20 de maio de 2016

Pelo Caminho, nas Lezírias (ou: correr 40km num dia de tempestade)

Com o tempo que tem estado nos últimos dias já é difícil lembrar mas, há cerca de duas semanas, esteve um enorme temporal. Nesse fim-de-semana tinha combinado um treino longo que não poderia ser adiado, por isso, sábado de manhã, mesmo com a morrinha que já começava a cair, saí de casa o melhor equipada possível, tendo em conta as previsões.
Como a tendência para uma pessoa se perder nos treinos longos tem sido grande, mesmo com gps :), sugeri que se fizesse um trajecto que já andava para fazer há algum tempo: os primeiros quilómetros do Caminho de Santiago (e de Fátima) a partir de Lisboa. Pelo menos sabia que esta "Organização" não engana e o percurso está sempre muito bem assinalado com as habituais setas amarelas, por isso dificilmente haveria preocupações relativamente ao rumo a seguir. A ideia era fazer pelo menos uns 20km para lá, o que nos levaria sensivelmente até Vila Franca de Xira, e regressar, mas indo avaliando as condições ao longo da manhã.

Neste dia estava também a decorrer o Triatlo Internacional de Lisboa e, durante o primeiro quilómetro do treino, ainda deu para acompanhar a passagem dos atletas que já faziam a parte do ciclismo. Se num dia normal já é difícil haver muita gente nas ruas a apoiar os atletas, imaginem numa manhã de chuva! Por isso gostei de ir ali um bocadinho a dar força aos atletas que respondiam sempre com um sorriso ou aceno e, em troca, receber a sua inspiração. Na altura já estavam/estávamos a ser fustigados pelo vento, embora a tendência fosse para piorar ao longo da manhã.

Até sair de Lisboa o Caminho é feito por estrada ou passeio e o piso só altera à passagem da ponte de Sacavém quando, ao virar à esquerda, abandonamos a cidade para subir a foz do Trancão.


O percurso irá seguir junto à margem do rio durante uns três ou quatro quilómetros, ao longo de um trilho já um pouco enlameado, mas nada comparado com o que irá estar umas horas mais tarde. O caudal do rio, que podem ver agora nas fotos, terá duplicado quando regressarmos.



É também neste local que iremos encontrar os primeiros peregrinos. Primeiro, ultrapassamos um casal estrangeiro de terceira idade e, em seguida, um caminhante a solo. Pouco depois, o primeiro obstáculo do dia: temos de sair do trilho onde estamos para subir para outro, por uma pequena parede enlameada. Se, para nós, que estamos habituados a correr com lama em algumas provas e temos ténis adequados, não foi fácil subi-la, pois estava bastante escorregadia, fiquei a pensar como seria para os peregrinos que seguiam atrás, sobretudo para aquele que ia a solo. Sugeri que esperássemos um pouco pelo senhor que seguia sozinho e ainda bem que o fiz porque, segundos depois, começo a ouvir: "Oh, shit! Oh, shit!". Era o caminhante pelo qual tínhamos passado e que caía agora na lama! Formámos um cordão humano para o ajudar a subir, mas mesmo assim foi muito complicado. O calçado do senhor não era o mais adequado e as calças de ganga que trazia não lhe davam a elasticidade necessária para alargar a perna e subir. Escorregou várias vezes e só repetia "oh, shit, oh, shit!". E entretanto já estávamos encharcados e o homem a ficar cada vez mais coberto de lama. Toda a situação teria sido até cómica, se não estivesse a ser tão difícil puxá-lo. Eventualmente lá conseguimos. Se fosse mais crente, diria que Santiago nos cruzou no caminho daquele peregrino exactamente naquela altura para que lhe déssemos umas mãozinha a subir. Ao fim da manhã ainda vamos rir ao recordar a situação do senhor do "Oh, shit!" mas é um facto que, aquele bocado do trajecto, em dias de chuva, não é pêra-doce para quem o percorre, sobretudo se não estiverem com calçado mais aderente.


Passando a zona dos trilhos, entramos em zona de quintas, antes de chegarmos à primeira povoação. Por nós passa um grupo de ciclistas e um deles grita: "É só maluuuucos!" :) A chuva já engrossou e começam a soprar umas rajadas mais fortes. Como já estamos ensopados, chega-se a um ponto em que já nem se dá pela chuva, o pior é o vento, que nos arrefece se pararmos um segundo que seja.


Paramos com cerca de 12km de treino para comer qualquer coisa, meio abrigados debaixo de uma árvore, mas não dá para ficar muito tempo. A chuva está cada vez mais forte, e a lama começa a dar lugar a grandes poças. Nesta altura guardam-se também os telemóveis, pelo que, daqui para a frente, terão de seguir os meus passos apenas através das minhas palavras. Mas já sabem, talvez um dia destes, com melhor tempo, volte para ilustrar o treino.

Depois de termos avançado cerca de 15km rumo ao interior, o Caminho começa agora novamente a regressar à zona ribeirinha. Para tal, temos de atravessar um túnel que passa por debaixo da A1 e nos leva ao Forte da Casa. O problema é que, ao descer do Forte da Casa para as Lezírias do Tejo, o vento começa a ficar mais forte. Percorremos os passadiços junto ao rio, numa zona que sei ser muito bonita, mas não se vê nada devido ao temporal e a chuva magoa como granizo devido às rajadas. Mal consigo abrir os olhos. Concordamos que é melhor não continuar mais naquelas condições e, infelizmente, temos mesmo de tomar a decisão de encurtar a distância e iniciamos o regresso com cerca de 18km percorridos.
O que vale é que, afastando-nos da beira-rio, o vento já não é tanto. Por outro lado, agora iremos volta aos trilhos e quintas já anteriormente percorridos mas que agora estão completamente alagados.
- "Pensava que já tinha tido a minha dose de lama este ano, na Lousã!" - digo.
Esta lama é diferente, mais clara, mais aguada, mas não deixa de ser lama. Já não dá para fugir e atravessamos várias poças com água até meio das canelas. Os peregrinos devem conhecer variantes pela estrada ou então já deram o dia por terminado em algum albergue, porque não tornamos a ver quase nenhum no regresso, apenas o primeiro casal pelo qual tínhamos passado de manhã e que também nos reconhece. Todos encharcados, parecemos uns pintos, mas ao menos eles têm os ponchos impermeáveis. Sorrimos. Pergunto-me o que terá sido feito do senhor do "Oh, shit!" e se já estará a repousar, de banhinho tomado, a pensar que foi bem enganado quando lhe falaram do sol de Portugal. :)

Começamos a aproximarmo-nos novamente das margens do Trancão, o que significa que já não faltam muito mais de 5km até Lisboa. Nesta altura vamos a correr o mais que conseguimos para não arrefecer quando, ao passar junto a uns arbustos, levo com uma vergastada de um cardo. Levo imediatamente a mão à cara e sinto que se espetou um pico no nariz. Um pico e-nor-me no nariz! Tenho os dedos sem sensibilidade nenhuma e não consigo tirá-lo. Tento explicar que tenho um pico no nariz e não consigo tirá-lo porque tenho as mãos geladas, mas não consigo porque não consigo parar de rir com a situação. Quanto mais me tentam ajudar, mais eu me rio! Estão a ver nas provas quando vai alguém a correr à vossa frente e grita "CUIDADO!" quando desvia algum ramo? Bom, a probabilidade é que, se forem demasiado perto, vão levar com o ramo na cara na mesma e, se tiverem a minha sorte, vai ser um cardo com picos enormes. Não sei como é que tenho sobrevivido a estes anos todos de corridas em trilhos, é o que vos digo. :)

Mais à frente, já a faltar apenas 2km para Sacavém, vamos passar a parte mais sensível de todo o treino quando corremos, ou melhor, andamos, junto ao caudal duplicado do Trancão. Lama por todo o lado e, com a chuva a engrossar e a maré a encher, estou a ver que o rio ainda alaga os trilhos e vamos ter de chamar os meios de socorro aéreo (exagero dramático devido ao cansaço). Depois de enfrentar o vento nas Lezírias do Tejo, as poças das quintas e retirar um pico espetado no nariz, já estava a imaginar o rodapé do jornal da noite: "Atletas resgatados na cheia do Trancão".
Felizmente, depois de alguns "Oh, shit!", desta vez da minha parte, esta minha previsão não se veio a concretizar e regressámos ao - e nunca me imaginei a escrever isto - abençoado asfalto, para percorrer os últimos quilómetros do treino.

Apesar de já estarmos com 36km e o tempo estar cada vez pior, por coincidência vamos acabar por encontrar as duas últimas participantes do Triatlo que, nesta altura, estariam a dar a última volta para concluir os 21km de corrida. O vento era tão forte que era quase como estar a correr contra uma parede e havia zonas em que as ondas do Tejo quase galgavam o paredão mas, se aquelas atletas, que já tinham nadado e pedalado antes, conseguiam concluir uma Meia Maratona naquelas condições, eu conseguia fazer mais um esforço e ir até à zona da Meta, dar algum apoio.

Foto da Meta, tirada no dia anterior.

Foi assim que concluí 40km num dos piores dias de treino que me lembre. Acho que só em Arga 2013 é que tinha corrido com um tempo semelhante. Não foi um treino com muito desnível, mas teve imprevistos e dificuldades várias, sempre e testar o espírito de sacrifício e capacidade de desenrascanço. E, o melhor, terminei com a consciência de que conseguia continuar a correr, se o tempo não estivesse tão mau.

Agora, de volta às corridas com calor... Oh shit!...

Bom fim-de-semana!


17 comentários:

  1. E caso para dizer...oh...que belo esforço e o que tem que ser tem muita força.

    Pico enorme no nariz? OMD!!!!

    Bjs

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    1. Oh... Meu Deus? ;)
      Ciscos nos olhos, picos no nariz (devia ter tirado uma foto! Lol), tudo me acontece. :)
      Apesar de tudo, foi um belo treino.
      Bjs

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  2. Que treino espectacular!
    Já apanhei temporais monumentais a correr a pé mas agora que voltei também a andar de bicicleta e apanhei um temporal tal que a descer, com o vento, parecia que ia a subir e acabei com granizo e uma "parede" de vento de frente que aquilo até metia medo deixe-me de queixar dos temporais quando vou a pé! Esse senhor teve mesmo sorte!
    Também ando com vontade de um dia fazer esse caminho mas de bicicleta ou melhor quero fazer de Porto de Muge a Lisboa que deve ser a melhor maneira de chegar à capital fugindo do transito. Mas terá de ser com piso seco! Beijinho.

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    1. Ainda à ida para lá passaram por nós 3 ciclistas com alforges e iam fazer o mesmo caminho em sentido inverso! Não sei como conseguiram, mas não deve ter sido fácil e várias partes tiveram de levar a bicla à mão. Nota-se que não é um trilho muito tratado, o que é pena, porque há várias pessoas, estrangeiros incluídos, a percorrê-lo, e assim não é um bom cartão de visita.
      Mas de certeza que com o tempo mais seco já se percorre melhor. Também dá um belo passeio de bicicleta, evitando muita estrada.
      Beijinhos

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  3. Estive no Triatlo a apoiar o João Cravo e imagino bem o que terás sofrido com o tempo. Em especial após as 11 horas!

    Olha a pontaria do raio do pico! E tu ainda te rias :)

    Beijinhos e força, muita força para o dia de glória!

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    1. Já começámos depois das 10h, por isso imagina!:)
      Ri-me por causa do ridículo da situação, mas o pico era mesmo grande, ainda bem que foi só no nariz!
      Obrigada João. Está quase!!! :S
      Beijinhos

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  4. 40 km com esse temporal é fantástico. Muito bom!
    Estás num excelente caminho rumo ao OMD!
    Força!
    Beijinhos

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    1. Espero que sim, espero que sim!:)
      Obrigada!
      Beijinhos

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  5. Correste no dia do Triatlo? Grande heroína... porque correu bem, porque se tivesse corrido mal serias grande maluca :)

    Conheci pessoas que depois da prova entraram em hipotermia...

    Grande aventura, grande força mental...

    Menina... estás de parabéns. Tudo de bom para o OMD!

    Bjn

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    1. Custa-me mais correr com sol do que com chuva, acredita! O pior é o vento...
      Nem heroína, nem maluca, apenas tinha de ser! E claro que o pessoal nas provas arrisca mais. Em treino podes sempre parar para ires beber um café e aquecer.
      Obrigada!
      Bjs

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  6. Espectáculo de treino ... layke!!! Não gosto de vento combinado com chuva, mas depois de lá andar no "meio" é em frente que atrás vem gente. Muito bom e divertido ... depois do banhinho quente, imagino a satisfação :):):)
    Beijinhos

    P.S. Um tlm que desse para tirar fotos mesmo com chuva forte é que era??? :P
    P.S.2. O que quer dizer "Oh Shit!"
    P.S.3. E já falta pouco para o grande dia. Vista o pessoal do EGT a queixar-se da dureza??? ... pois é :P ... "oh shit" ... o mais difícil é para os mais capazes!!! E tu és um desses, refiro-me aos mais capazes :)

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    1. Sim, depois do banhinho é a melhor parte! ;)
      Beijinhos
      PS: Pois era! Mas essas coisas existem?? :P
      PS2: "Oh Fixe!" :P
      PS3: Tenho tentado evitar o fb, já ando ansiosa o suficiente!!! E eu que já quase me tinha esquecido do que passei o ano passado. Oh shit... Oh fixe... :)

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  7. Lembro-me bem desse sábado invernal. Credo!! Fiquei em casa a treinar na elíptica. :))
    Mas, como dizes, são treinos assim que te ajudam a lidar com imprevistos que, de futuro, te podem ser muito úteis.
    Beijinhos e, sim, oh shit para o calor que aí virá!

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    1. A elíptica dá um jeitão para esses dias. Tu é que foste esperta! ;)
      Espero que as nuvens e brisa fresca se mantenham mais duas semanas... :D
      Beijinhos

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  8. Grande treino! Nessa manhã andei pelo Montejunto, também não foi muito agradável ehehe curiosamente passou um ciclista por mim mesmo no pico e disse a mesma coisa que o "teu"! ahah

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    1. Só que lá anda é que sabe da sua "maluquice"! :)

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