17 de janeiro de 2017

Alenquer Xmas Trail

Ou: o Regresso dos Mortos-Vivos.

Não sei se se recordam mas, corria o ano de 2015, fui acometida de uma qualquer virose apocalíptica que me deixou em modo zombie durante a totalidade do Caldas Ultra Trail. Na altura até estava em forma e a treinar decentemente, portanto foi daquelas coisas que não têm explicação. Digamos que é qualquer coisa que anda no ar e, de vez em quando, entra no corpo de um atleta incauto e suga-lhe toda a energia. No dia seguinte já está tudo bem, como aqueles vírus de 24 horas, e uma pessoa esquece-se.

Desta vez, não foi isso que aconteceu. Desta vez, eu sabia perfeitamente que não estava com treino em condições. Nem sequer tenho a desculpa de ter sido ingénua. NÃO! Eu sabia ao que ia. Eu PEDI que isso acontecesse. Na minha ideia, a única maneira eficaz de me tirar do marasmo de treinos em que me encontrava era inscrever-me numa prova e SOFRER. Ir lá, arrastar-me, ser passada por todos e ainda uma tartaruga e um caracol, em suma: ser HUMILHADA. Era assim que eu ia recuperar a vontade de treinar: ferindo o meu orgulho. (Na altura isto fazia todo o sentido na minha cabeça, não gozem...)

Como é que se diz? "Be careful what you wish for"? Pois...

Árvore de Natal.

Local da Partida.

Na Partida.

Da prova propriamente dita já não tenho grandes memórias. Sei que ao fim de 2 km a correr, em estrada, plana, já ia completamente esbaforida. Depois, entramos nos trilhos e começamos a subir e fiquei ainda pior. Estava difícil estabilizar a respiração e os meus gémeos pareciam dois tijolos.
Aos 4 km disse que quando chegasse ao primeiro abastecimento (aos 8 km) ficava por lá. Entretanto, cheguei, bebi água, recuperei a respiração e achei que podia continuar mais um bocadinho.
Aos 10 km já estava arrependida.

Em Alenquer não há montanhas, mas eles sabem aproveitar as encostas que têm. Sobe. Desce. Sobe. Desce. E a distância de um local a outro, que em linha recta não ultrapassaria os 600 metros, facilmente se transforma em 2 ou 3 km. E sobe. E desce. E sobe. E desce. É isto que é o trail, querias o quê?!
Arrasto os pés, as pernas, o rabo. Alguém que me salve desta montanha-russa infernal! Não estou com disposição para aquilo. "Mil vezes fazer outra Maratona de estrada. MIL VEZES!"

Um pouco à frente apanho um casal cuja mulher vai tão ou mais cansada do que eu. O marido dá-lhe ordens de comando - "Levanta os joelhos!", "Anda, força!" - intercaladas com piadas, numa tentativa de a distrair. Ela nem lhe responde.
Acho piada, porque me revejo. E, sobretudo, acho piada porque não é comigo! Quando ele lhe diz: "Vá que aqui é a direito, dá para correr", e ela lhe rosna qualquer coisa incompreensível como resposta, não consigo evitar um sorriso... Compreendo-a tão bem! É que, nestas alturas, em teoria, sim, é possível correr. Mas, na prática, só nós é que sabemos o estado em que vamos.
Fica aqui o agradecimento a este casal, pois acabei por ir no seu reboque durante uns quilómetros, distraída com outras lutas que não a minha.

Antes do segundo (e último) abastecimento ainda houve um novo controlo de passagem. Houve vários ao longo da prova, cujo percurso carrossel facilitava "atalhos". Também pessoal da cruz vermelha, muitos, perdi-lhes a conta, ao fundo das descidas mais perigosas ou zonas mais escorregadias. Organização humana excelente nesta prova. Felizmente, não precisarei dos seus cuidados, porque a minha lesão era outra, mas foi bom saber que estavam lá. Arrasto-me, mas isso não me vale uma viagem de maca. Quando muito, um colete de forças, por achar que este tratamento de choque era mesmo "o que estava a precisar" para regressar em força...
Escuteiros gritam incentivos no início de mais uma subida e eu só me apetece ofendê-los. Sim, gritei impropérios (dentro da minha cabeça) A ESCUTEIROS! Estou mesmo mal. Mas, em minha defesa, neste momento pouco mais sou que uma zombie. E tantos fotógrafos que havia nesta prova... (In)Felizmente não encontrei nenhuma fotografia minha, mas aposto que estou a sorrir nelas todas, por reflexo, mas, se olharem bem para os meus olhos, a alma estava vazia (assim como as minhas forças).

Olha, afinal sempre encontrei uma foto minha!
Acho que até estou favorecida. :)

Depois do último PAC tenho um breve ressurgimento da energia, mas foi coisa breve, como o último suspiro antes de falecer. Tornamos a subir, pela última vez, esperava eu, mas parecia nunca mais acabar. Quando achava que estávamos quase no topo surgia uma nova encosta, um novo marco ao qual escalar. "Pensavas que estava a acabar, não era? AH AH!" (Ler o último "ahah" com a entoação de gozo do Nelson dos Simpsons).

Quando vi a placa a anunciar que faltava apenas um quilómetro, em vez de festejar só pensei "Oh, não! Aindaaaa?". Nem tirei uma selfie, nem admirei convenientemente o icónico presépio de Alenquer, que daquele local era visível na outra encosta.

Retirado do site da C.M. de Alenquer.

"Não é para isto que corro, não estou a desfrutar nada, nada", é este o pensamento que me assola a poucos metros da Meta. Mas bom, querias sofrer para acordar, e foi isso que tiveste. "Be careful what you wish for..." Pois.

"Xiça, que já houve ultras em que sofri menos!" Felizmente, na chegada tinham Licor Beirão para afogar as mágoas (para que mais haveria de ser? :)). Fiz um brinde e emborquei um shot com o Artur, que, coitado, foi a testemunha silenciosa deste meu arrastar ao longo de 22 km. Mas, atenção, 22 km com 1050 metros de D+! Isso salva um bocadinho o meu orgulho! Não? Ok...

Conclusão: o Alenquer Xmas Trail é uma boa prova, bastante bem organizada, nada a apontar em termos de abastecimentos, meios de apoio (excelente), controlos de passagem ou sinalização - das melhores que já vi em provas, acompanhada sempre de placas com piadas ou a chamar a atenção para alguma coisa.
Para além da t-shirt e da medalha de finisher, no saco de lembranças tínhamos, entre outras coisas, ovos de codorniz! Não sei se é típico da região, mas era algo que nunca tinha comido, e achei piada. Como sabem, não ligo muito a medalhas, por isso gosto de brindes úteis ou originais. Este ganhou pela originalidade!
Além disso, em Alenquer sabem aproveitar o terreno que têm. Não há montanha mas há montes, encostas, quintas, muralhas, trilhos. Uns bons quilómetros da prova foram feitos em trilhos de BTT, num campo verdejante de sobe e desce que, em qualquer outra altura, seria encarado como um parque de diversões mas que, desta vez, obviamente, não aproveitei como deveria.
Em suma, esta é uma prova que merece uma nova oportunidade, com outras pernas e espírito, mas que, desta vez, me deu exactamente aquilo que eu procurava: porrada.

16 comentários:

  1. Ganda lol ... treinasses :) ... acabei por não perceber se essa terapia de choque fez efeito ou não, assim uns dias depois já deves saber :)
    Beijinhos

    1050m em 22km não é mau, mas 1600 em 30km é um bocadinho pior. Mas tens 3 meses e meio para treinar :P

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    1. Se treinasse tinha estragado o propósito da coisa! :P
      Agora já treino alguma coisita, não sei se estará inteiramente relacionado... :)
      Quanto ao resto, só tenho de correr tanto quanto o último, certo? ;)
      Beijinho

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  2. Não penses que sou sádico, longe disso, mas tive que me rir várias vezes ao longo do texto, não pelo teu sofrimento mas pela maneira cómica e sui generis (como é teu apanágio) como o descreves :)

    E a propósito da frase "mil vezes fazer um Maratona de estrada", olha que se a fosses fazer nesse estado... Eh eh eh
    Já há perspectivas para uma segunda? Olha que se sem preparação fizeste a primeira daquela maneira... :)

    Beijinhos e força!!!

    ps - Corrige uma pequena gralha no início do período do casal. Em vez de cuja tens suja o que pode dar outro entendimento :)

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    1. Quando estamos numa prova neste estado, qualquer outra prova nos parece muito melhor! Mesmo que depois fosse igual ou pior. :D
      Sabes, tenho pensado se deveria fazer da Maratona do Porto tradição... Mas vai depender se faço a "tal" prova grande ou não, que também é para o final do ano.
      Obrigada! :)
      Beijinhos

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    2. Sim! Sim! Sim! Venha a tradição!!! Olha que já estamos 4 da equipa inscritos (Isa, Vitor, Orlando e eu) e vamos ver se conseguirei convencer o Aurélio a aventurar-se. Contigo, seríamos 6, bela equipa!
      Sim... desta vez ias como 4 ao km e não PunkRock! :)

      Beijinhos e venha a tradição! Eu voto incondicionalmente!!!!

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    3. Vamos ver como se corre até lá... :)

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  3. "Treino difícil, combate fácil", já diz muita vez a minha colega de blog, a Fiona. Mas talvez com um combate dificultado com falta de treino, te seja mais fácil voltar a treinar :)

    Bjs

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    1. É verdade, e deve ser sempre esse o método! O meu método não aconselho... :P
      Beijinhos

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  4. Tough love.
    São gostos.
    Resultou?
    beijinhos

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    1. São parvoíces! ;)
      Bom, voltei aos treinos, mas não foi logo! :)
      Beijinhos

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  5. Ahahah =) Muito bom!O teu tom sarcástico dá um toque especial aqui à crónica.
    Mas o que interessa é que acabaste e que a "terapia" tenha resultado e que regresses em força aos treinos :)
    Força!
    Beijinhos

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    1. Obrigada, Isa! :)
      Força para vocês também!
      Beijinhos

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  6. AH AH!! (ler como o tom do Nelson dos Simpsons)... E é isto. Treinasses!
    Algo que eu devia fazer e também ando na malandrice. Se calhar está aqui a solução...
    Bons treinos

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    1. Ahah! (sem o tom do Nelson) :) Olha que não recomendo este método! ;)
      Xô com a malandrice, bons treinos!
      Beijinhos

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  7. Foi uma medida mesmo drástica, espero que pelo menos tenha resultado (e não que tenha surtido o efeito contrário, traumatizando-te) :P
    Dou-te os meus parabéns por teres conseguido terminar 22km tão tortuosos, pelo menos psicologicamente tiveste uma resistência incrível!
    Como 'nunca tinhas comido' ovos de codorniz?! São tão bons :P

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    1. Traumatizou um bocadinho, mas era mesmo isso! :)
      Quanto aos ovos de codorniz, verdade, nunca tinha comido. São tão pequeninos, e caros, que nunca me tinha dado para comprar. Vi algumas receitas, nomeadamente de entradas (lá está, demasiado pequenos!), e talvez os compre um dia destes.

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