24 de fevereiro de 2016

Quando desistir (ou persistir)

Na semana passada, durante um treino, vinha a ouvir um podcast que achei muito interessante e dei por mim a acenar e sorrir em concordância, em plena corrida. O nome do podcast era "When to Quit (And When to Keep Going)" e resulta da conversa informal entre dois atletas amadores, Matt Frazier (do site No Meat Athlete) e Doug Hay. Ambos contam com algumas ultramaratonas no currículo e, durante os cerca de 35 minutos desta conversa, falam sobre a sua experiência pessoal nas longas distâncias e contam como foi, e como reagiram, quando tiveram uma prova "daquelas". Aquelas que a gente sabe. Aquelas em que aos 10 km de 50 já estamos num poço mental tão negro e profundo, que nos questionamos como ainda vamos fazer mais 40km nessas condições. (Também podemos entrar num poço negro e profundo em provas mais pequenas, mas penso que torna-se ainda mais difícil de gerir quando sabemos que ainda nos falta mais quatro ou cinco horas daquilo, ou muito mais....)

Estava a fazer um treino rolante de 11km depois da moralmente desanimadora prova de Vila Velha de Ródão, por isso este podcast* veio na altura certa e até ajudou os quilómetros a passar mais rápido.

Há sempre aquelas situações em que a opção mais óbvia e sensata é desistir: lesão, risco de lesão, risco de saúde (hipotermia, má disposição, etc.)... Depois há as outras, que já dependem da sensibilidade e motivação de cada um. Mas, como fazer neste tipo de "dias-não"? Numa prova que não é especialmente dura, nem é que estejamos mais cansados do que estaríamos em qualquer outra mas, por qualquer razão, o corpo e, sobretudo, a mente, não colaboram. O ânimo não é dos melhores, sabemos que não nos estamos a divertir e não vamos conseguir atingir o objectivo proposto (seja ele de tempo, ou outro). A questão, inevitavelmente, coloca-se: assim, para quê continuar?

Uma das coisas apontadas para saber se vale a pena é, por exemplo, descobrir o "porquê". A razão de estarmos a fazer esta prova. Para isso, colocam-se duas questões:
1. É uma prova com algum significado especial?
2. É uma prova com uma finalidade?
Por exemplo, se for a nossa primeira Ultra, sabemos que quando cortarmos a Meta vamos ter aquele sentimento de superação, de dever cumprido, e vamos ficar contentes, esquecendo rapidamente, cito, as "dores de parto". :) Ou seja, é uma prova que tem significado para nós, por isso poderá valer mais a pena persistir do que se fosse apenas mais uma prova do calendário.
Por outro lado, pode não ser uma prova com um significado especial mas ter uma finalidade, um objectivo maior: por exemplo, de preparação para uma outra Meta.
Em Vila Velha de Ródão demorei 15km a encontrar o meu "porquê". Mas, assim que me lembrei do objectivo maior, persisti. Isso não quer dizer que não tenha sido uma marcha penosa na mesma, mas ao menos encontrei conforto num objectivo maior.

Por isso, naqueles dias em que chegarem ao abastecimento à beira das lágrimas (história do Doug), ouçam as palavras de quem vos diz: "Ouve meu, estás a sentir-te assim, tudo bem, aceita. Aceita que hoje vai ser um dia difícil, vais ter dificuldades, larga as expectativas, tira da cabeça a ideia de que te ias divertir, limita-te a continuar e logo vês como te sentes." (E depois podem chorar na mesma um bocadinho). Ou, por outras sábias palavras, que podem bem passar a ser o lema para estas provas: "embrace the suck". :)

Assim sendo, quando não for possível fazer uma prova num ideal estado de harmonia e diversão, podemos sempre "abraçar o sofrimento", e usar a luta como motivação.

emáinada!
(Esta foto não tem nada a ver com o tema, mas foi tirada durante a prova de V.V.R e achei piada.)


Como não podia terminar uma crónica sem colocar umas fotos bonitas, aqui fica o meu treino de sábado:

22,5km, 930D+.

Com partida na Lagoa Azul



e ponto de viragem na Peninha.



Esteve um belo dia de sol, embora ventoso. (E sim, tive de embrace the suck em algumas subidas.)


* Podem ouvir o podcast em causa, aqui.

14 comentários:

  1. Lá está... sem dúvida que o saber a razão pela qual nos mantemos na prova é importante e irá contribuir para o êxito da empreitada!

    Concordo em absoluto e até partilho contigo a minha experiência...
    Durante cerca de 20 anos andei armado em surfista e durante aqueles dias maiorzinhos, daqueles que aumentavam mais ainda o respeito pelo mar, ganhava-se uma estaleca mental brutal! Durante essas sessões, perguntava muitas vezes, "porquê apanhar com tantas ondas na cabeça a passar a rebentação, só para apanhar mais uma?".
    Depois de levar com tantas ondas em cima e aquilo parecer um esforço inglório e sem fim, com os braços a doerem e os pulmões a quererem saltar para fora, o sentimento de virar a prancha para a areia e ir embora era forte. Mas o tal sentimento do embrace the suck vencia, e o prémio, o que me movia, a razão de eu ali andar, o deslizar por mais uma onda, fazia com que eu tentasse sempre passar a dita zona de rebentação, repetidamente, apesar de o sofrimento estar garantido naquela transição!
    Na corrida nunca desisti (até ver...) pois acho que aquelas experiências de levar com ondas na tola, me deram essa persistência de levar as coisas até ao fim, com mais ou menos sofrimento!
    Até porque... Após a tempestade, vem a bonança!

    Beijinhos!

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    1. Falamos de corrida, mas isto acaba por estender-se a diferentes áreas da vida, e não só desporto. Às vezes temos de levar com umas ondas na tola se queremos "ganhar".
      Agora está explicada a razão das elevações não te assustarem! Foi de todo esse exercício aos membros superiores durante 20 anos de surf! :)
      Beijinhos

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  2. Essa do desistir ou persistir...
    Ontem, concluí que tinha que desistir de participar na Maratona de Barcelona, pois a lesão não apresentava uma grama de melhora ao fim de 2 semanas e meia.
    Milagre dos milagres, hoje apresentou um sinalzinho... logo desisti de desistir :)

    Pode ser tudo muito verdade, podemos ter todas as razões para desistir mas quando o fazemos, o momento seguinte é duro, muito mais do que prosseguir. A menos que não tenha significado. E já tive as duas situações. O horror da desistência na Rock'n'Roll Maratona de Lisboa 2013 e o ter desistido dos 20 Km de Cascais 2014 com um sorriso nos lábios. E porquê? Tinha tentado fazer uma prova de 20 km uma semana após a Maratona de Sevilha. Ainda estava no céu com essa Maratona. Aos 5 km de Cascais percebi que tinha sido um disparate tentar fazer uma prova de 20 km uma semana depois duma maratona, e encostei, ainda a sorrir pela semana anterior e a sorrir de mim próprio por ter tentado algo sem sentido, o que não tornarei a fazer.

    Podias ter desistido em Vila Velha de Ródão. Podias ter apresentado as mais válidas razões, que as tinhas. Todos te iríamos apoiar. Mas o teres persistido veio dar-te uma força que podes não sentir agora mas sentirás quando for necessário, no OMD, onde irás terminar com aquela emoção que só quem se supera consegue entender.

    Força Rute!!!

    Beijinhos

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    1. Ainda bem que desististe de desistir. ;) Tenho fé que Barcelona irá ser uma das tuas melhores maratonas até à data.
      Sim, deste exemplos bem concretos de quando uma desistência poderá custar mais, ou não.
      Beijinhos

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  3. Bem eu nunca desisti numa prova mas também acho que se desistirmos numa prova abre-se um precedente, um porta difícil de se fechar, ou seja a partir da primeira desistência começamos a pensar se outro dia desisti porque não fazer o mesmo hoje? Tenho para mim que prova em que começamos é para acabar e pronto! Claro que nesta minha teimosia em cortar a meta não incluo desistência por motivos de saúde, sejam lesões ou outros, e motivos de segurança com temporais que ponham em risco a nossa integridade física. Nesses casos é mesmo para desistir! Por sorte nunca tive situações dessas que me forçassem mesmo a parar mas já acabei algumas provas, felizmente, poucas, mesmo em mau estado! Só que para mim cortar a meta é já um vitoria e sei que tudo o que passei na prova se relativiza ao cortar a meta e que se não o fizer posso poupar algum sofrimento físico mas muito provavelmente o sofrimento mental terá consequências muito mais graves. Mas isto é um assunto muito pessoal e cada um sabe de si. Para alguns desistir numa prova pode ser coisa banal e não trazer grandes consequências em termos psicológicos, já para outros é um questão de honra corta a meta e não o fazer deixa-os psicologicamente muito afectados. Beijinhos.

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    1. Pois, essa questão do não querer abrir precedentes foi uma das coisas que pensei em VVR.
      Mas, como dizes, é uma escolha pessoal, cada pessoa saberá o que é melhor para si e como lida com as coisas.
      Beijinhos

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    2. Percebo perfeitamente, Jorge e Rute, o que querem dizer com abrir um precedente. Mas... também pode funcionar ao contrário. A recordação da dor que essa desistência provocou, criar anti-corpos para evitar ao máximo a sua repetição.
      Lá está, tudo depende da importância do momento. Se esse precedente foi "naquela prova"...

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    3. Ainda hoje estava a falar sobre este tema e também se chegou a essa conclusão! Que, por outro lado, a "dor" da desistência podia fazer com que ficassemos mais fortes na seguinte, para não querer repetir... Lá está, depende da prova e de cada um.

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  4. Obrigado pela partilha ... interessante. Eu até à data ainda não desisti nenhuma vez, mas dificilmente não irá acontecer. Só espero que não seja numa prova com significado especial. Seja como for, tenho a certeza que me vai "doer a alma" ... já estive duas vezes muito perto, ambas por lesão, situações em que fui teimoso, talvez até irresponsável, mas que acabei e tive sorte. Numa tive que parar de correr quase um mês e na outra (há duas semanas) a coisa resolveu-se fácil. Sortes!!!
    Beijinhos e força aí ... eu continuo a achar que este tua prova sofrida foi uma grande aprendizagem, para ti e para quem leu o teu texto sobre a mesma.

    P.S. As montagens estão mais ou menos, nada de especial, fraquinhas :P

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    1. Também espero que se/quando acontecer, saiba reagir à situação com elegância. :) Se pensarmos bem, acaba por ser uma coisa normal, faz parte do jogo quando cá andamos muito tempo. Mas prefiro que, a acontecer, seja apenas uma prova para cumprir calendário. :) E, já agora, que a paisagem não seja nada de especial. Fraquinha, vá. ;)
      Beijinhos

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  5. Bom, até à data ainda não desisti em nenhuma corrida. Concordo com o Jorge Branco que, uma vez abrindo um precedente pode ser complicado no futuro. Por outro lado, acho uma insansatez não desistir quando há uma lesão a agravar-se, e terminar a prova em sofrimento, podendo depois ficar umas semanas parado para curar a dita lesão. Enfim, cada caso é um caso, temos de ter a capacidade e o discernimento para avaliar se há condições para continuar ou não. Não é vergonha desistir por razões de saúde, assim como não é vergonha ficar em último :) Bjs (também gostei do photoshop :) )

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    1. DFL? Dead F*cking Last? ;) (Já existe o acrónimo e tudo). Pelo contrário, ir em último e persistir só mostra mais fibra!
      E sim, estou a ficar perita nesta arte de fotomontagem. :D
      Bjs

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  6. Nunca desisti numa corrida, até agora, mas já passei por lesões que depois, do sentimento de superação na meta, me fizeram pensar se não teria sido mais sensato desistir, e não passar 2 meses na fisioterapia.

    De qualquer forma o mais importante é não desistirmos de nós próprios. Eu sei que parece um chavão, mas é aquilo que nos impede de ir abaixo.

    Bom post e desejos de bons treinos.

    Beijinhos

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