19 de novembro de 2014

Trail do Zêzere (K30)

Oiço o speaker a dizer que faltam cerca de 15 segundos para as 9h30 e eu ainda fora da zona da partida, atabalhoadamente a tentar colocar o chip no ténis... [Inserir palavrão].
Desta vez até cheguei com tempo, mas estive descansada a beber café até cinco minutos antes da partida, caminhei com toda a calma até ao local, e quando lá chego perguntam-nos: "Então e os chips?". Então e os chips??! [Inserir palavrão]. Dentro do envelope, no saco das ofertas, na mala do carro. Grande correria para o ir buscar e aquecimento mais que feito. 9h30 começa a prova, é agora que vou normalizar os batimentos cardíacos. :)

Os primeiros quilómetros são feitos maioritariamente em alcatrão, naquilo que chamamos de percurso "corrível", e no entusiasmo inicial do pelotão os batimentos cardíacos disparam ainda mais. Começar a prova a um ritmo impraticável para nós, de forma a chegar aos 2km com os bofes de fora - é isso que dizem todos os manuais de corrida, não é? Check!

No entanto, daquilo que me lembrava do ano anterior, sabia que não tardaria a aparecer alguma subida para me salvar. Ou seja, uma inclinação razoável que justificasse andar, para "descansar" um bocadinho (ahahah as coisas com que uma pessoa se ilude...). E, de facto, não tardaram a surgir as primeiras subidas. Desta vez, a subida à Cruz Alta, que na edição passada tinha ficado reservada para o último abastecimento, foi uma das primeiras.




Apesar do céu encoberto temos acesso a uma paisagem lindíssima, sobretudo quando se inicia a descida até ao rio Zêzere, a caminho do primeiro abastecimento, aos 8km.




Tal como no ano passado, penso que se esta prova fosse no Verão, esta zona estaria mesmo a pedir um mergulho.


Mas como não é, sonho apenas com isso, enquanto como um gomo de laranja e um bocado de banana, porque sei a subida que se segue.

O Trail do Zêzere é um trail durinho, não porque tenha subidas enormes e de dificuldade extrema, mas porque as subidas que tem são curtas mas bem inclinadas, algumas quase parede de escalada, intercaladas com vários quilómetros de trajecto rolante. É esse desgaste muscular da inclinação aliado ao quase imediato retorno à corrida que acabam por estafar uma pessoa. No caso das fotos abaixo, porém, a parede parece pior do que é, acreditem em mim. A subida da Cascata do Maxial é uma das partes mais giras do percurso.






Esta é a paisagem que temos perto do miradouro  da Capela de São Pedro de Castro, local onde está o segundo abastecimento (só de líquidos), aos 12km:




Engraçado que ao longo do percurso fui tendo flashbacks da minha prova do ano anterior. À ida para lá pouco mais recordava do que um ou outro pormenor mais marcante do trajecto, mas depois, ao passar por certas zonas, várias coisas me vieram à memória, inclusive as conversas que estava a ter quando lá passei anteriormente. Como a passagem de quatro estações pode alterar tanto e tão pouco. A memória é uma coisa fascinante.


Sei que este ano não me estava a custar metade do que me custou o ano anterior, por várias razões, sendo a principal a ausência de lesões, mas se a subida da Cascata foi uma alegria para mim, a subida que se vai iniciar aos 13km já vai deixar as suas marcas.



Quando numa prova levo as mãos à cintura e começo a fazer as subidas como uma varina dos montes, é sinal de que as coisas estão difíceis e é melhor não falarem comigo até chegarmos ao topo. :) De preferência escolham parceiros de trilhos compreensivos, que vos apoiem no vosso momento de dor e que não se ponham a gozar e a tirar fotografias, nas quais só vai ficar registado o vosso olhar furioso de Medusa frustrada que não mata ninguém. Não que isso me tenha acontecido... ;)

E a seguir a uma subida vem sempre uma descida. Neste caso, feita com muito cuidado para não deslizar por ali abaixo pela lama. Quando, numa ocasião, vos falharem os dois pés ao mesmo tempo, não se agarrem ao arbusto mais próximo sem olharem, porque pode estar cravejado de picos. Mais uma vez, não que isso me tenha acontecido....




Aos 20km temos o último abastecimento. Nesta altura vai começar a chover, o que até veio a calhar porque seguem-se cerca de 3 ou 4km de percurso rolante e os chuviscos que nos refrescam a cara são uma bênção. Vai é dificultar um bocadinho a progressão nos carreiros mais enlameados, mas nada que não se consiga ultrapassar com equilíbrio perfeito e uma postura de corrida irrepreensível.

;)
Mais à frente outro local lindíssimo onde teremos de fazer escalada com auxílio de corda. Com a rocha escorregadia das chuvas não foi pêra-doce, mas estivemos sempre sob o olhar atento dos bombeiros (aqueles pontinhos vermelhos que podem ver no topo da foto abaixo).

Nota máxima em termos de acompanhamento e apoio dos atletas.

Se antes desta parte ainda pensava ser possível terminar a prova abaixo das 5 horas, aqui tive de encarar a realidade. Os quilómetros finais até serão feitos maioritariamente a correr, mas já com bastante cansaço muscular acumulado. Nesta fase final vamos ter a companhia de um outro atleta que ora pica puxa por nós ora nós o picamos puxamos por ele e essa "picardia" vai dar piada aos últimos momentos. Vão ser quase 5h15 para cortar aquela Meta mas, mesmo assim, em muito melhor estado que o ano passado. Evolução. :)

Mais uma vez a Organização não desiludiu, percurso extremamente bem marcado, aviso de abastecimentos e zonas de perigo, apoio ao longo do percurso e abastecimentos, embora pouco abundantes, com o suficiente. Apenas um reparo relativamente ao espaço da Meta, que achei confuso, uma pessoa ficava um bocadinho sem saber para onde se dirigir, e não havia água para beber (que tenha dado por isso). De resto, tornei a gostar muito da t-shirt, que tem sempre um corte feminino que favorece (sou uma senhora, ligo a esses pormenores) e da lembrança (sei que há quem prefira medalhas, mas eu gosto de outras peças originais).

Uma zona muito bonita a cerca de hora e meia de Lisboa. Um trail ao qual voltar, acrescentar quilómetros e reviver memórias.

17 comentários:

  1. Parabéns por mais uma prova conquistada. E pelo texto com o teu humor bem característico! :)

    Beijinhos

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  2. [Inserir palavrão] que bela prova e que imagens [Inserir palavrão]. Adorei.

    Supostamente devia ter feito esta prova, no meu planeamento mas a [Inserir palavrão] da pubalgia não deixou.

    Enfim, está mais perto retorno.

    Parabéns

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    1. Mas a [inserir palavrão] da pubalgia ainda não te largou? Força nessa recuperação!
      Obrigada.

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    2. Já tenho alta mas a [inserir palavrão] da recuperação é que é muito lenta. :D
      Bjn

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  3. Hehehe...andas bem disposta :):):) ...só piadinhas e o caraças :)
    Evolução, e não é pouco....é só ver o que já fizeste neste ano que passou. Estas provas "menos" duras são um engano..."obrigam-nos" a correr, exageramos, e depois paga-se a factura...o pormenor dos "picos" cravejados nas mãos fez-me lembrar os Abutres...não sei se vais em Janeiro, mas aconselho-te a levar umas luvas bem grossas..foi a prova em que mais tive que usar as mãos para me apoiar, segurar e passei a vida a ser cravejado por picos nas mãos...concelho de amigo
    Beijinhos grande maquina

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    1. :)
      Não vou aos Abutres, apesar de Lousã ter ficado no meu coração. Tenho de fazer opções e não se pode ir a tudo... :( Ainda cá tenho uns quantos picos na mão, acontece com frequência. Não a *mim*, claro. ;)
      Beijinhos

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  4. Parabéns oh Varina dos Montes! Para o ano é a ultra que já estás a chegar muito fresquinha à meta! :)

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    1. Obrigada Caçador dos Bastões!
      Isso do fresquinha não sei, mas é provável que queira a dança completa com o Zêzere também. :)

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  5. [Inserir palavrão]

    " provável que queira a dança completa com o Zêzere também. :)"

    Bela evolução, Menina, bela evolução :)

    Bjs (e abraços ;))

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    1. [Isto é que é um mural de comentários civilizado.. :D]
      Ihihih :) É bazófia de quem ainda está a um ano de distância da coisa... ;)
      Bjs

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  6. ehehehh...
    Uiiii....tínhamos tema de "conbersa" por alguns comentários a fora , tínhamos !! :P

    ...mas fico pelos tradicionais "parabens" e blá-blá-blás... :D

    ..e deixo este link á consideração da autora do blog (tal de Medusa do Olhar que mata)

    Gun - Better Days

    :P

    bjs
    ajb

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    1. :)
      "Things could be heaven but this feels like hell"!!! <3 Exactamente os meus pensamentos naquela subida... :D (E afinal era dos Gun!:) )
      E é "medusa do olhar que não mata ninguém", não leste com atenção!! :P
      Bjs

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  7. Olá Rute,
    Quando se participa regularmente corre-se o risco de nos esquecermos de algo, ainda não me aconteceu mas já pensei nisso.
    Um prova bastante agradável, parabéns.

    Manuel Nunes

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    1. Obrigada, Manuel.
      Sim, começamos a ter uma rotina mais mecânica e pode falhar alguma coisa.
      Bons treinos!

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  8. Parabéns Rute!
    Foi uma prova belíssima e bastante técnica. Assim é que a gente gosta! :)
    E como bem dizes, a organização esteve muito bem, é daqueles trails a que apetece mesmo voltar.

    Beijinhos e bons treinos!

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    1. Parabéns a vocês também, Isa! Sim, este vai tornar-se um trail de excelência no calendário.
      Beijinhos

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