6 de junho de 2016

O dia em que vivi 106km


It was the best of times, it was the worst of times.
                                                                                                         
- Charles Dickens




Há um ano foi assim:

"Quando, a cerca de 3km da Meta, decido que o que era mesmo bom era voltar cá para o ano e fazer os 100km.
Your head will colapse, but there's nothing in it
And you'll ask yourself
"Where is my Mind?"
Where is my Mind, Pixies

À chegada a Seia, na passagem pelo Estádio Municipal, alcanço um atleta que depois vejo que é das 100 milhas. Vai a caminhar, já não corre, e noto que o discurso cansado já é feito mais em jeito de desabafo mental, para ele mesmo, do que em resposta às minhas perguntas.
É quando ele me diz que "se alguma vez te passar pela cabeça quereres fazer 100 milhas, PENSA BEM! Olha que não é nada, NADA, fácil", com ênfase nas palavras destacadas, e lhe respondo que "talvez, quando me esquecer desta, para a próxima queira fazer os 100km", que eu descobri que a decisão já estava tomada. A minha estreia nos 3 dígitos teria de ser ali, na minha Serra, mesmo com todas as rochas, os campos minados, a subida à Torre, a  exposição à intempérie e o colapso nervoso na Garganta de Loriga. Não é a escolha mais fácil para a primeira abordagem a essa distância, mas tenho um ano até lá, vamos ver onde a vida me leva."


Um ano passou e, na passada sexta-feira, lá estava eu, à meia-noite, alinhada à partida dos 100k+, preparada para uma das maiores aventuras da minha vida. Depois de meses de treinos, avanços, recuos, confiança e dúvida, mal dei o primeiro passo sabia que só podia parar na meta. Lá pelo meio, vivi um dia terrivelmente belo e belamente terrível, numa dicotomia de sensações que só entendemos quando somos expostos ao desconforto, ao fora do normal, a coisas que fogem do nosso controlo.
Estive embrulhada num cobertor às 7h da manhã na Torre, estive a escorrer suor às 15h na subida de Alvoco, vi o nascer e o pôr-do-sol em andamento, tive fome e fiquei enjoada de comida, corri acompanhada, corri sozinha, corri em silêncio, falei comigo mesma. Tive muitos momentos altos e, felizmente, poucos momentos baixos. Cruzei-me com atletas dos 100km e 160km que, por poucos minutos que tivessem partilhado comigo, passaram a fazer parte da minha história. Em 25 horas pode caber uma vida inteira, se as vivermos com intensidade.
Aprendi que temos, devemos, ir bem preparados para uma prova na montanha mas, mais importante que isso, há que saber deixarmo-nos desarmar por ela. 

Nascer do sol sobre as nuvens, na (primeira) chegada à Torre.

Pela primeira vez, acho que me vão faltar as palavras para escrever sobre a experiência... Ainda estou meio abalada do cansaço e de tudo o que vivi. Mas queria agradecer todas as mensagens de apoio que me deixaram através do blogue, pessoalmente ou por mensagem. Pensei nelas várias vezes durante o dia de sábado, acho que quem está de fora nem sabe a importância que um simples sms de "Força!" pode ter. Aqueles que ligaram no domingo, peço desculpa pela zombie semi-atordoada que atendeu e se calhar nem soube agradecer convenientemente a chamada. Espero que compreendam que era do empeno e falta de sono. :)
Depois, aqueles que partilharam presencialmente este dia comigo, porque também lá estavam para escrever a sua história: obrigada pelos minutos, horas, que estiveram ao meu lado. Os espanhóis, que me salvaram quando me perdi e que eram um grupo animado e faziam sempre uma festa quando nos cruzávamos, o Vasco que me deu uma ajuda importante na preparação para esta prova e com quem corri uns quilómetros nas primeiras horas nocturnas, o Hélder, amigo já de outras corridas e que foi um grande apoio durante umas das piores partes - física e psicologicamente - de toda a prova para mim... novamente na Garganta de Loriga (obrigada por partilhares da tua água!). E, por último, o Artur, que já corria estes 106km comigo meses antes de começar a prova. Por toda a paciência que teve sempre, mesmo nos dias que eu não queria correr mais e respondia com rosnanços ou olhares assassinos quando ele se atrevia a sugerir para "correr mais depressa" ou "terminar a subida em sprint". Todos esses momentos em que corri "contrariada" foram importantes para, neste fim-de-semana, conseguir terminar esta minha viagem com sucesso e de coração cheio.

De volta a Lisboa mas com a mente ainda na Estrela (e sim, levei Santa Eufémia comigo e deixei um pedacinho dela (e anos de vida!) em cada metro da segunda subida à Torre)... Crónica(s) a seguir.

42 comentários:

  1. Belas palavras sobre um dia épico de grandes sensações e emoções.

    Ficamos a aguardar com expectativa a crónica, que deverá vir, como sempre, muito bem escrita mas onde ficarás com a sensação que, por mais que tenhas dito, não tenhas transmitido tudo. Porque há coisas sem palavras.

    Beijinhos :)

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    1. Obrigada, João. Por tudo. :)
      Beijinhos

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  2. Menina que corre como o caraças, tu és uma inspiração. Muito grande mesmo. Muitos, mas muitos parabéns!!! Estou ansioso por correr os teus 106km ... vou ter que reforçar o stock de lenços de papel, pois acho que vai ser um festival de suanço dos olhos por estes lados que nem te digo.
    Beijinhos e boa recuperação

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    1. Obrigada, Carlos Perneta Cardoso. :)
      Desta vez até houve fotos da comidinha pós-prova, em tua honra!:P
      Beijinhos

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    2. :)... deixa estar, não te canses com esse pormenores ... a sério .. concentra-te na recuperação ...lol
      Beijinhos

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  3. Rute, se escreveres um livro eu compro. Os teus relatos são simplesmente maravilhosos, vêm mesmo do coração. Parabéns pelo teu grande feito! Beijo

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    1. Obrigada, LiS. :) Fico contente por saber que, se algum dia escrever um livro, terei pelo menos mais uma compradora, para além da minha Mãe. ;)
      Beijinhos

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    2. Eu também compro mas que um autografo!

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    3. Eu vou de véspera para ser dos primeiros a comprar!

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    4. Ena, já tenho uma meia dúzia de compradores! ihihih... :)

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    5. Jovem menina que corre como uma MULHER...

      EU AVISEI!!!! ;)

      e também compro.

      Depois comento o texto... :)

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  4. Muitos parabéns Rute, aguardo ansiosamente as tuas palavras, para por breves instantes me sentir ao teu lado, lá na deslumbrante Estrela!!!
    Beijinhos e boa recuperação.....

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    1. Obrigada, Carla!
      Ainda havia alguma neve na Torre! ;)
      Beijinhos

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  5. Muitos parabéns!!
    Apesar de ser só uma leitora, fiquei orgulhosa de ti, do que conseguiste.
    Grande Menina!!

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  6. Grande vénia, menina :) És uma inspiração. Vou levar comigo essa do irmos bem preparados mas deixarmo-nos desarmar. Tem mesmo de ser assim, não é?

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    1. Obrigada, Mariana!
      Sim, estamos ali só de passagem, temos de aproveitar da melhor forma, mesmo os maus momentos. Ela (a montanha) ganha sempre, aceitar isso logo de início facilita a travessia. :)
      Beijinhos

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  7. Tenho de admitir que andei um pouco "desassogada". Lá acalmei quando, depois de enviar um SMS ao João Lima recebo uma grande boa nova!!!
    E o mais engraçado disto tudo é que nem te conheço. Ou talvez conheça...

    Estás de parabéns! Mais do que pela prova, por todo o trabalho que fizeste para a conquistar.

    Beijinhos

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    1. Obrigada, Anabela!
      Foi muito duro mesmo, mas valeu a pena. :)
      Beijinhos

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  8. Helder L.7/6/16

    Olá :)

    Não tens de agradecer nada... pelo contrário... eu é que te tenho de AGRADECER por me teres "convencido" a seguir contigo até Loriga e a não desistir... não me tivesse cruzado contigo na Torre depois da segunda subida, e teria ficado ali mesmo. Já tinha dito que desistia e depois de ti e o outro senhor, penso que era GNR!!, ter dito que não queria ninguém a desistir ali :) é que "desdisse" e segui viagem :)

    A questão psicológica é muito forte neste tipo de provas. Já andava a pensar em desistir desde antes de Unhais. Aí, foi o Vasco (penso que será o mesmo Vasco que referes), que me disse para ir com ele até Alvoco. Aproveito este espaço para lhe deixar também o meu agradecimento, pois antes de Alvoco "embalei" na descida para nunca mais o ver (estive a falar com os companheiros que terminaram com ele no "dia seguinte" nos "comes e bebes", que te baldaste, depois da cerimónia de entrega de prémios). Já tinha sido um boa companhia no ano passado por várias horas.

    Ainda não tenho palavras para descrever o que se passou naquelas mais de 25h! Uma coisa é certa, não foi nada do que tinha planeado.

    Não me canso de te dizer PARABÉNS e OBRIGADO :)

    Continua a motivar e inspirar quem passa neste "cantinho". Eu serei uma dessas pessoas :)

    Aguardo ansiosamente a(s) crónica(s) :)

    Beijos e abraço ao Artur (espero que ainda não tenhas levado com o cajado :D)

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    1. Não, eu é que AGRADEÇO, ora essa! :D
      Sim, era um GNR e já tinha dito o mesmo ao rapaz dos 160km que lá estava sentado quando chegaste. :)
      Engraçado, também não foi nada do que tinha pensado... Nem melhor nem pior, apenas diferente... é difícil explicar. E acredita que o que tem de estar mais treinado é a mente! De outra forma, nunca teria conseguido recuperar em Lapa dos Dinheiros e correr até ao final, acabando abaixo das 26h, que era o primeiro objectivo. Tu viste bem que eu já nem conseguia dobrar as pernas a correr! ihihih :)
      Parabéns pela tua prova, estavas óptimo no final, o que só prova que a tua cabeça é que precisa de reforço para aguentar a distância. E "não me faças rir as costelas"! ;)
      Beijinhos
      PS: O cajado é só decorativo... :P

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    2. Helder L.8/6/16

      Ahahahah... já me tinha esqucido dessa frase maravilhosa... ahahah

      "não me faças rir as costelas"! -> melhor frase OMD 2016

      Ideia para uma crónica: frases sem sentido quando o cansaço toma conta do corpo durante uma prova/treino :)

      Não, não... insisto... OBRIGADO eu :D

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  9. Bom, para já, antes da crónica, foi um dos discursos de agradecimento "à Oscars de Hollyhood" mais genuíno que já li!
    Venha a crónica!

    100 x Parabéns Menina!

    Beijinhos!

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    1. Foi o agradecimento antes de sair o filme! :D
      Obrigada!
      Beijinhos

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  10. Nada mais a dizer: Respect!

    Quanto à crónica, que venha quando puderes, estarei cá para assim também subir à Torre e pensar...hmm, quem sabe um dia ;)

    Bjs

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    1. Thank you! :)
      Subires... e DUAS vezes! (Prepara-te, que a segunda custa bastante ;))
      Bjs

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  11. Não tenho palavras!
    Agora que está estou reformado das grandes aventuras e me limito a gerir peças empenadas a maior alegria que tenho são as conquistas dos amigos.
    Também andei pela tua estrela,também subia à Torre mas numa escala imensamente pequena a comparar com a tua! Mas também deixei um pouco de mim na tua Serra mas o que ela me deu marcou-me para sempre. Sim eu pioneiro das provas de Montanha / Trail na longínqua década de 90 do século passado consigo ter uma pequenina ideia do que foi essa tu aventura.
    Olha um grande beijinho e agora tens o blogue com o nome mais mentiroso, ou desactualizado, da blogosfera corredor sim porque se isso é correr como uma menina!....

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    1. Nessa altura, que eram meia-dúzia, ainda deve ter sido mais desafiante! E é verdade, aquela Serra marca as pessoas, impossível não emocionar. Eu emocionei-me várias vezes, mas também pode ter sido do cansaço... ;)
      Obrigada, Jorge!
      Beijinhos grandes

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  12. A sério? Está feita?! Uau! Muitos Parabéns pelo desafio há um ano atrás, por acreditares, lutares e ... chegares lá! Aguardo a viagem de 25 horas. Beijinhos e boa recuperação

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    1. Um ano passou muito depressa...
      Obrigada, Ana!
      Beijinhos

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  13. Não tenho palavras.
    Dar os Parabéns, parece tão pouco.

    Este comentário já vai pràí na 6 tentativa e não consigo expressar nem uma gota do que me vai na alma.
    Muito orgulho. Muito respeito. Muita admiração e estima e coiso... :)

    Obrigado eu por tudo.
    És incrível , na dedicação , esforço , sofrimento e até na glória.
    Sim , porque ninguém notou nada naquela subida dos 3 degraus do palco, e do degrau (mais baixo é certo , mas era alto) do pódio. ;)

    Dá-lhe forte. ;)
    bjs
    ajb

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    1. Ainda não me mandaste o vídeo prometido ... temos um gentlemen agreement, e apra mim a palavra basta ;) ... esconde-lhe o cajado e tás safo ;)

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    2. Não sei do que é que estás a falar, ajb... ;) Mas é verdade, hoje já não me doem as pernas. :P
      Obrigada por tudo...
      Beijinhos

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    3. Também não sei do que falas, Cardoso... :P

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  14. Soberbo desempenho! Tem que se transcender o próprio Eu para fazer uma coisa destas. Eu muitas vezes tento imaginar o que é fazer uma distância dessas e simplesmente não consigo. :)

    Mais uma vez muitos parabéns!

    bjs

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    1. Acho que o truque é não pensares na distância, senão é assoberbante! PAC a PAC, um de cada vez... :)
      Obrigada!
      Beijinhos

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  15. Muitos, muitos parabéns Rute!!! Maravilhoso! Fantástico!
    É inesquecível, não é? =)
    Aguardo o teu relato sempre muito bem descrito.
    Beijinhos grandes

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    1. Simplesmente inesquecível, Isa... :)
      Obrigada!
      Beijinhos

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  16. Parabéns Rute!
    Já deu para ter uma pequena ideia do que passaste, mas queremos o relato completo:)
    Mais uma vez, muitos parabéns!

    Beijinhos

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    1. Obrigada, Vitor!
      Vai ser difícil pôr tudo por palavras. :)
      Beijinhos

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  17. Esta crónica está tão bem escrita, tão genuína, tão bonita. 100 kms? Não sei se alguma vez o conseguirei atingir. Não sei desista de correr e de escrever, ou se por inspiração ainda vá correr mais e escrever mais, menina que corre como uma mulher.

    Beijinho e continua pelos caminhos que os teus sonhos te levarem

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