4 de fevereiro de 2014

Trail de Bucelas

Estaco à beira da encosta, a observar o cenário desolador. Caso restassem dúvidas quanto à placa a informar de "Perigo", as mesmas são desfeitas pelo aviso do rapaz da organização - "Atenção aos próximos 100 metros, o terreno está muito perigoso". Ok. A mim parece-me um imenso escorrega de lama, daquela lama acinzentada, muito líquida. Olho para os meus ténis já com 2kgs extra de terra e erva agarrados à sola.  Duvido. Considero sentar-me e descer de sku. Considero descalçar-me. Considero benzer-me. Não faço nada disso. Confio. Aqui vou eu(uuuuu...)!

A zona da Partida, vista do Controle 0.

No Trail de Bucelas descobri que lama não é apenas lama. Ou melhor, há diferentes tipos de lama. Lama barrosa, cujos pedaços pegajosos se colam à sola para depois serem chutados em grandes bocados pelo movimento da própria passada. Lama escura, pastosa, que esconde as pedras e oculta irregularidades, pela qual convém passar depressa, sob risco de deixarmos lá um ténis de recordação. Lama cinza, escorregadia, divertida, manhosa (esta confesso que não aprendi a melhor forma de a correr). Lama que cheira muito mal e não queremos saber o que contém... E as poças, que não são nem água nem lama, as minhas preferidas, que são mesmo para pisar e salpicar tudo à volta.

O primeiro quilómetro.

- "Não pises as poças!", oiço a voz da minha Mãe, recuada tantos anos na minha memória. A prova leva pouco mais de um quilómetro e recordo este ralhete habitual nos dias de chuva da minha infância, ao deparar-me com os primeiros obstáculos. Na aproximação de uma zona de vinhas, os corredores começam a formar uma fila indiana, a ziguezaguear por entre as poças, evitando pisá-las, e eu sou uma deles. Rio-me para mim da inutilidade deste adiar o inevitável, mas mesmo assim ainda não consigo tomar a iniciativa de dar o passo que me vai encharcar o calçado e ensopar as meias. Instinto de preservação de desconforto e bolhas ou a voz da minha Mãe que ainda ecoa dentro de mim tantos anos depois?...
- "Ok Mãe, eu não piso as poças... (ainda)".

A primeira subida, ainda com o pelotão muito compacto.

Comecei devagarinho. Sobretudo porque não tive tempo de fazer um aquecimento, e não queria acordar a besta (=lesão da ITB) finalmente adormecida, mas também porque este era o meu treino, não podia ceder ao impulso de acompanhar o ritmo marcado pelos passos do pelotão e desgraçar-me antes de tempo. Sim, que uma pessoa desgraça-se sempre. Depois recupera. Depois desgraça-se outra vez. É a beleza deste tipo de provas e terreno.

Já referi que havia muita lama? É que havia mesmo muita lama. Consegui, com sorte e, deixem-me acreditar, alguma maestria, evitar cair durante os primeiros... hmmm... 5kms, mais coisa menos coisa. Safei-me razoavelmente bem nas subidas, milagrosamente nas descidas, e depois fui dar um real espalho numa recta lamacenta, mas sem dificuldades de maior. Regra nº 1 nos trilhos: Nunca baixar a guarda!
Os corredores que me rodeavam foram simpáticos e atenciosos, não se riram (alto) e asseguraram-se de que estava bem antes de seguirem. Aparte os danos na moral (a queda não foi estilosa, foi mesmo um bate-cu vergonhoso), não tinha nada magoado. Limpei as mãos na relva húmida e segui com as recentes marcas de guerra exibidas em especial pelo lado direito do corpo. Mais para a frente do percurso, serão cada vez mais raros os atletas que não exibem marcas semelhantes, mas estou certa que fui uma das pioneiras. Há que ter orgulho em ser das primeiras em alguma coisa.

À passagem de um túnel.

Bom, nesta fase, a questão do "não querer molhar os pés" já estava mais do que superada e a diversão tinha começado. Já não evitava as poças (desculpa, Mãe!) e até fazia por pisá-las, já que ajudava a limpar os quilos de lama e relva a que os meus Trabuco se agarravam com uma paixão fervorosa. Foi este um dos pontos da nossa discórdia, o facto de se tornarem autênticos skis quando mais precisava da sua tracção, mas já foram perdoados. É que, apesar das muitas ameaças, aquela queda ao km5 foi a única em toda a prova.

Já perto do primeiro abastecimento, cerca do km8, encontro a colega de equipa Carla, que será a minha companhia dali para a frente, tendo ambas evitado, em algum determinado ponto do percurso, a queda uma da outra. Isto é que é o verdadeiro apoio entre corredores!

Mais um túnel.

Nos intervalos da, ou em simultâneo com a lama, tivemos também direito a bonitas paisagens, cujas respectivas subidas vos mostro em seguida, sempre fotografadas do ponto de vista de quem já chegou ao cimo, para efeitos de descanso melhor enquadramento.

Subida longa e morosa.

Curta mas intensa.

Um bocadinho mais comprida mas igualmente intensa.

Eu até costumo ter boa memória quilométrica, mas neste trail em específico, que teve tanta volta, não consigo precisar quando dei por mim à beira da rampa anunciada como "muito perigosa", pela qual comecei esta crónica. Penso que já terá sido depois da separação para os 25km. Sei que desta rampa me lembro eu muito bem:
- Plof
- Splash
- Splash
- Ai meu Deus...
- Plof
- Fshhhhh (qual é a onomatopeia para "escorregar"?)
- Splash
- Foi por pouco!
- Aiiiii
- Catrapum (não foi o meu, foi o de outro atleta)
- Fshhhh
- Até que enfim.
Terra firme.
- Até foi giro.

A determinada altura, um outro corredor que seguia junto a nós pergunta quantos quilómetros faltam. Respondi que faltavam 6km (já??) e, como íamos com pouco mais de 3 horas de prova, questionámo-nos se iríamos conseguir terminar antes das 4horas. (Se 1 hora chegará para fazer 6km é uma pergunta válida no mundo do trail, como vocês sabem.) Não que isso interesse, mas é daquelas coisas inexplicáveis: 3h59 será sempre melhor que 4h00, mesmo que sejamos os últimos ou que os primeiros classificados já tenham terminado há horas e estejam a almoçar de banhinho tomado. Da mesma forma de 4h59 parece sempre melhor que 5h00, e por aí fora. É o minuto vaidoso.

A caminho do último abastecimento, lá no topo pois claro.

Tendo já passado por rampas de 100 metros que levaram bons minutos a descer e feito quilómetros de descidas perigosas a uma velocidade tão cuidadosa e diminuta que nos fazia preferir as subidas (só para verem!), achámos melhor não criar expectativas. Assim, seguimos os três, eu, a Carla, e o rapaz que perguntava os kms, quase sempre juntos até ao final.

A cerca de 2km da Meta eu começava era a ficar preocupada porque nunca mais via o meu rio! Eu sabia que na edição anterior tinha havido uma passagem por uma ribeira e era uma das coisas que mais ansiava neste trail. Acho que perguntámos a todos os voluntários que encontrámos pelo caminho quando é que finalmente podíamos ir lavar os pés à ribeira... Como no Alentejo, a resposta era sempre "é já ali!".

Aqui está ele.

Mesmo antes de regressar à vila, lá fizemos a curta mas muito refrescante travessia do rio. Soube muito bem a água gelada nas pernas, acho que todos os trails deviam incluir uma passagem destas. E veio mesmo a calhar, numa altura em que já começava a acusar algum cansaço. Foi o ânimo que precisava para correr as últimas centenas de metros até à Meta, que cruzei ao lado da Carla. O rapaz que perguntava os kms chegou pouco depois. Todos com o "objectivo" sub-4horas conseguido, mas, principalmente, muito bem passado.


Cheguei à conclusão que nestas provas me podem meter em tudo: água, túneis com água mal-cheirosa, chuva, terreno pedregoso, terreno relvado, terreno rochoso, lama... Encaro como divertimento, um bocadinho masoquista por vezes, é certo, mas divertimento. O meu limite, mental sobretudo, continua mesmo a ser só o calor.
Claro que ainda não testei tudo, por isso, a bem da ciência, vou continuar em experimentação! :)


Obrigada ao apoio dos amigos e conhecidos antes e ao longo da prova, e também pela companhia. Ainda que às vezes por pouco tempo, ajuda sempre. E se conseguiram terminar sem cair: prova mais que superada!

Trail (Mud) de Bucelas, até para o ano!

28 comentários:

  1. Para o ano tenho que ir....
    É que aí é permitido fazer tudo aquilo que desde sempre nos proibiram de fazer ahahah

    Faço uma pequena ideia da cereja no topo do bolo que não foi aquele riozito!!! :D

    Beijinhos

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  2. Se a lama em si já incomoda imagino as trezentas e tais formas de existência de lamas, blaaah :p
    Achie engraçado no percurso haver aquele rio para se atravessar, acho que torna o trail ainda mais desafiante :) E dá para limpar as sapatilhas xD

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  3. Grande Rute...a prova que faltava para provar que tás recuperada :)
    Parabéns!!! Este tipo de condições apimentam as provas...e só um bate cú é pouco :P
    Mais uma vez gostei do texto, só faltou uma coisinha...QUAL É O RAIO DA GRANDE AVENTURA DESTE ANO????? Queres matar o velhinho do coração não é? Deixa-te andar que vais ter muitos amigos, vais vais :)
    Beijinhos

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  4. Rute, se eu fosse contigo, tinha batido recordes de quedas: terreno plano, inclinado, seco, molhado...tudo serve para eu dar um bom espetáculo :) Uma queda em 25km de lama e poças de água não é mau!
    A tua mãe lê as tuas crónicas? Se sim, ela sabe que te esforçaste...mas são "ossos do trail".
    Parabéns pelas -4h e por a lesão não se ter manifestado novamente (não voltou, pois não?!).
    Qual é a tua próxima prova?
    Beijinhos grandes

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  5. Piolha: Devia haver mais travessias de ribeiros, refresca os músculos! :) Vai sim, ali tens desculpa. ;)
    Beijinhos

    Lady V: Para limpar os ténis/sapatilhas :), tinha de ser um rio com o triplo do caudal, limpou muito pouco! ihih :) Lama faz bem à pele.. ;) Beijinhos

    Carlos: Estou "em recuperação"... Um bate-cu foi suficiente! :) Ao menos a lama amorteceu... eheh
    Esse é tema para o próximo post! :P
    Beijinhos

    Lulu: Houve muitas ameaças, só n caí mais porque tive mãos amigas a amparar-me e sorte. :) Neste momento também não te podias pôr nessas aventuras! ;)
    A minha mãe sabe que esta é a sua luta inglória desde sempre... lol
    Hoje tenho outras dores... :) Vamos lá ver a recuperação. Ainda não estou inscrita para nenhuma, mas já vi a tua sugestão!
    Beijinhos grandes

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  6. Gostei muito da introdução para dar o mote.

    Quedas, humilhação, lama, rio, frio... tudo inspirador... o que eu sempre quis

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  7. Zémi: Ahahah! Qualquer semelhança com as praxes é pura coincidência... :P Isto é o trail. ;) Bjs

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  8. Quantos de nós não terão ouvido as vozes das mães?!?! Também me lembrei disso e pensei: "a minha mãe é que me havia de ver aqui!"
    Fizeste uma excelente prova, uma queda é um saldo positivo. Naquele trail quem só caiu uma vez já tem estatuto de 'pró'!
    Boa recuperação!
    Beijinhos

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  9. RBR: "O que dá na cabeça destes miúdos?!" ;)
    Eu acho que saber cair também é uma arte, arte que eu ainda não domino... :)
    Beijinhos

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  10. Foi um grande divertimento, não foi? :)
    Também caí! Mas já foi mesmo no fim, quando pensava que já me tinha safado. Nota mental: nunca festejar antecipadamente!
    Venham mais destas! Com lama e tudo que torna tudo ainda mais divertido.
    Beijinhos e bons treinos.

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  11. Eu era mais a minha avó a instruir-me para não me chafurdar nas poças na aldeia dela. Mis uma desculpa para eu andar de galochas e fato de macaco, armado em tratador de vacas. :D

    Belo percurso. Para o ano, com lama ou sem lama, estou inclinado a ir :)

    Bjs

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  12. Isa: Divertimento e desafio q.b. :) Beijinhos e bons treinos!

    Bluesboy: Inclina-te! Mas vai com calma! ;) Bjs, bons treinos

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  13. Ahh, que Belo sgffffsgggg ( onomatopeia da minha pessoa a limpar o ecran do telelé de lama) relato.
    Devo avisar que até pus a minha melhor playlist a tocar e logo com uma musica que me é tão querida ( "Don't loose your grip...")
    Fico contente por já teres feito as pazes com os Trabucco, afinal SÓ caiste uma vez:)
    Até tê podia dizer que a prática faz a perfeição mas...neste caso é melhor não.
    Pelo teu e outros relatos, com ou sem chuva, pouca ou muita lama, para a ano este Trail é definitivament ( pausa...tenho um cisco de lama de uma cor estranha no olho...e o ecrã todo riscado...), definitivamente um Trail a fazer, sempre posso aplicar a grande experiencia em quedas que tenho...
    Quanto à mega revelação...eu SEI O QUE NÃO É: a Ultra Não é em Torres Novas:), agora se é no Minho...
    Bjs

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  14. O preâmbulo está espectacular! E sim, foi nesse "escorrega" de lama onde fiz o meu "tratamento de beleza".
    Ainda bem que parece que a lesão está debelada!
    Boas corridas! Bjnhs!
    PS-Deixo aqui o mesmo desafio que fiz à Isa: Aparece num treino à "hora do Esquilo" ;)

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  15. jnr: Não sei se sei qual é essa música, mas pela frase parece-me adequada. :) Fui assim tão gráfica nas descrições que te saltou lama para cima? :P
    Vai ao trail, mas vai preparado, leva "calçado" com pitons. :)
    Eu ainda estou indecisa entre 2 provas... Mas, decididamente, NÃO é em Torres Novas e NÃO é no Verão!!! Livra! :)
    Bjs

    Rui: Ninguém se vai esquecer desse escorrega tão cedo! :)
    Se mais gente alinhar gostava de ir. A que dias da semana é? Ou vai variando?
    Bjs, boas corridas

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  16. muito bom! acho que o riacho é para a malta "tirar a maior" :)

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  17. Mais uma vez, parabéns pelo bom tempo.
    Esta prova, foi diferente de todas as que tinha feito, especialmente devido à lama. Só por isso já valeu a pena, foi uma grande experiência.
    Também estava a ver que o rio nunca mais aparecia :)

    Beijinhos

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  18. Ana: É mesmo isso, que a travessia era curta! :)

    V: Lamaçal! :) Nos Abutres não foi assim? Corremos um bocadinho ao lado da Analice e ela contou que em algumas partes, nos Abutres, a lama era ainda mais funda.
    Guardaram o melhor para o fim! ;)
    Beijinhos

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  19. Bom, pus um verso que tinha a ver com a assunto.
    Posso dizer que fizeste um post sobre o ...assunto e que há quem goste de ovos pela manhã e que eu NÃO tenho ido correr de manhã (Shame on me).
    E mais não digo.
    Pitons? Pela descrição nem assim...
    Os teus "artigos" têm sempre as descrições bem vividas;).
    Ainda bem que correu vem e que a tua "besta" aparenta estar noutras paragens. Que tinha ido e que não volte.
    Bjs

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  20. jnr: "...on the dreams of the past"! (ou mud of the present):) Pronto, agora sim, o clássico reconhecido. ;)

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  21. Parabéns pela prova, e ainda bem que a lesão está afastada de vez.

    É lama demais para mim, até porque não tenho sapatilhas de trail pelo que 50% da prova seria em slide.

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  22. Fernando: Sim, mesmo com ténis de trail foi inevitável algum slide. :)
    Obrigada, bons treinos!

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  23. Olá Rute,

    Com o que tem chovido imagino como deves ter apanhado os trilhos.
    O importante é acabar feliz.
    Aos poucos vamos esquecendo os conselhos da nossa mãe :)
    - Agora vai e suja-te.

    boas chafurdices,

    Manuel Nunes

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  24. Olá Manuel,
    Hoje foi outra sessão de "chafurdanço" e, desta vez, nem fiz "obrigada" pela prova, foi em treino mesmo. :) Se não o podes vencer (o tempo), junta-te a ele!
    Bons treinos

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  25. ...que grande relato !
    ...a maneira com escreves e descreves as provas (parece que estamos lá contigo) :P

    obrigado por me mostrares algumas das paisagens que nem tive "tempo" de as ver e apreciar ! :D


    Bela prova que fizeste , parabéns...
    e mesmo com quedas , sem as "lesões" , que é o mais importante !!


    Parabens , CcuM , espectáculo !!

    bjs
    ajb

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  26. Olá A. É o problema de ires com pressa, nem dá para apreciares a paisagem. Pelo menos a paisagem ambiente, os montes, as árvores e assim... :) Até corrias mais contente. :P
    Obrigada.
    Bjs

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  27. Eu vou lá agora na versão de 2015, confesso que estou com expectativa em relação à prova, vamos ver

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    1. A diversão é garantida. O resto também.. :)

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