18 de outubro de 2016

Por trilhos do Gerês (a PR3)

Aqui há uns tempos alguém estava a falar das suas férias em Beja e perguntou-me: "Já foste a Beja? Tens de ir!", e a primeira coisa que pensei foi: "Hmmm... Será que há alguma prova que possa fazer em Beja?".

Não sei em que momento da minha vida passou a ser indissociável conhecer sítios novos e fazer uma prova. Já nem sei como fazia antes. Ia assim, uns dias para um local novo, sem sequer verificar se ia haver algum trail na zona??! Depois chego lá e faço o quê? Descanso? Relaxo junto à piscina? Vou a bons restaurantes regionais? Passeio pelas ruas turísticas? Sinceramente, não sei o que as pessoas fazem quando não passam metade de um dia, no mínimo, a correr, e a outra metade a arranjar coragem para levantar a carcaça morta da cama. Ver museus e visitar monumentos não é a mesma coisa se não estiver cheia de dores musculares ou, pelo menos, tiver uma ou duas bolhas nos pés!

Mas bom, o certo é que houve um dia em que esse clique (o fusível a queimar?) se deu, o que significa que agora não há sítio a que vá que não tenha de ter uma prova anexada ou, à falta dela, um treino programado pelas redondezas. E foi isso que aconteceu no Gerês.

Excerto de um poema de Miguel Torga, exposto na Pedra Bela, Gerês.

Depois do fim-de-semana em Arga, não sabia como iriam estar as minhas pernas, mas uma pessoa não pode simplesmente ir ao PNPG e NÃO correr, não é verdade?
Claro que, por ali, o que não faltam são opções de trilhos. Existem dezenas de rotas assinaladas, o difícil seria escolher. Felizmente, um casal alemão que estava de partida deu-nos os mapas impressos de algumas Pequenas Rotas que tinham percorrido, o que deu um enorme jeito, derivado à tendência que alguém tem de perder-se, mesmo em percursos assinalados... Uma das rotas de que tinham gostado mais começava a poucas dezenas de metros do local onde estávamos alojados, e foi mesmo por essa que começámos.

Pequena bucha antes de iniciar o percurso.
A estudar o mapa!

A PR3, também conhecida por Trilho dos Currais, começa na zona do Vidoeiro e segue um percurso circular de cerca de 10km (diz a placa, mas é um pouco mais). Passa por alguns locais icónicos do Gerês, como a Pedra Bela e, como o próprio nome indica, atravessa diferentes currais, ou zonas de pastoreio, e respectivas cabanas dos pastores.

A placa prevê uma duração de 4 a 5 horas.
Quantas horas acham que demorámos? Resposta no final da crónica.

Sendo o primeiro dia no Gerês, ia eu cheia de vontade de CORRER TODOS OS TRILHOS! Acontece que este percurso começa com uma enorme subida. Cerca de 600 D+ em menos de 3 km, pelo que tínhamos visto no mapa. Mas uma coisa é analisá-la no mapa, outra é estar lá e fazê-la. Digamos que foi uma bela caminhada de 3 km, que despertou os músculos ainda mal adormecidos do GTSA.


No entanto, gostei bastante desta parte. Depois de nos afastarmos cada vez mais da vila e andarmos durante umas centenas de metros por atalhos que cortam a estrada nacional e os parques de merendas à sua berma, entramos por trilhos de árvores retorcidas e verdura luxuriante, a lembrar a minha Serra de Sintra.
Nesta parte, o terreno é também bastante rochoso, por vezes com escadinhas escavadas na terra, para ajudar à sua subida. Corria também alguma água, sobretudo devido à humidade nos locais em que a vegetação tornava o local mais cerrado, mas, pelo que me pareceu um pequeno leito no trilho, penso que na época das chuvas se formem pequenas ribeiras por ali abaixo, o que trará uma nova componente de desafio ao percurso.


Foi também nesta parte que começámos a avistar, de tempos a tempos, medronhos no chão, mas sem se avistar nenhum medronheiro nas redondezas. Além disso, parecia que apareciam estrategicamente dispersos, como se alguém estivesse a querer deixar rasto. Mais ou menos como na história de Hansel e Gretel, mas, em vez de assinalarem o caminho com migalhas, assinalaram com medronhos. (Bom, sempre são mais resistentes que migalhas.) Há-de, para sempre, permanecer um mistério, já que nunca chegámos a ver nenhum medronheiro mas também não vimos mais ninguém no trilho. O Mistério dos Medronhos Perdidos (dava um belo nome para um romance policial).

De vez em quando, existia uma abertura por entre as árvores e avistava-se o topo.

"Ainda??! Parece que não avançámos nada!"

Quando estamos a cerca de 1 km do topo, entramos numa área mais aberta, de pinhal. Por enquanto havia bastantes sombras, mas já dava para perceber que ia ser um dia (e treino) quente.


Chegando ao final da subida, vamos dar a um bonito descampado, local do primeiro curral, o Curral da Lomba do Vidoeiro, se não me engano.


Não tivemos muita sorte porque as cabritas deviam andar a pastar para outros lados, mas assim deu para explorar sem receio de levar alguma marrada.


O abrigo dos pastores estava extremamente bem conseguido, com uma porta em madeira e um banquinho em pedra no interior, notava-se ser bastante resistente aos elementos.

A cuscar, a medo, não fosse saltar dali alguma cabrita enraivecida.

Pequeno T0, soalheiro, com uma vista fantástica (deve pagar imenso de IMI... eheheh).


Bastou correr cerca de quilómetro e meio - sim, ali já dava para correr à vontade! - para descobrirmos onde andavam as cabritas (e algumas vacas) escondidas.


Olá!

Era o Curral da Carvalha das Éguas, local onde o Artur se recordava de ter passado quando participou no Peneda-Gerês Trail Adventure.


Daqui para a frente seguir-se-ão alguns quilómetros relativamente planos e bons de correr, antes de se iniciar novamente a descida.




O percurso estava bastante bem assinalado e notava-se que as marcas de tinta tinham sido reforçadas recentemente. Apenas tivemos dúvidas quando já íamos com cerca de 6 km e apareceu uma zona de cruzamento sem indicação. Foi preciso avançar alguns metros pelos dois caminhos para ver qual deles estava assinalado. De resto, mesmo em locais com várias opções, havia quem tivesse posto placas ou indicações adicionais.

Uma seta feita com pedras, a indicar a saída à direita do estradão.

Depois de atravessarmos o Curral da Espinheira, seguido de uma zona de pinhal e uma área florestal repleta de fetos, vamos dar a um dos pontos altos do percurso.


O Miradouro da Pedra Bela, a mais de 800 metros de altitude, fica numa pedra imponente, que não podia ter escolhido melhor sítio para "nascer".


A montanha, os rios que serpenteiam a serra, a confluência dos rios Cávado e Caldo, a Portela do Homem... tudo de ali se avista, tudo dali é belo, e daí o baptismo desta pedra, cuja vista influenciou autores como Miguel Torga, neste poema que se encontra na rocha do miradouro.


Vista montanha.
Parece que o "Krupicka" também andava por ali a fotografar a paisagem! ;)

O Carlos Sá tem uma foto/vídeo publicitário neste exacto local.
Eu tenho quase o mesmo estilo. :P

Depois da Pedra Bela segue-se o início da descida até à vila, intercalando entre trilhos muito técnicos, cheios de pedras e raízes, com estradão e alguns troços da estrada nacional.


É num desses troços junto à estrada que vamos aproveitar para abastecer de água e comer qualquer coisa. O Gerês é farto em água e fontes, mas na zona da serra onde tínhamos andado não havia nenhuma.


Enquanto comíamos, tínhamos estes espectadores:



Alguns com ar mais amistoso e outros mais mal-humorados (deviam estar com fome e nós não partilhámos.)

Foi também apenas aqui, a cerca de 2 km da vila, que vamos apanhar os únicos caminheiros que vimos em todo o percurso e que pareciam estar a percorrer a mesma rota. Já não íamos ser os últimos!

A chegada à vila é feita junto a algumas habitações e vinhas, em piso empedrado e estradão.


Chegando à estrada, algumas centenas de metros mais à frente, a meta.



E agora, quanto tempo acham que demorámos?

- 3h10. E isto com várias paragens para fotos, explorações, e para comer. Portanto, das 4 a 5 horas previstas, é possível fazê-lo em bastante menos tempo se forem em ritmo de corrida (mas não deixem de parar para apreciar a paisagem).

Diria que é um percurso de dificuldade média-alta, apenas porque se ganha bastante desnível logo de início e alguns dos trilhos são muito técnicos. De resto, os quilómetros centrais permitem um ritmo de corrida solta, e vão sentir-se leves e livres, qual Heidi ou Marco (riscar o que não se aplica) a correr pelas montanhas.

No dia seguinte, o estado das coisas não permitiu grandes correrias, mas ainda deu para explorar mais uma PR (PR10 - Trilho da Preguiça. Podem ver algumas fotos no Instagram). O Gerês é maravilhoso, e nem sequer precisa de haver uma prova de trail para justificar a visita, podem fazer a vossa.

Mais informações e mapa de percurso do Trilho dos Currais, aqui.

14 comentários:

  1. Espectacular ... adoro o Gerês. E quem é que disse que é preciso uma prova, aliás cada vez mais me apetece pura e simplesmente ir para uma serra e seguir os trilhos marcados, como bem dizes, com tempo para apreciar tudo e mais alguma coisa ... fizeste-me lembrar um belo de um fim de semana que passei na Lousã há uns poucos meses atrás.
    Beijinhos

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    1. É meio a brincar, meio a sério, porque as provas acabam também por ser motivo de passeio para mim! De que outra forma se conheceriam determinados locais que fogem da "rota turística"?
      Mas, sem dúvida, fazermos as nossas próprias provas é melhor. ;)
      A Lousã será uma das próximas visitas com "provas" anexadas! :) (No regresso do Gerês passámos em Miranda do Corvo e visitámos as instalações do Centro de Treinos. Realmente tem muito boas condições, e combinar um f-d-s de "provas" por lá?? Pensa nisso. :P)
      Pode ser que a tua próxima visita/treino seja pelo PNPG. ;)
      Beijinhos

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  2. Achei curioso o início pois é uma falha minha. Beja deve ser a única cidade portuguesa que não conheço.

    Bonito percurso!
    E tu tens mais estilo na foto que o Carlos Sá :)

    Beijinhos

    ps - Muito giro o abrigo dos pastores

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    1. Beja também só lá fui em criança e já não me lembro. Conheço melhor o Norte que o Sul do país...
      Ahah, obrigada!:)
      E sim, este abrigo estava bem cuidado e preservado, nota-se que ainda é usado com frequência. Reparaste no pormenor da pequena janela e da "chaminé"? :)
      Beijinhos

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  3. Provas em Beja só de vinhos e enchidos. Tem um desnível "colestrólico" apreciável e requer treino específico. Prepara-te bem antes de emba(o)rcares numa epopeia dessas.

    Quanto ao Gerês, sim senhora, parece-me muito bem. Noto aqui uma evolução no tamanho do teu quintal. Começando em Monsanto, ampliaste para Sintra, agora o Gerês... qualquer dia não há parque natural na Europa dcom dimensão para os teus treinos curtos :D

    Bjs

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    1. Epá, não sei se estou preparada para uma prova dessas neste momento, não tenho ido aos treinos! ;)
      Eheh... Tenho de ter cuidado, não posso esticar muito mais o quintal, senão depois começam a cobrar-me imposto patrimonial!:P
      Bjs

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  4. Que inveja! Tudo tão bonito e sempre tão bem escrito!
    Beijinhos grandes!

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    1. É difícil tirar fotografias feias num sítio como o Gerês.
      Obrigada. :)
      Beijinhos grandes

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  5. Tão bonito!!!
    E gostei de ver as cabritas e as cachenas :)
    Beijinhos e continuação de bons treinos

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    1. Cachenas! Não sabia que eram assim chamadas. Já aprendi mais alguma coisa hoje. :)
      Por ali é tudo lindo, como já sabes. :)
      Beijinhos

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  6. Olá. Há muitos anos que não vou ao Gerês, mas depois de ter lido a tua bela aventura, só dá vontade de ir até lá e percorrer esses trilhos magníficos. Obrigada pela partilha. Beijinho.

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    1. Olá Susana! Eu não conhecia (fui lá ainda era criança e já não me lembrava de quase nada) por isso adorei! Mesmo agora, com as chuvas, gostava de voltar. A serra deve estar cheia de castanhas e cogumelos. <3 :)
      Obrigada pelo comentário!
      Beijinho

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  7. O meu objectivo, quando estiver um pouco mais em forma, é partir à descoberta do Gerês! Já enviei o link desta vossa aventura para o meu mail para uma referência! Obrigada pelas dicas! E acho que o tempo foi top! =D

    Um beijinho.

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    1. Ahah! Obrigada. :)
      A melhor "forma" para ir ao Gerês é qualquer uma. ;) Aproveita!
      Beijinhos

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