18 de maio de 2014

Memórias de Verão

Na semana passada, durante um treino, pela primeira vez este ano, cheirou-me a Verão. E digo "cheirou-me a Verão", não porque já estivesse calor, que estava, mas porque me cheirou, literalmente, a Verão.

Já referi por aqui como a música é exímia em despertar-me memórias, na medida em que determinada banda sonora fica associada a determinada fase ou momento da minha vida, mas nesta experiência dos sentidos, o olfacto não lhe fica atrás.

Neste treino em específico, final da tarde, corria eu pelos jardins do costume quando vi que estavam os aspersores de rega ligados. E, em finais de tarde quentes, os aspersores de rega ligados exercem uma atracção irresistível sobre a pessoa que corre. Como devem compreender, claro que corri em direcção aos mesmos, só para poder experienciar aqueles gloriosos segundos de frescura em que as gotas de água e vapor atingem a pele quente.
Foi então que senti aquele aroma, uma mistura de palha húmida e terra seca, daquela que levanta uma nuvem de pó com as passadas. E de repente tinha outra vez 13 anos, e estava a caminho da ribeira para mais uma tarde de mergulhos gelados com os amigos, na minha Serra.

Engraçado como funciona a nossa memória. Naquele dia, há tantos anos, sem eu ter a mínima ideia, e a repetir um caminho que fiz centenas de vezes ao longo dos Verões da minha vida, o meu cérebro resolveu registar aquele momento banal. Não se tratou de nenhum dia especial e todo ele se perdeu na imensidão de horas iguais, excepto aqueles segundos. Aqueles segundos ficaram numa qualquer sub-câmara da minha mente, à qual nunca tenho acesso, e que só se abre repentinamente quando sinto este cheiro familiar a palha húmida e terra seca.

E isso serviu para dar outro valor a um treino normal de mais um final de tarde.


O que me traz a outra doce memória, dos Verões em que acordávamos antes do sol, e fazíamos a pé, por opção, os 12km que nos separavam do Vale da Serra, onde a restante família já estava à espera, para dias de campismo, piqueniques, e conversas à volta da fogueira. Estes 12km tinham a particularidade de serem sempre a subir. Por vezes por estrada de terra batida, por vezes atalhando por trilhos de vegetação cerrada. Ainda hoje sinto o sol através do olhos semicerrados, os ramos e silvas a rasparem os braços magrinhos, o pó que se colava às pernas, os sons da natureza que associava sempre a algum réptil indesejado, e as cavalitas do meu pai, quando ficava cansada. A vista ficava mais bonita a cada passo dado.

Esta memória ficou de tal forma enraizada em mim, que acho que é por isso que ainda hoje, nestas minhas corridas pela natureza, quero sempre ir mais alto, subir ao topo, ver o mundo lá de cima. Mesmo que custe a lá chegar.


Hoje em dia já ninguém me leva às cavalitas quando fico cansada, mas continuo na mesma a sentir-me feliz como uma criança quando tenho oportunidade de ver as cores do dia e da paisagem, sentada num balcão de rochas na Serra.


Longo de sábado: cerca de 28km a correr, e caminhar, já com bastante calor. 5 minutos no "topo do mundo". Valeu cada metro.


Boa semana!

25 comentários:

  1. Não me canso de repetir que adoro os teus relatos. Até senti o cheirinho na minha mente. Beijo

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  2. Falas na memória dos olfactos e ainda noutro dia referia numa conversa o quanto seria importante um "cheirografo".
    Imagens marcantes na nossa vida podem ficar registadas para todo o sempre em fotografia, permitindo rever sempre que queremos. O mesmo com cenas que se guardam em filmes. Músicas em formato digital para ouvir a qualquer altura.
    Mas há cheiros que nos marcam e cuja memória nos transporta para momentos inesquecíveis. Como tê-los a cada momento? Pois só seria possível com um cheirografo que nos permitisse guardar cheiros que não mais queríamos perder e poderíamos sempre rever à medida dos nossos desejos.
    Inventa-se tanta coisa que ainda há poucos anos pareceria impossível, ninguém conseguirá inventar um cheirografo?

    Muitos parabéns por mais um rico treino!

    Beijinhos :)

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  3. João: Consigo ter uma espécie de experiência cheirógrafo com os perfumes. Perfumes que usei e já não uso, e que sempre que tiro a tampa e sinto o cheiro, me trazem memórias. Engraçado que é sempre a mesma imagem, como se toda uma época de vida se resumisse àquele momento, às vezes tão banal... Nunca sabemos o que o cérebro vai guardar para futura referência! :)
    Mas sim, um explorador de memórias olfactivas era bem pensado, regista essa ideia! ;)
    Beijinhos

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  4. E eu a vir aqui a este blogue, à espera de ver números, médias, coiso e afinal é literatura, fina literatura.
    Ó Menina, para isso ia comprar, sei lá a Caras, o Record ou isso...
    É realmente curioso como nunca sabemos o que nos fica na memória por vezes algo tão banal, como o cheiro de relva cortada, o "cheiro a pó", uma foto no topo de uma rocha, um horizonte.
    Não tenho memória alguma com aspersores ( que saiba ou recorde...neste momento) mas sei que sabe bem, muito bem...e é sempre tão bonito ver crianças, de qualquer idade, a brincar, a serem refrescadas, corpo e mente, ao passar por um.
    Os teus relatos estão mais espaçados mas, acredita, cada vez mais interessantes de ler.
    PS: acho que me estou a repetir...mas cada vez mais tenho um respeito mais profundo pela tua força de vontade e perseverança, se com 30C sofri como sofri no sábado faço ideia com 40C e coiso, naquela"Prova que não podemos mencionar".
    E também me fez reavaliar prioridades e objectivos.
    É também algo de extremamente positivo e importante tanto na corrida em si como ler alguns blogues que sigo: as lições de humildade que se vão aprendendo, basta estarmos disponíveis para tal.
    Bjs

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  5. O que posso dizer....olha, mais um texto lindo...gosto tanto quando isso me acontece, a última vez que me lembro ter tido um "flashback" através de uma cheiro foi nos "Pernetas"...mesmo rodeado de mais umas dezenas de pessoas, tive ali um cheirinho num campo, que me levou de volta à minha infância, para casa da minha avó, mais concretamente para os camposa de milho lá perto, e para as brincadeiras de fim de tarde com os amigos da rua..
    Beijinhos

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  6. jnr: Aaaahhhh, a fina literatura da Caras ou do Record... ;)
    É fascinante o cérebro humano e a forma como funciona. Se não tivesse optado pela vertente que segui, teria seguido psiquiatria ou semelhante, apenas para estudar a mente. Não sei se seria mais feliz, mas seria, certamente, muito mais rica. :)
    A prova a que foste foi na Costa, a do BES? Foi no mesmo dia deste treino e acredito que não tenha sido fácil... O calor põe-me sempre no meu lugar, mesmo quando já andava a sonhar com alguns voos arrojados... Bamos ver!
    Bjs

    Carlos: Esses flashbacks são fantásticos, não são? :) Quando acontecem a correr até tornam o treino melhor. Obrigada, beijinhos!

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  7. SIMPLESMENTE LINDO!
    Beijinhos.

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  8. Rute,
    Cheiro a Verão é tão bom!...acho que é melhor o "cheiro a verão" do que propriamente o verão. Parece parvo, mas é verdade!
    Para mim, ir à Nazaré embrenhar-me naquelas transversais e sentir o cheiro da sardinha assada é o expoente máximo! (o que está a contrastar incrivelmente com a minha visão neste momento: chuva e tempo escuro!)
    As minhas memórias de "infância" também me remetem para o campismo...anos a fio que fomos para a Quarteira. Íamos de ano a ano durante 15 dias e era a nossa segunda casa.(mas eu não queria saber de subir a serras...eu era mais bolas de berlim :))

    (e lá está novamente! Comecei a escrever o comentário ao meio dia e são 20h35 e só agora é que consegui retornar)

    28 mil metros a um sábado parece-me bem. Coisa pouca...(para se fazer de carro).

    Boa semana e treininhos que os longuinhos são ao fds!

    Beijinhos dos dois

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  9. É fantástico como a nossa memória funciona :)

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  10. Lu: O cheiro de sardinha na brasa e salada de pimento!!!= Verão!! :)
    E o de Inverno é o de chaminés a fumegar com cheiro a lenha, num dia frio. :) Já tenho saudades desse... Ihih (Desde que corro gosto ainda menos do calor).
    Sabes que sou das poucas pessoas que deve achar que bolas de Berlim e praia não combinam??? É que na praia esse tipo de bolos mais gordurosos não me apetece mesmo nada. Fora da praia tudo bem. :)
    Beijinhos grandes para os dois, Lu!

    Lady V: ;) Beiijinhos

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  11. O "cheiro a verão" chega sempre mais ou menos nesta altura e apanha-nos sempre desprevenidos. Pensava que era o único que o sentia e nunca disse a ninguém porque pensariam que era doido... agora já sei que não sou o único... doido!

    Outro cheiro que adoro é o do Outono (geosmina)

    Beijinhos e bons treinos

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  12. Zémi: Andam por aí muitos, mas caladinhos... ;)
    Beijinhos e bons treinos
    PS: Aprendi uma palavra nova hoje: "geosmina". Obrigada. :)

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  13. É sempre incrível ler os teus textos, os teus relatos com descrição tão detalhada.
    Não senti o cheiro de que falas, mas as tuas memórias fizeram-me recuar a mim também. E é tão bom recordar ...!
    E bons 28km :)*

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  14. Custa sempre atingir o topo mas vale bem o esforço!
    E porque correr também é brincar, percebo o que dizes sobre os cheiros, sobre os aspersores da rega.

    Correr é viver!

    Beijinhos e continuação de boas corridas.

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  15. M: Obrigada. :) É sempre bom "voltar" onde se foi feliz. ;) Beijinhos

    Isa: Se fosse fácil também não tinha piada, verdade? ;) Beijinhos e PARABÉNS!! :)

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  16. Pessoalmente, já estou ansioso pelo verão. Claro que daqui a uns meses, já quero o outono :)
    Mas agora quero o verão, e pronto.
    Bom treino esse de 28 km!

    Beijinhos

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  17. Vitor: Se queres o Verão, vais ter o Verão! Só ainda não foi hoje... :P Beijinhos e PARABÉNS! :)

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  18. Os odores, mais que as músicas, levam-me a momentos exactos vividos no passado. Aliás recordo cheiros como se fossem uma coisa palpável e por vezes essas recordações assim trazidas pelo cheiro de hoje, despertadas em surpresa, sabem tão bem...

    E...belíssimos treinos esses pela serra, a alcançar o topo do mundo :)

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  19. Ana: São flashbacks curtos mas intensos. E Sintra é um dos topos do mundo. ;) Beijinhos

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  20. Que escrita , que belo post! UaU

    Parabéns , tens o dom de escrever e descrever, sentires e vivências de uma forma simples e harmoniosa , e que até eu gosto de ler ! :D (visto ser um iletrado assumido) ! :)
    Obrigado por mais este bocadinho de leitura sublime.

    Quanto a isso dos cheiros , eu sou mais "inverno" !! , e o cheiro da chuva a bater na terra molhada , a relva fresca cortada á bruta , o cheiro da madeira a queimar na lareira !!...isso a mim "leva-me" , nem é preciso ser para a infância ! eheheh...

    ...o verão , não me desperta cheiros, a não ser aqueles que não gosto!
    ...sardinhas, suor, floresta a arder !!
    Enfim, cada um com os seus "traumas" e "recordações" "aromáticos\nasais" !! :P


    Esse topo do mundo, tem que ser "explorado" com mais calma e "tempo" ! :D


    Parabéns e obrigado ! :)
    bjs
    ajb

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  21. Thanks, A! :) Cheiros de Inverno (e Outono) também é bom, são mais fresquinhos. ;)
    Este topo do mundo, e outros, sem dúvida que têm de ser (re)visitados com mais tempo e, de preferência, sem outros visitantes no local! :)
    Bjs e parabéns tu! :P

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  22. Olá Rute,
    Onde é que já "senti" isso?
    São sensações bastante agradáveis.
    boas sensações :)

    Manuel Nunes

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  23. Manuel: É verdade, são sim. Felizmente estas sensações olfactivas estão todas associadas a boas memórias. :) Bjs

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