2 de junho de 2014

E o que fica é a certeza de querer continuar

Uma vez vi um episódio do Dr. House, em que uma paciente sofria de uma patologia da qual agora não me recordo o nome, mas que fazia com que se lembrasse de tudo o que acontecera na sua vida. A memória dela era como um disco rígido em que ficavam registados todos os acontecimentos e todas as conversas, sem nenhum critério ou filtro. O que à primeira vista poderia parecer uma bênção, na verdade estava a dar-lhe cabo da vida, porque era incapaz de manter uma relação afectiva de qualquer espécie. Toda e qualquer discussão ou desavença que tivesse tido com alguém, todas as palavras proferidas, eram vividas como se tivessem acabado de acontecer, provocando-lhe a dor e desilusão constantes, tornando-a incapaz de superar o sucedido. Não sei porque razão as suas memórias negativas se sobrepunham a todas as outras, mas, no caso desta mulher, "o tempo cura tudo" era um conceito desconhecido. Para esta mulher, o "tempo" das coisas era sempre recente.

Não consigo explicar melhor, nem sei se tal patologia existe ou foi apenas exacerbada para efeitos televisivos, mas dou graças à minha memória selectiva, porque, de outra forma, nunca correria na vida.

Salvo raríssimas excepções, há sempre um momento durante a corrida (só um, se tivermos sorte) em que estamos a odiar aquilo com todas as forças. Podem ser só uns breves segundos, podem ser alguns minutos ou, a minha solidariedade se também já passaram por isso, arrastar-se durante longos e penosos quilómetros. Aquele momento, vocês sabem, do: "Mas para que é que me meto nisto?"

Às vezes grita e ecoa dentro da nossa mente.

- "Mas para que é que me meto nisto?"

Páro e olho em volta.

- "MAS PARA QUE É QUE ME METO NISTO??!"

Páro e olho em volta.

O que vale é que, ao contrario da paciente do Dr. House, esse momento passa. Passa sempre. Por vezes no minuto seguinte, por vezes apenas alguns quilómetros depois, por vezes só mesmo no momento em que cruzamos uma meta, real ou fictícia, e terminamos de correr.

No fim do dia, é disto que me vou lembrar.

A verdade é que, mais tarde ou mais cedo, a filtragem da memória se encarrega de apaziguar as dores morais e tudo torna a parecer possível. E o: "Xiça, nunca mais na vida!", rapidamente passa a: "Mal posso esperar pela próxima!". Geralmente, uma próxima ainda mais dura e desafiante. Claro.

Memória selectiva, obrigada por seres benevolente com os meus sonhos.


Nota: Fotos do belíssimo treino longo de Domingo, que merece posterior destaque. Os momentos de auto-dúvida foram breves, mas intensos, sobretudo para as minhas coxas e glúteos. Óbvio que quando me sentei no carro, de regresso, já só pensava em voltar.


Boa semana!


17 comentários:

  1. A dor alivia com palavrões. Pelo menos estamos a expulsar energia negativa, o que ajuda.
    Nos esforços prolongados além dos palavrões, também há esses pensamentos. Mas são só uma forma de aliviar a carga porque no fundo estamos a gostar à brava e ficamos é com essa sensação e não com o cansaço que desaparecerá mais tarde ou mais cedo.

    Claro que isto tudo é ajudado pela tal maravilhosa memória selectiva.
    Se essa patologia que referiste existe, não sei, apenas sei que também a vi retratada num outro filme.

    Beijinhos e volta. Volta sempre :)

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  2. Ainda bem que estás melhor, já não via fotos de uma qualquer zona de Sintra há tempos! Ahaha
    Bem vinda de volta!
    Essas duvidas aparecem, para mim, em qualquer exercicio físico minimamente desafiante, no meu caso btt e corrida.
    O problema é quando exprimo a dúvida alto e bom som e por vezes com companhia ou com pessoas por perto...sim, as minhas conversas de auto motivação são para maiores de 18...mas funcionam!
    Agora...são imagens como estas, o sol a nascer, patinhos num lago, aspersores ligados com um frio de rachar e o caminho enlameado pois estão desregulados...enfim, alegrias.
    Bjs
    PS: E conseguiste sentar-te facilmente no carro?

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  3. João: É verdade que alivia! Até há estudos científicos sobre isso! :) Mas não era preciso... ;)
    Já vi foi uma vez um documentário sobre uma patologia inversa: alguém que só tinha memória de cerca de 15 minutos, depois fazia "reset".
    De qualquer forma, enquanto for feliz, volto. (E quando estiver infeliz também, para me animar) :)
    Beijinhos!

    jnr: Ahaha :) Quando começar a enjoar avisa... :P (Mas, para sermos justos, isto não é bem Sintra, é mais para o Cabo da Roca) :)
    Acho que estamos todos familiarizados com o uso de vernáculo para aliviar o sofrimento! :D
    Bjs, bons treinos!
    PS: Sim. :)

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  4. Afinal não foste...

    Bom, de qualquer forma...

    O TEXTO ESTÁ TÃO FIXEEEEEEE!!!

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  5. é tal e qual como quando parimos: sofre-se (eu sofri!) e só se pensa que depois desta nunca mais, e para que me meti nisto, etc e tal, mas assim que nos põem o puto em cima ainda cheio de sangue e sebo e os nosso olhos só sabem ler "ai tão lindo", tudo nos passa e (parece que) esquecemos todas as dores :)

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  6. Zémi: Nope. :( E obrigada. :)

    Ana: Sim, acho que esse é o exemplo mais cru e verdadeiro. :) Beijinhos

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  7. As coisas fáceis não deixam marcas.
    Das provas mais antigas que eu participei , o que ficava na memória eram ou as paisagens fora do comum ou quando a dureza era demasiada... e agora pensando nisso acho que foram experiencias fantásticas.
    Mas na altura eu também me perguntava o que raio andava ali a fazer :)

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  8. Sam: À distância tudo ganha uma tonalidade rósea. :) Mas o que deu luta é mais marcante, sem dúvida.
    Bjs

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  9. Olha que giro...sofremos todos do mesmo:) ...isso de usar os palavrões é comigo...posso dar cursos de formação intensivos sobre o assunto :)
    Gostei deste "poste", mas isso tb já não é novidade nenhuma....
    Beijinhos

    P.S. Tu quando querer, sabes ser mázinha...metes nojo, sabias? :D

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  10. Epah quem me dera que isto desse para comentar com fotos.. Na feira da maratona do Luxemburgo haviam uns cartazes muito engraçados relativos à corrida e à maratona, um deles dizia "I swear, i'll never do this again!" eheh vê lá se consegues ver: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=780623531956919&set=a.252047878147823.67675.100000278380855&type=1&theater

    Ah, quanto ao Dr House, quase que aposto que antes de chegar ao diagnostico no fim de uma epifania, puseram a hipótese de ser Lupos ou auto imune!! aaaaaahhh que saudades do House do Wilson!

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  11. Carlos: Acho que saber fazer uso do vernáculo é condição essencial para perseverar na corrida! :)
    Ahah, tenho de me vingar das fotos "mete-nojo" das montanhas e paisagens do norte... :P
    Obrigada! Beijinhos

    Fernando: Já vi! :) Ihih Acho que esse pensamento deve ocorrer na mente de quase todos durante a prova. De qualquer forma, é melhor não jurar pela nossa saúde... ;)
    Por acaso não me lembro de qual era a "doença", mas sei que a paciente tinha a opção de ser medicada para ter uma vida e memória "normal", mas ela não quis, mesmo ficando sozinha e não conseguindo perdoar a irmã de uma discussão de há anos e anos. Dramas... :)

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  12. Olá Rute,
    Ainda bem que esquecemos rapidamente esses momentos :)

    Bons treinos

    Manuel Nunes

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  13. Manuel: Sim, ainda bem. :) Bons treinos!

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  14. Isso dos palavrões , não sei a que te referes !!

    Quanto ás "memorias selectivas" , diz-me a experiência que também não convém apagar "de vez" as "negativas" e sim tentar aprender com elas e tentar fazer melhor ou diferente para deixarem de ser "más memorias" e apenas fases da "aprendizagem" !

    Tenho quase a certeza que esse "Mas para que é que me meto nisto?" , é comum a todos "nós" que nos atrevemos a desafiar as nossas capacidades "escondidas" ou que pensamos não ter !
    Mais tarde ou mais cedo , passamos por isso e depois "passamos" isso para trás das costas!

    ...e que fotos espectaculares (como sempre). Brutal !!



    PS
    Espero não ter sido muito "mau-feitio" no comentário !
    (e como sempre está um bocado confuso, mas não consigo melhor, e como é para esquecer rápido, não faz mal) :D Sorry

    bjs
    ajb

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  15. A: "Isso dos palavrões , não sei a que te referes" -> tábem... :D
    As memórias negativas não se apagam, mas ficam adormecidas e relevadas pelo tempo, e ainda bem, que eu gosto muito dos treinos longos de fds. :)
    Não está nada confuso, eu "entendo".. ;)
    Pfff...
    :)
    Obrigada! Bjs

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  16. Anónimo4/6/14

    Como já ouvi alguém dizer: "o ser humano é incongruente..." e ainda bem que o é...;) fm

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  17. FM: Incongruente, inconstante, e muitas vezes cronicamente insatisfeito. Desde que continue na luta, tudo bem. :)

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