5 de agosto de 2016

Trail Noturno do Palácio

"Um evento com características muito particulares uma vez que visita espaços do magnífico Palácio Nacional de Mafra, habitualmente interditos à visita do público. O Trail noturno do Palácio percorre também a Tapada Nacional de Mafra. À noite, a ausência de luz estimula os outros sentidos, num enquadramento histórico único."

Era assim que a página do evento apresentava este Trail Noturno do Palácio, e pareceu-me muito bem. Realizava-se numa zona de que gosto, relativamente perto de casa, e iria permitir-me correr pelo menos uma parte da prova de noite, coisa que descobri recentemente que gosto muito. Além disso, e mais importante, eram apenas 12km, o que era o ideal para esta mandriona, que esteve semanas parada, regressar às corridas. A vida de ócio foi boa enquanto durou mas começava a ficar ansiosa com a falta de endorfina induzida pelos trilhos e nem vou mencionar os hipotéticos quilos extra que se começavam, ou não, a alojar em mim.



A prova tinha início às 20h30, junto ao Palácio Nacional de Mafra. Nem de propósito, ao mesmo tempo estava a decorrer o Festival do Pão, no Jardim do Cerco. Devia ser proibido! Uma pessoa a tentar recuperar a forma e é obrigada, enquanto faz tempo até à partida, a seguir aquele cheirinho do pão de Mafra e, quando dá por si, já está de frente a uma das dezenas de bancadas que vendem as mais variadas tentações. Felizmente, e ao contrário das outras provas de trail em que gosto de levar comigo sempre algum dinheiro para alguma eventualidade, nesta, por ir decorrer, na sua maioria, no interior da Tapada, com pouco risco de nos perdermos, não levei sequer uma moeda, portanto os hipotéticos quilos extra não sofreram nenhuma adição (naquele momento). 


No âmbito do enquadramento histórico do evento, a partida foi dada pelo "Rei D. João V", cuja belíssima peruca pode ser apreciada na foto abaixo, tirada ao estilo paparazzi segundos depois do início.



As primeiras centenas de metros são feitas em frente à fachada do Palácio, contornando-o na direcção da Tapada Militar, onde entramos ainda em pelotão muito compacto, mas que se começará a alargar ao longo dos estradões e carreiros que constituirão 90% do percurso desta prova.


O sol começava a pôr-se, o que conferiu à Tapada uns bonitos tons alaranjados de final de tarde, com os contornos do Palácio e Convento, ao fundo.


O percurso era bastante rolante e, em toda a sua extensão, apenas houve uma subida em que não era possível correr. De resto, era possível manter sempre o ritmo de corrida, o que permitia a realização de bons tempos, para trilhos. A título de exemplo, os primeiros atletas completarão a prova em 49 minutos. Eu levarei um bocadiiinho mais (30 minutos, mais coisa menos coisa! Ahah.)


Levava o frontal colocado, à espera do cair da noite, embora a luz do crepúsculo tenha sido iluminação suficiente quase até aos últimos quilómetros.


Tendo em conta que pouco tinha corrido nas últimas semanas, exceptuando uns curtos e muito planos quilómetros, estava a sentir-me bastante bem, a gerir o ritmo sem necessidade de caminhar quando, por volta dos 5km... CABOOM! E não, não foi nenhum disparo na carreira de tiro da Tapada, nem tão pouco bati num muro, literal ou figurativo. Para entenderem o que se passou, vou ter de abrir aqui um parêntesis.

[19h55 - esta que vos escreve estava a jantar, qual imitação do Zach Miller no abastecimento do MIUT, toda glutona a engolir um hambúrguer e respectivas batatas-fritas, empurradas com cerveja, mal mastigando, preocupada com a aproximação do início da prova. Se calhar teria sido melhor ideia ter deixado a refeição para o final mas, como não tinha previsão de a que horas terminaria, resolvemos fazer este jantar a contra-relógio. Má ideia.]


Fecha parêntesis. Ora, como estava eu a dizer, por volta dos 5km, o hambúrguer que, suspeito, mal me tinha chegado ao estômago, estava agora a subir-me pelo esófago qual lava de um vulcão prestes a eclodir, trazendo a espuma da cevada atrás (descrição demasiado gráfica? :)). Entrei mesmo em pânico, a achar que teria de vomitar, ainda por cima numa zona de vegetação rasteira, sem qualquer árvore ou outro ponto mais recôndito que permitisse alguma privacidade neste acto (e protecção dos restantes atletas). Ao menos se já estivesse de noite... Porque é que o sol nunca mais se punha?!!


Parei e tive de fazer uns bons metros a caminhar, mão no peito, a tentar arrotar (desculpem a demasiada informação) e, ao mesmo tempo, evitar regurgitar as entranhas. Estava mesmo mal disposta, o que vale é que faltava pouco para o abastecimento, sensivelmente a metade do percurso, onde contava beber uma Cola, que até é bebida que nem gosto mas, nestes casos, alivia.



Claro que, chegando ao abastecimento, este era daqueles (raríssimos) sem nenhum tipo de Cola, original ou imitação! Mas havia isotónico, por isso resolvi beber um copo cheio logo de rajada. Ou vai ou racha!


Enquanto por, via das dúvidas, me fui chegando para um cantinho ao mesmo tempo que fingia que estava a admirar a chaimite (é uma chaimite?), ia respirando fundo e, aos poucos comecei a sentir-me melhor. Pude então retornar ao percurso, primeiro a caminhar para, logo de seguida, retomar a corrida. Crise evitada! Ufa!


Não fora a ligeira indisposição e até estava a fazer uma boa prova. Quando liguei o frontal, já estava na contagem decrescente até à meta, ou seja, já tinha passado da metade. É uma mania que tenho nas provas, a de contabilizar os quilómetros em crescendo até à metade (vou com 2km, 3km, 5km, etc...) para, a partir daí, começar a contar de forma decrescente (já só faltam 4km, 3km, 2km, etc...). Acho que é um truque que ajuda a minha mente nas longas distâncias e que mantive nesta prova, apesar de curta. Mais alguém com essa mania?

A placa diz 8km, a minha mente lê "faltam 4km".

Desta forma, acabei por nem dar pelo tempo passar e pareceu-me que a prova decorreu num ápice! Contando com esta, era a terceira vez que participava numa prova que percorria a Tapada, por isso também ia distraída a tentar reconhecer alguns dos locais. Engraçado como basta ser a uma hora diferente do dia ou direcção contrária para quase parecer um percurso diferente. Esta área ainda é bastante grande e permite várias opções de trajecto. No entanto, lembrava-me bem desta parede...


Foi a única com inclinação considerável e, apesar de curta (penso que nem chegou a 100 metros), ainda consegui escorregar e atrasar todo o comboio de atletas que seguia atrás de mim. Eu tenho um jeito natural para os trilhos, eu sei... (O que vale é que gosto mesmo disto.)


Passando essa subida os restantes quilómetros são feitos já noite e de volta a bom ritmo. Abandonando a Tapada, contornamos o Jardim do Cerco, onde neste momento ainda decorria a festa e nos chegava o som de uma qualquer actuação ao vivo, e entramos no Palácio pelo corredor da Escola de Armas.

Aí, e pensando que a Meta seria logo à saída desse corredor, entusiasmei-me um bocado e lancei-me num sprint, que depois me vai sair caro pois vi-me à rasca quando me apercebo de que ainda temos de contornar metade do palácio, tornar a entrar e percorrer tooodo o pátio da basílica e suas arcadas, antes de chegar aos claustros, onde, finalmente, se encontra a Meta.


Lá me consegui aguentar à bronca e terminar relativamente satisfeita com a minha prestação no meio de todos os contratempos, sendo recebida por um grupo de frades franciscanos que estava "escondido" no último túnel e ainda me pregou um susto antes da entrada nos claustros.

À chegada tínhamos chá e biscoitos. Passei os biscoitos (não queria despertar o vulcão), mas bebi o chazinho, que me soube muito bem. Quem quisesse podia também tirar selfies com a "família real" que, apesar de ser do século XVIII, já estava completamente familiarizada com estas novas tecnologias. :)

Em suma, foi uma boa prova, curta, acessível, que permite percorrermos zonas geralmente fechadas ao público, aliada a um ambiente histórico, o que, para mim, é sempre um agradável bónus. Apenas acho que, tendo em conta a distância e aquilo que oferecia, o preço era um bocado elevado (mas também confesso que já me inscrevi na última fase, não sei qual era o preço inicial.)

Não foi um mau início de época. Já tinha saudades de poder despachar uma prova em menos de duas horas. Tanto templo livre! :)

14 comentários:

  1. Foi uma prova adequada para o regresso após o dia de glória!

    Admirei-me bastante foi com a foto do rei. Para quem tem 326 anos, olha que está muito bem conservado.

    Claro que tu sabes bem que não devemos comer o que comeste nas 3 horas antes duma competição, mas também todos sabemos que há dias em que nos esquecemos do que já aprendemos... :)

    Não, não costumo fazer esse esquema de contagem de quilómetros, apesar de às vezes pensar que faltam apenas x km. Mas nunca em Maratona! Se passada a metade, pensassem aos 27 que faltam 15, e com o cansaço já acumulado, esses 15 pareceriam demasiado. E mesmo aos, por exemplo, 38, se pensasse que faltavam 4, continuaria a pensar que era muito pois a partir dos 30 os km deixam de ter apenas mil metros... :)
    Já estive foi numa corrida (Corrida das Pontes em Coruche, 10 Km) em que numa das edições colocaram as placas ao contrário, indicando o que faltava. Ou seja, no 1º km estava a placa 9, no 2º a 8 e por aí fora. Curiosamente o pelotão não apreciou e não repetiram mais.

    Em resumo, parabéns pela prova e pelo prazer que te deu (exceptuando aqueles momentos a meio...)

    Beijinhos e boas corridas :)

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    1. Engraçado, a mim acontece exactamente o contrário. Por exemplo, numa prova de 50km, vou a contar até ao 25 e depois começo a contagem decrescente. "Só" faltam 24km é melhor do que "vou com" 26km. :) É a barreira mental da metade da prova superada.
      Neste dia sei claramente que abusei. Além disso, sendo mais curta e corrível, corri a um ritmo mais rápido do que habitual e isso não ajudou.
      Obrigada!
      Beijinhos

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  2. Sois louca! Coca-cola jamé. Água das pedras para arrotar é que é! Eu só de ouvir as expressões "vidago" ou "pedras salgadas" viro logo um árabe bem repastado no final de uma refeição. :D

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    1. Não tinham água das pedras no abastecimento... Não se admite numa prova da realeza!!!
      Plebeus! Pfff... :P

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  3. Aquecimentos??' Báhhhhh...

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    1. Sim, estou em quilometragem de Verão! :P
      Beijinhos

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  4. Desculpa lá mas só me lembra aqui há muitos, muitos anos estava eu a tirar os dorsais aos atletas num dos “funis” de uma prova que acabava em pleno Marquês de Pombal, em Lisboa quando um atleta chega, afasta as pernas, abre os braços e começa a vomitar ali mesmo!
    Fiquei sozinho no funil que a jovem que estava a trabalhar comigo perante aquele cenário eclipsou-se logo! Fiquei eu que não podia abandonar o meu posto e o funil tinha de funcionar!
    Beijinhos.

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    1. Eheheh... Ao menos esse esperou até ao fim! Tudo menos estragar a média/km! ;)
      Beijinhos

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  5. Mais um belo trail , e mais uma aventura unica.

    São essas "situações" que nos fazem "crescer"...desde que nunca chegue a cenas graves , são coisas que acontecem...nem sei se foi "erro"...se calhar tinha sido mais "grave" ir correr sem comer nada há horas ! :)

    Parabens por mais uma prova...

    Vamos a isto , que o verão está a acabar e á muitos desafios no horizonte do clima fresco. ;)

    brjs
    ajb

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    1. Olá! Ainda vens a tempo!! :p ihihih
      Sim, é um trail num sítio especial... :)
      E a culpa foi, claro, do hamburguer... ;)
      Estou ansiosa por desafios em clima mais fresco. Ufa!:)
      Obrigada, A.
      Brjs

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  6. Olá Rute!
    É verdade, sou eu, ainda aqui ando:)
    Depois daquele grande desafio, esta prova veio mesmo a calhar.
    E estamos sempre a aprender:)
    Parabéns pelos desafios vencidos!

    Beijinhos

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    1. Ahah, olá Vitor! :)
      Sejas bem-aparecido! Se não fosse pela Isa nem sabia se ainda corrias. ;) Vê lá se ressuscitas o blogue. :D
      Sim, estamos sempre a aprender... :P
      Obrigada!
      Beijinhos

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  7. Belo recomeço depois da Serra da Estrela. Um prova diferente, sem a pressão das outras. Aproveitar a viagem... sempre.

    Beijinhos

    P.S. Fiquei desiludido com o facto de não se ter verificado a ameaça. Passei a crónica toda a pensar: "É desta, é desta" :):):)

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    1. À espera do mal?? :P Às tantas tinha aliviado. Mas bom, é o que dá correr a velocidade!:D
      Beijinhos

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