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22 de maio de 2015

Chamemos-lhe uma espécie de duatlo

O mar enrola na areia. Ninguém sabe o que ele diz.
Bate na areia e desmaia. Porque se sente feliz.


Vou contar-vos um segredo: quando era pequenina, tinha medo da água. Não da água em si, claro, mas do mar. Em casa dos meus pais existe ainda uma fotografia minha, com cerca de dois anos, em que estou a berrar com ar aterrorizado em cima de uma rocha na praia que estava cercada de água. Tenho a certeza que, enquanto tiravam a foto, os meus pais riam embevecidos deste momento tão ternurento e potencialmente traumatizante para mim...

O certo é que alguma coisa nesta exposição aquática forçada feita por uns pais desalmados (brincadeirinha, Mãe! Gosto muito de ti!) deve ter resultado, porque hoje em dia não posso ver uma praia, ribeira, rio, lago, piscina, tanque, que não me apeteça logo correr e mergulhar lá para dentro. E nem sequer precisa de ser Verão. Hoje em dia, sofro muito mais quando não tenho água por perto.

Posto isto, voltemos à corrida.



Quando marcamos um treino junto ao mar num dia em que a temperatura vai estar na casa dos 30 graus, sabemos que não é uma escolha inocente. Sabemos que o facto de a praia estar ali a dois passos ajuda a superar demónios de corridas abrasadoras do passado e torna o treino mais fácil. Mesmo quando às 11h da manhã o sol já bate quente nas costas viradas ao céu enquanto subimos mais uma arriba.




E a praia está ali, quase deserta, envolta em neblina, convidativa… Cedo tão facilmente àqueles olhos verdes, azuis, cinzentos… Qual é a cor mesmo?


Largo os ténis de Cinderela fora de horas, largo a t-shirt e mergulho.



É da cor de um abraço fresco.

Foi o primeiro mergulho nesta praia que tem tanto de linda quanto de selvagem. Não é fácil conquistá-la, mas se calhar daí é que vem o encanto. Abandoná-la é igualmente penoso…




Mas o treino tem de continuar e já se perderam vários minutos na transição da "natação" para a corrida. Acho que vamos em último! J

O ponto de retorno.


Breve visita ao ponto mais ocidental da Europa.


O regresso foi um teste de resistência, já com a água do reservatório morna e o calor sem sombras do meio-dia. Apesar de ter posto protector, ainda me valeu um pequeno escaldão. 



Quando chegámos à Praia Grande, o enorme areal-asfalto, que tinha servido de aquecimento de manhã, já se encontrava repleto de gente.

Ao contrário do habitual, este foi um Domingo de treino curto em quilómetros. Foram apenas 13, mas duraram a manhã inteira. Acho que tenho de melhorar a técnica de escalada e demorar menos tempo nas etapas de "natação" (=jiboianço na água)... Mas, com este calor, quem pode censurar?!
J

Bom fim-de-semana!

2 de junho de 2014

E o que fica é a certeza de querer continuar

Uma vez vi um episódio do Dr. House, em que uma paciente sofria de uma patologia da qual agora não me recordo o nome, mas que fazia com que se lembrasse de tudo o que acontecera na sua vida. A memória dela era como um disco rígido em que ficavam registados todos os acontecimentos e todas as conversas, sem nenhum critério ou filtro. O que à primeira vista poderia parecer uma bênção, na verdade estava a dar-lhe cabo da vida, porque era incapaz de manter uma relação afectiva de qualquer espécie. Toda e qualquer discussão ou desavença que tivesse tido com alguém, todas as palavras proferidas, eram vividas como se tivessem acabado de acontecer, provocando-lhe a dor e desilusão constantes, tornando-a incapaz de superar o sucedido. Não sei porque razão as suas memórias negativas se sobrepunham a todas as outras, mas, no caso desta mulher, "o tempo cura tudo" era um conceito desconhecido. Para esta mulher, o "tempo" das coisas era sempre recente.

Não consigo explicar melhor, nem sei se tal patologia existe ou foi apenas exacerbada para efeitos televisivos, mas dou graças à minha memória selectiva, porque, de outra forma, nunca correria na vida.

Salvo raríssimas excepções, há sempre um momento durante a corrida (só um, se tivermos sorte) em que estamos a odiar aquilo com todas as forças. Podem ser só uns breves segundos, podem ser alguns minutos ou, a minha solidariedade se também já passaram por isso, arrastar-se durante longos e penosos quilómetros. Aquele momento, vocês sabem, do: "Mas para que é que me meto nisto?"

Às vezes grita e ecoa dentro da nossa mente.

- "Mas para que é que me meto nisto?"

Páro e olho em volta.

- "MAS PARA QUE É QUE ME METO NISTO??!"

Páro e olho em volta.

O que vale é que, ao contrario da paciente do Dr. House, esse momento passa. Passa sempre. Por vezes no minuto seguinte, por vezes apenas alguns quilómetros depois, por vezes só mesmo no momento em que cruzamos uma meta, real ou fictícia, e terminamos de correr.

No fim do dia, é disto que me vou lembrar.

A verdade é que, mais tarde ou mais cedo, a filtragem da memória se encarrega de apaziguar as dores morais e tudo torna a parecer possível. E o: "Xiça, nunca mais na vida!", rapidamente passa a: "Mal posso esperar pela próxima!". Geralmente, uma próxima ainda mais dura e desafiante. Claro.

Memória selectiva, obrigada por seres benevolente com os meus sonhos.


Nota: Fotos do belíssimo treino longo de Domingo, que merece posterior destaque. Os momentos de auto-dúvida foram breves, mas intensos, sobretudo para as minhas coxas e glúteos. Óbvio que quando me sentei no carro, de regresso, já só pensava em voltar.


Boa semana!