10 de outubro de 2016

GTSA: Sunset Trail

Na partida estão cerca de 80, 90 atletas. O Sunset Trail é uma das provas menos concorridas do GTSA, embora, de ano para ano, a afluência tenha vindo a aumentar.
A partida é feita do centro histórico de Caminha, por debaixo do relógio da torre que marca as sete da tarde, hora de dar início à prova.


Ainda enquanto aguardávamos, começaram a cair umas pequenas pingas... Mau! Tu queres ver?! O tempo, até então, tinha estado excelente, e assim continuará nos dias seguintes, mas parece que, para este final de dia, estava marcada uma rega de S. Pedro às hortas das redondezas. Do lindíssimo pôr-do-sol, que é a imagem de marca desta prova, não vamos ver nada, mas deu para matar saudades de uma bela corrida contra os elementos.

Cartaz 2015.


Logo de início, depois de percorrermos as ruas empedradas da vila, iniciamos uma subida de cerca de 5 km até à Senhora da Agonia (cujo nome pode, ou não, derivar da dificuldade que é chegar lá acima... eheh). Maioritariamente em asfalto ou estradão, é um percurso teoricamente corrível, embora o desnível e a preocupação em poupar as pernas para o dia seguinte me faça alternar a corrida com caminhada, de tempos a tempos (isso, para poupar as pernas para o dia seguinte, é essa a desculpa!).

Por entre o nevoeiro que começa a adensar com a altitude, consegue-se vislumbrar lá em baixo a foz do Rio Minho, as praias e o Forte da Ínsua, mas a chuva não permite fotos. Decerto que o pôr-do-sol deve ser soberbo visto daqui, mas não será isso que teremos hoje e está bem assim também.

Converso durante alguns minutos com uma rapariga que o ano passado tinha participado na caminhada e que tinha gostado tanto que este ano voltou para fazer o trail. Estava desconsolada! Eu, confesso, não estou a importar-me nada de correr assim. Com a chuva não sobreaqueço, não se dá pela transpiração e, dessa forma, parece que não sinto tanto o cansaço. Que saudades que tinha! Chego aos 5 km, à Capela de Santo Antão, local do abastecimento, quase lá no alto, num total enamoramento pela corrida em geral, e esta em particular, e pela chuva em geral, e esta em particular.

Abrigada debaixo do telheiro da capela, como um pedaço de banana e demoro apenas o tempo de ligar o frontal. Já escureceu e vamos entrar na zona de serra propriamente dita, sem iluminação. Não tarda muito, a fase de enamoramento inicial vai dar lugar aos primeiros arrufos. Já tentaram correr de noite, apenas com a luz do frontal, e com a chuva a começar a engrossar?
Começamos a subir e descer single-tracks, naquilo que parece ser um ziguezague labiríntico, de tal forma que houve uma altura em que tememos ter virado em algum local errado e estarmos a seguir o percurso ao contrário. As fitas sinalizadoras tanto apareciam à esquerda como à direita, o que dificultava a noção de direcção.

"Que se lixe, mesmo que estejamos a voltar para trás temos de seguir as fitas, não podemos andar para aqui às voltas!" A chuva começa a provocar pequenas cascatas que escorrem trilho abaixo e tornam as rochas escorregadias. Eu piso poças e passo pelas "cascatas" indiscriminadamente, tendo apenas em atenção a escolha do piso que me parece escorregar menos. Já não há como preservar os pés secos. O frontal foca a luz no meu pé, que se enfia em mais uma poça, qual protagonista neste palco dos trilhos, e, nesse momento, recordo-me que não trouxe ténis suplentes e vou ter de correr com estes novamente amanhã... "Iupi!"

Mas bom, um problema de cada vez. Neste momento temos de continuar a seguir as fitas e rezar para que estejamos a encaminharmo-nos na direcção certa. Há pouco ainda seguiam umas quantas pessoas atrás de nós, mas deixámos de as ver. Para a frente, apenas escuridão.

E o céu continua com o objectivo de largar, das suas nuvens, toda a água de meses concentrada em duas horas. Agora já não estou a achar tanta piada, porque começa a tornar-se ligeiramente perigoso. Não consigo ver nada! Deixo a tarefa de localizar as fitas sinalizadoras para o Artur e sigo de luz fixa no chão. Vou manter o pescoço durante tanto tempo para baixo que, no dia seguinte, até vou estar com dores no início da coluna. Não arrisco olhar muito em frente, porque a chuva bate-me directamente na vista, faz-me chorar, e pode deslocar-me alguma lente de contacto. Neste momento, cai com tal intensidade que, ao olhar para o caminho com a luz do frontal a incidir na chuva, parece que estou a ver o mundo através do ecrã de uma televisão mal sintonizada. E, a ironia, correr mais rápido só piora a situação.

Finalmente, depois de uma curva no trilho, passamos por um estradão onde está estacionado um jipe e, de lá de dentro, o próprio do Carlos Sá dá-nos uma palavra de força e avisa-nos de que o próximo abastecimento está a pouco mais de 1,5 km. Ufa, estamos na direcção certa!

Mas claro que, "a pouco mais de 1,5 km", numa prova de trail, pode traduzir-se num espaço de minutos bastante variável. Neste caso, antes de chegarmos ao abastecimento, ainda teríamos de conquistar a maior altitude da prova. Nesta altura a chuva abrandou um pouco, dando lugar ao nevoeiro. Apesar de ser uma noite escura, conseguíamos ver mais acima a luz de dois frontais, por isso dava para ter noção da subida. Depois da primeira fase de enamoramento, da fase de aventura pelas cascatas, e da fase de terror que foi correr com a visão condicionada, esta foi a fase em que aproveitei para descarregar a adrenalina na forma de resmunganço contra a subida. Quando não podes correr, refila contra eles, já diz o ditado. :) Ahhh, de volta à normalidade!



O abastecimento era novamente na Capela de Santo Antão, o que obrigava a um pequeno desvio de cerca de 20 metros que optámos por não fazer. Não pela distância, mas porque ainda tinha barrinhas comigo e o restante percurso seria praticamente sempre a descer, com ligeiras alterações de última hora por uma questão de segurança (menos trilhos e mais estradão).

Íamos com 13,5 faltavam apenas 4 km para a meta. A chuva entretanto tinha esmorecido mas, em contrapartida, o nevoeiro era cerradíssimo! Custava imenso encontrar as fitas, mesmo com os dois frontais a apontar em frente.
Passam por nós dois atletas com quem seguiremos na conversa quase até ao final. Claro que, na converseta, e mesmo com quatro pares de olhos, vamos deixar passar uma curva à direita e continuamos a descer até nos apercebermos do erro, umas centenas de metros mais à frente.  Toca a subir e procurar a última fita!

Os últimos dois quilómetros serão exactamente os mesmos do início da prova, em sentido contrário. Já não está muita gente nas ruas, afugentada pela chuva, e até o speaker irá estar distraído no momento da nossa chegada, o que originou uma meta muito discreta. Tão discreta que até nos esquecemos dos nossos chips! (Culpa nossa, que não nos lembrámos de os colocar no início.) O tempo terá de ser introduzido de forma manual, o que foi prontamente resolvido na hora.

Terminei a prova a sentir-me bastante fresca. Não só porque estava encharcada e a arrefecer, mas também porque, apesar das contrariedades, há muito tempo que não me dava tanto gozo fazer uma prova (provavelmente, desde o OMD). E, no dia seguinte, havia mais.

16 comentários:

  1. Ufa, Arga em dose dupla!
    Confesso que também já tenho algumas saudades de correr com chuva (daqui a 2 ou 3 meses vou-me arrepender desta frase ihihih).
    Beijinhos e venha o relato da prova do dia seguinte :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ihihih... Nunca estamos contentes! :) Mas, calma, temos de aproveitar o tempo de Outono primeiro! ;)
      Beijinhos

      Eliminar
  2. "há muito tempo que não me dava tanto gozo fazer uma prova"
    Frase lapidar desta prova :)

    Pois a chuva foi mesmo pontaria. Quando se publicita o pôr-do-sol, parece que se envergonha. Faz-me lembrar a edição inaugural do Madrugada a Correr onde o ênfase era no cortar a meta com o sol a nascer. Pois penso que seria muito giro. Mas... e apesar de ser Julho, chuva e tudo encoberto :)

    A primeira parte está. Espero ler na segunda que o gozo se manteve :)

    Beijinhos e uma excelente semana

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Fartei-me de repetir que gostei muito de fazer esta prova! No dia seguinte o gozo manteve-se... quase até ao fim! :D
      Beijinhos e boa semana para ti também!

      Eliminar
  3. Bom dia e bem-vinda a este mundo maravilhoso dos blogues de corrida. Serei um atento e fiel seguidor deste tasco. Muitos parabéns pela conclusão de um trail, com certeza um inicio de uma bela jornada que poderá embocar no futuro numa Ultra, quem sabe um dia até numa prova de 3 dígitos - ou até, loucura das loucuras numa Maratona de estrada - nunca diga nunca :)
    Quanto à prosa ... fraquita :), tem muito que melhorar :P ... e aconselho vivamente a colocar fotos de jeito, se possível de comes e bebes.
    Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pffff... Agora estamos armados em "snobs das ultras", é? :P Já não se pode correr menos de 30km, queres ver?! ihihih :)
      Obrigada pelas boas-vindas, gosto de começar devagarinho, quem sabe não estarei a correr Ultras e/ou Maratonas daqui a uns meses. ;)
      Quanto aos comes e bebes, já há por aí muita concorrência desleal... :)
      Beijinhos

      Eliminar
  4. Uma experiencia diferente, é por isso que também se faz o que se faz.

    Não, não é Sunset Trail, pelo que li já correste de noite (com chuva ?), foi mesmo deixar um homem tratar dar direções!

    Decididamente...gtsa...hmmm, hmmm.

    Bom, espero que tenhas tido muito jornais no quarto, ou então já sei que correste sózinha no dia seguinte :)

    Bjs

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Verdade, foi uma experiência diferente e potencialmente arriscada. Nunca confiei, ia sempre a perguntar a direcção de 2 em 2 minutos, mas correu tudo bem. :)
      Exacto, fui pedir jornais velhos ao café, depois da prova. Não secou totalmente, claro, mas ajudou. Não tinha mais ténis nº 38 disponíveis! :P
      Bjs

      Eliminar
  5. Adoro correr com essas condições meteorológicas! E o teu relato está magistral como de costume!
    Como sou pitosga e corro de óculos quando chove tenho o problema da chuva nas lentes dos óculos e a solução que encontrei foi usar um chapéu com pala! A pala da chapéu evita muito a chuva nos óculos, até na bicicleta meto o chapéu por debaixo capacete! Se calhar é uma solução para evitares a chuva a bater-te nos olhos. Mas como essa prova era de noite ficava um bocado complicado usar o chapéu com o frontal. Beijinhos grandes.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É tão bom sentir a chuva! Mas quando é demais começa a atrapalhar logisticamente. :)
      Por acaso também me lembrei do boné, se fosse de dia teria corrido com ele mas de noite nem me lembrei. Seria apenas uma questão de ajustar a direcção do foco da luz, acho que dava, porque vi alguns atletas de boné e frontal.
      Obrigada!
      Beijinhos grandes

      Eliminar
  6. Dass...quase 4 meses a correr sem chuva e tinha que ser nas 2 horas da prova que nos caíu o céu em cima!! Xiça...

    E sim !! E a unica vez que se errou a "direcção" , quem ía á frente na cavaqueira ??? Pois é bebé... :P

    Que bela experiência !! Adorei aquela subida interminável !!
    Para o ano é a repetir , mas com 53k no dia seguinte !! :P

    brjs

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Arga sabia que eu estava com saudades da edição de 2013! :D
      Tanto quem ia "na cavaqueira" à frente, como atrás, não viu a fita! Aposto que se fosse maioria mulheres em vez de homens, tal não teria acontecido. :P
      Sim... Para o ano é isso tudo e mais ainda o Km Vertical... Lol ;)
      Brjs

      Eliminar
  7. Que prova! A noite e com chuva... uma trail não é para qualquer corredor e vc diz que fazia tempo que não se divertia tanto?

    Estou estupefato!!! Mais uma corredora maluca... kkkkk

    Show! Parabéns menina corredora!!!!

    continue relatando suas aventuras... Adorei!!!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Verdade, cada um com a sua loucura. A minha é adorar correr à chuva! :)
      Obrigada, Fábio! Boas corridas!

      Eliminar
  8. Realmente deve ser um pouco assustador correr à chuva durante a noite com visibilidade reduzida... Ainda bem que não houve acidentes!
    Não havendo pôr-do-sol, a chuva também serviu para dar um toque mágico à corrida :)
    Haha, o Carlos Sá abrigadinho num jipe a ver a chuva a cair e a dar força aos atletas! Deve ter passado umas horas fantásticas :P

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não, não houve acidentes! Por acaso, tenho mais tendência a cair em zonas ou situações sem dificuldade nenhuma. :) Deve ser porque baixo mais a guarda.
      O Sá, e restante organização, bem que andaram atarefados, por terem de alterar o percurso à última hora, por causa da tempestade. Deviam andar a verificar se ninguém estava perdido... ;)
      Beijinhos

      Eliminar