezes e em todas elas fiquei preso ao ecrã.
    Força com esses treinos e tenta não interiorizar o Rocky ao ponto de começares a gritar "ADRIEN!!!". :D

    Beijos!

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  3. Nunca vi nenhum filme do Rocky, mas julgo que pelo menos um deles está na lista dos 250 melhores filmes do IMDb, por isso eventualmente lá terá de ser ;) Muitos parabéns por teres conseguido subir a escadaria, estou a festejar mentalmente por ti (fisicamente não posso, estou num simpósio com umas largas dezenas de pessoas) ;)

    Beijinhos e bom fim-de-semana ;)

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  4. Nainho: Hoje em dia há que reparar bem em quem está à nossa volta, nunca se sabe o que pode ir parar ao youtube... ;)
    Sabes bem como é esta lesão (infelizmente), é chata comumraio e demora a ir-se. Basta sentir aquele "roçar" fico logo a pensar o pior.
    Espero que nos tornemos a cruzar antes de Arga, era bom sinal! :) Bjs

    Pedro: Pois tá claro que arroto, mas por acaso não muito ao pequeno-almoço... Se calhar porque não começo o dia com aquele batido proteico de qualidade. ;)
    Como não sou a maior fã do Balboa, é mais provável que, caso leve um porradão em alguma prova, choramingue antes pela minha Mãe... :)
    Beijos p/2!

    Joana: Olá! Tens de ver o primeiro da saga, é o mínimo. ;)
    Ai é isso que se faz num simpósio? Ler blogues?... Sim senhora, muito me contas! :)
    Beijinhos

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  5. ueres levantar cedo para ir treinar? Aconselho os Esquilos em Monsanto, todos os dias da semana (às vezes também ao fim de semana também) às 6h até às 7h, dá para treinar, tomar banho, tomar o(s) pequeno(s) almoço(s) e de seguida iniciar a jornada de trabalho com o sentimento de dever cumprido por já ter treinado.

    Bons treinos

    Beijinhos

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  6. Fico feliz que estejas a melhorar.
    E fazes muito bem em festejar! A vida é para ser celebrada e estes momentos podem parecer banais mas não o são. A lesão está a ir-se embora. Xô lesão!!!! =P
    Beijinhos

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  7. Sílvio: Gosto disso e é uma bela forma de começar o dia, é verdade. O problema é que a essa hora ainda é de noite e, para além de não ter um frontal decente, não tenho companhia, e quer-me parecer que isso são tudo esquilos de raça speedy... ;) Bons treinos, beijinhos.

    Isa: Temos de celebrar estas pequenas vitórias, para animar a viagem. :) Obrigada, beijinhos!

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  8. Xiiii...já nem me lembrava disto...mas olha que tb me revejo na cena (tb tenho uma cueca azul daquelas :P)
    Tás de volta...fico contente. Força nessas tuas escadas. Beijinhos

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  9. Carlos: Teres uma cueca azul daquelas não sei se abona a teu favor... lol :) Nos anos 80 era perdoável, agora não. :P
    Obrigada, beijinhos.

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  10. Eu apadrinho a tua estreia nos esquilos num dia suave e arranjo um frontal. Já não há desculpa... :p

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  11. Eu uso calções pretos...por isso... mas tenho uma certa musica na playlist...
    Mas sim, o Rocky tem muitos momentos interessantes e o boxe nem faz parte( para mim) mas a superação de si próprio é o que o torna um "marco no cinema".
    Mas...já disse que tenho uma certa musica na playlist? ;

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  12. Sílvio: Dia suave é o quê??! Lol Me-do... :) Mas olha, é um caso a pensar!

    jnr: A certa música será o "Eye of the Tiger?"... :)

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  13. Também não gosto de filmes de "porrada" xD Mete-me um bocado de impressão... Não há nada melhor para celebrar, do que a dança da vitória ahaha

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  14. Dia suave 5/6km numa hora. Há uma particularidade nos esquilos, ninguém fica para trás.

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  15. Como irmã cassula que sou e também eu dos anos 80 tal como o mano, foi inevitável não ser levada pelo rocky (ou melhor quase obrigada). A parte que sempre me repugnava na altura eram os ovos. Aquilo dava-me umas voltas ao estômago ahahha Hoje apenas vejo a parte de na altura não haver ténis especializados para pronadores, neutros, bla bla... não havia roupas todas especializadas... e no entanto quando se tinha mesmo vontade fazia-se :)

    Por vezes também me dá vontade de fazer essa cena á Rocky!! :D ehehehe

    E parabéns ppor mais um passo na recuperação da lesão :D
    Não vejo a hora de poder ler aqui um grande trail feito á maneira por ti!!!

    Força !! Bons treinos.
    Beijinhos

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  16. Fizeste uma dança de vitória e acrescentaste que ninguém estava a ver. E se estivessem? Não há nada como libertarmos as nossas emoções independentemente do que os outros possam pensar pois... nada têm a ver com isso.

    E o teres deixado de lado a lesão, é motivo de dança da vitória para todos nós.
    Até eu, que sou o pior dançarino do mundo, vou agora fazer uma.

    Trás, pás!
    (caí... mas estou feliz por ti!)

    Beijinhos

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  17. Lady V: Quando terminam os combates com as caras todas rebentadas... eu também questiono sempre mas que raio de desporto! :)
    Toda a gente tem a sua dança da vitória. ;)
    Beijinhos

    Sílvio: Ah, assim é acessível!

    Piolha: Reparaste que ele corre com uns All Star?? Aquilo até para caminhar é mau! :) Mas pronto, corria com o que tinha (e com aquilo que pagava pela publicidade...;))
    Hoje já há outros batidos de proteínas, mas muita gente bebia ovos crus... A mim também me faz impressão.
    Obrigada, espero para a semana já fazer por aqui um relato. :)
    Beijinhos

    João: Ahaha! Não tem mal verem, mas neste caso não viram. ;) Cuidado com esses saltos, olha Sevilha!!! :P
    Beijinhos, obrigada.

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  18. Gosto bastante da cena que mostras aqui, um dia destes tenho que me levantar cedo e correr quando ainda está escuro e não há ninguém nas ruas.

    Beijinhos

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  19. V: Dá mesmo vontade, não dá? Custa é muito! :)
    Beijinhos

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  20. Anónimo28/1/14

    ...mas que contradições que para aqui vão !!

    ..."inspiraste", em Rocky Balboa , e depois gozares com o homem , não se faz !

    ...não gostares de pugilismo, e "reveres-te", no treino madrugador, subir escadarias, e já não falo na dança , é um escândalo !

    ...e não me alongo mais, porque eu gosto de boxe , e acabava tudo á murraça ! :P



    Parabéns , pela dança (de certeza que alguem filmou e espetou no youTube) ;)

    , parabéns pelo regresso á escadaria e principalmente por venceres esse medo e a confiança estar de volta ! :D

    Muita força...
    Bons treinos e boas provas.
    ajb

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  21. A.(de Anónimo): Não há contradição nenhuma. Não gosto de boxe, mas gosto de correr, e gosto de ver a corrida do Balboa. :) E não "gozo" com o homem, apenas com a indumentária, mas eram outros tempos, todos fizemos más escolhas de moda nos anos 80/90. ;)
    Espero continuar a fazer muitas danças destas (àquela hora há pouca gente por ali, não há problema) :)

    Obrigada...
    Bons treinos e boas provas.

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