2 de novembro de 2016

O armário

Todos aqueles que correm têm "O" armário. Pode até nem ser um armário. Pode ser uma gaveta, um canto no guarda-fatos, uma cesta no quarto, um alguidar no fundo da lavandaria... Mas o conceito é o mesmo. "O" armário é o baú de recordações da corrida, o depósito têxtil das nossas conquistas, o emaranhado físico das provas feitas, o caos suado do nosso esforço. Vulgarmente é também conhecido por "o armário onde estão as tshirts".

Ao início todo ele é religiosamente organizado. A primeira tshirt, depois a segunda, guardadas com o cuidado de uma peça de museu extremamente valiosa, que é posta a arejar de tempos a tempos, em algum treino (mas não muito, para não estragar). Depois, com o passar do tempo e a gradual participação em provas, o armário começa a ganhar dimensões assustadoras. De tal forma, que até temos medo de enfiar demasiado o braço naquela confusão, não vá dar-se o caso de sermos sugados para uma outra galáxia de planetas de algodão, poliéster e tecido técnico. Outras vezes, chego a suspeitar que no armário habita um monstro devorador de tshirts, pois só isso explica que não consigamos encontrar aquela tshirt azul com as letras cinzentas, daquela prova de 2012, que queríamos mesmo usar no treino de hoje, apesar de termos outras dezenas à disposição.

Os dias vão passando, acabamos por tirar sempre a tshirt que está mais à mão, enquanto olhamos de soslaio para o interior do armário e pensamos que temos de o organizar "um dia destes"...

No meu caso, como a situação já estava a adquirir contornos que poderiam pôr em causa a minha integridade física*, tive de enfrentar o mostro e arrumar O armário.

*(a sério, o armário fica num ponto mais elevado e, sempre que tinha de tirar uma tshirt, tinha de fechar rapidamente a porta, não fosse dar-se um desabamento das restantes e eu só vir a ser encontrada dias mais tarde, soterrada sob quilos de pano colorido.)

O Antes.

O que eu não contava, é que este acto de arrumar fosse abrir uma caixa de Pandora de recordações e nostalgia, o que dificultou bastante o meu trabalho.

- "Xiiii, a t-shirt da MINHA PRIMEIRA PROVA! Não a via há anos, enterrada no meio dos destroços das outras tshirts, mas, decididamente, tem significado, não posso desfazer-me dela."

S. Silvestre dos Olivais 2011.
A Primeira.

- "OMD, a PRIMEIRA VEZ QUE BAIXEI DA HORA AOS 10 KM! Nem pensar em doá-la, vou guardá-la para sempre, mesmo que não a use nunca porque o tecido causa-me alergia no pescoço ao raspar enquanto corro.

Corrida Dona Estefânia 2012.
Era sempre a direito, perfeita para bater recordes, e assim foi.

A estas seguiram-se a da primeira Meia-Maratona, da primeira prova de trail, da primeira Ultra... A ideia era guardar as melhores, deitar fora as que já estivessem em más condições e juntar outras quantas, que já não uso, para doar. Mas como é que uma pessoa escolhe entre filhos? Como?!

Agora fora de brincadeiras, é engraçado as memórias que ficam associadas a uma peça de roupa e que me ocorriam quando pegava em cada uma. Sabiam que a banda sonora do Indiana Jones fazia parte da minha playlist na minha primeira prova? (Ahah, que totó...) Sabiam que o meu pai esteve presente na prova em que baixei da hora e me acompanhou, também, em parte da minha primeira Meia Maratona? E que fiz parte de uma equipa de estafetas na Maratona de Lisboa 2012? Que foi nesta prova que me comecei a apaixonar por Sintra? Que assei de calor no Almonda de 2013 e que, por causa disso, essa prova ficou para sempre riscada da agenda para mim, mesmo que noutras edições, entretanto, até tenha chovido? Que Mafra se tornou especial, no dia em que fiz o Raide à Tapada? Que, mesmo sendo uma tartaruga, fiz aqui o meu primeiro pódio? Que, por esse país fora, conheci locais e pessoas que, provavelmente, nunca teria conhecido de outra forma? Eu sabia disso tudo, mas já não me lembrava. Só foi preciso arrumar o baú das memórias.

O Depois.

Bom, não sei se esta crónica vos vai dar vontade de fazer arrumações - provavelmente não - mas eu gostei desta viagem ao passado. "Corro para criar memórias", como já por aqui escrevi um dia (e, já agora, os 26km da Lagoa de Óbidos foram a minha primeira prova nocturna, feita com um frontal muito fraquinho, que quase não durou a totalidade da prova. Felizmente, tinha três companheiros de corrida.)

Acabei por me desfazer de menos tshirts do que aquelas que gostaria. Por outro lado, ainda sobram bastantes para um dia mandar fazer uma manta de retalhos da minha "carreira" desportiva.

Exemplo de um "race quilt", dos muitos encontrados por essa net fora.

- "Ah, e tal, tudo muito bonito. Mas, e correr que é bom, pá?"

Pois, cá vamos! Já corri mais, mas também já corri menos (ver meses que se seguiram ao OMD). Sempre sem falhar aos fins-de-semana, menos consistente durante a semana (nada de novo, portanto). Mas depois falamos melhor sobre isso.
No entanto, o meu Garmin, tal como algumas das minhas tshirts, já merecia uma reforma. Tenho-o desde 2012, o que não parece assim tanto, mas sabemos bem que, em termos de tecnologia, é quase como se fosse pré-histórico. O modelo foi descontinuado e, talvez por isso, tem dado muitos problemas na actualização e transferência dos treinos, para já não falar dos dias em que se recusa a treinar (não apanha satélites). Assim sendo, ainda não tenho as contagens destes dois últimos meses. Vou instalar uma aplicação no telemóvel entretanto, só para ter algum controlo. 

E vocês? Como anda a vossa colecção de retalhos para a futura manta de feitos desportivos?

25 comentários:

  1. Tenho olhado tanto para "O" meu armário (neste caso uma gaveta), mas a vontade de o arrumar não tem apetecido porque já sei que vou ficar horas a olhar para elas e depois o resultado vai ser o mesmo. Se tinha dúvidas, depois de ler isto tenho a certeza que é o que vai acontecer. Mas vou ter de o fazer a curto prazo porque a gaveta já custa a fechar e fica sempre uma ponta entalada algures... e a "Maria" já anda a reclamar que a gaveta está a emperrar com a dela que está por baixo!!

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    1. Isso das tshirts ficarem entaladas foi uma das razões para limpar O armário. Era sempre uma luta para fechar aquilo. Se é uma gaveta, ainda pior!
      Deixa-te de procrastinar, está na hora. :)

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  2. Fogo. Nunca tinha pensado nisto! Não que eu corra, mas gostava de um dia vir a correr e esta ideia é de génio. Mesmo para as T-shirts que vão ficando velhas das idas ao ginásio esta ideia é top! =D

    Um beijinho,

    http://obiquinidourado.blogspot.pt/

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    1. Sim, é uma ideia prática, porque tem utilidade e mantém a vertente sentimental. :)
      Beijinhos

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  3. Arrumei há uns meses o meu CPLP (Contentor de Poliester, Licra e Peúgas) que ando a acumular desde 2007. Já me livrei de uma série de tshirts, sobretudo das da makito, invariavelmente daquelas provas que nem foram carne nem peixe, ou seja, todas as xistarcadas que eram para ser de 10km e que tanto resultaram em 9.3km como 10.7km.

    Mas há algumas que não saem do Contentor. Mesmo estando para lá de curtas, de tanta lavagem, a ponto de já nem me cobrirem o umbigo (estão a caminho de se tornarem elegíveis como equipamento para uma légua nudista :D).

    Essa sugestão da manta é boa ideia. Já me imagino, com 95 anos junto à lareira, a aconchegar o esqueleto com a ajuda da tshirt de algodão dos 15km da Carlos Lopes Gold Marathon de 2008.

    Bjs

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    1. Ahah, é mesmo isso! Depois aproveitas e chateias os netos com as narrativas de cada uma das provas representadas. :P
      Tu misturas as tshirts com as meias, em total anarquia??! Eu acho que, ao fim de umas semanas, achar um par de peúgas no meio daquilo ia ser uma caça ao tesouro. :)
      Bjs

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  4. Só tenho a medalha da primeira meia-maratona, da primeira maratona e não mais de 10 t-shirts das provas que mais me marcaram. De resto, nem troféus, nem dorsais, nem mais tralhada. E não me fazem falta, as recordações ficam ;)

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    1. Compreendo-te bem, também não sou muito de "tralha". Por isso é que acho que esta manta de retalhos é uma boa ideia, porque ao menos tem uso.
      Beijinhos

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  5. Menina, eu nem treino e pelos visto agora nem a provas consigo ir.

    Como tal, a desarrumação é igual ou quiça pior (Gajos, pá, a minha esposa foge da prateleira a sete pés (também é a prateleira mais alta do armário, nem eu chego ao fundo da mesma sem banco)).

    De resto...bjs

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    1. Então e aquele "desafio" e coiso de que tinhas falado?
      Eu também preciso de banco para lá chegar, mas dá-me preguiça, por isso é que puxo da primeira tshirt mais à mão e arrisco a cascata das restantes a cairem-me em cima. Gosto de viver perigosamente... Lol :)
      Bjs

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    2. Trabalho...descobri há cerca de 2 semanas.
      Ando com uma azia desde então..e para me vingar nem tenho quase corrido e já ganhei 1,5Kg, tomaaaa!
      Já me inscrevi para outra prova...em 2017 :)
      Tenho que ver se ainda faço alguma coisa este ano e quem sabe me estreio numa São Silvestre.
      Enfim, sendo sportinguista desde pequenino...pró ano é que é!
      Sim, percebo-te, ir buscar uma t-shirt é sempre um pico de adrenalina, qual Red Bull Cliff Diving, pff...
      Beijinhos

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  6. Perigo! Perigo! RED ALERT! RED ALERT!
    Não deixar a Mafalda ler este artigo!!!
    Caso contrário lá tenho que ouvir que também eu tenho que me desfazer de algumas e isso não consigo pois cada uma tem a sua história :)
    (e imagina o espaço que aqui ocupa. Nota que já entrei em 378 corridas...)

    Que continues a juntar muitas e boas camisolas, em especial daquelas que te toquem mais

    Beijinhos e "bom resto de semana"

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    1. 378? Olha lá, já viste quantas mantas podes mandar fazer??! Já não passas frio quando fores velhinho. ;)
      Beijinhos

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  7. Menina Rute ... desde que mudei de casa, e meti as minhas T.Shirts de corrida todas num "buraco" no armário não há dia que olhe para aquela bagunça e diga, agora não mas logo vou arrumar isto. E vai-se passando o tempo ... uma vez por ano faço essa "limpeza", e é exactamente como tu descreves ... demoro montes de tempo, traz-me um sem fim de recordações e acabo sempre por limpar menos do que devia.
    Tb te acontece, mesmo tendo umas dezenas valentes de camisolas, correres sempre com as mesmas 4 ou 5? São lavadas, e colocadas por cima ... lá vai ter que ser, um dia destes arrumo a minha bagunça :)
    Beijinhos

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    1. Exacto, sempre as mesmas tshirts, que estão sempre a ser lavadas. A não ser que naquele dia me apeteça uma tshirt específica (que quase nunca encontro no meio da bagunça, e desisto). :)
      Beijinhos

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  8. Pois....eu até hoje tenho-as guardado todas...
    Não quero pensar no dia em que terei que desfazer-me dalgumas...Não, não consigo!!! Hei-de arranjar uma maneira... =P
    Beijinhos

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    1. Reservas um quarto da casa só para as memórias da corrida. Uma espécie de walk-in closet. :)
      Beijinhos

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  9. ehehehhe...acho que todos nós passamos por isso !!
    ...aos meses que ando para arrumar o armário dos tshites ! :)
    E sim...acabo por usar sempre as mesmas 4,5...das 50 que praqui tenho !!
    ...mas as memorias\recordações que nos trazem ou ajudam a lembrar momentos inesqueciveis , vale a pena um armário dessarumado e cheio. :D

    Bons treinos e melhores corridas , sempre...
    brjs

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    1. Um armário rotativo, para irem rodando as tshirts, é que era! :D
      Tendo em conta os últimos tempos, têm mesmo de ser melhores corridas que treinos!... :P
      Brjs

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  10. As camisolas nunca as guardei pois sempre a usei mesmo para vestir no dia a a dia! Só um sujeito pratico e popa-se em roupa! Só tenho guardada a da primeira edição do Cross da Serra do Açor tal o temporal que apanhamos naquela prova que ficou para a historia do que hoje se chama de Trail! Agora tendo começado a correr em 1980 guardo alguma papelada de provas e muitos diplomas que é coisa que já quase não existe. Tenho coisas históricas com o sino da primeira Corrida dos Sinos. Uma foto da minha chega na primeira edição da Corrida do Tejo por exemplo. Medalhas de participação também tenho mas pouco significado têm para mim com excepção da placa e medalhão que ganhei nas 12 horas de Vila Real de Santo António em 1987 onde fiquei em 5 lugar e corri 101,650 km. Beijinho grande.

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    1. Tirando as tshirts, sou pouco dada a guardar coisas. Não ligo muito a medalhas e, ao início, ainda guardava os dorsais, mas agora já não. Só mesmo um ou outro prémio mais especial.
      Ficam as histórias! :)
      Engraçado, ainda me lembro de receber um ou outro diploma. O último acho que foi na Corrida do Avante, 2013, se não me engano! :)
      Beijinhos grandes

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  11. Haha, eu tenho uma gaveta. Nas primeiras provas andava tão entusiasmada que escrevia no dorsal a data, o tempo, a distância e o lugar no ranking :P Ainda tenho para lá algumas t-shirts, mas outras são uns pijamas muito confortáveis :P Não corro com elas porque a organização das corridas que vou é sempre forreta, então a maior parte das que tenho é de algodão. E todos sabemos o quão horrível é correr com t-shirts de algodão :)
    À conta desta 'divinização de roupa' eu adoro quando as provas dão coisas diferentes, tipo paninhos para pôr na cabeça ou assim. Uma quebra de um hábito tão enraizado é a loucura :P

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    1. O que eu gosto mesmo é de coisas úteis, que tenham uso. Já medalhas, por exemplo, não ligo, apesar de haver muita gente que as prefere.
      A melhor oferta que recebi numa prova foi um copo desdobrável para beber água nas provas de trilhos, já o usei várias vezes! As tshirts acabam por ter quase sempre uso posterior também, nos treinos ou para dormir!

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  12. Ups agora lembraste-me... tenho 234.570 tshirts técnicas para doar.

    Espera, não servem de consumível para a lareira? Não?

    volto cá amanhã para ler o resto...

    Bjn

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    1. Andaste desaparecido da blogosfera. Andas atrás de mais t-shirts para posteriormente doares? ;)
      Bjs

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