14 de outubro de 2016

GTSA: Trail Longo 23km

"Bom, lá terá de ser...", e enfio os pés nos ténis ainda húmidos.

Na noite anterior, depois de terminar o Sunset Trail, tinha ido a um café pedir jornais velhos para meter nos ténis, de forma a absorverem a maior parte da água. Ajudou, mas, obviamente, aquelas poucas horas nocturnas não foram suficientes para os secar por completo. Além disso, também a mochila e o seu conteúdo tinham ficado completamente encharcados. O dia está agora a nascer, com o céu limpo, tenho esperança de que ainda sequem até ao início da prova.

Depois de perder a partida da Ultra e dos 33 km, por segundos, em Dem, ainda fui, no entanto, a tempo de ver os atletas passar após a primeira volta à vila. Entramos, em seguida, num dos dois cafés que estão junto à partida e parece que passou por ali um tufão. O tufão GTSA, que assalta esta pacata localidade todos os anos no final de Setembro, trazendo consigo, por arrasto, os seus cerca de mil atletas e as respectivas bexigas nervosas, juntando-lhe a necessidade urgente de cafeína.
Daqui, partiremos depois num dos autocarros que nos levariam até S. João da Montaria, local onde tem início a prova dos 23 km.


S. João da Montaria.

De todas as distâncias que o GTSA oferece, acabei por optar por esta pois, tal como vos tinha dito, na minha opinião, cobre uma das partes mais bonitas do percurso da Ultra. Apesar das alterações que sabia que iria haver este ano, pelo menos o Vale do Âncora e as suas cascatas estavam garantidos. Geralmente chego sempre a esse local já com 40 km de prova e demasiado cansada para poder apreciar a vista como deve de ser. Desta vez seria diferente (ou, pelo menos, esperava que sim!)


Havia bastantes atletas à partida, só para os 23 km eram quase 500, aos quais se juntavam os atletas dos 13 km durante os primeiros quilómetros. Temi logo um enorme congestionamento quando se iniciassem os trilhos, mas os primeiros quilómetros foram todos muito rolantes. Três quilómetros passaram e ainda estava a correr... Cinco quilómetros... Sete quilómetros sem parar ou caminhar uma única vez! Quem só fizer provas de estrada (ou for melhor atleta) e estiver a ler isto, pensa: "Uau, sete quilómetros seguidos a correr... E então?!", mas para mim, em trilhos, sobretudo sendo em Arga, estava a ser estranho.


Já não me consigo lembrar bem, mas quer-me parecer que esta parte do trajecto foi um pouco alterada em relação aos anos anteriores. Decididamente, não me lembro de ser tanto estradão rolante mas, tendo feito uma prova na noite anterior, não me estava a queixar, pelo contrário!

Pararei pela primeira vez aos 7,5 km no primeiro abastecimento, junto a esta bonita ponte.


Estava uma confusão enorme de gente no abastecimento, pelo que tentei não perder muito tempo. A média estava a ser boa, mas sabia que agora iria iniciar-se uma subida contínua até aos 15 km, começando pelos trilhos junto ao rio Âncora, e queria tentar espaçar-me um pouco do "pelotão" (o que, numa corrida com muito mais de 500 atletas, é um pouco complicado.)

A fugir tão depressa que até desfoco a foto! :)
(E, sim, tinha a mochila mal ajustada mas não me apetecia parar para ajustá-la
e estragar o momentum de corrida. Vocês reparam em tudo! :P)

O que mais diferencia estas distâncias de uma Ultra (para além dos quilómetros, obviamente) é a quantidade de gente em prova. Nunca estamos sozinhos. E isso era algo ao qual já não estava habituada, confesso. Ter de ir ao ritmo do grupo, esperar que os da frente avancem ou ter a pressão de levar um carreiro de atletas atrás. Ou tentarem ultrapassar mas sem avisarem por qual lado o pretendem fazer (por vezes não há espaço e nem sempre a esquerda é a melhor opção) ou então eu tentar ultrapassar alguém e sentir que essa pessoa fica "picada" com isso! Foi engraçado. Por outro lado, a dinâmica do grupo - as conversas, as piadas e, mais para a frente, as discussões dos casais quando já vão cansados (eheh) - acaba por trazer alguma distracção.

E assim chegamos às cascatas.


Até então vinha muito bem - "olhem para mim, a correr tanto, apesar da prova de ontem! #muitaforte" - mas bastou iniciarem as subidas mais escaladas para perceber que afinal não estava assim tão forte. Não é que me sentisse cansada, mas as pernas é que não estavam tão frescas como pensava. Apercebi-me de que, mais para a frente, iria começar a ter problemas mas, por enquanto, estava a aguentar-me.


Por um lado, acabei por desfrutar muito mais do ambiente, já que não vinha com um pulmão a saltar-me pela boca e cheia de dores "nas cruzes", como nos anos anteriores, mas, por outro, não dava para parar um segundo que fosse, pois vinha sempre gente atrás.


Não fui eu que tirei as fotos - ou me agarro a troncos e árvores ou saco do telemóvel, não domino a técnica conjunta. E, mesmo assim, sabe Deus como nunca rebolei por ali abaixo. Felizmente, há quem seja mais ágil do que eu, o que resulta em bonitas fotos para mais tarde recordar e ilustrar esta crónica.


Este ano também havia muito mais água, talvez resultado da chuvada da noite anterior, o que tornava a travessia ainda mais cautelosa e lenta.


Uma das coisas engraçadas desta zona, e apesar de já ser a quarta vez que a percorro, é que esqueço-me sempre de como é longa. Quer dizer, são cerca de três ou quatro quilómetros, mas parecem muitos mais. Quando julgamos que já passámos o pior/melhor e recuperamos um bocadinho da corrida,



Voltamos aos trilhos inclinados, ao rio e às cascatas.


Lembro-me que, em 2015, comecei a ficar farta (blasfémia!) e não via a hora de terminar esta parte, mas, este ano, fi-la relativamente bem.



Além disso, já sabem como gosto de água, e os ténis até ainda estavam molhados do dia anterior e tudo.


Ao longos dos 12 km já percorridos, já tinha sido possível ver algumas das marcas deixadas pelo incêndio, mas, apenas quando saímos da zona do rio, e já depois da separação do percurso dos 13km, quando começamos a entrar na zona alta da serra, é que se vai tornar mais visível a área ardida.


Sobretudo na zona de floresta, lindíssima, mas que tanto tinha amaldiçoado em 2015 devido à posterior escalada de rochas ("ai as minhas cruzessssss!"), eram bastante visíveis os estragos...


Continuava uma área mágica, embora de beleza triste.



Vai ser já na última subida (como é que vou lá há tantos anos e não sei/não me lembro do nome deste pico! Alguém?!), pouco antes do abastecimento, que irá passar por nós o atleta cabo-verdiano, primeiro classificado da Ultra. E que avanço que ele levava! O segundo classificado, e restante pódio, irá só apanhar-nos na descida, quase trinta minutos depois.


Quanto a mim, até ao abastecimento as pernas já iam bastante preguiçosas, mas depois do abastecimento então, na conquista daquele último piquinho, foi um martírio.

#fmylife... :)

Não conseguia compreender como a alma claramente insensível que me acompanhava ainda estava a documentar fotograficamente este momento.

Grrrshumpshhh#%%&!

Agora, estas fotos já valeram bastantes gargalhadas, mas na altura não estava a achar muita graça. :)


Finalmente, depois de passar pelo famoso T0 (formação rochosa que forma um abrigo natural), é um instante até às ventoinhas. Aqui em cima já eram visíveis os sinais de renovação da natureza, pequenos apontamentos de verde e lilás, no meio do negro e cinza.


Ai estão elas, as eólicas! Símbolo dessa energia natural e renovável, que é o início de uma descida. ;)



No meio da devastação, não eram apenas as flores que davam um ar de vida. Os cavalos da Serra d'Arga, elementos incontornáveis do GTSA, também por lá andavam. Vejam se os descobrem na foto abaixo!


Começamos então a descida daquilo que contávamos ser cerca de 7 km até à meta. Este ano, por uma encosta totalmente nova, contornando a Pedra Alçada.


Ao início, serão uns poucos quilómetros feitos sempre por um empedrado a lembrar uma estrada romana que, por comparação à Pedra Alçada, permite um passo de corrida mais confiante. Não o meu, claro, que já sabem ser o de um pinguim a descer.

Depois, e embora compreenda porque essa alteração teve de ser feita, os quilómetros finais estenderam-se por intermináveis estradões junto a quintas e sem muita beleza cénica. Além disso, cedo nos apercebemos de que a prova teria mais do que os anunciados 23 km, pois quando essa distância apitou ainda se avistava Dem bem lá em baixo. Nesta altura fiquei contente por ter optado "apenas" pelos 23 km, porque já não via a hora de terminar.

Então e a meta, ainda está longe?!

Eventualmente, lá acabamos por ir dar a uma curva já familiar da estrada da localidade, e sabia que, a partir daí, faltariam cerca de 500 metros para terminar. Ainda consegui alargar um bocadinho a passada (aquelas centenas de metros finais são boas para isso) e terminar já esquecida de todos os momentos "maus" e a pensar como este é mesmo um grande evento, em todas as suas distâncias, apesar das condicionantes a que foi sujeito este ano, e que ainda bem que voltei. E como quero voltar!

8 comentários:

  1. A frase lapidar desta 2ª etapa, é "ainda bem que voltei. E como quero voltar!"
    E está tudo dito!

    Tens uma maneira muito peculiar (no melhor sentido) de relatar as provas :)

    Beijinhos e boas corridas

    ps - Fica-te bem a nova (e bem bonita!) camisola :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada. :)
      E sim, a camisola é bem gira e confortável! Até fiquei com pena de lhe espetar os alfinetes, vou ter de arranjar um porta-dorsais. :)
      Beijinhos e continuação de bons treinos para a Maratona!

      Eliminar
  2. Bem giro o vosso passeio, e desta vez cheio de fotos giras e o caraças. Parabéns!!! E tenho mesmo que fazer esta prova ... um dia, quem sabe.
    Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É para isso que servem os passeios, para tirar fotos giras. :P
      Tens de falar com os italianos, eles não sabem que o GTSA se realiza nessa semana?? :)
      Beijinhos

      Eliminar
  3. É de facto triste ver as imagens da zona ardida, todos os anos fico com o coração apertado ao ver as notícias. Seja como for, Arga continua a ser a belíssima serra que era. E pelo que descreves, a prova continua a passar nalgumas zonas míticas como as cascatas e o T0.

    Continua a correr assim feliz (alternado com umas alturas mais "refilonas" eheheh).

    Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Penso que a alteração foi só mesmo este ano. Para o ano deve voltar ao normal, até porque o cimo da serra já não tem nada que arder... Enfim... Este ano foi demais por todo o lado! :(
      As oscilações de humor fazem parte destas provas, desde que o saldo final seja positivo, é o que interessa! ihihhi :)
      Beijinhos

      Eliminar
  4. Há sempre um elemento mau (ou bom, depende do ponto de vista) em repetir percursos nas provas: sabemos o que nos espera. Por um lado vamos preparados para o que vem, por outro quando o que vem é 'mau' sabemos disso e começamos a deprimir :P E há sítios que têm o dom de esticar alguns quilómetros físicos em dezenas de quilómetros psicológicos. Mas também é verdade que às vezes guardamos uma ideia tão terrível de determinada parte do percurso que quando lá estamos até o fazemos com leveza e achamos que não é tão mau como nos lembrávamos (pelo menos o meu cérebro é bom a exagerar as coisas) :)
    Depois do meu discurso sobre uma parte pequena do texto: parabéns por mais um trail que completaste (ainda para mais tão em cima do outro!). :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu também tenho um cérebro "dramático", o que é bom e mau... :)
      Obrigada!
      Beijinhos

      Eliminar