11 de maio de 2017

Trilhos dos Pernetas - a vassourar os 30km

Nas dezenas de provas de trilhos em que participei até agora, já fiquei no último terço do pelotão, já fiquei quase em último e até, imagine-se, já fiquei a meio do pelotão! No entanto, e apesar de ter havido uma prova ou duas em que foi por pouco, nunca fiquei em último. Bom, há sempre uma primeira vez para tudo.

Portanto, eu, mais dois companheiros, fomos os últimos dos últimos a cortar a meta dos Trilhos dos Pernetas, com cerca de 5h10 de prova.

Na Partida, já a deixar fugir o pelotão.

No entanto, a bem da verdade, era suposto que assim fosse, uma vez que fomos os vassouras dos 30 km.

Voltando um pouco atrás na história, há já bastante tempo que queria ter a experiência de ser vassoura. Sabendo eu o que custa por vezes concluir uma prova, numa glória só nossa - já que vezes há em que não está quase ninguém na meta para nos receber ou, pior, já estão a retirar o pórtico (!) mesmo ainda dentro do tempo limite - achava que teria o perfil para acompanhar alguém no seu desafio. Mas claro que nestas coisas de superação e sofrimento cada um tem o seu feitio, há quem goste de conversa para distrair, há quem prefira ir calado e até quem prefira que o deixem em paz. No fundo, teria que haver uma certa sensibilidade para perceber as idiossincrasias de cada um, e tinha curiosidade nisso.
Ora, não estando por dentro de nenhuma Organização, era complicado propor-me para vassoura assim sem mais nem menos. Por isso, quando soube que iria haver a primeira edição oficial dos Trilhos dos Pernetas, e conhecendo o Perneta-Mor, atirei com um: "eu vou, mas só se puder ser a vassoura!", e pegou. :) Iria na mesma, mas assim ainda melhor!

Agora, voltando à história, eram 9h do dia 01 de Maio, a partida dos 30km tinha acabado de ser dada, e eu, o Nuno e o Artur, os três vassouras, começávamos com toda a calma, dando espaço para que os atletas se afastassem.


Numa coisa estávamos de acordo: ninguém quer ir ali com o vassoura atrelado logo desde os primeiros quilómetros. Portanto, a ideia era dar espaço em relação aos últimos atletas, de forma a não criar pressão logo de início. Além disso, haveria uma passagem no primeiro quilómetro passível de criar algum engarrafamento, logo, teríamos tempo de os alcançar mais tarde.


Assim, os primeiros quilómetros foram feitos na conversa, sem pressas, com atenção ao percurso e à paisagem, esta última completamente nova para mim e o Artur.


Os cartazes também eram motivo de distracção e risota.

1km já está, faltam 29! :)
FUJAMMM!!!

Para referência, esta é a loira:

FUJAMMM!!!

Algum tempo depois, começam a surgir os primeiros atletas dos 18 km, cuja primeira parte do percurso seria partilhada com o nosso, e ainda houve um registo fotográfico dos mesmos.


Por acaso, falha grave, não tirámos foto à famosa Ponte dos Pernetas que inspirou o prémio de finisher, mas era na zona da foto abaixo.

Paisagem hor-rí-vel. ;)

Em suma, nestes primeiros quilómetros íamos tão na descontra que quando chegámos ao primeiro abastecimento os últimos atletas já tinham ido embora. :) Não havia problema, só tínhamos de recuperar o ritmo, mas olhem-me para esta mesa...

Olhem bem! O que está errado?

O abastecimento estava praticamente intacto! Fruta, bolinhos, aletria... Até uma garrafa de vinho do Porto que nem sequer chegou a ser aberta!!! Está bem que só íamos com uns 8 km de prova, mas fiquei muito desiludida com este pessoal do Norte, muito desiludida...

Mas bom, daqui para a frente, e para não arriscarmos chegar à Meta sem ter apanhado nenhum atleta, assumimos a postura profissional - de vassouras, claro está - e fomos no encalço dos últimos.

Mas pára-se sempre para uma foto ou duas, quando se justifica.

É mais ou menos a metade da prova que alguns atletas começam a quebrar o ritmo e, pouco tempo depois, alcançámos o último.


Infelizmente, este atleta não ia apenas numa quebra de ritmo, ia a queixar-se de uma dor no joelho e já não conseguia correr. É nestas alturas que começam as dúvidas: o que fazer? Dar força para continuar? Aconselhar a desistir para não agravar uma possível lesão? Acompanhá-lo até ao fim, mesmo que sempre a caminhar, enquanto estivesse dentro do tempo limite? E se demorasse mais que isso? Por enquanto, o atleta sentia-se capaz de seguir, pelo menos até ao próximo abastecimento, por isso revezámo-nos a acompanhá-lo, enquanto um ou outro ia controlando o percurso e avistando as atletas que seguiam pouco mais à frente.




Mas, antes do próximo abastecimento, seguia-se um dos maiores desafios da prova: a subida ao marco geodésico.

É tudo uma questão de perspectiva! :)

E maiores também...

As fotos de subidas falham sempre em revelar a verdadeira dificuldade, mas acho que deste ângulo, visto de cima, dá para ter uma ideia.


No topo do marco geodésico, mais ou menos pelos 18 km, estava o segundo abastecimento, de onde as penúltimas atletas foram logo embora mal nos viram chegar. Isto de ser vassoura é muito ingrato! :)


O atleta que vínhamos a acompanhar decidiu ficar por ali, por isso, depois de comermos qualquer coisa, seguimos até avistar as duas atletas que iam agora em último. Pelo caminho, passámos por alguns locais que já conhecia de nome e pelas fotos, como o Marco dos 4 Concelhos,

Sta. Mª da Feira, Arouca, Castelo de Paiva e Gondomar.

e a subida ao Camouco que era, se não me engano, o ponto mais alto do percurso.


A descida que se seguiu foi uma das partes que achei mais complicadas. Era longa, inclinada e cheia de pedra. Os meus dois colegas vassouras iam um pouco mais atrás e eu ia a seguir as últimas atletas sem querer ainda aproximar-me muito. A descida pareceu-me interminável e, por azar, apoiei mal um pé e fui de escorrega! Quando me levantei tinha o tornozelo um pouco dorido e pensei: "olha, que irónico, vamos ter uma vassoura perneta nos Trilhos dos Pernetas!", mas consegui continuar a correr e a dor eventualmente desapareceu.


Se calhar, ajudou o facto de, mais à frente, termos cruzado uma linha de água, onde aproveitámos para nos refrescar e brincar um bocado na água (eu), para dar tempo que as atletas avançassem. Aproximava-se o último abastecimento e, a cada fotógrafo e polícia que passávamos, íamos deixando a palavra de que éramos os últimos.

Chegámos ao abastecimento mesmo atrás das últimas duas atletas, mas ainda por lá estava uma boa meia dúzia de pessoas, a comer e beber. Assim que nos viram chegar, adivinhem, apressaram-se todos a ir embora! Começava a achar que tinham algo pessoal contra nós... :) Ninguém queria a nossa companhia!

Rapidamente tornámos a alcançar as últimas raparigas, mas queríamos deixar algum espaço para irem à vontade, uma vez que ainda estávamos bem dentro do tempo limite. No entanto, depois de quase terem seguido pelo caminho errado três vezes (por distracção, já que estava bem assinalado), achámos melhor juntarmo-nos a elas. Faltavam menos de 5 km para o final.


E seguiu-se um momento no qual me revi em bastantes provas. O cansaço, o intervalar a caminhada com a corrida, bastante ofegantes. O desabafo de quem está farto mas que, mesmo assim, se nota que está ali com garra para terminar. "ODEIO-VOS!", chegou a dizer uma das senhoras, na brincadeira, depois de avistar mais uma subida. Parecia... eu! :)
Depois, para mostrar quem é o verdadeiro sexo forte, a três quilómetros do fim começam a apanhar outros atletas, e estas mulheres, que vinham em último quase desde o início, ainda vão ficar à frente de uns 6 ou 7 homens. WOMEN POWER!

Até ao final, fomos intervalando a companhia de alguns atletas, conforme iam passando ou ficando para trás. Neste momento, a maior parte já só quer saber se "ainda falta muito", e eu fui tentando dar sempre uma forcinha. "Está quase!", "Falta 1 km.", "O pior já ficou para trás." e "Com jeitinho ainda fazemos abaixo das 5h!"... Espero que não me tenham odiado. Muito.

Chegando à Capela de N. Sra. da Piedade, onde fora a Partida, ainda era necessário descer as escadas para tornar a subir os últimos 200 metros em direcção à Meta, e deixámos o último atleta ter o seu momento, encerrando nós a prova, com cerca de 5h10. Uns bons 50 minutos a menos das 6 horas definidas. Pernetas? Não há pernetas aqui!

Felizmente, não houve incidentes complicados, e apenas uma desistência pacífica e por vontade própria, por isso acho que todos terminaram com boas memórias. Quanto a mim, gostei bastante da experiência e descobri que não me importo nada de ir ali a acompanhar outros ritmos. Gosto de lá andar sem ser eu a sofrer, para variar. :)

19 comentários:

  1. Eu acho que era óptima para Vassoura! Ahahah :)

    Obrigada pelo relato. Deve ter sido uma experiência muito gira. Uma forma diferente de percorrer os trilhos, certamente :)

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    1. Sim, foi! Mais uma experiência. Qualquer dia só me falta organizar uma prova! :D Depois convido-te para vassourar. ;)

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    2. Ahahahah! Fico à espera :)

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  2. Conseguiste "varrer" bem essas montanhas.
    Ficas com vasta experiência em trilhos, primeiro nos abastecimentos, agora em vassoura. Muito bem!

    Não tive oportunidade de fazer a prova, mas tive conhecidos que a fizeram e tive bom feedback.

    Boas corridas ;)

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    1. Sim, acho que ficou bem varrido, pelo menos ninguém ficou para trás. ;)
      Ainda bem que os teus conhecidos gostaram. Nenhum fez os 30, não? :)
      Boas corridas!

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    2. Por acaso fizeram os 30 KM.
      Apenas 2 é que participaram nos 18 KM.

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    3. Então pronto, se algum esteve perto de ser o último, é provável que tenha levado com a minha conversa motivacional... :D

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  3. Ahaha, ninguém queria os vassouras por perto! :)
    Estás uma polivalente nisto dos trilhos! Pelos vistos agora só falta organizares um evento desses! :)
    Bjinhos e boas corridas!

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    1. Também não percebo, um trio tão simpático! ;)
      Organizar uma coisa destas é uma grande responsabilidade, por enquanto prefiro ir só ver a paisagem. :)
      Beijinhos

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  4. Bem ... já me ganhas em experiências nos trilhos. Eu nunca varri uma prova, mas tb tenho o efeito dos outros fugirem de mim :D
    E essa loira??? Arre, sume-te diabo ...
    O Camouco não é o ponto mais alto, esse é o Marco Geodésico ... mas parece, e é o ponto com a vista mais bonita.
    Mais uma vez obrigado ... fizeram um excelete "trabalho".
    Beijinhos

    P.S. vou partilhar isto lá pela página dos Pernetas

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    1. Estás a brincar? Só organizar uma coisa destas bates aos pontos em experiência! Quanto a ser vassoura, tu não sei, mas acho que a loira tinha jeito... :P
      Ah, ok. Pois, fiquei na dúvida, porque me pareceu que ainda tínhamos subido mais a seguir ao marco geodésico, mas é capaz de ter havido umas descidas grandes pelo meio.
      Obrigada! :)
      Beijinhos

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  5. Mais uma experiência para o cv.

    Portanto pelo que percebi é preciso paciência e calma para ser vassoura...ahhh, ok, pronto, era só isto.

    Agora, deviam deixar a malta abastecer com calma, comer à pressa e ainda mais em prova poderia ter dado mau resultado.

    beijinhos

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    1. Bom, se gostares de andar por lá, o resto vem por acréscimo. Mas convém treinar também um bocadinho, que estes pernetas, de pernetas não tinham nada! ;)
      Mas isso era o que eu dizia, para comerem e beberem com calma! Sobraram mines nos abastecimentos, por amor de Deus!!! :P Mas acho que estavam avisados sobre "os três atletas de azul" e não queriam arriscar.
      Beijinhos

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  6. Muito interessante! O texto e a experiência.
    De certo que foi algo de muito gratificante e com lugar para o teu baú de recordações.

    Achei piada o fugirem quando vos viam :)

    Beijinhos

    ps - E não sejas modesta. Sim, já ficaste no último terço, já ficaste quase em último, mas também já conquistaste dois pódios :)

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    1. Sim, foi uma primeira edição e primeira vassourada que ficam na memória. :)
      Não percebi porque fugiam de um trio tão simpático... ;)
      Ahah, verdade. :) E que belos pódios!
      Beijinhos

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  7. Tens a certeza que o Perneta-mor não te deu uma marreta em vez de uma vassoura? Olha que isso pode explicar o trio fugitivo :P

    Bjs

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    1. Não! Nem marreta, nem vassoura, nem uma esfregona para desenrascar... Acho que era mesmo do nosso ar de durões! lol :D
      Beijinhos

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  8. Como "corredora" quase licenciada em ultimos lugares, dou te os parabéns!!! Se há coisa que eu odeio é a pressão dos vassouras (a não ser que seja um vassoura jeitoso).
    E aqueles que vão o tempo todo a reclamar que vão muito devagar??? Horrivel...
    Ou aqueles que fazem comentários do genero "agora aqui, só de helicóptero..." depois de teres tralhado numa descida, no fim do mundo...

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    1. Olá "ET"! :)
      Pois, é como eu digo na crónica, há que ter alguma sensibilidade. Eu, como sei o que NÃO gostaria num vassoura, tentei não ser "esse" vassoura... Mas cada um terá a sua ideia. Agora, pressão é que não!! Se não vamos mais rápido é porque não conseguimos, certo?
      Obrigada pelo comentário e continuação de boas corridas!

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