23 de abril de 2017

22ª edição Corrida Terry Fox

"The answer is to try and help others."
Terry Fox


No dia 12 de Abril de 1980, o jovem canadiano Terry Fox deu início àquela que iria ficar conhecida por Maratona da Esperança. A ideia era atravessar o Canadá de uma ponta à outra, correndo todos os dias, como forma de angariar fundos para a investigação do cancro, doença da qual sofria. Infelizmente, Fox acabou por morrer antes de concluir o projecto. No entanto, 36 anos depois da sua morte, milhares de pessoas por todo o mundo ainda se juntam nas provas que têm o seu nome, para poderem continuar a correr os quilómetros que ele iniciou.

Nos últimos anos não tenho podido marcar presença nesta prova por coincidir com outros objectivos, mas este ano estava livre e não pude deixar de ir dar o meu contributo. A inscrição na prova são €10, o que pode ser considerado caro para uma distância de 10 km, mas o valor reverte na íntegra para a investigação em oncologia, logo é muito bem empregue. Este ano, entre participações e donativos, conseguiu-se atingir a quantia de €30.000, que servirá para financiar duas bolsas de investigação.

Continuo a achar que esta é uma prova muito pouco divulgada. Estiveram presentes quase 1500 pessoas, entre corrida e caminhada, mas mesmo assim deviam ser mais. Além disso, e apesar de continuar a ser uma prova não competitiva, ou seja, não há classificações, agora tem um percurso definido de 10 km (ao contrário do último ano em que participei, em que cada um fazia as voltas que queria numa circular), portanto serve também para testar os tempos na distância.

Local da prova.

Quanto à minha prova, bom, primeiro tenho de dizer que - e tive de ir confirmar! - a última vez que tinha participado numa prova de 10 km tinha sido em... 2013!!! Mais propriamente, esta. Portanto, vou já fazer o relato da mesma, apesar de ter outras crónicas de provas em atraso, porque são "só" dez mil metros e despacha-se num instantinho. :)

Um das coisas a que já não estava habituada era à Partida. E aí, a diferença para os trails, em especial para as ultras, é marcante. Enquanto no início de um ultra trail uma pessoa passa a linha da partida e provavelmente ainda vai ali a andar, a ajustar a mochila ou a mastigar uma barrinha, dá beijinho na mulher ou filhos que ficaram a assistir, pára para uma foto de última hora abraçado ao colega, manda uma piadola para alguém conhecido do público, etc... Numa prova de 10 km começa-se, vejam bem... a CORRER! Mal soa a partida, desata tudo numa correria desenfreada como se tivessem acabado de anunciar saldos de 90% em calçado desportivo na loja da esquina.
"Quem soltou os cavalos?!!" - pensei eu. Já não estava habituada a isto e dei por mim embalada pelo pelotão. Quando olhei para o relógio e vi o ritmo/km até tive palpitações. O meu gps já não estava habituado a registar aqueles tempos, até transpirava, coitadinho! "Eláaa, tem lá calma contigo, que não tens treinado para isto." Então, optei por não olhar mais para o relógio e fazer a prova conforme as sensações.

O percurso não era nada que eu já não conhecesse de inúmeros treinos. Partimos junto à pala do Pavilhão de Portugal, seguimos para a esquerda na direcção do rio Trancão (4 km), onde fazemos o regresso, continuamos até à Marina do Parque das Nações (8,5 km) e depois é só regressar novamente até ao Pavilhão de Portugal, através do Oceanário. Fui sempre confortável e a sentir-me bem, tentando puxar um pouco nos últimos 3 km, para ver se quebrava. Quase quebrei junto à placa do km 9 que, curiosamente, estava localizada no exacto sítio onde dei uma queda espalhafatosa há dois anos. Mas, ali tão perto da meta, que se lixe, "agora é aguentar"! E lá se fez, com os últimos 400 metros sempre a direito, bem bons para alargar a passada e ficar bem na fotografia. Quem assiste à chegada, de certeza que nem desconfia nada que aquele não é o nosso ritmo natural. :)

Fiz os 10 km confortavelmente em 57:58, o que considerei muito bom, tendo em conta que, como disse, não participo em provas de 10 km DESDE 2013!!! (A sério, como o tempo passa...)

"CORRER É VIVER"

Nesta prova, vem-me sempre à memória aquele homem estrangeiro que, em 2012, e vendo tanta gente com as t-shirts da corrida, me veio perguntar que evento era aquele. Ele próprio estava a enfrentar um cancro na altura, e os slogans chamaram-lhe a atenção. (Falo desta história na crónica desse ano.) Não sei o que será feito dele. Infelizmente, e devido à gravidade do prognóstico, nem sei se ainda estará vivo, mas nunca me irei esquecer do seu "thank you" emocionado...

Embora, confesse, nem sempre tenha muita fé na humanidade, "the answer is to try and help others". Qualquer ajuda, por pouca que seja, vale muito para quem precisa.

T-shirt 22ª edição.

20 de abril de 2017

Olá, há quanto tempo! Como estão?

- "Então e, entretanto, posso continuar a correr?".

Aparentemente, esta é a primeira pergunta que se faz quando vamos ao médico e saímos de lá com a descoberta de alguma maleita. Neste caso, uma anemia ligeira. 11g/dL de hemoglobina, quando os valores normais para uma mulher se encontram entre os 12 e os 16g/dL. A médica disse que, como corro, pode acontecer este tipo de situação. Teríamos de confirmar a causa e depois tornar a fazer novo teste. Foi então que surgiu a minha questão. A resposta:

- "Bom, se calhar, entretanto é melhor ir com calma."

Nesse fim-de-semana estava inscrita para a ultra de Vila de Rei... Womp womp...

Como já estava tudo marcado acabei por ir na mesma (#sensatez #not), MAS fiquei-me pela distância mais curta (#domalomenos). Ou seja, fui na mesma, mas na ideia de ir fazer apenas 23 km, em ritmo de passeio. Claro que o Território de Vila de Rei não é nenhum passeio, independentemente da distância, mas sempre foi melhor do que ir desgastar-me durante um dia inteiro. Na altura tive perfeita noção de que conseguia terminar a ultra, se fosse necessário, mas a que custo? Ainda assim, andei (foco na palavra "andar") por lá quase 4 horas, mas o que me deixou tempo suficiente para ver chegar os primeiros classificados (esta prova fazia parte do Campeonato Nacional de Ultra Trail e apurava directamente os dois primeiros classificados - masculino e feminino - para representar a selecção no Mundial de Trail a realizar-se em Itália) e fazer de claque ao restante pelotão, coisa de que gosto muito.

Trilho das Cascatas - Vila de Rei.

Março acabou por ser, forçosamente, muito parco em exercício. Fiz sobretudo caminhadas e um ou outro passeio de bicicleta. Passado um mês, alguns exames e alterações alimentares depois, tornei a fazer o teste sanguíneo e os valores já se enquadravam nos considerados normais. Agora terei nova consulta de controlo daqui a três meses.

Caminhadas.

Em Abril regressei gradualmente aos treinos e até cheguei a participar num trail (curto!), o Cork Trail. Apesar da preocupação e do óbvio retrocesso, regressei com muito mais vontade. Confesso que, de certo modo, fiquei aliviada por saber que o cansaço que sentia desde há uns meses não era apenas preguiça e ronha, tinha uma explicação médica. Apesar de ter noção dos meus limites como atleta, estranhava o facto de o "regresso à forma" estar a ser mais demorado do que o normal e alastrar-se ao desânimo que até me tirava a vontade de vir para aqui escrever sobre as minhas aventuras.

Cork Trail.

Neste momento já noto um aumento de energia e, tal como disse, isso reflecte-se na minha vontade para treinar. Nestes dois últimos meses nunca cheguei a estar afastada dos trilhos (quando não se pode correr, caminha-se) mas comecei a sentir falta de puxar um bocadinho mais por mim. Eu, que nem gosto de treinar, só de correr conforme me apetece, imaginem! Além disso, tenho tomado mais atenção à minha nutrição que, confesso, era coisa a que nunca liguei muito. Como sempre gostei de comer e nunca tive falta de apetite, não me preocupava. Não faz o meu género contar calorias e analisar minuciosamente a tabela nutricional dos alimentos, mas vou passar a tomar mais atenção ao que como, sobretudo durante e após o exercício (a minha maior lacuna).

Óbvio que tudo isto me fez reavaliar os meus objectivos próximos, mas depois falarei sobre isso. Entretanto, vou aproveitar esta nova vaga de energia para terminar a crónica de Vila de Rei que ficou pela metade há mais de um mês e escrever a do Cork Trail. Este blogue é o meu diário de corridas, não pode ficar incompleto! Como é que me vou lembrar das provas que fiz, quando for velhinha? :)

Ah, e gostei de vos ver. ;) Já tinha saudades.

9 de março de 2017

Playlist #8 - Os podcasts

Toda a gente tem a sua playlist de corrida (também já partilhei por aqui algumas das minhas). Há mesmo pessoas que não saem para correr sem os seus auriculares. Eu não tenho por hábito ouvir música nas provas ou treinos longos em trilhos mas, confesso, se me esquecer dos auriculares nas corridas durante a semana, sinto-lhes a falta.
No entanto, desde há uns meses que tenho trocado quase sempre a música pelos podcasts. Começou quando voltei aos treinos mais regulares que, obviamente, me custaram um bocadinho. Ouvir um podcast, sobretudo quando o tema me interessava especialmente, distraía-me e ajudava a passar o tempo. Depois tornou-se um pequeno vício. Agora adoro sair para correr, ao mesmo tempo que me ponho a par de mais alguma notícia, uma nova história, dicas ou entrevistas. E reservo a música para aqueles treinos em que me apetece ir "em modo alfa", sem pensar em nada.

Comecei, sobretudo, por podcasts de corrida. Que maior motivação para aguentar um treino difícil do que ouvir algum atleta falar da sua maratona, ou de como começou a correr, ou de quando vomitou diversas vezes dos 78 aos 114 km de uma ultra, ou dos abastecimentos, das lesões, dos truques mentais para ultrapassar as fases más, como manter a motivação, etc, etc.

Uma fotografia do pôr-do-sol, só para quebrar o texto,
sem qualquer ligação ao tema.
Embora seja possível que tenha sido tirada durante um treino.

Como podem adivinhar, existem dezenas e dezenas de sites com podcasts dedicados a este tema. Entre outros, ouvi muitos do No Meat Athlete, que aborda de tudo um pouco, desde nutrição, a métodos de treino e experiências pessoais. Gostei especialmente de ouvir os relatos, na primeira pessoa, de como foi completar a primeira maratona ou, até mesmo, a primeira prova de 100 milhas. São sobretudo conversas informais entre dois amigos, atletas de pelotão, embora por vezes também tenham convidados profissionais.
O podcast Run Faster também é uma boa fonte para quem procura dicas de treinos e recuperação, e abordagem a diferentes métodos, com relatos por parte de profissionais e treinadores ou apaixonados da corrida em geral.
Mais orientado para o ultrarunning, com entrevistas a atletas de elite, como Kilian Jornet, Amy Frost, Anton Krupicka, entre muitos outros, temos o Talk Ultra. Há algumas entrevistas muito engraçadas e outras que se tornam um pouco mais aborrecidas, depende muito da oratória do convidado, mas gosto de ouvir os relatos das suas competições e de como também sofrem e praguejam como nós, os comuns de pelotão. :)
Por falar em entrevistas, já ouviram a experiência do Zach Miller no MIUT 2016, contada ao The Ginger Runner? Está disponível em vídeo no youtube, mas, se tiverem o iTunes, podem ouvi-la aqui (nº 42, ep. 114). Spoiler: diz que foi a corrida mais dura em que participou e conta também como toda a gente ficou impressionada com a sua técnica de enfardamento nos abastecimentos.
A nível nacional, gosto de ouvir as emissões da TSF Runners, embora, sendo episódios curtos, não dêem para a duração de um treino, a não ser que acumulem pelo menos uns três seguidos.

A maioria destes podcasts que referi tem entre 45 a 60 minutos, duração ideal para um treininho durante a semana. Além disso, são gratuitos, podendo fazer-se o download ou ouvir através de uma aplicação no telemóvel.

Ultimamente, e porque, às vezes, correr E ouvir falar de corrida ao mesmo tempo pode ser demasiado, comecei a ouvir podcasts mais generalistas. Há uns meses, depois de ver o documentário Making a Murderer e ficar fascinada e indignada com aquilo, andei numa fase de podcasts policiais. A maioria sobre crimes que nunca ficaram devidamente resolvidos. E tenho a dizer-vos que: primeiro, passei ao lado de uma grande carreira na polícia judiciária e, segundo, se calhar não foi boa ideia ouvir temáticas deste conteúdo enquanto fazia os meus treinos ao final do dia, já de noite.

Ouvir um podcast exige algum nível de atenção que a música dispensa, portanto talvez não seja a melhor opção para um dia que tenham um treino de séries, por exemplo, mas serve muito bem para aqueles treinos mais levezinhos, de recuperação, ou até de ritmo. A não ser que estejam a ouvir um relato sobre um crime e, nesse caso, é perfeito para um treino de fartlek, já que vão acelerar até baterem a vossa FC máxima sempre que ouvirem um ruído ou virem uma sombra suspeita.

Algum de vocês é fã de podcasts? Alguma recomendação? Uma série ou um episódio/entrevista de que tenham gostado especialmente?

6 de março de 2017

TCC - Vila Velha de Ródão

(E: a primeira vez que vi a Analice.)

Depois de um interregno de 7 meses, voltei às ultras. Uma ultra das "curtas" - 45 km - mas, ainda assim, uma ultra.
Regressei, pela terceira vez, a Vila Velha de Ródão. Não sei bem explicar porquê, mas esta prova caiu-me no goto, passe a expressão. Provavelmente por se situar já na transição para a Beira Interior e ter uma paisagem na qual reconheço traços da minha Serra da Estrela e, portanto, transmitir-me uma familiaridade e conforto que associo a lar. Há provas às quais se volta porque são bonitas, outras a que se volta porque são difíceis, e outras a que se volta porque nos sentimos em casa. Sei que há quem não goste de repetir provas, por haver tanto para conhecer e tão pouco tempo, e eu até entendo essa perspectiva, mas, por outro lado, há sempre coisas novas que se descobrem nos sítios do costume, basta ter os olhos e o espírito abertos.


Neste caso, a organização até dá uma ajudinha: o percurso nunca é exactamente o mesmo. Este ano, por exemplo, foi mais ou menos a repetição do percurso de 2016, mas na direcção contrária, o que altera logo toda a perspectiva.
Pessoalmente, preferi esta versão, pois passamos perto da zona industrial logo de início, deixando para trás a fábrica de celulose, com as suas grandes chaminés que mantêm Vila Velha de Ródão debaixo de uma nuvem de fumo branco permanente. Esta fábrica, ainda que importante para o desenvolvimento da região, já que é criadora de muitos empregos e, consequentemente, evita a desertificação a que estão condenadas muitas terras do interior, não deixa de ser uma feia chaga numa, de outra forma, lindíssima paisagem.

Ainda dá para ver o fumo da fábrica, ao fundo.

Ao longo da prova, será piada privada recorrente o cheiro característico do fumo, que deixa adivinhar a proximidade de Vila Velha de Ródão, quando o vento está a favor, mesmo que não a vejamos no horizonte.


Mas este é apenas um pequeno pormenor que não estraga a beleza da prova. Rapidamente deixamos a vila para trás, percorrendo trilhos e estradões na direcção de aldeias e povoações como Tostão, Foz do Cobrão, Vilas Ruivas...

Depois de dois relatos sobre esta prova já não há muito a dizer, excepto reforçar aquele que é, para mim, o ponto alto de todo o percurso: o trajecto junto ao rio Ocreza.


É a parte mais técnica e perigosa, mas também, sem dúvida, a mais bonita. Descemos até à margem do rio,



percorremos a sua berma de terreno fofo, mas irregular,


e depois tornamos novamente a subir,

Portas do Almourão.

através de um trilho rochoso e de grande declive, com auxílio de cordas.



Este percurso pedestre, e a aldeia da Foz do Cobrão, foram um daqueles achados feitos devido ao trail, e que muito agradeço.



Depois, na segunda metade da prova é quando se ganha mais desnível, embora já através de estradões e trilhos mais corríveis.

Portas de Ródão.

Terminando com a icónica passagem pelas Portas de Ródão e a temível e pedregosa subida à Torre do Rei Wamba, bastante insultada por quem já vai com mais de 40 km nas pernas. :)


Mas é nos pontos mais altos que se tem a recompensa das melhores vistas, certo?

Vila Velha de Ródão, e o seu fumo branco, ao fundo.

Torre do Rei Wamba.

Quanto à minha prova, depois de uma prestação feliz em 2015 e não tão feliz em 2016, desta vez tive uma prestação serena. Não esteve isenta de dificuldades, sobretudo de quem está a regressar aos poucos à "forma", mas soube gerir relativamente bem as actuais capacidades. Comecei cá detrás, como de costume, com as primeiras subidas a custarem-me bastante, chegando inclusive a estar em último durante alguns quilómetros, mas depois a recuperar aos poucos ao longo da segunda metade da prova. O característico funcionamento a diesel mantém-se au point. :)

Curiosamente, levei 7h20 a completar a prova, menos 2 minutos que o ano passado e menos 6 que em 2015. Não sendo os percursos exactamente iguais, é difícil fazer uma avaliação, embora a distância seja sempre a mesma. O que é engraçado é que, independentemente de ter achado que a prova correu bem, mal, ou assim-assim, a prestação tem sido constante. Acho que tem muito a ver com o espírito com que estamos no dia, que pode ajudar ou prejudicar a ideia com que ficamos da prova.

Já do "lado de cá" das Portas de Ródão, a 2 km da Meta.

E agora Vila Velha de Ródão ficará também para sempre na minha memória por ter sido a primeira prova em que vi a Analice. Bom, já a tinha visto de passagem, na partida de outras provas, e sabia que era a senhora "que se fartava de correr", mas nunca tinha falado com ela. Foi aqui, em 2015, que a alcancei por volta dos 18 km e seguimos juntas durante algum tempo. Não foi muito, mas o suficiente para ouvir algumas das suas fascinantes histórias que sempre tinha para partilhar. Sei que, passado alguns minutos, segui, ficando a Analice para trás. Confesso que na altura fiquei admirada e, até, um pouco vaidosa, porque ia ficar à frente da Analice! A Senhora Analice! Quer dizer... Como se, pelo facto de ter menos de metade da idade dela, não fosse portanto uma situação natural de acontecer. Mas o facto é que deixou uma marca. O Antes e Depois de Analice, por assim dizer. Dali para a frente, continuei a encontrá-la e alcançá-la em provas, e, em quase todas, ela tinha umas palavras ou, pelo menos, um sorriso para partilhar.
Na altura, não sabia nada do passado dela. Que tinha ganho várias provas, batido recordes. Sabia apenas que era a senhora pequenina que corria que se fartava e estava sempre sorridente.

Hoje em dia toda a gente tem uma opinião sobre quem é ou não atleta, sobre quem compete, quem vai "passear", sobre quem, inclusive, imagine-se, deve ou não participar em provas... Porque: "provas são para competir". É verdade, concordo, é um facto. Os atletas de pódio (e restante liga da frente) são importantes, tanto para a divulgação da modalidade como para a representação internacional. Importantíssimos. Mas depois há todos os outros "campeonatos" de quem participa numa prova, e acho que todos convivem pacificamente e não se atrapalham. Quem compete para ficar à frente daquele amigo que o está sempre a picar, quem compete para ficar à frente do outro que da última vez o passou a 1 km da Meta, quem compete para melhorar o seu tempo do ano anterior, quem compete para chegar dentro do tempo limite da melhor maneira possível... São todas competições ajustadas à realidade de cada um.
E refiro isto porque, como disse, eu não sabia do passado da Analice, não fazia ideia das provas e prémios que já tinha ganho, mas isso não me fez mudar a opinião que tinha sobre ela. Mesmo que nunca tivesse ganho nada, a memória que me fica dela é a de alguém que era feliz a correr. Aspirações competitivas à parte, a verdade é que quem não tiver paixão por aquilo que faz, não vai andar por aqui (na corrida, no trail) muito tempo.

Como disse uma Senhora do trail (outra) por quem passei na prova deste ano: "há tanta gente que quer aqui andar e não pode..." E essa é que é essa. Nós podemos. Aproveitemos então, tudo. Este escape, esta paixão. As alturas boas e as alturas em que vamos ali a maldizer a nossa vida (porque também as há em quase todas as provas, e fazem parte).

A Analice correu, com gosto, até quase aos últimos meses da sua vida. E isso, para mim, é o mais fantástico. O derradeiro sonho.

22 de fevereiro de 2017

Por trilhos de Montejunto

Antes de avançar para os treinos e provas de Fevereiro, não queria deixar em branco um treino especial que houve ainda em Janeiro. E digo "especial", porque voltei a um local onde não tinha sido muito feliz e enfrentei os fantasmas.


Como sabem, a minha última (e também primeira) visita à Serra de Montejunto não tinha corrido muito bem. Não por culpa do local, que é bem bonito, mas por coisas que, pronto, vocês sabem que por vezes acontecem em provas. Bati num muro monumental, rebentei, levei uma marretada... Basicamente, faleci. Sim, foi isso que aconteceu. :) E, na altura, sendo a última prova antes do OMD, foi um grande abalo na minha confiança.
Mas bom, não podia deixar que as últimas memórias de tal local fossem essas, não é verdade? 


Então, e apesar de Montejunto não ter sido a primeira opção, numa manhã fria, mas limpa, de Inverno, voltei ao local "do crime" para salvar a honra da casa.
Como, tirando o percurso da prova, não conhecia os trilhos daquela serra, deixou-se o carro junto ao Quartel da Força Aérea e tentámos recriar algumas partes do trajecto.



O dia estava ventoso e a serra é bastante exposta, valha-nos os tubos/buffs de oferta em várias provas: um para proteger as orelhas e outro para proteger o pescoço, e siga.


Logo à primeira vista, Montejunto tem uma vantagem em relação a Sintra, local habitual dos meus longos: tem maior altitude. 660 metros no seu topo. Claro que o ganho de acumulado não depende apenas disso mas QUERIAS TREINAR SUBIDAS, NÃO QUERIAS?! Agora toma! Pelo menos aqui não conheço o caminho que me espera e vou na inocência, o que às vezes ajuda.


Continuo tão fraquinha, tão fraquinha nas subidas... Mas bom, isso são histórias para outro dia. No entanto, de falta de boa-vontade não me podem acusar. :) 


Os trilhos de Montejunto são bastante pedregosos, mas de vez em quando lá se seguia um estradão, para variar. Um desses estradões, levou-nos até à Torre de Vigia.



Nesse sítio, junto ao marco geodésico, tem-se um belo miradouro natural.




Sem track e sem grandes conhecimentos dos trilhos, acabámos por nos guiar maioritariamente por algumas marcações e percursos definidos


mas, também, por fitas, algumas já visivelmente gastas do tempo e outras recentes, deixadas por anteriores provas!!! A sério, havia imensas...


Será que não recolhem as marcações a seguir aos eventos? É que eram demasiadas para ser só uma ou outra esquecida por lapso. Uma serra tristemente cheia de retalhos.

Montejunto é, assim, uma outra opção para os treinos em serra, embora não tão acessível como Sintra. Não dá para ir tantas vezes. Porém, foi bom voltar a Montejunto. Numa época do ano diferente, num outro clima, embora desafiante de maneira diferente. Não se pode dizer que tenha sido um treino fácil, mas o objectivo de somar desnível foi atingido. E o trauma antigo também foi superado. :)

Treinos por locais diferentes acabam por ser uma alternativa nos meses sem provas, como foi o caso. Uma forma de dar a volta à rotina dos treinos, por assim dizer.

Boas corridas!

6 de fevereiro de 2017

Janeiro

Em Janeiro não houve provas, mas houve treinos pelos locais do costume e outros.








Também não houve muitos quilómetros (penso que não chegaram a 150 km), mas houve o regresso a um regime de treinos mais regular. Cerca de três treinos durante a semana e um mais longuinho durante o fim-de-semana.

Os "longos" de fim-de-semana não foram assim tão longos. Andaram sempre pelas 2h30 de treino, o que, em trilhos, como vocês sabem, pode não se traduzir em grande quilometragem, ou ser até muito pouca, se o desnível e tecnicidade forem grandes. No entanto, a ideia era reconquistar alguma consistência.

As primeiras semanas foram complicadas porque o corpo estava acostumado à manha e não havia meios de se adaptar ao novo regime mais activo. Revoltava-se mesmo! Havia dias em que era pernas pesadas do início ao fim e uma forma horrível a correr (ainda mais que o normal): toda descompassada, encurvada, os braços a baloiçar à frente do tronco... Era quase como se estivesse a aprender a correr de novo.

Frase motivacional encontrada num dos habituais locais de treino. :)

Apesar de tudo, os treinos semanais, em estrada, foram-se fazendo. Onde noto que perdi mesmo MUITA forma foi nas subidas (daí os longos de fim-de-semana, em trilhos, não serem assim tãooo longos). Qualquer elevação as pernas queixam-se, o rabo queixa-se, as costas queixam-se... E eu calada, porque preciso de respirar todo o ar possível e se falar caio para o lado.

Bom, nada que umas quantas visitas às escadas da Praia Grande não ajudem.


Neste dia em específico foram 3x350 degraus, falésia acima e falésia abaixo (e acho que não deve haver um degrau de igual tamanho naquela escadaria, xiça!). Efeitos secundários: 3 dias com dores nos gémeos. Toma lá! O que vale é que a paisagem é bonita...


E assim tem sido. A parte psicológica de quem "já fez" e "sabe que consegue" ajuda muito nos dias de treino mais difíceis, embora a lenta progressão seja, por vezes. desmotivante. Para Fevereiro esperam-se mais quilómetros. Venham eles!

17 de janeiro de 2017

Alenquer Xmas Trail

Ou: o Regresso dos Mortos-Vivos.

Não sei se se recordam mas, corria o ano de 2015, fui acometida de uma qualquer virose apocalíptica que me deixou em modo zombie durante a totalidade do Caldas Ultra Trail. Na altura até estava em forma e a treinar decentemente, portanto foi daquelas coisas que não têm explicação. Digamos que é qualquer coisa que anda no ar e, de vez em quando, entra no corpo de um atleta incauto e suga-lhe toda a energia. No dia seguinte já está tudo bem, como aqueles vírus de 24 horas, e uma pessoa esquece-se.

Desta vez, não foi isso que aconteceu. Desta vez, eu sabia perfeitamente que não estava com treino em condições. Nem sequer tenho a desculpa de ter sido ingénua. NÃO! Eu sabia ao que ia. Eu PEDI que isso acontecesse. Na minha ideia, a única maneira eficaz de me tirar do marasmo de treinos em que me encontrava era inscrever-me numa prova e SOFRER. Ir lá, arrastar-me, ser passada por todos e ainda uma tartaruga e um caracol, em suma: ser HUMILHADA. Era assim que eu ia recuperar a vontade de treinar: ferindo o meu orgulho. (Na altura isto fazia todo o sentido na minha cabeça, não gozem...)

Como é que se diz? "Be careful what you wish for"? Pois...

Árvore de Natal.

Local da Partida.

Na Partida.

Da prova propriamente dita já não tenho grandes memórias. Sei que ao fim de 2 km a correr, em estrada, plana, já ia completamente esbaforida. Depois, entramos nos trilhos e começamos a subir e fiquei ainda pior. Estava difícil estabilizar a respiração e os meus gémeos pareciam dois tijolos.
Aos 4 km disse que quando chegasse ao primeiro abastecimento (aos 8 km) ficava por lá. Entretanto, cheguei, bebi água, recuperei a respiração e achei que podia continuar mais um bocadinho.
Aos 10 km já estava arrependida.

Em Alenquer não há montanhas, mas eles sabem aproveitar as encostas que têm. Sobe. Desce. Sobe. Desce. E a distância de um local a outro, que em linha recta não ultrapassaria os 600 metros, facilmente se transforma em 2 ou 3 km. E sobe. E desce. E sobe. E desce. É isto que é o trail, querias o quê?!
Arrasto os pés, as pernas, o rabo. Alguém que me salve desta montanha-russa infernal! Não estou com disposição para aquilo. "Mil vezes fazer outra Maratona de estrada. MIL VEZES!"

Um pouco à frente apanho um casal cuja mulher vai tão ou mais cansada do que eu. O marido dá-lhe ordens de comando - "Levanta os joelhos!", "Anda, força!" - intercaladas com piadas, numa tentativa de a distrair. Ela nem lhe responde.
Acho piada, porque me revejo. E, sobretudo, acho piada porque não é comigo! Quando ele lhe diz: "Vá que aqui é a direito, dá para correr", e ela lhe rosna qualquer coisa incompreensível como resposta, não consigo evitar um sorriso... Compreendo-a tão bem! É que, nestas alturas, em teoria, sim, é possível correr. Mas, na prática, só nós é que sabemos o estado em que vamos.
Fica aqui o agradecimento a este casal, pois acabei por ir no seu reboque durante uns quilómetros, distraída com outras lutas que não a minha.

Antes do segundo (e último) abastecimento ainda houve um novo controlo de passagem. Houve vários ao longo da prova, cujo percurso carrossel facilitava "atalhos". Também pessoal da cruz vermelha, muitos, perdi-lhes a conta, ao fundo das descidas mais perigosas ou zonas mais escorregadias. Organização humana excelente nesta prova. Felizmente, não precisarei dos seus cuidados, porque a minha lesão era outra, mas foi bom saber que estavam lá. Arrasto-me, mas isso não me vale uma viagem de maca. Quando muito, um colete de forças, por achar que este tratamento de choque era mesmo "o que estava a precisar" para regressar em força...
Escuteiros gritam incentivos no início de mais uma subida e eu só me apetece ofendê-los. Sim, gritei impropérios (dentro da minha cabeça) A ESCUTEIROS! Estou mesmo mal. Mas, em minha defesa, neste momento pouco mais sou que uma zombie. E tantos fotógrafos que havia nesta prova... (In)Felizmente não encontrei nenhuma fotografia minha, mas aposto que estou a sorrir nelas todas, por reflexo, mas, se olharem bem para os meus olhos, a alma estava vazia (assim como as minhas forças).

Olha, afinal sempre encontrei uma foto minha!
Acho que até estou favorecida. :)

Depois do último PAC tenho um breve ressurgimento da energia, mas foi coisa breve, como o último suspiro antes de falecer. Tornamos a subir, pela última vez, esperava eu, mas parecia nunca mais acabar. Quando achava que estávamos quase no topo surgia uma nova encosta, um novo marco ao qual escalar. "Pensavas que estava a acabar, não era? AH AH!" (Ler o último "ahah" com a entoação de gozo do Nelson dos Simpsons).

Quando vi a placa a anunciar que faltava apenas um quilómetro, em vez de festejar só pensei "Oh, não! Aindaaaa?". Nem tirei uma selfie, nem admirei convenientemente o icónico presépio de Alenquer, que daquele local era visível na outra encosta.

Retirado do site da C.M. de Alenquer.

"Não é para isto que corro, não estou a desfrutar nada, nada", é este o pensamento que me assola a poucos metros da Meta. Mas bom, querias sofrer para acordar, e foi isso que tiveste. "Be careful what you wish for..." Pois.

"Xiça, que já houve ultras em que sofri menos!" Felizmente, na chegada tinham Licor Beirão para afogar as mágoas (para que mais haveria de ser? :)). Fiz um brinde e emborquei um shot com o Artur, que, coitado, foi a testemunha silenciosa deste meu arrastar ao longo de 22 km. Mas, atenção, 22 km com 1050 metros de D+! Isso salva um bocadinho o meu orgulho! Não? Ok...

Conclusão: o Alenquer Xmas Trail é uma boa prova, bastante bem organizada, nada a apontar em termos de abastecimentos, meios de apoio (excelente), controlos de passagem ou sinalização - das melhores que já vi em provas, acompanhada sempre de placas com piadas ou a chamar a atenção para alguma coisa.
Para além da t-shirt e da medalha de finisher, no saco de lembranças tínhamos, entre outras coisas, ovos de codorniz! Não sei se é típico da região, mas era algo que nunca tinha comido, e achei piada. Como sabem, não ligo muito a medalhas, por isso gosto de brindes úteis ou originais. Este ganhou pela originalidade!
Além disso, em Alenquer sabem aproveitar o terreno que têm. Não há montanha mas há montes, encostas, quintas, muralhas, trilhos. Uns bons quilómetros da prova foram feitos em trilhos de BTT, num campo verdejante de sobe e desce que, em qualquer outra altura, seria encarado como um parque de diversões mas que, desta vez, obviamente, não aproveitei como deveria.
Em suma, esta é uma prova que merece uma nova oportunidade, com outras pernas e espírito, mas que, desta vez, me deu exactamente aquilo que eu procurava: porrada.