29 de abril de 2017

TCC - Vila de Rei


"Os pés não vão aonde o coração não está."


Aqui estou eu, em Vila de Rei, de pés e coração.  A cabeça está dividida. O corpo está cansado. A prova ainda nem começou.


Não conhecia Vila de Rei, e o facto desta prova do Território Circuito Centro nos dar a oportunidade de passar pelo centro geodésico de Portugal foi um grande atractivo. No final, e apesar de dar fotos engraçadas, a passagem pelo marco que assinala o centro do país acabou por ser o que menos me lembro. Bom, ficou-me na memória a subida até lá chegar, mas por outras razões! :)

Subida ao Picoto da Melriça - Centro Geodésico de Portugal.

Apesar de estar inicialmente inscrita para a Ultra, e devido às razões já referidas, irei acabar por fazer apenas o Trail Curto. O percurso era partilhado até cerca dos 18 km e, desta forma, ainda tive a companhia do Artur, que me puxou moralmente, e talvez também fisicamente numa ou outra subida, antes da separação dos dois percursos.

A prova teve uma partida muito rápida, ou não fosse esta de apuramento para o Mundial do Trail. Os primeiros quilómetros são bastante rolantes e dá logo para separar o trigo do joio, ou seja, os craques dos coxos, portanto não há atropelos. :)
Embora lentinha, até me estava a aguentar razoavelmente bem, até entrarmos numa zona arada, com rasto seco de um tractor, que para mim é dos pisos mais traiçoeiros para se correr. Tive de caminhar. Mas também, se não fosse ali, seriam 300 metros mais à frente, quando se inicia a subida ao Picoto. Penso que foi aqui que precisei do meu primeiro puxão (cof cof) moral (cof cof)...

Marco geodésico do centro de Portugal.

O que vale é que, 58 anos depois, quando chegámos lá acima, a paisagem era bonita e seguia-se uma descida. O problema é que era um trilho muito técnico e os meus asics, perfeitos em conforto, são um horror em aderência. Escorregam e escorregam, deixando-me ainda mais insegura na minha exímia técnica. Tive de me encostar algumas vezes para deixar passar "descedores" mais rápidos.

Apesar de saber que seria uma prova "perdida" à partida, tentei fazer o melhor da situação. Não estava fácil. Nos estradões e terreno relativamente plano ainda conseguia imprimir algum ritmo de corrida, mas as subidas era para esquecer e nas descidas simplesmente não tenho jeito. E a prova bem que teve umas quantas dessas...

As subidas...


E as descidas...


Acho que nunca consumi tanto gel (coisa que nem gosto muito) para tentar ir mantendo a energia. Ainda por cima, quando chegámos ao primeiro abastecimento, já não havia fruta nenhuma, apenas umas tostas ou umas bolachas. Não sou de ligar a abastecimentos fartos, mas já não ter, pelo menos ali na mesa, nem umas bananas, achei uma falha. No abastecimento seguinte já haveriam mais coisas, mas nota-se que os jovens que estavam por detrás eram bastante inexperientes e pareciam um pouco perdidos em relação ao que fazer. Não culpa deles, obviamente, que estavam ali a doar o seu tempo, mas penso que numa prova desta importância esta questão dos PACs será um ponto a melhorar.

Quanto a mim, estava a iniciar a altura da prova que chutou o pinoco do centro geodésico para canto, nas memórias que levo de Vila de Rei...

O trilho das cascatas.

A descer e relativamente corrível, com alguma atenção a passagens mais escorregadias, deu para fazer aquela que foi, para mim, a parte mais zen de toda a prova, num bonito cenário com o som do ribeiro como fundo.


Deixou de ser tão zen quando o atleta que ia à minha frente deu um espalho monumental numa das partes em que tivemos de atravessar a linha de água. Apesar das cordas e dos bombeiros presentes, era necessário ter muita atenção para evitar as pedras mais lodosas e aquela queda até a mim me doeu! Bom, ele levantou-se logo, portanto não foi nada de grave, embora acredite que tenha andado dorido durante uns dias (por decoro, não digo onde... ;)).


Pouco depois, dá-se a separação dos percursos e eu, apesar de já ter tomado a decisão, confesso que fiquei um pouco aborrecida. Gosto de ver tudo, correr tudo, e ter virado ali para o trail mais curto foi como optar por viver a prova pela metade. Parvoíces, eu sei, já que não estava em condições de fazer mais quilómetros, não ia valer a pena. Já fiz outras provas em que me arrastei e sabia que conseguia terminar esta prova também mas, nessas outras provas, não havia um motivo aparente e nesta sim. Correr com o coração é muito bonito mas há que levar também a cabeça. Segui a placa dos 23 km.


Nos últimos três quilómetros, bastante duros, já que acompanham o sentido ascendente de várias cascatas, acabei por fazer as pazes com a minha decisão. Estava a ser duro, muito duro, escalar aquelas rochas, imagino o que seria fazê-lo com quarenta e muitos quilómetros nas pernas.
Mas, pelo menos, justifiquei as paragens com várias fotos. :)



Horas mais tarde, já depois de ter terminado a minha prova, estaria eu naquela última subida do trilho das cascatas, onde falta cerca de 1 km até à Meta, a ver passar os atletas da Ultra e a dar uma força. Foi a parte favorita de todo o meu dia. Invejava-os mas, ao mesmo tempo, estava aliviada por não ser eu ainda ali. Cansados, doridos, de olhar baixo, a perguntar sofregamente (os que ainda tinham fôlego) se "faltava muito"... Ah, o alivio de já estar ali sentada! Mas depois a força, a garra, a glória de saber que conseguiam, mesmo que tenham passado horas desde que os primeiros terminaram e já estivesse a anoitecer... Ah, como os invejo!

Mas agora, que ainda sou eu que ali vou, não sei que só falta 1 km para a Meta. As pernas ardem, sinto o rosto contraído do esforço, provo os lábios salgados de suor. "Mas ainda falta muito?!" O gps diz que não, mas nestas alturas não acreditamos em nada. Nem no outro atleta que já acabou a prova dele e vem a descer o carreiro e que me diz que já só faltam 800 metros. "Pfff, deve faltar deve..." Só via árvores e mato. Quem diria que a vila se escondia já ali, uma vila que não lhe basta ser o centro de Portugal, mas ainda partilha as imediações com cascatas e trilhos bonitos.

O Território Circuito Centro de Vila de Rei não é uma prova fácil. Tem muitos estradões rolantes, verdade, o que alguns atletas mais puristas não gostam, mas nem por isso perde a dureza. Aliás, acho que o facto de intercalar zonas rolantes com trilhos técnicos a torna um autêntico rebenta-pernas para quem não souber gerir (e mesmo gerindo...). Seria, portanto, uma prova desafiante mesmo que estivesse no pico da forma. Desta vez segui a cabeça, mas tenho de lá voltar com o coração, os meus pés precisam de conhecer o resto.

14 comentários:

  1. Parabéns por mais uma aventura Rute!
    Já estivemos em Vila do Rei, no centro geodésico mas foi mesmo só em passeio, embora depois duma ultra ;)

    Beijinhos e as tuas rápidas melhoras

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    1. Obrigada, Isa.
      Têm de voltar e conhecer as cascatas!
      Obrigada!
      Beijinhos

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  2. Se a cabeça não está para aí virada, nem que se esteja na melhor forma de sempre!
    Mas sabemos que havia razões para tal e fortes.
    Por isso, muitos parabéns pelo esforço!

    Beijinhos e força para as próximas

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    1. Obrigada! Já me tenho sentido melhor. Iupi :)
      Beijinhos

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  3. Olha sabes, bonito texto sobre uma, de certeza, bonita prova numa linda região.
    O que importa é que mesmo sem estares a 100% ainda fizeste a tua prova, obrigaste alguém a a fazer a sua boa acção do dia com o apoio moral ( yeah, right), portanto, muito bom.

    Em melhor forma voltas lá para veres o que ficou em falta.

    Beijinhos.

    PS: andas a fazer muitas provas em que tudo parte como se fossem prós...o que quererá dizer?

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    1. Olá Hélder!
      És o Hélder que tem andado desaparecido ou outro? :)
      É o bom destas provas, o turismo, mesmo quando o resto não corre como queremos.
      Talvez volte para o ano. :)
      Beijinhos
      PS: Ando a participar nas provas erradas! ;) Mas, nem de propósito, este f-d-s tive uma experiência que permitiu uma outra visão sobre as diferentes velocidades. Depois conto/escrevo!

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    2. hmmm, tens razão...não sei porquê devo-me ter logado com outro user/email :) sou "O" outro ahahahaha

      Conta, conta, que estamos cá para ir lendo.

      beijinhos

      PS: sobre tractores e rastos secos de tractoes ...era eu uma criança (mesmo!) e depois de uma alucinante descida de bicicleta percebi que o belo trilho tinha sido substituido por uma confusão de rastos de tractores e lagartas (equipamento militar, Polígono de Tancos, google/Bing it)...foi feio mas eu fiquei bem.
      Já a bicicleta não, nem o meu amigo que apanhou um susto depois de me ver a voar :)
      O que tem isto a ver com trail...nada, mas fiz muito trail naquelas colinas :)

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    3. Ah, és o jnr, assim já está bem!! :)

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  4. "até entrarmos numa zona arada, com rasto seco de um tractor, que para mim é dos pisos mais traiçoeiros para se correr." Sei do que falas aqui no Ribatejo as vezes apanha-se dessa tortura! E quando não está seco e está lavrado mesmo! E as vezes há grandes surpresas! Aquele percurso em que se corria na perfeição transforma-se num inferno por causa dos tractores. Normalmente isso acontece a meio dos percurso e não há nada a fazer senão passar por cima daquilo! E percursos que se transformam num lamaçal, em pleno verão, por causa das regas? Beijinhos grandes!

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    1. Aquilo seco é terrível. Piso irregular mas muito rijo, nem sabemos onde colocar os pés! Enlameado também não deve ser muito melhor...
      Beijinhos grandes!

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  5. Que vais regressar com o power todo, parece não haver dúvidas!
    Beijinhos e continuação de boas corridas!

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    1. Vamos ver!:) É que vem lá o Verão e o calor torna as coisas mais desafiantes.
      Beijinhos!

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  6. Gostei muito do teu relato, das fotos, e fiquei com vontade de lá ir :)

    Parabéns pela prova e pela recuperação!

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    1. Obrigada!
      Vai, nem que seja em passeio, é um sítio bonito.
      Beijinhos

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