3 de fevereiro de 2016

Será que é caminho?

No topo de Santa Eufémia, por trás da Ermida, existe uma cruz.


Nesse local, no muro, alguém escreveu a imortal frase de Fernando Pessoa: "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena", e eu acho que não poderia ser mais indicado. Porque quem já subiu a Santa Eufémia, vindo de São Pedro de Penaferrim, sabe que, não só há uma cruz em Santa Eufémia, como também é uma cruz subir até lá acima.

A cruz literal. A cruz figurativa fica nas costas de quem lá vai.

Em pouco mais de 1km ganham-se cerca de 200 metros de acumulado, por um caminho serpenteante, de início asfaltado, depois cimentado, depois, já no fim, estradão. Ou seja, esta subida não é feita por trilhos, o que nem sequer nos deixa a desculpa para caminhar. Vamos ali, de nariz a apontar para o chão, olhar baixo, a tentar esquecer que ainda faltam 900 metros até chegar ao topo. 800 metros... 700 metros... É um jogo mental (e físico) que ainda não consegui ganhar.

Santa Eufémia, o primeiro pico no gráfico.

E sempre que vou nessa luta interrogo-me muitas vezes se valerá a pena. É inevitável. Por mais certos que estejamos das nossas escolhas, há alturas em que o ácido láctico acumulado faz os músculos comunicar em modo S.O.S. com o cérebro, que formula a pergunta em jeito de desabafo, mesmo antes de ter tempo de a processar: "Para quê?" (Mais concretamente em tom choroso e arrastado, assim: "Para quêeeeee?"). Mas, todos os que aqui andamos, sabemos a resposta.

E também todos sabemos que as melhores vistas estão sempre lá em cima.



Para já não falar da viagem até lá chegar...


Mesmo em zonas que já conhecemos, há sempre forma de tornar cada viagem uma aventura. Por isso é que, durante os meus treinos, costumo muitas vezes jogar a um jogo intitulado: "Será que é caminho?".  Esse jogo consiste em olhar para um desvio semi-encoberto por entre as árvores, que poderá, ou não, ser um trilho, questionar: "será que é caminho?", e virar para lá.



Por vezes, esse "caminho" acaba logo ali, e serve apenas como abrigo para momentos de aperto no campo (vulgo wc ao ar livre). 



Outras vezes, o caminho segue durante alguns metros, para depois ser reivindicado pelas silvas e tornar-se impossível continuar.


Outras vezes, andamos várias centenas de metros a enxotar arbustos, desviar ramos e comer teias de aranha, e começamos a ficar entusiasmados com a descoberta de um novo trilho há muito não percorrido por pernas humanas, apenas para depois darmos com a cara num gigantesco tronco, caído em alguma tempestade, a bloquear a continuação, e temos de voltar tuuudo para trás e somar mais uns arranhões na pele. Faz parte.


Outras vezes, esse trilho segue e segue, e até tem saída, mas é tão longo que vão acabar por ir ter a um local completamente distinto da direcção que queriam seguir, a quilómetros de distância da "meta". (História real e vivida na primeira pessoa, que merece a sua própria crónica.)


Mas, outras vezes, apesar de um início pouco promissor, esse caminho segue e alarga, passa em novos locais que ainda não conhecem, e até serve como atalho para a direcção que queriam.

Foi assim que, num destes domingos, depois de ter lançado o desafio de seguir por um pequeno trilho por entre as árvores, que não parecia mais do que um "wc",  dei por mim na Tapada do Couto, um lugar completamente novo (para mim).

Já tinha passado pela parte de fora mas desconhecia este atalho, que atravessa as ruínas de um antigo jardim, com fontes e lagos, mesmo como imagino que seriam os jardins de uma quinta em Sintra, há 100 ou 150 anos.



Como podem ver, estes "será que são caminhos?", não só tornam os treinos uma aventura, como podem ser uma viagem ao passado.

E foi assim que este treino, que se tinha previsto para cerca de 20km, foi encurtado para apenas 17.


Mas não sem antes regressar a Santa Eufémia, para um último ataque à parte final da subida. ("Para quêeeee?")

17km - 550 metros D+.

E vocês, gostam de arriscar por trilhos desconhecidos?

23 comentários:

  1. Gosto de explorar, mas daí a levar com teias de aranha na cara... não obrigada. ahahah
    Devo-te dizer que as imagens que captaste deram-me uma certa vontade.

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    1. De vez em quando lá calha! Nem as vemos, e vamos a respirar de boca aberta... Mas pode ser que tenham proteínas. ;)
      É engraçado, para variar um pouco os treinos. Convém é ir prevenido, com tempo e comida. :)

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  2. Um bom subtítulo para este espaço: A menina exploradora!

    Quanto ao para quê, há perguntas cuja resposta não é necessária

    Beijinhos e boas explorações :)

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    1. Não havia uns desenhos animados que era Dora, a Exploradora? :)
      Nós sabemos sempre a resposta. ;)
      Beijinhos

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  3. Vamos começar pelo fim. Não te preciso de responder à última pergunta pois não?

    De resto gostei muito deste teu texto, e compreendo tudo tão bem ... essa subida à Cruz gostava de a fazer, e havia de a fazer toda a serratrote, nem que depois estivesse 2 dias a soro .... só para chegar lá acima e dizer que consegui e poder reivindicar o prémio merecido ;) ... temos que organizar uma troca directa, uma visita guiada no vosso quintal contra uma visita guiada aos trilhos do perneta :)
    Beijinhos

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    1. Provavelmente eras bem capaz de fazer esta subida toda a serratrote. Há alguém, não vou dizer nomes, cuja respiração quase nem se altera a subir aquilo, enquanto uma pessoa vai ali a morrer... É muito enervante!:D E a minha respiração altera-se ainda mais com os nervos... Lol :)
      Mas depois compensa quando chegas lá acima. Ias gostar. Esta subida é um bom aquecimento para todas as outras que se seguem em Sintra.
      Essas visitas guiadas já estão prometidas há muito tempo!
      Beijinhos

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    2. :):):) ... temos que marcar. A agenda do Perneta anda muito preenchida nos próximos tempos, com objectivos e projectos giros, mas um dia destes temos que juntar agendas e passar das intenções ao factos. Mas aviso já, esse que não dizes o nome, que nem se atreva a fazer essas coisas com uma perna às costas .... se a respiração dele não se altera, fixe para ele, mas pelo menos que faça de conta que vai em esforço para que a gente não se sinta assim, digamos que coiso, e tu não te enerves pq te faz rugas :)
      Beijinhos

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  4. Eu só corro em alcatrão, por isso nem sei o que venho aqui fazer...

    Espera, ler lindos relatos bem escritos e ver fotos de belos sitios, enfim...

    (Ainda) não tenho instacoiso por isso não comentei mas...a ultima foto tem uma bela banda sonora, tem ;) Andas a treinar para o OMD, andas :)

    Bjs

    PS: ia fazer o trocadilho da exploradora mas o João antecipou-se.

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    1. Mas esta subida é praticamente toda em alcatrão! ;)
      Ehehe reparaste? :P Sim, ando a treinar! Vou falar um bocadinho nisso quando fizer o resumo dos kms de Janeiro.
      Beijinhos
      Rute, a Exploradora. :D

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  5. Texto magistral! Está é a magia, o encanto e o aroma do trail!
    Sim eu gosto de explorar novos caminhos, de me "perder"!
    É dessas buscas que se descobre novos percursos e se aprende novos caminhos.
    Embora para essas explorações se necessite de alguma forma porque podemos aumentar, e muito, os km previstos! Mas quando forma no permite isso é óptimo.
    Então de BTT fiz imenso isso de me "perder" procurando novos caminhos. Mas na BTT a nossa autonomia a nível de km é muito maior. Um beijinho.

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    1. Obrigada, Jorge.
      Temos de ter forma e ir prevenidos com comida e/ou dinheiro! Às vezes "perdemo-nos" horas. Mas no fim vale a pena e fica uma história.
      Beijinhos

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  6. Respondendo à tua pergunta: "Claro que sim" =)
    É sempre divertido e interessante enveredar de vez em quando por caminhos desconhecidos e assim descobrirmos novos locais e novas paisagens.
    Bons e bonitos treinos.
    Beijinhos

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    1. Se tivermos tempo, é o melhor dos treinos! ;)
      Beijinhos, boas corridas!

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  7. Que bela prosa !!
    Um escrito como santa "Eulália" merece , sim senhora !! :P

    Falo como "usuário" frequente dessa bela subida , é muito desafiante sim senhora !! Com o ritmo certo , faz-se bem... Nem dás pela respiração! :P


    Áhhh...e há-des de lá ir de bike !! ...é de rir ! :D ...vamos mais depressa a andar !! eheheh


    Quanto á "exploração" de trilhos...
    , sou um bocado céptico em meter-me por caminhos desses , não por não ser aventureiro ou não ter espírito-de-aventura... , mas sim porque, por experiência própria , sei que normalmente "não vai dar a lado nenhum"...
    ...mas é verdade , ás vezes é compensador descobrir um trilho novo, um caminho ou lugar abandonado e ter "saída" ! ...nem que se tenha que saltar um portão ou muro cá pra fora !! :)

    Boa continuação de treinos e explorações. :)
    Dá-lhe forte com calma.
    brjs

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    1. O "truque" para não alterar a respiração, é subir Santa "Eulália" a acompanhar um ritmo muuuito inferior. Got it!:)
      Ahahah... Saltar muros e/ou portões FAZ PARTE. Desde que seja de dentro para fora, e não de fora para dentro, não é considerado trespasse! :p
      Bjs

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  8. Boas fotos, menina que corre! :)

    Como sempre... paisagens feéricas para nos criar água na boca!

    Eu adoro arriscar trilhos desconhecidos, o único senão, é que me afasto muito e como normalmente corro sozinho, não é muito recomendável :|
    Mas que dá um gozo enorme, lá isso dá!


    Beijinhos e boas corridas!

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    1. Obrigada, é essa a função. :)
      Sim, sozinho é mais arriscado, para além de que pode prolongar o treino em horas... É guardar para dias especiais. ;)
      Beijinhos

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  9. "Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor" ;)
    Adorei este teu texto, tanto que tive que o ler duas vezes.
    Parabéns.

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    1. É isso mesmo. ;)
      Obrigada!
      Continuação de bons treinos. :)
      Beijinhos

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  10. Admito que sou um bocado "mariquinhas". Descobrir ou perder-me nos trilhos sozinho, confesso, que tenho algum receio.
    A sensação da descoberta, da procura é algo de mágico, mas que prefiro fazer a dois. Ou a três. Ou quatro...

    Beijinhos

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    1. Eu também tento "perder-me" apenas quando vou acompanhada.
      Mas sim, tem qualquer coisa de mágico, como dizes. :)
      Beijinhos

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  11. Será que é caminho? Será que estou perdida? Será que não iria sempre decidir ir por ali independentemente de...? Será que não são as minhas decisões que constroem o meu caminho? Se tomei a decisão de ir por aqui, porque queria, então é porque é este o meu caminho... da felicidade.

    Só te perdes quando não segues o caminho que está dentro de ti (ui, tenho de publicar este :) tem direitos de autor ahn )

    Excelente post, lindo, com fotos horríveis como é habitual

    Bons treinos e boas provas.

    Beijinho

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    1. De onde vimos? Para onde vamos? Questões existenciais profundas ou literais, quando estamos perdidos no mato. :)
      Andas inspirado! ;)
      Beijinhos

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