17 de outubro de 2014

Os míscaros

- Estás a ver aquele ali? Com o pé amarelo? Aquele podes apanhar, é dos bons.

Eu olho e parece igual a todos os outros cogumelos que já enchem o saco.
Estes cogumelos, ou melhor, os míscaros, são uma iguaria muito apreciada na minha terra. É preciso saber distingui-los e o olho de lince neste ritual de separar os bons dos maus por entre a miscelânea de espécies silvestres parece-me quase mágico.

- Aqueles ali é que não convém tocar. Estás a ver o pezinho de lado assim e assim e aquele pormenor aqueloutro e tal? [Aparte: não prestei atenção. Em retrospectiva devia tê-lo feito, não sei se algum dia a minha vida vai depender disso].

- Ahhhh…, digo eu. Mas não vejo qualquer diferença para os anteriores.

- Basta um único cogumelo venenoso no tacho no meio dos outros todos para poder morrer toda a gente que comer esse prato, sabias?

Fascina-me e aterroriza-me em doses iguais esta roleta russa que as pessoas jogam com a vida na apanha dos míscaros. “Basta um cogumelo venenoso…”

Voltamos para casa com o saco cheio, as minhas tias e eu. A humidade pinga das agulhas dos pinheiros e a nossa respiração é expelida em golfadas de vapor. Ao longe vêem-se as casas em xisto, com chaminés a fumegar. Da forma que estão dispersas no meio da paisagem, aparentemente sem nenhuma lógica ordenada, dir-se-ia que também ali cresceram do dia para a noite como os cogumelos. Gosto desta simetria imperfeita. Cheira a fogão a lenha, é Outono e está frio na Serra. Mais logo vai haver arroz de míscaros ao jantar, feito não num fogão a lenha, mas a gás. - Está mesmo bom!, vai dizer a família mais tarde. Eu não sei, não comi. Até hoje recuso-me a comer cogumelos silvestres, mas continuo a gostar muito de os ver, de participar como espectadora no ritual da “ida aos míscaros” e de depois passar toda a noite com o coração nas mãos, atenta ao mínimo sinal de síncope por parte de quem os comeu. (Esta última parte já não gosto tanto).

O que tem esta história a ver com corrida? Aparentemente nada.

Mas havia um cogumelo gigante no percurso da Serra d’Arga. Tão grande que acredito que terão sido poucos os atletas que não tenham dado por ele. Dava para alimentar uma família de quatro (se não fosse dos venenosos).

E, além disso, até hoje não posso ver paisagens como estas...




Fotos retiradas da página oficial da prova.


… que não me apeteça logo andar por lá a correr.


Por isso é que amanhã vou estar na Serra da Lousã, porque, em maior ou menor escala, toda a gente tem a sua roleta russa. Aquilo com a sua dose de risco, mas que dá emoção à vida. Esta é a minha.

14 comentários:

  1. Eu gostava de provar esse arroz de míscaros :) ...adoro cogumelos. Sempre reparaste nesses pormenores todos, ou os teus sentidos ficaram mais apurados depois de começares a correr em trilhos? É que no meu caso não existe comparação alguma...depois de ter começado a correr na natureza, reparo muito mais (até em cães de porcelana na UTAM do ano passado :D), os cheiros..hmmm ...tb ajuda o facto de ser sempre dos menos rápidos :)
    Mais uma bela posta...parabéns e obrigado....e diverte-te lá pelos lado da Lousã com as suas aldeias de Xisto.
    Beijinhos

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    1. Eu também gosto muito de comer cogumelos, daqueles sem sabor mas seguros que crescem nas estufas, ou então daqueles enlatados que vêm submersos em toda a espécie de químicos que me hão-de fazer mal um dia, mas não naquela mesma noite. :D
      Sempre reparei nestas pormenores, mas agora mais. E sim, ajuda o facto de ser dos "menos rápidos"... ;)
      Obrigada, Carlos. Beijinhos

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  2. Adoro míscaros, mas também não arriscaria a escolhê-los. No sábado passado durante um treino pelos carreiros da Reixida não vi cogumelos mas sim medronhos às centenas, graúdos e saborosos. "Tirei a barriga de misérias":)
    Boa prova para amanhã. Também estarei por lá! Bjs

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    1. Por falares nisso, vejo medronhos às centenas por Sintra! Lá as árvores estão carregadas, ninguém os come, tanto que eu até fico com medo que seja algum "medronho venenoso"... lol Na minha Serra já conheço os medronheiros, por isso não há problema. :)
      Boa prova amanhã! Bjs

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  3. Boa prova, lá pela Lousã.

    Depois faz mais uma posta mete nojo.

    Não te esqueças da meia mais alta :) e conta como está a ser a adaptação à mochila (não que precise...não corro em trilhos...pfff).

    Arroz de míscaros parece excelente mas nunca provei, mas partilho contigo o misto fascinio/horror por eles.

    E...essas fotos...dão mesmo vontade de começar a correr por aí, desembestado.




    pronto...colegas a olhar para mim com ar preocupado...

    Bjs

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    1. Ahah está bem, vou fazer por isso (pela prova e pela posta) ;)
      Por acaso a mochila é excelente, o que, confesso, me chateia um bocado, que eu sou avessa a essa ideia de que só as marcas caras são boas. Mas, neste caso, é mesmo.
      E eu que ainda nem falei da mochila! Sempre muito atento aos detalhes, muito bem! :)
      Estas fotos são o meu "paraíso outonal de corrida", espero que a realidade corresponda e supere. :)
      Bjs

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  4. Ah também vais estar pela Lousã, boa! Já estou em pulgas para a prova. Logo já vou ficar a Gondramaz. Será que esses cogumelos vão bem com a pratada de massa que vou comer? Se calhar fico-me pelas tiras de bacon ehehe

    Por acaso também já tinha reparado na tua mochila nova! E sou da mesma opinião, neste caso vale mesmo a pena investir numa de marca, infelizmente não há duvida.

    Até amanhã então! :)

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    1. Eu só vou amanhã, vai ser outra alvorada madrugadora por causa da corrida, mas pronto... Antes isso do que para ir trabalhar. :D
      Será que há por aí alguma espécie daqueles cogumelos que "dão asas"?? :P
      Neste caso desta mochila também passei de quase um extremo ao outro. Certamente haverão por aí muitas marcas intermédias de boa qualidade. Infelizmente não posso testá-las todas. Mas tive sorte com esta. :)
      Até amanhã. Boa corrida!

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  5. Força para a Lousã!!!

    Beijinhos :)

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    1. Obrigada, João! Está feita mais uma. :)
      Beijinhos

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  6. Detesto cogumelos, mas na terra dos meus pais (perto da Guarda) ADORAM míscaros.

    Isso e uma salada de merujes (que EU adoro). :)

    Espero que a corrida tenha corrido bem! ;)

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    1. Sim, a terra dos meus pais também é para esses lados, mas na outra encosta da Estrela. :) Salada de merujes nunca comi... Nem conhecia, confesso. Sem ser míscaros, as cherovias é outra das iguarias de lá. :)
      Foi dura e custou-me, mas está feita e, não querendo repetir-me, o percurso foi LINDÍSSIMO!!

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  7. Ricardo... cala-te! Estou de dieta e adoro arroz de cogumelos. E ainda tenho que ler post sobre comida que adoro e corridas que adoro... sendo que não posso fazer, nem uma coisa nem outra.

    E ainda por cima, como se não bastasse os temas do post, ainda me apuram os sentidos com tiradas excelentes como "A humidade pinga das agulhas dos pinheiros e a nossa respiração é expelida em golfadas de vapor. Ao longe vêem-se as casas em xisto, com chaminés a fumegar. Da forma que estão dispersas no meio da paisagem, aparentemente sem nenhuma lógica ordenada, dir-se-ia que também ali cresceram do dia para a noite como os cogumelos." E mais as fotos... aHHHHHHHHHHHHHHHHhhhhhhhhhhhhhhhhhh :)

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    1. Então não vais poder ler a crónica sobre a prova, vai ser extremamente mete-nojo. ;) Mas ao menos não vai ter muitas fotos, vá... :)
      Arroz de cogumelos é um prato saudável!! (Se não for lá nenhum venenoso no meio...) Podes comer sem culpas. :P
      Boa recuperação.

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