19 de junho de 2015

Oh Meu Deus - 70K (Parte II)

(Continuação da Parte I)


“Não vais nada desistir, rai’s parta!”
Acho que nas corridas que fiz até agora, só pensei em desistir verdadeiramente uma vez. Claro que há sempre momentos em todas as provas em que estamos fartos ou achamos que não vamos conseguir. Há desabafos, muitas vezes feitos como pedidos de socorro a quem nos acompanha, para que nos lancem a corda de umas palavras encorajadoras que nos tirem do poço. Agora desistir, chegar a um estado tal de exaustão sobretudo mental em que achei que já não valia a pena, foi só uma vez.
Agora vou muito cansada, mas acho que ainda vale a pena, por isso continuo. Mas ouvir assim, do outro lado da linha, as palavras “acho que vou desistir”, da parte de uma pessoa que até ali ia tão bem, custa um bocadinho.

Começo a apressar o passo e apanho o atleta que ia à minha frente. “Acho que a minha jornada vai ficar pela Torre”, diz-me depois de algumas frases trocadas. Oh, não, outro?! Tem uma lesão mal curada de anteriores desafios e já não está a desfrutar. Chegou ao ponto dele do “não valer a pena”. Compreendo. “Tendo em conta o que aí vem, é mais sensato terminar por aqui”, afirma. Nem lhe pergunto o que ele quer dizer com “tendo em conta o que aí vem”, prefiro não saber! Incentiva-me a continuar porque estou "forte”, e nem sabe o quão importante para mim foi ouvir aquilo. Eu não me sentia forte, mas ouvi-lo assim, de outra pessoa, mesmo que sejam apenas palavras simpáticas, fazem com que a gente não queira desiludir essa confiança. Este companheiro de corrida que acabei de conhecer e provavelmente já se esqueceu desta conversa daqui a 5 minutos diz que eu estou forte, portanto não posso decepcioná-lo! :)
Este atleta, a quem não cheguei a perguntar o nome, vai mesmo dar a sua prova por terminada na Torre mas, daqui a várias horas, vai estar na Meta a assistir às chegadas e vai parecer genuinamente feliz por mim quando chego. Se precisarem de restaurar a fé no ser humano, uma das formas é observarem uma zona de Meta. É como o terminal de chegadas de um aeroporto, mas com menos bagagem e abraços muito mais suados.


Agora a minha força é a vontade de chegar o mais rápido possível à Torre, onde espero não encontrar ninguém. Ou melhor, espero não encontrar quem disse que estava a pensar desistir. Espero que tenha sido bluff.

Torre. 1993 metros de altitude. 2067 metros de acumulado positivo. “Metade já está”

Once I get you up there
Where the air is rarefied
We'll just glide
Starry-eyed
Once I get you up there
I'll be holding you so near
You may hear
Angels cheer
Come Fly With Me, Frank Sinatra

AAAALELUIA!

O abastecimento era na torre da esquerda.

Saio dos trilhos e entro na centenas metros finais de estrada que ligam à Torre. Tenho pressa e resolvo correr. “Corres até um dos postes e depois andas até ao seguinte e depois assim sucessivamente”, penso. A boa vontade só vai durar os três primeiros postes mas, mesmo assim, sigo a passo rápido.
Entro na Torre onde fica o abastecimento e olho em volta... Não está. Boa! Pela primeira vez em sete horas, sento-me e descanso.

Ia decidida a ficar neste abastecimento algum tempo, preciso mesmo de tentar comer algo de jeito. Não há sopa, nem cafés, o que eu achei uma falha neste PAC tão icónico. Não tanto por mim, mas pelos atletas das provas mais longas, que também ali param para descansar. Foi o único abastecimento que achei que podia estar melhor. Enquanto como umas batatas fritas observo quem ali se encontra. Um atleta das 100 milhas dorme numa maca, outros estão estendidos nos sofás. Um homem da prova dos 100km, ao meu lado, trata das bolhas dos pés, outro esfrega creme nas pernas. Uns quantos estão de pé junto da mesa a comer, mas muito poucos, a maior parte aproveita e senta-se onde dá. Parece um hospital de campanha, onde as voluntárias andam, quais enfermeiras, de um lado para o outro a perguntar se está tudo bem e a encher recipientes de água.

Penso naquilo que acabei de fazer. Poder dizer que se subiu a montanha da Estrela até à Torre a pé é fantástico, uma experiência que fica para a vida. Quantas pessoas vão poder dizer que alguma vez fizeram o mesmo?
Por outro lado, penso que ainda bem que fui racional e me inscrevi apenas para os 70. Os atletas aqui presentes contam horrores da subida de Alvoco e o cansaço nos seus semblantes é notório. Da minha parte, metade já está. A partir daqui será sempre a descer até Loriga. Simples. É agora que vou recuperar o ritmo! (Pensa ela inocentemente....)

11.823 metros até Loriga. 1331 metros de D-. (Sim, de desnível negativo.) “Quando cruzarem aquela rocha, vão ver o paraíso.”

When she was just a girl
She expected the world
But it flew away from her reach
So she ran way in her sleep
Dreamed of para- para- paradise
Everytime she closed her eyes
Paradise, Coldplay


- Mas que m*#%a é esta?!

Podia estar a referir-me à quantidade de bosta de vaca que encontro pelo caminho, mas não. Saí da Torre depois de uma pausa de cerca de 20 minutos, refrescada e disposta a largar a correr por ali abaixo, mas vou encontrar uma zona relvada, de terreno fofo que se afunda a cada passo à semelhança de areia seca, e minado de buracos encobertos. Perfeita para pasto mas não tanto para correrias. Quando Camões escreveu o seu famoso poema sobre a Leonor, ela deveria ir a caminho da fonte numa verdura como esta. Da minha parte, depois de 36km, nem segura nem formosa. Quem assistir ao de longe, vai pensar que estou a tentar fintar dispositivos num campo de minas.
Nem todos têm esta minha inaptidão. Passam por mim três ou quatro atletas dos 70km todos lançados. “Só pode ser pessoal de cá, que já treinou aqui muitas vezes”, penso eu, numa tentativa de desculpar a minha clara aselhice.




Pouco depois, passamos do terreno minado para terreno lunar. Transpondo a lindíssima Lagoa Comprida, percorremos solo rochoso no enquadramento de uma paisagem que não destoaria num filme de ficção científica. Não fosse a barragem indubitavelmente feita por mão humana que já se avista ao fundo e quase poderíamos imaginar correr noutro planeta. Tento simular a sensação de leveza que teria na lua, mas aprendi que não se desafia a gravidade terrena quando escorrego e desço metade de uma pedra como se fosse um escorrega aquático, mas sem água e muito mais rijo. Os Fuji Trabuco, apesar de muito confortáveis, não foram a melhor opção num terreno deste tipo.




Nesta parte alcanço um outro atleta que nunca chegou a saber, mas foi o meu anjo da guarda nos quilómetros que se seguiram. Descemos juntos até à Barragem do Covão do Meio, onde estava um grupo de escuteiros que nos estenderam logo prontamente garrafas de água.


Nesta fase comecei a ir-me um pouco abaixo. O calor das três da tarde e as calorias insuficientes que estava a consumir fizeram mossa. Sentia-me agoniada desde manhã, não me apetecia mastigar comida sólida mas agora só o facto de pensar em ingerir outro gel dava-me asco. Nesta altura o que me foi valendo foram uns pacotinhos de pó para desfazer na língua que empurrava com água. Além disso, estávamos em zona de progressão lenta, sempre a descer rochas, o que fazia com que andasse imenso tempo e depois quando olhava para o relógio só tinha avançado 200 metros.
O outro atleta seguia pacientemente atrás de mim. Fartei-me de lhe dizer para seguir, para não se empatar por minha causa, mas ele não se afastava. Mesmo quando seguia alguns metros à minha frente, ia sempre a olhar para trás para ver se eu lá vinha. Houve uma altura em que, cansada de o estar a atrasar, disse que precisava de me sentar e descalçar para tirar pedrinhas dos ténis (o que era verdade) e para ele seguir, que eu depois apanhava-o. Não é que não estivesse a gostar da companhia, mas tinha noção que não ia num bom momento. A verdade é que, mesmo assim, ele seguiu lento e quando finalmente voltei ao trilho ele lá estava.

- "Quando cruzarem aquela rocha, vão ver o paraíso", diz o rapaz que passa por nós a subir. Cruzamo-nos com um grupo de caminheiros que faz a caminhada no sentido ascendente. Por paraíso, o rapaz referia-se ao Vale de Loriga. Na altura mal consegui esboçar um sorriso como resposta ("estou aqui há mais de hora e meia a descer e não há meios de apanhar um carreiro em que se possa correr para despachar isto, porra!) mas depois tive de parar e contemplar.

PARADISE
(Foto não lhe faz justiça e isto era muito mais alto do que parece)

O Vale de Loriga é de formação glaciar e parece uma zona parada no tempo. Não me admirava nada se passasse por ali um Pterodáctilo a voar. Aposto que não terá mudado muito nos últimos milhares de anos e assim se há-de manter por outros tantos. É daquelas paisagens que nos sobrevive e tem uma energia especial por isso. Recuperei um bocadinho. Mais à frente apanhamos uma atleta que se vê claramente que está tão farta de por ali andar em caminhos de cabras (montesas) como eu estava. Adianto-me um pouco e acabo por perder de vista o "anjo da guarda" que me tinha acompanhado até então. A outra atleta agora precisaria mais da força do que eu.



Km 44(?). Ainda a descer até Loriga...

My fingers in my ears to block the sounds
My eyes shut tight to avoid the sight
Antecipating the end, losing the will to fight
From the bottom, it looks like a steep incline
From the top, another downhill slope of mine
(...)
No one listens
Because I'm somewhere in between
My love and my agony
Falling to Pieces, Faith no More

A agonia... Sol abrasador, devem ser cerca das 15h, estou sentada numa rocha a meio do trilho.
O choro vem da alma, mas é quase seco. A hidratação não chega às lágrimas que não chegam a escorrer pela cara.

Fiquei sem gps há uns quilómetros, não sei há quanto tempo aqui ando mas parece-me há uma vida. Depois daquela zona do Vale de Loriga que podem ver na foto acima e em que deu para correr, chego ao fim do mesmo só para ver que íamos voltar a descer rochas... E eu adoro descer rochas, se estivesse em treino ia estar nas sete quintas, mas aqui tinha um limite a cumprir e queria dar o meu melhor. Às vezes dava por mim a ver as fitas mas a não conseguir encontrar caminho para lá chegar, o que me levava a perder ainda mais tempo. "Por este andar, nem chego lá [a Seia] à meia-noite". Mais que o meu corpo, a minha mente começava perigosamente a fervilhar, como um vulcão à beira da erupção. Sentia que estava lenta, muito lenta, exausta... Queria correr, chegar a um trilho e sair do sol. E é nesse estado de espírito que, ao tentar transpor um calhau de cerca de meio metro, coloco mal a perna e bato com os joelhos. Ouço o som do osso a bater e as esfoladelas começam imediatamente a sangrar. Ahhhhhhhhh!!!! Era só o que me faltava... Sinto-me no limite do colapso e por isso sento-me e deixo a enxurrada de auto-comiseração sair. Um choro de cabeça apoiada nas mãos, sem lágrimas. Tenho noção do ridículo que é, estar ali sentada no meio do mato, a meio da prova, a sentir pena de mim mesma.

Para terem noção da perspectiva:
se olharem com atenção vêem atletas a descer à esquerda da foto.

O som de vozes desperta-me deste estado de torpor. Vem lá gente ao fundo e a réstia de dignidade em mim não permite que me vejam nestes preparos. Olho em volta, respiro fundo, digo-me para deixar de ser patética e aproveitar a experiência, "na pior das hipótese ficas em Loriga, pronto, não há-de ser nada, não dramatizes", e sigo.

Eventualmente, lá alcancei o bendito carreiro e posterior estradão que me levaria a descer até Loriga. Corri tanto que parecia que tinha acabado de começar a prova. Queria chegar ao abastecimento o mais depressa possível, só para tornar a sair e continuar a prova. Eu sabia que o corpo aguentava, não podia ceder à mente.
Devo ter feito a entrada na Vila num lindo estado, cheia de sal na cara e joelhos a sangrar, mas as pessoas na esplanada faziam uma festa. Alcanço mais dois franceses que serão a minha companhia silenciosa em  alguns momentos do resto da prova. Aproveito uma fonte de água fresca para encher o depósito de água e lavar os joelhos. Outros atletas mergulham as pernas inteiras. Aproxima-se de mim uma mulher que me diz que se lembra de mim na aldeia X (a tal do abastecimento improvisado). Diz-me: "e vens sozinha, que coragem..." Tivesse ela me visto há pouco mais de meia-hora e perceberia... Agradeço. O carinho das pessoas ao longo desta prova, em muitas histórias que ficam de fora neste relato, tem sido surpreendente.

Entro no abastecimento por indicação de alguns familiares de atletas que lá estavam, já que este ficava dentro de uma casa e mal sinalizado. Finalmente! Depois de quase 2h30 para fazer menos de 12km, cheguei.

12.095 metros até Lapa dos Dinheiros. 58.546 m de prova. 700 D+. 702 D-. O equilíbrio. "Muita coragem, menina. Vá com Deus!"

...and the earth becomes my throne
I adapt to the unknown
Under wandering stars I've grown
By myself but not alone
Wherever I May Roam, Metallica

Avisto ao fundo da rua duas velhinhas que me vão lançando olhares enquanto comentam qualquer coisa uma com a outra entre sorrisos. Já sei que vão querer dizer-me alguma coisa. Ao longo do dia, o ritual tem sido sempre o mesmo: as pessoas das aldeias por onde passo, sentadas ou encostadas à sombra de uma casa, ficam a olhar intensamente para mim, de sorriso aberto no rosto, à espera que seja eu a tomar a iniciativa de um “Bom dia”. Depois disso, o difícil é convencê-los de que não podemos ficar à conversa!
- "Menina, o que é isto que está a haver? Alguma corrida? De onde vindes?", pergunta uma das senhoras depois do meu cumprimento.
Eu sabia. :)
Quando eu lhes respondo que vamos para Seia, elas ficam preocupadas.
- "Menina, isso ainda é tão longe! Vai chegar lá de noite!"
Nesta altura deveriam faltar cerca de 3km para Lapa dos Dinheiros, portanto pouco mais de 15km para o final. Quase "nada", comparado com o que ficou para trás. Quando lhes disse a volta que já tinha dado, juro que quase se benzeram! :)
- "Olhe, vem ali o seu companheiro de corrida! Não o perca, para não ir sozinha!"
O "meu companheiro de corrida", que elas referiram, era um atleta das 100 milhas que entretanto estava a chegar ao início da rua. Não lhes disse que era a primeira vez que estava a ver aquele companheiro e que, apesar de ele já vir com mais 100 km que eu nas pernas, muito provavelmente ainda me ia deixar a comer o seu pó! Achei melhor ocultar essa informação.
- "Muita coragem menina, vá com Deus!". O meu coração derrete-se.



Depois de Loriga o meu ânimo vai melhorar consideravelmente. Não consegui comer muito no abastecimento, mas bebi duas gelatinas que estavam quase líquidas, coisa que o meu estômago conseguiu suportar.

Tenho vindo a parar em tudo o que é fonte para molhar a cara e o boné, mas tento não me demorar. Alguns atletas sentam-se junto à fonte e isso é uma perdição. Depois quem me tirava dali?! Não pode ser, sigo, sigo sempre.
À entrada desta aldeia houve o primeiro e, para mim, único problema com as sinalizações. A certo ponto, deixei de as ver. Segui para a direita porque via um atleta ao fundo e pensei que, mesmo que fosse enganada, já não seria a única (atitude inteligente!:)). Depois soube que alguém tinha tirado as fitas e a organização tentou resolver à última hora com umas setas pintadas no chão. Como as setas eram de cor vermelha e não muito distinta (a cor das fitas e indicações da Organização era laranja), não tinha a certeza de pertencerem a esta prova. O atleta da frente ia certo, foi o que me valeu.

Nesta fase, as três provas principais já partilham o mesmo percurso. Sempre que passo por alguém ou alguém passa por mim há sempre um olhar discreto para o dorsal, como quem mede a competição.
Alcanço a minha última francesa do dia, que será a 3ª classificada dos 100km. Ainda vamos alguns quilómetros juntas, mas numa zona de calçada romana ela conseguiu distanciar-se. Raios mais este piso irregular, se alguém consegue andar aqui direito! O Obélix é que tinha razão, "estes romanos são doidos".



Começamos a percorrer muitas aldeias e zonas agrícolas, nota-se claramente que estamos a regressar à "civilização". Não sei bem o que sentir em relação a isso. Por um lado tão aliviada por estar a terminar, por outro já com saudades de uma experiência fantástica. Apesar dos constantes louvores de "coragem" ao longo da prova, eu nunca senti que o merecesse. A verdade é que correr sozinha pela montanha não me custa, pelo contrário, é algo que faço com muito gosto. Nada me dá mais gosto do que passar horas neste prazer introspectivo e contemplativo. Acho que temos poucos momentos de silêncio na nossa vida de todos os dias, por isso aproveito para respirar a paz que cada quilómetro me concede. Claro que prefiro ter companhia para poder partilhar a alegria e ter em quem descarregar o mau-humor nas fases más (vocês sabem bem que em provas grandes isso vai acontecer, não há hipótese!) mas, tendo de ir sozinha, os momentos de solitude acabam por ser bem intercalados com partilhas momentâneas e algumas muito importantes, que nos dão força.

A conselho das queridas senhoras da aldeia, vou tentar também não perder o "meu companheiro" de vista. Não é fácil, mas consigo mantê-lo a uma distância visível. Em Lapa dos Dinheiros ele nem chega a parar no abastecimento, já deve ir num estado de ansiedade tal que não quer perder um minuto até à Meta. Entretanto, eu entro naquela que será a minha última paragem antes do destino final: Seia.


Últimos 10km até Seia. "Um momento impagável, de serenidade ímpar."
I see skies so blue and clouds of white
The bright blessed days, the dark sacred night
And I think to myself, what a wonderful world
What a Wonderful World, Louis Armstrong



No PAC uma das voluntárias mete conversa e faz imensas perguntas. Penso que deve ser uma forma de confirmar se os atletas ainda estão com um discurso coerente. Ainda há pouco passei por um rapaz dos 100km que ia a falar sozinho. Tantos quilómetros e horas seguidos deixam-nos delirantes em maior ou menor grau, não há como fugir. O meu problema é que não me apetece comer. Deveria ser expectável que tal desgaste me desse uma fome de lobo, mas eu nem consigo pensar em comida. Sinto-me agoniada e vou chegar a um ponto em que até beber água me vai deixar à beira do vómito, e não sei se depois desta prova alguma vez vou conseguir tornar a ingerir algum gel. Foi a primeira vez que tal me aconteceu e algo que terei de ter em conta para o futuro. 


Praia Fluvial de Lapa dos Dinheiros.

Depois de Lapa dos Dinheiros indicaram-me que agora "apenas" teria mais duas subidas, a segunda um pouco pior do que a primeira. De facto, estes quilómetros finais foram bastante corríveis, com um par deles junto a uma levada. Aqui tentei sempre correr, quando me sentia tentada a caminhar fazia jogos mentais: "só até à próxima fita, depois caminhas", "só até àquela árvore", "tens de chegar a horas de jantar, vá lá!"



O que me preocupava mais era o facto de estar a anoitecer e não querer estar em zona ainda de floresta muito cerrada quando tal acontecesse. Por via das dúvidas, tinha comprado um frontal de melhor qualidade para esta prova, mas todos sabemos como os ruídos nocturnos da natureza podem tirar anos de vida a um coração já cansado de emoções fortes. :) Por isso, quando estava a subir a primeira das duas últimas subidas, fiz ponto de honra em não parar.
Quando explico no que consiste uma prova de trail a quem não sabe, muitas pessoas pensam que é fácil porque podes caminhar. Isso é porque nunca fizeram uma subida desta inclinação em pernas cansadas. Até caminhar custa! Pôr um pé à frente do outro exige negociação constante. Penso nisso quando olho para um tronco tão apetecível para me sentar a meio do trilho. Sou capaz de jurar que vários atletas antes de mim já lá se sentaram. A tentação é tão grande... Mas não posso, está a ficar de noite.

Estou neste momento a subir a Cabeça da Velha. Se calhar por ir a temer uma segunda subida muito pior, não a achei assim tão má. Às vezes é bom fazermos logo o pior cenário! Além disso, estava a anoitecer e pude ver o pôr-do-sol mesmo no topo. Mais uma vez, as fotos não lhe fazem justiça...

Cabeça da Velha.
Pôr-do-sol sobre Seia.

Foi um momento impagável, de serenidade ímpar. Fiz as pazes com os momentos menos bons do dia e resgatei a energia que me faltava. Pus o frontal, coloquei a luzinha pisca-pisca na mochila e fui rumo à Meta.

Seia.


Quando, a cerca de 3km da Meta, decido que o que era mesmo bom era voltar cá para o ano e fazer os 100km.


Your head will colapse, but there's nothing in it
And you'll ask yourself
"Where is my Mind?"
Where is my Mind, Pixies


À chegada a Seia, na passagem pelo Estádio Municipal, alcanço um atleta que depois vejo que é das 100 milhas. Vai a caminhar, já não corre, e noto que o discurso cansado já é feito mais em jeito de desabafo mental, para ele mesmo, do que em resposta às minhas perguntas.
É quando ele me diz que "se alguma vez te passar pela cabeça quereres fazer 100 milhas, PENSA BEM! Olha que não é nada, NADA, fácil", com ênfase nas palavras destacadas, e lhe respondo que "talvez, quando me esquecer desta, para a próxima queira fazer os 100km", que eu descobri que a decisão já estava tomada. A minha estreia nos 3 dígitos teria de ser ali, na minha Serra, mesmo com todas as rochas, os campos minados, a subida à Torre, a  exposição à intempérie e o colapso nervoso na Garganta de Loriga. Não é a escolha mais fácil para a primeira abordagem a essa distância, mas tenho um ano até lá, vamos ver onde a vida me leva. "E para a próxima preparo-me melhor".

Mas pronto, neste momento estou a terminar os meus primeiros 70km, a maior distância corrida até ao momento, e sinto-me bem. Desde que entrei em Seia e até cortar aquela Meta, vou correr sempre, vou voar, embora vídeos da minha chegada possam dar uma impressão diferente. :) Ajuda ser quase sempre a descer e em estrada alcatroada. Tenho sorte, porque àquela hora está muita gente na rua e na chegada e sinto o apoio. Sei que ainda consigo terminar na casa das 13horas, e é para isso que faço um esforço final.

Foto da Meta, tirada na noite anterior.
Foi assim, mas com muito mais pessoas à volta.

Se me perguntarem, eu vou dizer que estava a passar a música do Bowie: Heroes, quando cortei a Meta. Eu sei que é mentira, e vocês também. Além disso, não fui heroína de coisa nenhuma. Não ganhei, não subi ao pódio, o meu tempo não foi nada por aí além, não salvei nenhuma vida - embora na serra tenha estado atenta para não pisar nenhum lagarto - e tenho demasiadas crises de mau-humor durante a jornada para poder dizer que esta prova me tornou mais forte ou melhor pessoa. Mas terminei muito feliz, e o mundo precisa de pessoas felizes. Nesse sentido, todos podemos ser heróis por um dia...

E foi este o dia em que "corri" 70km. Peço desculpa pela extensão do relato, mas quero guardar tudo, para nunca esquecer. Os excertos de músicas aqui deixados são músicas de uma lista de faixas que não levei, mas que o silêncio da montanha me trouxe.

OMD. Mesmo.

36 comentários:

  1. OMD, mesmo! Menina.

    Tanto por dizer, da prova, do que passaste, do que me fizeste sentir, sim da vontade insana de ir a correr (sim, foi propositado) inscrever-me também nos 100 km, sei lá, tanto para dizer mas no fundo tu já o escreveste.

    Bjs, Sra. Menina

    PS: ahahahaha, então, quem estava na Torre, quem? pff deves andar a ver telenovelas venuzuelanas, deves...

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    1. Quem nunca correu deve achar mesmo estranho como é que estas coisas nos podem trazer coisas incríveis, mas podem. Tudo o que nos leva ao limite pode ser incrível. Põe-te bom desse joelho, tens de viver mais coisas assim! :)

      Bjs, Sr. jnr :)

      PS: Na Torre não estava ninguém... conhecido. :)

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  2. Anónimo19/6/15

    Apenas uma palavra... brilhante...

    Como já referi noutro blog... «Sem dúvida um dos melhores blogs sobre corrida que existe por esta internet fora...» :)... obrigado menina...

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    1. Anónimo, oh, dizes isso a todos! eheh :) Estou a brincar, obrigada eu!

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    2. Anónimo19/6/15

      A todos não... Só a quem merece... ;)

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  3. Helder19/6/15

    Antes de mais, parabéns pela tua prova, pelo magnifico relato e pela grande, grande banda sonora :)
    A garganta de Loriga e o seu vale glaciar é tudo o que dizes e muito mais. Mais do que as palavras conseguem descrever... só quem por lá passou e depois do que passou, pode de facto entender e perceber o que é estar ali. Faz-nos sentir tão pequenos. Lembro-me de ter parado cá em baixo junto ao riacho, olhar em volta quase não acreditar que ali estava!

    Pelos caminhos de Portugal
    Eu vi tanta coisa linda
    Vi um mundo sem igual

    A minha contribuição tuga para a banda sonora lol

    bj

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    1. Ahahah obrigada pela contribuição musical. Realmente ficou em falta uma representação nacional, acho que vou ter de lá voltar! ;)
      Tu, como viveste os mesmos sítios, melhor do que ninguém sabes que por mais palavras que se escreva nunca é suficiente (e eu bem tento!), para já nem falar das fotos, ainda por cima tiradas a telemóvel...
      Obrigada.
      Boa prova na Lousã!
      Bjs

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  4. Foste bem merecedora de se estar a tocar (imaginariamente) o Heroes porque foste uma grande heroína!
    Forte é quem não fraqueja. MUITO forte é quem fraqueja e resiste continuando sempre em frente.
    Se já achava a tua vitória extraordinária, depois de ler este tão sentido texto, nem palavras tenho.
    Poderia ser estudado nalgum workshop de resistência, força mental, coragem, resiliência e sei lá o que mais.

    Faço-te uma enorme vénia dando-te os parabéns!

    Beijinhos :)

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    1. :) Obrigada. Na minha cabeça estava a tocar o Heroes, é o que importa... ;)
      Foi difícil mas, lá está, agora quase só recordo as coisas boas e tornava a fazer tudo outra vez. Mas, "para a próxima melhor preparada"! ;)
      Até fico envergonhada com os elogios, João! Afinal, é "só" correr (e alguns até diriam que nem correr é...) :D ;)
      Beijinhos grandes

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  5. Oh meu deus ainda só consegui ler 1/4. Excelente... amanhã vou prolongar o prazer.
    Beijinhos

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  6. Hello.
    Li a parte I e II de uma virada (assim não saí do espírito).
    70km é muita coisa!! Só tens de te orgulhar MUITO de ti. É muita mais do que correr. É superação!
    Espero que esteja tudo bem por aí.
    Beijinhos grandes

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    1. Ufa! Também fizeste uma Ultra, então! ;)
      É mais uma pedra preciosa para guardar no baú das memórias. :)
      Obrigada, Lu.
      Beijinhos grandes para ti e pequeno D.

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  7. "Não ganhei, não subi ao pódio, o meu tempo não foi nada por aí além, não salvei nenhuma vida "
    Ganhaste... subiste ao pódio em primeiro lugar (que é como te sentes com mérito)..., o teu tempo permitiu-te prolongar o prazer de fazer estas provas... e salvaste muitos tempos de vida monótonos de quem não tivesse lido as crónicas.
    A solitude do corredor... :)
    Parabéns, vários :)
    Beijinhos

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    1. Obrigada, Zémi. :) Nesse aspecto, o que não falta aqui são palavras para encher os "tempos de vida monótonos" ;)
      Beijinhos

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  8. Rute, só agora arranjei tempo para ler com atenção o teu relato (parte I e II) sobre o OMD!
    E quero dar-te os meus mais sinceros parabéns! 70 km na Serra da Estrela? BRUTAL!
    Relato muito bom, consegues transportar-nos para lá, para os momentos de alegria e os de sofrimento.

    E para o ano os 100 na "tua" serra? FORÇA! Ninguém duvida que irás conseguir! :)

    Beijinhos

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    1. Eu às vezes duvido. ;) Mas ainda falta... Até lá espero ainda ter várias provas pela frente e ver a "evolução". :)
      Mas sim, é um local em que vives uma experiência de prova fantástica. :)
      Obrigada, beijinhos grandes

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  9. Sem palavras...
    ...não tenho proza o bastante para expressar a emoção e orgulho que sinto ao ler este texto.
    Parabéns R...
    ...e obrigado por tudo.


    (não conheces , mas aqui fica a minha sentida contribuição para os excertos de musicas)
    _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _

    Gravity...
    is working against me
    And gravity wants to bring me down

    Oh I'll never know what makes this man
    With all the love that his heart can stand
    Dream of ways to throw it all away

    Oh, gravity...
    is working against me
    And gravity wants to bring me down

    Oh twice as much ain't twice as good
    And can't sustain like one half could
    It's wanting more
    That's gonna send me to my knees

    Oh gravity
    ...stay the hell away from me
    Oh gravity
    ...has taken better men than me (how can that be?)

    Just keep me where the light is
    Just keep me where the light is
    ...
    _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _

    ;)

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    1. Hás-de me dizer qual é a senhora que não conhece John Mayer... :) Mas tens razão, esta música não conhecia. Too slow, melhor para dançar que para correr. :P
      Obrigada, A...

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    2. E esta ? já é mais para correr?? :P


      A "Gravity" não era para usar na prova, mas ok ! :)
      E sim !! Slows , é nice !! :P

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    3. Eheh Sim, as covers de Me First and the Gimme Gimmes são sempre boas para correr. :) Uptown Girl é a minha favorita.
      E Gravity é o que te estou sempre a dizer que os ultra trails nos fazem!!! :P
      Ficou escrito... ;)

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  10. Dos melhores textos que alguma vez li sobre corrida. Só tenho pena de ter lido a primeira parte antes e não tudo de uma vez. Senti a tua angustia na descida à Loriga e estou com a Heroes na cabeça desde que acabei de ler! Parabéns Rute, foi brutal correr estes 70km contigo!

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    1. Música nada má para se ter na cabeça. ;)
      Obrigada, Filipe.

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  11. Estória de tirar o fôlego...

    "Além disso, não fui heroína de coisa nenhuma. Não ganhei, não subi ao pódio, o meu tempo não foi nada por aí além (...)"

    E???????????

    Muito parabéns, Rute
    MESMO!

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  12. Anónimo25/6/15

    Já li muitos bons relatos de corridas, especialmente de Ultras. Estamos cheios de bons escrivas. E ainda bem!

    Este texto é só um dos melhores que já li. Impressionante como nos transportamos para dentro da corrida como se fossemos a correr (ou a caminhar) contigo. Como às vezes ficamos para trás ou outras vezes temos que esperar que acabes de subir aquele pedregulho...

    O penultimo paragrafo resume muito do que é correr uma "Ultra" para um atleta cujo unico objectivo é a superação. Não interessa se é 20º ou 100º. Se demorou 5, 10, 15 ou 20 horas. "...terminei muito feliz, e o mundo precisa de pessoas felizes." E com certeza que mereces. Superaste-te e posso te dizer que ajudaste muita gente a ficar mais proximo de um dia também conseguir.

    Obrigado pela partilha. Do texto e das emoções.

    Até um dia, num trilho qualquer onde nos podemos cruzar e dizer impropérios a amaldiçoar o momento em que nos inscrevemos... Exactamente antes de esquecermos tudo e sermos mais felizes.

    Stay cool ;)

    Pedro.


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    1. Escrever sobre uma prova desta distância é quase como completá-la outra vez. Por vezes é moroso, outras os dedos correm velozes como as pernas, outras encalhamos numa "rocha", mas vale sempre a pena. É um registo de memórias. Agradeço a vossa companhia.

      Quanto às Ultras ou qualquer outra distância que nos dispomos a superar: "dizer impropérios a amaldiçoar o momento em que nos inscrevemos... Exactamente antes de esquecermos tudo e sermos mais felizes" - também é muito isso... :)

      Obrigada pelas tuas palavras, e até um dia num trilho por aí. :)

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  13. Olá Rute,

    Tenho andado atento a esta prova desde a sua primeira edição, nessa altura achava um desafio dificilmente ao meu alcance, hoje, pelo menos os 70Kms, já sinto que mesmo não me parecendo nada fácil, talvez seja um desafio que possivelmente conseguirei concluir.

    Adorei ler o teu relato, esta já foi a segunda vez que o li e consigo "sentir" toda a prova que fizeste tudo por culpa da forma como escreves, excelente. :)

    Parabéns e bons treinos para o próximo desafio.

    Manuel Nunes

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    1. Olá Manuel!
      Vai. Arrisca. Esta prova é especial, vale muito a pena.
      Obrigada! E tu, qual o próximo?
      Bjs

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    2. Cada coisa a seu tempo, neste momento é alcatrão, alcatrão, alcatrão e mais alcatrão. :)

      Corrida do Tejo, Maratona rock & roll ( nao podia falhar pois ainda tenho esperança de um dia fazer menos de 3H30, mesmo achando isso ser uma tarefa para o Obelix.), Meia dos Descobrimentos (vou fazer companhia pois já peguei o bicho cá em casa) e para terminar o ano em beleza, pelo menos assim espero, a São Silvestre de Lisboa, se possivel para baixar dos 43 minutos, logo se vê.

      Antes de atacar os 70+ estava a pensar ir primeiro fazer os 20 que já não devem ser pêra doce.
      Pelo meio tenho ideia de fazer, por exemplo, o UTML, sao 52kms mas ficam "perto de casa" e posso sempre a meio caminho fazer um desvio se as coisas não estiverem a correr bem. :)
      Digo que quero primeiro fazer os 20kms pois aquela Serrinha deve ter muitos segredos bem guardados e como diz a lei de Murphy, o que tiver que correr mal vai mesmo correr e nas maiores proporções.
      Ja tenho a experiência da maratona e dos seus treinos longos, alem disso já nao ando nisto á dois dias para saber que as coisas serão sempre muito mais difíceis do que parecem e quero evitar nao cair em erros de principiante, pelo menos quero tentar evitar isso ao máximo, é que já chega de unhas negras :)

      Força

      Manuel Nunes


      Manuel Nunes

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    3. Já pareces ter aí uma agenda cheia, pelo menos até ao final do ano. ;) Bom ver que o bichinho já está a pegar aí por casa! :)
      O "problema" dos 20km é não passar nas zonas que, na minha opinião, são as mais icónicas e bonitas. Mas pode servir de test-run futuro! :) E sim, a descida de Loriga foi uma mata-unhas! :D
      Continuação de boas corridas!

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  14. Vitor Costa15/9/15

    Belo relato... Para 2016 estou a negociar comigo mesmo a participação nos 70... Para já o sim vai ganhando com larga maioria e o seu relato ajudou a reforçar essa vontade... Obrigado pelo relato...

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    1. OMD 2016, sim! :) Não é preciso negociar mais. Correr naquela montanha é único, com uma boa base de treinos, não se vai arrepender. Força! :)

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