31 de dezembro de 2015

Ericeira Trail Run

"A espantosa realidade das cousas 
É a minha descoberta de todos os dias. 

Cada cousa é o que é, 

E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra, 

E quanto isso me basta*.
(...)" 




Vento é a condição climatérica em que menos gosto de correr. Gela-nos a cara, fere-nos a vista, transforma-nos o cabelo num ninho de nós e, inexplicavelmente, quase nunca está a nosso favor. Mas amanhece na Ericeira e está vento e eu vou correr. 54km, para ser exacta.


Não ouvi o briefing. O burburinho das conversas das dezenas de atletas que se abrigam do vento naquela sala no Parque de Santa Marta torna impossível ouvir o que seja cá mais para trás, mas vejo as típicas fitas laranjas serem agitadas e, como nunca tive problemas com as sinalizações nas provas desta Organização, confio que corra tudo bem.
Não houve controlo zero e, alguns minutos depois das oito (atraso, esse sim, atípico desta Organização, que costuma ser rigorosa ao minuto), partimos mais de cem atletas pelas ruas da vila, num ritmo controlado que só permitirá alargar o pelotão na chegada à Praia do Sul, quando os atletas da frente podem finalmente dar asas às suas passadas.

A saída da vila será feita maioritariamente a subir, abandonando provisoriamente a zona costeira e percorrendo as ruelas de zonas habitacionais. Os primeiros quilómetros, cerca de cinco, são de estrada, mas não podia ser de outra forma. Para chegar aos trilhos (que este ano serão em maior número) há que percorrer asfalto e estradões, sabia disso pela zona que é, não há milagres, nem esperava uma prova de montanha na Ericeira.
O asfalto é longe da estrada principal, ao menos isso, e passando a Rua da Amoreira rapidamente viramos por um carreiro encoberto à direita, que nos ligará, mais à frente, às arribas que precedem a Praia de São Julião. Mas, antes disso, ainda temos direito a vista de balcão sobre a bonita Foz do Lizandro, rio que desagua na praia que recebeu o seu nome.


Esta foi a primeira foto que tirei durante a prova, já devíamos ir com cerca de 6km. Entretanto, ia na conversa com um amigo das corridas, que tinha apanhado uns quilómetros antes. Quando fazemos muitas provas, qualquer uma, mas sobretudo trail, que costuma ter menos multidões e, especialmente ultras, porque se corre mais devagar, acabamos por rever algumas das pessoas que correm mais ou menos ao nosso ritmo, e é assim que nascem os Amigos das Corridas. Pessoas que só vemos nas provas, mas que nos fazem companhia durante todo o percurso ou parte dele e com quem conversamos como se tivéssemos acabado de nos encontrar no café do bairro, mas com menos conversa de bola e mais conversa de corrida. E os quilómetros vão passando mais depressa, por entre provas do calendário e acessórios desportivos.


Passando a Praia de São Julião, à qual não chegámos a descer completamente, tornámos a subir um pequeno monte que nos conduziu por entre quintas antes de entrarmos nos carreiros que ladeiam o rio.


Aqui apanhámos uns quantos atletas que iam a caminhar. Como, nestas coisas, nunca ninguém quer dar parte fraca, começaram a correr mal os passámos, o que fez com que eu acabasse por ir na dianteira de um single-track, coisa que adoro (NOT). :) Com a pressão, acabei por correr mais do que devia, o que fez com que passado um bocado já fosse sozinha. Poderia sentir-me "muita fote" por ter deixado para trás um grupo de cavalheiros espadaúdos, não fosse o facto de pouco depois se ter seguido uma subida que me tirou logo a gabarolice toda. E isto numa prova que não passou dos 1600 D+... Não deve ter sido muito mais de 300 ou 400 metros a subir, misto trilhos às curvas e estradão, mas senti-me bastante fraquinha. Tomei logo ali a decisão de apostar no reforço muscular, decisão que abandonei cinco minutos depois de cortar a meta, como é óbvio. (Mas, a sério, senti-me muito fraquinha nas subidas desta prova, que até não foram muitas).

Aos 13km surge o segundo abastecimento, primeiro sólido, ao fundo de um viaduto.


Estava numa zona descoberta e bastante ventosa. Os pratos de plástico com as batatas-fritas e frutos secos, já quase vazios depois das dezenas de mãos esfomeadas que os assaltaram, ameaçavam levantar voo. Demorei apenas o tempo de encher dois copos de água, já que tinha aproveitado o bocado de asfalto anterior que permitia um ritmo certo, para ir comendo uma das barrinhas que trazia.

Depois de uma inclinada descida em estradão com pedra que se seguiu ao abastecimento, de volta aos agradáveis trilhos junto ao rio.

Os Caminhos (de Santiago e de Fátima) também passam por aqui.

Esta prova, apesar de ter percurso diferente, passou por vários locais do ano passado, por vezes numa direcção oposta, o que me permitiu uns déjà vus engraçados em certos momentos. 




Foi, também, uma prova igualmente rolante (basta ver que os primeiros classificados demoraram por volta de 4h30 a concluí-la), mas isso não a tornou menos desafiante. Aliás, no dia seguinte irei acordar empenada como já não acontecia há algum tempo. Devo ter feito cerca de 80% do percurso a correr, o que em trilhos é muito bom (ou mau, depende da perspectiva) e para uma pessoa bem preparada é uma prova, arrisco, 100% "corrível".



Não é, portanto, o tipo de prova a que me adapte melhor, mas consegui ir gerindo o ritmo e manter a corrida sempre que possível. Pelo menos, até passarmos o terceiro abastecimento, na Senhora do Ó, aos 35km. 


Depois deste abastecimento seguiu-se uma subida, pontuada por uma escadaria até um miradouro. E miradouro significa alguma altitude.


Mais uma vez, a subida não era nada de outro mundo, mas 35km e, ainda por cima, praticamente sempre a correr, deixaram a sua mossa. Além disso, estava fraquinha nas subidas, lembram-se? :) Devia ir com um ar de esforço tão grande que um atleta até me perguntou se estava bem! Podiam ser só uns 200 ou 300 metros, mas para mim era como estar a escalar os Himalaias. Como é que eu já subi a Serra do Açor, Estrela e outras que tais, é que eu não faço ideia... Enfim, dias! (= não treines não!)

Vista do miradouro.

Por volta da distância da Maratona vai juntar-se um grupo de seis ou sete pessoas que se irão manter juntas quase até ao final. Eu era a única senhora (só passei uma durante toda a prova, éramos poucas), mas não queria fazer má figura, tinha de mostrar a garra feminina! (Eheh...) Acabou por se formar ali uma grande química, com uns a puxar numas alturas e outros noutras, e acho que isso ajudou bastante ao bom ritmo que se manteve. Ninguém queria ficar para trás!

Entretanto, por entre piadas e despiques, o último abastecimento tardava em chegar...
Estava anunciado para os 46km, mas acho que se esticou mais um ou dois quilómetros. Não é muito, mas nesta fase já tudo puxa ao drama. Para piorar, enganámo-nos em cerca de 200 metros, num atalho à direita que foi o único local de toda a prova que achei que poderia estar melhor assinalado, numa sinalização, de resto, irrepreensível.

Saímos dos estradões em terra para entrar em asfalto, povoação atrás de povoação, comigo a mastigar os últimos pedaços de uma barrinha que trazia comigo, já cheia de fome, até que, finalmente, ao fim de uma enorme recta, ele lá estava, o abastecimento da Achada.


Aqui acabei por afastar-me do grupo que se tinha formado, já que os restantes membros se demoraram mais nas comezainas (falharam as bifanas e minis :)), e fiz um último telefonema, dos vários que fiz durante o dia nos momentos de aperto (vulgo, subidas), para arrecadar as restantes energias para o final.

E, ao fundo, já se avista o mar.


Na chegada a Ribeira d'Ilhas ainda temos a surpresa de uma bela descida a pique, que teria sido um autêntico escorrega caso o dia tivesse sido de chuva mas, sendo assim, foi só um derradeiro teste de sofrimento a umas pernas que já não dobravam, o que me valeu uma bela interpretação de robô raquítico a descer que, felizmente, só foi presenciada por um outro atleta.


Pus tanto travão naquela descida que devo ter sacrificado mais uma ou duas unhas dos pés para os deuses dos trilhos, mas a pior parte estava feita. Agora era aproveitar o paredão, com vista para o mar, até chegar à Ericeira.


Depois de entrarmos na vila ainda vamos descer à icónica Praia dos Pescadores, onde percorremos uns 150 metros de areal antes de enfrentar as súbida nos últimos metros da prova.



"(...)
Outras vezes oiço passar o vento, 
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.*"


Vento é a condição climatérica em que menos gosto de correr. Gela-nos a cara, fere-nos a vista, transforma-nos o cabelo num ninho de nós e, inexplicavelmente, quase nunca está a nosso favor. Mas entardece na Ericeira e está vento e eu acabei de correr 54km.



Não foi uma chegada apoteótica, aliás, a esta hora já lá estava muito pouca gente. Apesar de ter feito um tempo melhor que o previsto (acabei antes das quatro da tarde e fui lanchar, quando pensava que terminaria à hora de jantar), está meia dúzia de pessoas junto ao abastecimento final. A medalha é igual à do ano passado e, tal como o ano passado, recebemos logo um papel com o nosso tempo e classificação provisória. O ano passado terminei ao anoitecer, este ano o mar revolto é visível do local da Meta. 


O Ericeira Trail Run não é uma prova de Montanha, mas é a dose certa de Mar que espero manter sempre no meu calendário.


* Excertos do poema A Espantosa Realidade das Cousas, in Poemas Inconjuntos, de Alberto Caeiro.

20 comentários:

  1. Ó menina ... a medida que ia lendo ia correndo contigo (existem poucas pessoas que conseguem transmitir assim as suas emoções de forma que eu consiga "sentir" o mesmo). Gostei mesmo muito ... foi uma prova que te deu enorme prazer, a boa-disposição, as boas sensações notam-se em cada linha ... espectáculo menina que corre pra caraças ... bela forma de acabar um grande ano de corridas. Espero que 2016 te traga muitas e boas aventuras, para que possa continuar a "correr" contigo neste teu cantinho (devia contar como treino).
    Quanto às fotos ... espectáculo ... como é que ficamos? Aceitas um empate técnico? Um dia que nos encontremos algures por aí bebemos duas rodadas de minis para festejar, uma pago eu outra pagas tu, tb pago uma mariscada de "tremoços" para acompanhar ;)
    Beijinhos

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    1. Obrigada, senhor Cardoso. :)
      Eu também corro contigo nessas tuas provas e treinos internacionais. Agora é só começares a fazer reforço muscular e escreveres sobre isso, que assim fica o meu exercício despachado! ;)
      Foi uma prova serena, só a aproveitar o momento.
      Bom ano para ti também, fico a contar com as minis em 2016! :)
      Beijinhos

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  2. Parabéns por mais uma. Aliás, nunca é mais uma, é uma com características sempre próprias e especiais

    Quanto às promessas feitas em plena corrida... Não acrescento mais nada :)

    Beijinhos e UM EXCELENTE 2016, como bem mereces

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    1. Obrigada, João.
      Nao podemos contar com promessas feitas no delírio do sofrimento... Ihihih ;)
      Beijinhos e um grande 2016, tudo de bom!

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  3. Muitos parabéns Rute!
    Pode não ser montanha, mas com o mar como pano de fundo, de certeza que é uma prova bela :)
    Um excelente ano para ti!
    Beijinhos

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    1. Obrigada!
      Sim, é uma bonita prova às portas de Lisboa.
      Excelente 2016!
      Beijinhos

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  4. Espectáculo!!

    Quando se lê um testemunho assim , de determinada experiência de outrem , sentimos , vivemos , e até quase que cheiramos as sensações vividas ! ;)

    Brilhante cronica , grande prova , bela aventura e parabéns por mais uma ultra distancia concretizada e finalizada em grande estilo. :P

    Muito orgulho , admiração e estima.

    Boas e muitas mais que venham em 2016 e adiantes... ;)
    brjs
    ajb

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    1. Ainda bem que também gostaste de "correr" a prova. :)
      Obrigada!
      Um excelente ano para ti, que 2016 te traga os desejos de todos os brindes. :)
      Brjs

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  5. Ahhhhhhhh, ler uma bela crónica ao mudar de ano...

    Bjs, Menina que corre que se farta!

    Excelente 2016! Com muitos e bons km assim como companhia certa para os percorrer.

    PS: essa fraqueza nas subidas não teria dedo de running stryke? Não matam...mas moem (ou coiso). Já agora, parabéns por esse desafio concluido!

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    1. Obrigada, jnr!
      Um excelente 2016 para ti também, com menos lesões e mais kms.
      Sim, é provável que o corpo andasse um bocadinho cansado, mas agora vou dar-lhe descanso. Quer dizer, hoje já fui dar uma corridinha pela fresca :) mas agora vou repousar pelo menos uns 2 diazinhos (a loucura!) ;)
      Bjs

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  6. Gostava tanto tanto tanto de ter feito o mais pequenino... e agora ainda estou pior :)

    Excelente relato que nos levas contigo, sem saber. Acho até que fiquei com os cabelos enrodilhados... se tivesse cabelos.

    Continua e que 2016 te traga tudo de bom!

    Bjs

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    1. Por acaso não sei se a volta dos 20km coincidia com a nossa, mas não terá sido muito diferente. A essa distância foi imensa gente!
      Continuação de boa recuperaçao e um excelente 2016, com uns desafios aqui e ali, sem lesões.
      Bjs

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    2. Obrigado

      Vou muitas vezes para a Ericeira e arredores. Uma das coisas que mais gosto naquela zona e nomeadamente nesta altura do ano são as arribas. Bem que podiam usar e abusar destas para aumentar o prazer e a altimetria. Just saying...

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  7. Helder2/1/16

    Amigo maior que o pensamento
    Por essa estrada amigo vem
    Por essa estrada amigo vem

    "nunca ninguém quer dar parte fraca, começaram a correr mal os passámos"

    Não percas tempo que o vento
    É meu amigo também
    Não percas tempo que o vento
    É meu amigo também

    "Mas amanhece na Ericeira e está vento e eu vou correr."

    Em terras
    Em todas as fronteiras
    Seja benvindo quem vier por bem

    "assim nascem os Amigos das Corridas"

    Se alguém houver que não queira
    Trá-lo contigo também

    "Ninguém queria ficar para trás!"


    Lembrei-me imediatamente desta musica assim que comecei a ler o teu relato.
    (tinha saudades de uma boa banda sonora a acompanhar :))

    Neste tipo de provas apesar de passar-mos muito tempo sozinhos com os "nossos pensamentos", acabamos por nos cruzar, como bem dizes, com os "Amigos das Corridas". São estes que nos "levam", com quem partilhamos experiências, calendários e silêncios. Por tudo isto agradeço-te. Graças a ti, não "caminhei" tanto. Apesar de "as pernas não quererem" fui acompanhando até "dar parte fraca". Tive a felicidade de mais tarde "encontrar" companhia que me ajudou no resto da prova. Talvez essas pessoas digam o contrário, que fui eu que as ajudei, mas desta vez foi mais o contrário. Fiquei feliz por a prova te ter corrido bem e por ter tido "força" para acompanhar duas pessoas que fizeram uma ultra pela primeira vez.

    Um Feliz 2016 cheio de grandes objectivos

    Bj

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    1. É uma banda sonora adequada. :)
      Obrigada eu, pela companhia! E deste foi "parte forte", para quem já não treinava há três semanas! Não terminaste muito depois.
      No final também cruzei a meta junto a um senhor que estava a fazer a primeira Ultra. Foi uma prova de muitos estreantes.
      É uma das coisas que faz uma prova boa ou má, os encontros e as forças que nos dão nos momentos certos. Obrigada por teres feito parte dela.
      Um grande 2016, cheio de kms felizes! Já sei que Janeiro vai ser cheio de provas para ti. :) Até um dia destes, numa delas por aí (espero que antes, mas entretanto já confirmei a inscrição para o OMD. Oh meu Deus!!!!):)
      Bjs

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    2. Helder2/1/16

      Não, não insisto, obrigado eu ;)

      Confere, para já são 4 meninas inscritas no OMD 100k!! Desculpa mas fui confirmar :)

      Neste momento estás a 1 lugar do pódio ;)

      Ou seja, tens 6 meses para o alcançar! Podes ir devagarinho :)

      Vá agora toca a fazer mais provas, essas é que são o verdadeiro treino.

      Bj e até breve

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  8. A poesia do Alberto Caeiro é tão irregular e assimetricamente agradável! :D
    Parabéns pelo desafio... Essa distância é realmente merecedora de um aplauso de pé! :)
    Por acaso isso dos abastecimentos intriga-me. Os trails que já corri foram bem mais curtos, mas mesmo assim noto que há gente que fica muito tempo nos abastecimentos :P Claro que é preciso energia, até algum descanso e cada um reage de maneira diferente às coisas, não estou a querer maldizer ninguém, mas para mim é estranho que alguém possa gostar de comer a meio de uma corrida... Talvez seja eu a estranha :P

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    1. Gosto muito deste heterónimo, acho que é o poeta das coisas simples. :)
      Em relação aos abastecimentos, acho que não será uma questão de gostar, mas de "ter de" comer. Pelo menos para mim, embora não goste de lá ficar muito tempo, porque senão as pernas arrefecem e custa-me mais retomar a corrida!:D
      Obrigada!
      Beijinhos

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  9. Todos que gostamos de montanha temos um bocadinho de Alberto Caeiro em nós. Ou pelo menos gostavamos de ter.
    Parabéns por mais uma ultra. Quantas já são?
    às 50 temos direito de fazer parte da lista de honra que anda por ai a circular pelo pelotão nacional :)

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    1. Nunca tinha pensado nisso, mas sim, é verdade. :)
      Obrigada! Oficiais são 10, não-oficiais são 12. Ainda falta um bocadinho... ;)
      Bjs

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