30 de julho de 2015

Caldas Ultra Trail

Ou o dia em que o corpo me morreu.

Versão Apontamentos Europa-América:

1km de prova:
-"Isto hoje não vai ser fácil."
3km de prova:
- "Isto hoje não está nada fácil."
(Silêncio)
7km de prova:
- "Estou a morrer."
(Silêncio)
(Silêncio)
10km de prova:
- "Morri."
20km de prova:
- "Morri."
(Silênnnnciooooo)
30km de prova:
- "Conta-me histórias."
(Silêncio)
40 km de prova:
- "Acho que vou ter de beber para esquecer este dia."
(Silêncio)
47km de prova:
- "Depois disto tudo, e já que cheguei até aqui, se cair para o lado, tu faz o favor de me arrastar até para lá da linha da meta."
(Silêncio)
49,5km de prova:
- "Vamos correr e sorrir, para ao menos ficar com uma boa foto de Meta." (Bom ver que ainda estava capaz de pensar nas coisas importantes.)

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O Caldas Ultra Trail foi uma prova de muitos silêncios. Ainda estou para saber o que aprendi, se é que há alguma coisa para aprender, por ter concluído esta prova. Sei que não houve qualquer mérito em terminá-la. Foi daqueles dias em que o mais sensato seria desistir. O percurso em si não era particularmente difícil, embora toda a parte das arribas e alguma areia fizessem o seu desgaste. Não estava enjoada, nem especialmente cansada, simplesmente não tinha energia, faz sentido? Os meus músculos parecia que tinham sido substituídos por gelatina.
Assim sendo, porque insisti em continuar? Primeiro, porque, ao contrário do meu corpo, a minha mente queria mesmo estar ali. Toda aquela zona desconhecida, com a sua paisagem costeira, impossível não querer saber o que vinha no quilómetro seguinte. E, segundo e mais importante, tive sempre esperança de que iria "ressuscitar". Já tive "mortes" noutras provas e consegui sempre recuperar e, regra geral, terminar em força. Desta vez isso não aconteceu. Desta vez, fui sempre o bonequinho dos videojogos dos anos 90, desesperado à procura de mais energia, quando a barrinha já está só com um traço vermelho e a música ganha tons de urgência a anunciar o GAME OVER. Foi o meu optimismo inocente que me levou a persistir metro após metro, na esperança de encontrar a moeda que me fizesse ganhar mais uns minutos, a nuvem ou o cogumelo que me levassem para um nível superior de força máxima. Nunca aconteceu.
Se realmente aprendi alguma coisa, foi que existe jogo para além do GAME OVER, se quisermos (e se, como era o caso, a prova não tiver tempos limites). Não vamos é ter créditos, nem bónus, nem vitórias, nem a princesa à espera para nos dar um beijinho no final.
(Espero que também tenham jogado Super Mario Bros. na vossa infância/juventude, senão os últimos parágrafos não vos farão muito sentido e vão pensar que o sol das Caldas da Rainha estava muito forte.)
Agora, se vale a pena continuarmos em modo "training level"? Isso caberá a cada um decidir, tendo em conta os seus objectivos. Sei que, uma semana depois, apesar da facada no ego, fico contente por ter terminado. Mas passar toda uma prova num exercício de humildade, em desfile de fragilidade humana, não foi pêra doce. Seguem-se os meus pensamentos, pontuados por algumas considerações à prova.

Todas as fotos por ajb, excepto as indicadas.
O dia estava encoberto e com muita humidade. Meia hora antes foi o suficiente para levantar os dorsais nas calmas, junto com a t-shirt e um copo desdobrável que será muito útil em provas futuras. Gosto de ofertas úteis, já que as medalhas acabo por as pôr a um canto, à espera do dia em que finalmente as organize.

Fotografia retirada da página de facebook da prova.

Pouco depois das 8h era dada a partida. Começo na cauda do pelotão, como de costume, mas vai ser preciso pouco mais de 800 metros para perceber que aquele não vai ser um dia fácil.
-"Isto hoje não vai ser fácil", digo.

Calma, é só o início, sabes que levas sempre algum tempo a aquecer, conheces as manhas do teu corpo. Vão doer-te os gémeos, os primeiros quilómetros vão ser difíceis, duvidosos, vais sentir-te cansada, mas depois passa. Depois recuperas...

- "Isto hoje não está nada fácil", reforço ao km3.

Estou completamente encharcada em suor e não consigo estabilizar a respiração anormalmente ofegante. Não sei se é um bom sinal tão cedo na prova. Mas esta primeira parte está a ser muito corrível, se calhar começaste muito rápido, relaxa, respira fundo... Não olhes para trás! Vamos em último? Sabes que consegues recuperar, consegues sempre. Calma. Relaxa. Respira fundo.

Até ao segundo abastecimento o percurso será, de facto, muito corrível, mas a minha disposição não melhorou. Continuo com a respiração desgovernada e vou ter de começar a parar para caminhar mesmo em zonas sem dificuldades de maior. Depois começam a aparecer zonas com areia e as caminhadas começam a tornar-se ainda mais frequentes. Comi uns morangos no primeiro abastecimento, na Fonte Santa, junto com uma barrinha que tinha trazido, mas continuo sem energia.

- "Morri", repito em voz alta por, pelo menos, duas vezes. Acho que é óbvio para quem me acompanha e (des)espera, mas quis reforçar. Tenho a esperança que a força apareça, trazida pela brisa do mar, no abastecimento dos 23km em Salir do Porto. Vai ter de aparecer, se quero conseguir sobreviver à segunda parte da prova, maioritariamente em arribas.


As pessoas dos abastecimentos e locais de controlo do CUT foram das mais simpáticas e prestáveis de todas as provas em que participei. Pena hoje não conseguir retribuir a atenção de forma mais expressiva. Aqui, os voluntários sabem das coisas e dão informações úteis, sem paninhos quentes. Avisam do "pior" que está para vir, quantos quilómetros vai demorar e como é o percurso, mas também dão ânimo. "Aquela duna ali à frente? Sim, é para subir!"


Foto retirada da net.

Pára de tirar fotografias deste meu momento humilhante e ajuda-me a subiiiir! Não vês que estou morta? Não vês que é uma zombie que está aqui a tentar escalar esta duna sem deixar nenhum bocado para trás, para além da dignidade, que ficou ali em baixo aos primeiros metros quando tive de curvar as costas quase até ao chão para conseguir avançar?

Pensei que junto à vegetação a subida fosse mais fácil, mas os pés enterram-se na mesma e não consigo levantá-los com a rapidez suficiente para impedir que um quilo de areia me entre para os ténis. Não vale a pena sacudi-los ainda, porque a duna que subimos iremos ter de descer mais à frente. Descer uma duna é muito mais divertido que subi-la. E é fácil, temos a segurança de um piso suave. Largo por ali abaixo quase como o Kilian Jornet naquela foto que partilhei com vocês na crónica anterior (só que não.) Mas tive aqui, penso, dos pequenos momentos de leveza que me foram permitidos ao longo da prova. Aproveitei bem.

Entretanto, esta era a paisagem a metade do trail...








Na próxima praia que aparecer vou-me sentar e descansar um bocado. Continuo sem energia, vou ter mesmo de parar. Parar = deixar de caminhar. Este constante sobe e desce, sobe e desce, assemelha-se-me a um carrossel viciado do qual não consigo sair. Assim até me custa desfrutar deste local lindíssimo, para o qual às vezes me obrigo a olhar e respirar fundo. Deverei ficar no abastecimento do km33? Vale a pena continuar assim, sem energia, com músculos de gelatina? É isto que se sente e se pensa quando estamos perto de um DNF?

No meio da dificuldade que foi toda a prova, estes foram os quilómetros piores. Toda a conversa é feita na minha cabeça, pouco falo, e não quero dizer em voz alta que estou a pensar desistir. Isso era tornar a decisão muito real, e ainda não estou segura de que o quero. Preciso de me distrair, preciso de afastar os pensamentos negativos. Roubo a frase à música dos Xutos, num código já conhecido de socorro:
- "Conta-me histórias", peço-te.
Conta-me histórias para, ao ouvir as tuas palavras, calar as minhas que ecoam na cabeça. Sei que consigo terminar a prova, mas não vai ser uma história bonita. Conta-me as tuas. Distrai-me. Por favor..


O Miradouro da Boa Vista foi crucial, já que a história desta Ultra poderia ter ficado por ali. A haver um ponto final, seria este, uma vez que chegando ao próximo abastecimento, no km44, dificilmente iria fugir à ideia do "já que cheguei até aqui, faço mais um esforço e concluo..."
Ali, aos 33km, passei a cara e os braços por água, sentei-me, comi... e decidi continuar. Ainda seriam cerca de 7km de arribas até ao próximo abastecimento, onde o percurso tornava novamente a virar para o interior e o terreno se tornava menos agreste. Não estava com dores e, se me perguntassem, diria até que nem estava cansada, não sentia dores musculares e a respiração já tinha estabilizado, "apenas" não tinha energia. Ali, aos 33km, ainda tinha esperança de "ressuscitar".



10 horas de prova no pior dos casos, tinhas pensado tu? Dez horas vai ser muito bom, neste lindo estado! Todos te ultrapassam, até aquele, até aquela, aqueles que sabes que nesta liga dos últimos tu consegues sempre ganhar. Bem-feita! OMD, não é? Ui, fazes 70km em montanha e depois vens para aqui armada em carapau de corrida, agora arrasta-te para aí para veres o que é bom. Arribas a dar-te 1000 a ZERO. Hoje não apanhas ninguém. Hoje nem a ti te apanhas. Hoje tens sorte se não fores varrida.

- "Acho que vou ter de beber para esquecer este dia" - disse, só em parte a brincar. Curiosamente, um dos prémios de finisher por ter chegado nas primeiras 10 mulheres (eram só 9!:)) foi uma garrafa de vinho branco. Parece que me ouviram os pensamentos, embora a garrafa continue ainda hoje guardada no meu armário da cozinha. Mas, na altura, a imagem de uma imperial fresquinha  (ou duas, ou três..), quem sabe numa esplanada à beira-mar - uma beira-mar pacífica e veraneante, não esta das arribas que agora goza comigo e o meu sofrimento - era o que me estava a motivar para tentar concluir mais depressa. Pensa no copo gelado e a espuma a escorrer-te pelos lábios, tu esticadinha numa cadeira, finalmente em REPOUSO... E continuei.




- "Depois disto tudo, e já que cheguei até aqui, se cair para o lado, tu faz o favor de me arrastar até para lá da linha da meta!", pedi.

Para chegar ao abastecimento do Miradouro Green Hill foi preciso fazer uma última descida técnica para depois enfrentar a última grande subida da prova. Ali nem quis parar muito, queria acabar! Seguimos as fitas que se afastavam do mar para entrar numa zona de moradias. Foi fácil seguir a sinalização ao longo de todo o percurso, sempre bem identificado, e apenas nos enganámos uma vez por distracção: eu porque estava em coma e o companheiro de corrida porque ia distraído com o telemóvel (quem acompanha uma zombie tem tempo de responder a sms, telefonar à família e consultar o estado da actualidade nacional e mundial, e mesmo assim de vez em quando tem de olhar para trás para não se afastar muito :))

Penso que foi depois do último abastecimento que percebi que não ia melhorar (sim, só aos 44km, eu avisei que sou optimista...) mas, lá está, "já agora acabo".

Gostava de poder dizer que a partir do momento que entrámos em Nadadouro, freguesia das Caldas de onde partiu e terminava a prova, foi aproveitar a maioria de asfalto e correr para recuperar, mas não. Corri, sim, mas a muito custo e apenas para "vamos lá despachar isto!" No entanto, qualquer inclinação de 0,003% era suficiente para me atrasar, qualquer pedra de 5 centímetros que me obrigasse a levantar um pouco mais os pés era um rochedo! Quando avisto finalmente o pavilhão julgo que é mentira. Ufa!

- "Vamos correr e sorrir, para ao menos ficar com uma boa foto de Meta." E, tenho-vos a dizer, que pelo menos esse objectivo consegui. :)

(Notem que me controlei e consegui terminar a crónica sem ceder ao trocadilho e dizer que o Caldas Ultra Trail foi uma prova do Cara... Mas foi! Para o bom e o mau.)

21 comentários:

  1. Nem sei que dizer, tanto esforço para ultrapassar os limites! Lutar tanto interiormente para conseguir bater-se a si própria? Tudo vale a pena quando a alma não é pequena! Parabéns por conseguir chegar ao fim...
    Essa zona, a minha zona, é linda, a gigantesca duna de Salir do Porto, subi-a tantas vezes quando era criança, a vista lá de cima para S. Martinho, tudo é lindo para essas bandas...
    Beijinho

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    1. Sim, Eugénia, não conhecia a zona e gostei muito! Fiquei encantada com aquela baía de S. Martinho do Porto.
      Nem sei se superei alguma coisa nesta prova, para além da linha da meta!
      Obrigada, beijinhos

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  2. :):) ... confesso que estava ansioso por ler sobre esta tua prova - ok, estou sempre, mas desta vez mais um bocadinho - não, não por te ter corrido "mal", mas sim para "sentir" o que se passou contigo, por ser diferente do habitual ... e sabes uma coisa? Ao contrário de todos os outros textos sobre as tuas aventuras de trail, desta vez não consegui "sentir" a tua prova, as tuas "aflições", nada ... estive a pensar, e não me lembro de ter passado por algo semelhante ainda ... um dia será a minha vez, e aí vou lembrar-me deste texto e saber que, ou desisto e acabo com a brincadeira, ou continuo, ansiando pelo metro final sempre a penar (a malta gosta de sofrer, de penar e empenar, mas o que descreves é diferente, não tem glória) ... obrigado pela "lição" Sra.Professora e dou-te os parabéns na mesma, pq embora aches que não, eu sou de opinião que foi de guerreira acabar nessas condições.
    Beijinhos

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    1. Obrigada, Sôtor Cardoso. :-)
      Espero que te fiques pelas minhas palavras e que nunca tenhas a experiência de passar por isso! Senti mesmo isso, um penar "sem glória" não porque concluir a prova não tenha o seu valor, mas porque... Olha, nem sei, este penar foi muito diferente e ainda estou a assimilar! :-)
      Agora venha a próxima (em condições diferentes, espero!)
      Beijinhos

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  3. Minha cara, escrever que não foi mérito nenhum acabares a prova é um evidente erro de perpectiva.

    Aquilo que descreves, seja porque o trajecto era mais dificil que o que estavas à esprea, o calor ou humidade, ou...porque não, e não teres desistido tem que ter o seu mérito.

    Quando a nossa integridade fisica não está em jogo acho que não desistir, já que a "mente queria mesmo estar ali" é muito positivo e prova de muita garra, persistência e resiliência.

    Quanto ao "companheiro de corrida " é esperar mais um pouco e já ai estão a chegar as versões para telemóvel do Super Mario Bros e mais uns clássicos ;),

    Abraço

    PS: A garrafita pode estar na prateleira mas espero que já tenhas hidratado ;)

    PS2: As fotos estão relamente muito boas ( sim, já o tinha escrito)

    Wii:não tenho nada a dizer, é apenas para encher...espera, apesar do eu relato e de outros, a verdade é que adorei as imagens e gostaria mesmo de ir às Caldas correr isto para o ano.

    PS3: Portanto...prova do Cara...

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    1. :-) Como respondi ao Carlos, é difícil de explicar sem querer retirar o mérito da Meta cortada. Continuar uma prova sabendo que não estamos em condições de competir, nem com nós próprios, valerá a pena? Para todos os efeitos, é uma prova. Mas foi bom passar 50km na companhia dos meus demónios. Teria aprendido o mesmo se fosse só até aos 33km... Mas assim ao menos fiquei a saber que aguento. :-)
      E sim, também pensei nisso da integridade física e como as minhas "dores" eram apenas do ego... E faz bem de vez em quando descobrir que somos apenas humanos e há coisas que nos afectam ;-)
      Enfim, é "só" corrida... :-)

      Ihihih esses jogos vão dar um jeitão nas Ultras... Ãhh, quer dizer, para passar os tempos mortos! ;-)

      Bjs

      PS: Sim, ide! Já disse que foi uma prova do cara..?

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  4. Rute, como é fácil de entender, adoro a tua escrita e o teu humor tão próprio.
    Este relato, está, uma vez mais, muito bom. É sempre um enorme prazer ler o que a tua alma transmite.
    Mas... mas desta vez li uma frase, uma simples frase que não gostei nada. E não gostei por ser extremamente injusta contigo própria.
    A frase a que refiro e que me pôs os cabelos em pé foi:
    "Sei que não houve qualquer mérito em terminá-la"
    Para quem conhece o que é ter que lidar com um dia inexplicavelmente mau, quando tudo nos diz para pararmos, menos a nossa indomável vontade de seguir contra toda a lógica, esta frase é arrepiantemente má.
    Tiveste mérito, tiveste MUITO mérito em conseguir o que muitos não teriam feito.
    E de certeza que esta meta cortada te vai ser muito útil no futuro.

    Eu também tive uma prova assim tão má, a Meia de Setúbal 2012 quando planeava a minha Maratona de estreia. Corri essa Meia de tal maneira mal, em que só a teimosia me levou à meta, que dois bons amigos acharam por bem aconselhar-me a esquecer a Maratona.
    Disse-lhes que a faria e ao cortar a meta lhes fazia um manguito :)
    O que é certo é que vejo sempre essa péssima prestação na Meia de Setúbal como um dos mais importantes momentos para a preparação da Maratona de estreia,pelo que aprendi e pelo que me conheci.

    Tiveste mais mérito em terminar do que se tivesses corrido num dia bom e onde até fazias um rico tempo. Porque mostraste a Rute que há em ti!

    Beijinhos :)

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    1. Obrigada, João... :-)
      "Disse-lhes que a faria e ao cortar a meta lhes fazia um manguito" ihihih É esse o espírito! E o que espero ter feito aos meus diabinhos mentais quando passei a meta. :-) Mas na altura não senti assim...
      Estarás no TNLO este ano?
      Beijinhos grandes

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    2. Não, Rute, este ano não dá para ir assistir.
      Mas fico a transmitir toda a força aos dorsais 69, 70 e 391 nos 55 km e ao 525 nos 25 :)
      Força aos quatro 4 ao km presentes em particular e a todos em geral!

      DIVIRTAM-SE! :).

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  5. Epah valeu nem a espera, que grande post! Esta foi mesmo tirada a ferros, há dias assim! Também eu fui afectado com esse vírus do "ah, já fiz provas maiores, isto é canja!". Dizes que não aprendeste nada nem te sentes orgulhosa por teres terminado, mas podes ficar bem orgulhosa! Mete-te do lado de fora destas tonteiras de ultras, começaste uma prova de 50km a dizer que não ia ser fácil, morreste aos 20km e mesmo assim terminaste. Foi uma brutalidade! Ah, e olha lá, que história é essa do Super Mario ter uma barra de energia??

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    1. O quê, o Super Mario não tinha barrinha de energia?!! Xiii era por tempo limite, não era?! Já tenho os jogos da Nintendo todos baralhados. :-)
      Obrigada, Filipe.
      Beijinhos

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  6. Há dias assim. Mas só prova que a mente e a nossa determinação são fulcrais! Parabéns por teres chegado ao fim. Certamente a próxima irá correr melhor :) Beijinhos

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    1. Obrigada, Edgar.
      Sim, a próxima será melhor. ;-)
      Beijinhos

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  7. O encanto das ultras (sejam elas de 45km ou de 160km) é o inesperado. Existem inúmeros fatores que podem fazer de uma "pequena" prova a pior das nossas provas. Até hoje a minha pior prova (aquela onde tive das piores prestações, onde passei física e psicologicamente mal) foi a 5km na Corrida da Mulher.

    Parabéns Rute!!

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    1. Nunca sabemos qual é o "eu" que se apresenta na linha de partida, essa é que é essa!
      Obrigada, Anabela!
      Beijinhos

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  8. Helder30/7/15

    Olá Rute :)

    Uma vez que continuas sem saber o que aprendeste com esta prova, então vou-te dizer :) Dizes que "morreste" aos 10km/20km que já não conseguias mais... acabaste por fazer os 50km. Ok não te divertiste, ok já fizeste provas mais longas e não passaste por isto, mas se te acontecer de novo (se continuares a fazer este tipo de provas seguramente vai acontecer de novo) sabes que tens uma reserva de pelo menos 30km :) Sabes por o que passaste e vais saber dar a volta por cima. E claro passaste por sitios onde nunca tinhas passado e que de outra forma não passarias. Não é também por isto que fazemos o que fazemos? Lembra-te "pelos caminhos de Portugal, eu vi tanta coisa linda..." :)

    Teres terminado ou mesmo que não o tivesse feito, tiveste uma experiência que nunca tinhas tido. E é isso que nos deixa mais fortes e preparados para novas provas e não só. Li algures que é quando sais da tua zona de conforto que começas verdadeiramente a viver (ou algo assim :)).

    Já decidi terminar provas apenas porque já não queria estar mais ali (não gosto da palavra desistir). Aprendemos muito a fazer estas provas, apesar do que dizes. É a maravilha da descoberta dos nossos limites que nos leva cada vez mais longe. Saber que não há muito tempo pensar que não conseguiria fazer algo assim "blows my mind" (para os camones que possam passar por aqui :D).

    Já me aconteceu mais de uma vez ficar sem forças numa prova. E isso pode ser devido a vários factores, ou por a alimentação ter falhado, por falta de descanso ou só por ser um daqueles dias em que as coisas não correm tão bem.

    Não sou apologista do que interessa é chegar ao fim, nem parar quando surge uma primeira adversidade para a qual não estava preparado. Só se está verdadeiramente preparado para uma coisa destas depois de fazer uma coisa destas. Oi?!! Por muito treino que se faça é na experiência que devemos confiar (no meu caso é pois treino é escasso :)). Para mim o que interessa é gostar de estar ali, apesar de algumas vezes em sofrimento. No fundo somos amadores, pertencemos à liga dos últimos (já nos conhecemos quase todos :)), e fazemos isto por gosto (ok somos masoquistas :D).

    Para terminar, ouve esta grande senhora do trail e fica a saber que até a elite sofre como nós.
    GINGER RUNNER LIVE #74 | Anna Frost, 2015 Hardrock 100 Women's Champion
    https://www.youtube.com/watch?v=GqHJKE4wIT0&list=PLF3GWOzYkVR3HVr9dlKBjKp-hlU7ZeayJ&index=3

    bj

    PS: Escrevi demais?!! A meio do texto também pensei em desistir :D

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  9. :-) Não escreveste muito, escreveste bem. ;-)
    Este é um tema complicado de explicar mas sim, basicamente também não sou apologista do terminar por terminar nem, por outro lado, desistir à primeira contrariedade. Mas, lá está, quem anda nisto por prazer (masoquista :-D), sem ganhar nada (ganha-se de outra maneira) é que deverá decidir quando chega ou não. Quem define os limites de sofrimento/tolerância num hobbie, né?
    Tenho de ver essa entrevista com mais calma! E não tenho quaisquer dúvidas que a elite também passa pelo mesmo e ainda é pior, porque estão no centro das atenções! :-)
    Boas "férias" e até uma próxima prova! De preferência num dia sim! ;-)
    Bjs

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  10. Olá "Menina Que Corre Longe". Sou um debutante nestas escritas (esta é a segunda vez que as faço - terei ganho outro bicho? - e a primeira vez no teu blog, por isso... Muito prazer!) mas não posso deixar de te dizer o quão bem escreves e o quanto a tua pura escrita prende-me com a sôfrega expectativa de encontrar novo capítulo, na manhã seguinte, desta tua saga apaixonante. Há meia dúzia de amigos na vida e há meia dúzia de blogs que acompanhamos. O teu é um deles. Obrigado!
    Em trails não fiz ainda grandes km, embora tenha já "no lombo" 5 anos de estrada! Não por isso (mas por partilha de experiências que no fundo é disso que se trata) deixo 2 notas:
    - Todo o km - em treino ou em competição - amadurece-nos. É um registo mais na nossa memória de corrida. Tornamo-nos, grão a grão, mais conhecedores no nosso corpo e o nosso corpo mais conhecedores de nós, pelo que qualquer nova má experiência será sempre revertida numa excelente prova, a prazo. O registo estará sempre lá (em folders como: músculos, tempo, alimentação, cabeça, respiração, etc) para nos lembrar como foi e como terá de ser necessariamente diferente.
    - Ao ler o teu post, fiquei com a noção de que a tua prova foi "corpo morto, mente viva" e foi a mente que te impulsionou (no ritmo em que o corpo permitia...) a acabares com sucesso a prova. Curioso que comigo ocorre muitas vezes o contrário, com efeitos mais ou menos semelhantes (o da quase desistência e completa desmoralização): o corpo está vivo (ainda que crescentemente cansado) mas a mente vai-se embora. Começa a duvidar de tudo, a pôr em causa o fim, a contar quantos km faltam em vez de se congratular pelos km já feitos. As nuvens adensam-se, tudo me pressiona para abandonar (até uma ligeira brisa contrária ao sentido da prova....) e é uma luta terrível (para a qual também se treina) contra mim mesmo. Dou por mim, a espaços, a correr para fugir da minha mente! Assim mesmo pseudo-poético/lamechas, é como muitas vezes me sinto. Enfim... serão, sem dúvida, manias...
    Próxima: Óbidos. Estreia à noite com a "vela" de 25€ comprada nos franceses de Alfragide... e 25km que é para não endoidecer! (A inexperiência nestas andanças leva-me a escrever demais e estar fora das calibragens dos comentários. As minhas desculpas...vamos amadurecendo!...). Obrigado! Bons treinos, boas corridas!

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    1. Olá Maurício! Obrigada pelo comentário, podes escrever à vontade que eu não tenho nada contra textos longos, pelo contrário, como se pode depreender pelo tamanho das crónicas. :-)
      Penso que, se calhar, pela forma como o escrevi, tenha dado a entender que esta prova não teve mérito ou não aprendi nada porque correu mal... Claro que não é assim, até porque acho que é nas dificuldades que aprendemos mais! O que achei é que o corpo não estava para aquilo (corpo morto, mente viva, como dizes), e se nesse caso valerá a pena insistir... Parece que terminei a prova sem essa resposta, percebes? E acho que já passei também pelo inverso que descreveste, mas apenas em treinos! :-) Fazer uma prova assim também deve ser tortura!! :-)
      Também estarei em Óbidos, para a "grande", e embora esteja a levar na desportiva, do "faço o que puder", as memórias do CUT ainda estão muito frescas no corpo e na mente...
      Bom, vai estar uma bonita noite de "Lua Azul", é desfrutar o que conseguir! :-)
      Boa prova! Junta-te a alguém que leve um frontal com máximos, faz toda a diferença!

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  11. Deves estar agora a partir numa viagem que gostava de ser eu a fazer. Gostava de sentir a adrenalina de fazer essa viagem noturna. Sentir a euforia e o cansaço que se desvanecerá ao raiar da aurora. Depois da morte é preciso passar pelas trevas para o renascimento. Morrer lentamente, durante 49 kms e acabar com um sorriso é obra!

    Também já tive esse sentimento, de drenagem absoluta de energia do nosso corpo, mas felizmente nunca durante uma prova. Talvez seja por alguma fase de cansaço temporária, por excesso de corridas, trabalhão, qualquer coisa orgânica, faço votos que te esteja a correr melhor.

    Beijinho, boa prova e boas férias

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  12. Obrigada, Zémi.
    Esta viagem já correu muito melhor mas, devido aos acontecimentos dos últimos 8 km, acabei por não terminar com um sorriso, ao contrário do CUT...
    Beijinhos

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