6 de março de 2015

Quilómetros com histórias

Uma vez, durante um treino pela Serra, andávamos em explorações num local novo quando, após escalar umas quantas rochas e seguir um carreiro, um pouco agreste mas ainda visível, demos por nós já dentro de um local com acesso pago. E eu, que sou uma totó, apesar de não ter feito nada de mal, já que num momento estava inocentemente a seguir um carreiro no meio do bosque e no outro já estava dentro de umas muralhas, fiquei extremamente nervosa e ainda passei alguns minutos a pensar se havia de ir ter com o segurança e contar-lhe o sucedido ou entrar na personagem e tentar passar-me por uma turista em férias (de licra e mochila de hidratação…) e sair pelo portão da frente. Resumindo, os segundos que levei a sair “discretamente" por aquele portão a tentar evitar o olhar do segurança foram dos mais longos da minha vida. Acho que o bater acelerado do meu coração podia ser ouvido num raio de 5 metros. E, segundo quem presenciou, não tenho jeito para agir “de forma natural e descomprometida”… Só me faltou assobiar para o lado. :) Decididamente, uma carreira na 'vida do crime' não seria para mim.
(Podia voltar por onde viera e evitar todo o stress de ter de sair pela entrada oficial mas, em minha defesa, vocês sabem bem como os percursos de ida e volta podem ser aborrecidos. Antes perder anos de vida devido aos nervos do que andar 2 ou 3 km para trás. :) )

Este é um exemplo das muitas histórias de que acabo por lembrar-me de sorriso nos lábios sempre que recordo algum treino. Nestes últimos dois anos já acumulei dezenas de histórias e são elas que acabam por dar vida aos quilómetros. Porque um treino de 25km, por exemplo, não é apenas fazer 25km, é um desenrolar de experiências. O que faz com que um quilómetro possa ter os mais diversos tamanhos.

Algumas situações com que já me deparei são bastante caricatas e davam boas crónicas; como estar a correr no meio do bosque e de repente ver uma sessão fotográfica com modelos vestidos de anjos de asas brancas e negras. Ou ver pessoas em trajes peculiares, vindas de um casamento mais alternativo. Ou depararmo-nos com vestígios de rituais e congeminar as teorias mais mirabolantes para as coisas que se passam pela Serra à noite.

São coisas que fazem parte da magia de Sintra. Mas a maioria são eventos bastante simples e só têm história nos segundos que são vividos:
São as fontes no caminho, onde tenho sempre de parar para beber água, mesmo que tenha bebido há 5 minutos.
É a teia de aranha, trabalho de arquitectura magistral, que está a bloquear o trilho e tenho de arranjar maneira de ir à volta, porque é um crime dar cabo daquela obra.
É ficar toda contente sempre que vejo alguma espécie nova de cogumelos.
É espreitar para dentro das ruínas perdidas no verde dos trilhos, num misto de medo e curiosidade.
É a conversa breve com outros corredores ou ciclistas.
É correr, sentir o vento, abrir os braços e “voar”.
São as mensagens.




Cada quilómetro é uma história, que nem sempre chega ao blogue, mas que enriquece o meu banco de memórias. Correr torna-me, sem dúvida, uma pessoa mais rica. (A não ser que estejamos a falar de dinheiro. Nesse caso, o preço das provas está pela hora da morte!)

Bom fim-de-semana e votos de boas histórias!

20 comentários:

  1. Essas histórias deviam ser partilhadas por aqui...tenho dito :)
    Beijinhos

    P.S. e sim, os preços das provas estão pela hora da morte!!!

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    1. Ihihih :)
      Sabes que, pelo menos, em relação aos rituais, tenho um bocado de respeito (ok, miúfa) :D e não fotografo. Pode ser que um dia fotografe ao de looonge os vestígios, e depois conto uma história. :)
      Beijinhos
      PS: Estão, não estão?! Então quanto mais quilómetros, pior! :)

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    2. Então já somos dois :) ...deixa lá, esses pormenores dos rituais não interessam...agora todos os outros estás a vontadex, ok?

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    3. Os modelos de asas negras eram masculinos... Queres ler sobre isso também? :P
      Beijinhos

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  2. Anónimo6/3/15

    É rápida!
    Monsanto, um qualquer domingo soalheiro de manhã. Sozinho, num trilho muito sinuoso, estreito e de frondosa vegetação. Ia a bom ritmo (descia ligeiramente claro…) ia em modo mais ou menos automático (aquelo modo extraordinário, em que a cabeça divaga e rearruma recordações antigas e recentes, baralhando e distribuindo o jogo para novamente dar as cartas da vida, mas os sentidos vão em alerta máximo, mantendo-nos em aparente segurança – sim! porque sempre que isso não acontece, nem que seja momentaneamente, sai, facilmente, asneira da grossa. Bom!.. e “aonde” é que nós íamos?... Áh.. sim… trilho sinuoso, quando, ao virar de um arbusto, que invadia parte do trilho mesmo a meio de uma curva, dou de caras com um cão que corria em sentido contrário. Estancamos a 1 metro um do outro, mutuamente espantados, assustados mesmo (eu via um grande pastor alemão, ele via um malencarado de cores berrantes e transpirado). E agora!?? Num segundo, que passa numa eternidade, eu consegui ler, num focinho, que surpresa, receio e vontade de continuar prevaleciam, enquanto ele viu que o “animal” que ali vinha, assim desajeitado, ofegante e de olhos arregalados, também o que queria era seguir a sua vidinha. De imediato, e em simultâneo, cada um se colou à beira do trilho à sua direita, numa tentativa de maximizar o pequeno espaço que entre nós restava, e fomo-nos cruzando, em movimentos lentos, olhos cravados a acompanhar o opositor (sim, não fosse a “leitura” original da situação ter sido errada), quase sem respirar… Assim que o cruzamento foi desfeito, e afastados não mais que 1 metro (novamente – a coreografia foi perfeita), cabeças completamente viradas para trás, um último olhar, já sem tensão (Já passou! Sentia-se…) e desatámos a correr, cada um no seu sentido… e foi assim…
    Sempre a trilhar bons trilhos! Pedro

    Só não são bons os trilhos que não se trilham!... Olha saiu-me…

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    1. Aí está uma história, aparentemente simples, mas carregada de drama e tensão! :)
      Visualizei perfeitamente a cena na minha mente, embora tenha aumentado o tamanho do cão para efeitos dramáticos. E acrescentado uns tons sombrios de filme de acção histórica. :)
      Nesse trilhos de Monsanto tenho mais medo de apanhar um ciclista desgovernado por ali abaixo!
      Bons trilhos! :)
      Bjs

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  3. Um dia destes escreves um livro de aventuras. ;)
    Beijinhos!

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  4. Também tenho uma história parecida com a tua... entrámos de BTT numa quinta e quando demos por ela apareceu o caseiro que nos parou e gritava por ajuda a um tal se ZÉ MARIA! Ó Zé Mariiiiiaaaaaa! Imaginámos o Zé Maria como um gajo lixado, mas que felizmente não apareceu! Lá nos deixou sair dali, mas as coisas estiveram em grande tensão! LOL

    Já cantavam os Xutos: "Conta-me histórias daquilo que eu não vi...."

    Mais... mais :)

    Bons treinos!

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    1. Ahah! Por acaso, com esse nome, fica-me difícil imaginar um brutamontes! :D Mas nunca fiando... :)
      Acho que também já me enfiei por algumas quintas privadas, mas felizmente saí sem encontrar ninguém.
      Bons treinos!

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  5. :)

    Bom fim de semana, vê se arranjas mais umas quantas, se quiseres contar depois, melhor;) estou(estamos) cá para ler.

    Bjs

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    1. Está bem. :)
      Se quiseres contribuir com alguma história, como o Cardoso com os seus Javalis :D, ou algum Zé Maria que tenhas encontrado, estás à vontade. ;)
      Bjs

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  6. É bem verdade. Um treino ou uma prova são tão mais do que a distância em si, são todas as experiências vividas. Momentos inesquecíveis para sempre lembrados.
    Por isso é tão bom termos blogues para podermos passar tudo para o "papel" para daqui a uns anos relermos e sorrirmos ou chorarmos de emoção ao relembrarmos tão bons momentos.
    E os filhos e netos rirem conosco...ou então não...ou então ficarem a pensar que têm umas mães/avós bué malucas! =)

    Beijinhos e continuação de tão boas corridas

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    1. É verdade, já vale a pena ter um blogue por causa disso. Espero que os descendentes fiquem orgulhosos dessa "maluquice"! :)
      Beijinhos

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  7. Não tens mesmo futuro no mundo do crime! :)

    Mas para enriquecer, como dizes e bem, basta correr!

    Beijinhos e continua sempre a enriquecer-te (e a nós com os teus textos!)

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    1. Ihih, pois não. :) O que vale é que estas memórias não têm preço.
      Beijinhos!

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  8. Manda-me lá o ficheiro GPS desse treino que me pode dar muito jeito! Uma borla é sempre bem vinda! :)
    hi hi hi hi hi

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    1. Ihihih Ia ficar com peso na consciência!!! :D Mas, se for preciso, eu dou umas indicações como quem não quer a coisa. ;)
      Beijinhos

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  9. ""O que faz com que 1 quilómetro possa ter os mais diversos tamanhos""

    Sim , grande verdade , grande frase...
    , mas tamanho em emoções (boas ou menos boas) , em risos (e não só) , o tamanho dos silêncios , das birras , das dores... , da saudade , da velocidade , da sede , do vento , do pó , do trilho desconhecido mas conquistado...tanta "coisa" , tanta historia , um km pode ser tão cheio que não cabe na alma , quanto mais no corpo.


    Isto tudo para dizer que 1k tem sempre 1000 metros ! ;)



    PS
    just kidding... :P
    Grande post.
    bjs
    A

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  10. Sim, 1km tem sempre 1000 metros, mas também sabemos que os mil metros não são todos iguais, alguns parece que passam num segundo e outros levam uma vida inteira. Alguns são vazios de tudo e outros cheios de nada. :)
    Obrigada pela colaboração neste meu singelo post da semana passada... ;)
    Breijinhos

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