Na tarde anterior, quando os avistámos, lá estavam eles, desafiantes...
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| Os Três Cântaros. |
Da esquerda para a direita: Cântaro Raso, Cântaro Magro e Cântaro Gordo (este último um pouco encoberto na foto acima, mais visível na foto abaixo). 1916m, 1928m e 1875m, respectivamente.
E eu queria subi-los porque, pronto, "estavam lá"...
Que dizer? É aquela atracção ancestral do ser-humano pelos picos mais altos, sempre a busca do topo, aliada ao desafio que é alcançar um local apenas acessível a pé.
Existe um percurso pedestre circular que une este afloramentos graníticos. A distância não é muita, mas a dificuldade é grande, devido à sua inclinação e tecnicidade. Aliás, este está assinalado como percurso de escalada e é muito procurado para a prática, sobretudo no Inverno, com a neve, e é possível, ao longo da subida, observar vários espigões nas rochas
Por isso, devido ao pouco tempo de que dispúnhamos, este circular teria de ficar para depois, mas, pelo menos, o Cântaro mais alto teria de ser explorado.
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| Na direcção do Cântaro Magro. |
O percurso tem início no Covão d'Ametade. Localizado no sopé do maciço do Cântaro Magro, início do Vale Glaciário do Zêzere, o Covão d'Ametade tem a particularidade de ser uma espécie de "miradouro ao contrário". Uma pessoa chega, senta-se à sombra dos vidoeiros e olha para cima. O horizonte é cortado pelo enorme maciço rochoso, que nos faz sentir pequenos, mas não claustrofóbicos. Pelo contrário...
É também aqui que nasce o Rio Zêzere, nesta altura do ano pouco mais do que um fio de água no leito.
Antigamente, era um dos poucos lugares onde era permitido fazer campismo selvagem em todo o Parque Natural da Serra da Estrela. Tinha assadores, mesas, wcs e, inclusive, um bar de apoio. Hoje em dia está um bocado ao abandono...
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| Totalmente de acordo! Mas qual contentor? |
Nem sequer existe um único contentor ou caixote do lixo neste local, que ainda é muito utilizado para piqueniques familiares. Depois, claro, é ver restos e sacos de lixo empilhados por todo o lado, o que é triste.
Mas bom, falta de civismo e questões burocráticas de autarquias à parte, este local continua a ser mágico. O silêncio que aqui se ouve... têm de experienciá-lo!
Um bocadinho mais tarde do que suposto (férias e tal...), iniciamos a subida.
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| A admirar o maciço ou à espera de satélites no gps? :) |
No final, o gps não quis colaborar, mas não seria isso que ia estragar esta experiência. Seguimos junto ao caudal do Zêzere e depois, mais à frente, por um pequeno trilho que ainda se distinguia pelo meio da vegetação, sempre na direcção do Cântaro.
Depois, a vegetação começa a adensar-se e andamos por meio de arbustos mais altos que nós. Os ramos começam a deixar as suas marcas na pele. Provavelmente, nesta subida será mais recomendável o uso de calças ou corsários, mas estava muito calor e não tinha levado nenhuns comigo.
Este percurso não tem marcação oficial. A única coisa a guiar-nos são as mariolas deixadas pelas outras pessoas. Acontece que, por vezes, existe mais do que uma opção de subida e nem sempre aquela que foi utilizada no início da Primavera pode ser utilizada agora no Verão, devido ao crescimento dos arbustos. Por outro lado, as chuvas e neves também deitam abaixo algumas das pilhas de pedras, de um ano para o outro. Quando demos por nós, nem uns 300 metros devíamos ter feito e já estávamos "perdidos". E estes 300 metros levam váaarios minutos a serem feitos, atenção!
É frustrante ver a direcção que temos de seguir mas não conseguirmos encontrar um trajecto, ou por causa da vegetação, ou por causa das rochas. Felizmente, começámos a ouvir vozes vindas de cima, de alguns caminheiros que estavam a efectuar a descida. Conseguimos perceber o local de onde vinham e dirigimo-nos para lá. Dali para a frente disseram-nos que seria mais fácil seguir as mariolas, e, de facto, foi.
Já avançámos uns 500 metros! :)
É continuar a subir.
Mais ou menos a um terço do percurso, encontramos o primeiro de vários laguinhos formados pela corrente do Rio Zêzere.
Não deu para resistir à agua fresca e límpida! Foi a primeira paragem para um mergulho.
No Inverno deve por aqui passar uma cascata imponente. Agora corria apenas um fiozinho de água, audível.
Chega de ronha, toca a subir!
Já uns metros mais acima.
Aqui começa a inclinação a aumentar, a vegetação a escassear e as rochas para escalar.
Upa!
Já a uma altitude considerável, mas ainda longe do pico.
Depois de mais desnível acumulado, novo mergulho num lago ainda mais convidativo que o primeiro. Não era cansaço, era a água que era irresistível, claro! :) Incrível a quantidade de água que existe neste maciço, mesmo em pleno Verão. Ninguém diria, observando de baixo.
Chegando a um ponto em que o topo parece que é "já ali", a caça às mariolas torna-se cada vez mais complicada. Só resta adivinhar o trajecto, saltando rocha atrás de rocha.
Foi mais ou menos no local acima que avistei uma cobra!!! Sabia que estava a ser uma sorte ainda não ter avistado nenhuma e tentava sempre fazer muito barulho para avisar qualquer bicheza da nossa aproximação, mas esta cobra estava a dormitar ao sol e demorou a esconder-se. Era pequenina e não me ligou nenhuma, mas afastei-me rapidamente, antes que chegasse a mãe dela. :)
Mais uma pausa...
Depois, chegámos a uma encruzilhada em que não víamos forma de alcançar o pico do Cântaro Magro e já nos estávamos a afastar para os lados do Cântaro Gordo. Foi pena chegar tão longe e ficar a pouco metros de chegar mesmo ao cume, abrir os braços e espetar uma bandeira (ok, esta última parte talvez não) para assinalar a nossa conquista, mas sempre é uma razão para voltar.
Foi mais de hora e meia entre subida e descida
De volta à selva.
De regresso ao Covão, decidimos continuar Vale do Zêzere abaixo.
Sabiam que a rota do Zêzere tem 370 km, estendendo-se daqui, desde a sua nascente, até Constância, a sua foz? Desta vez não houve tempo para a percorrer na íntegra, fica para a próxima. :)
Além disso, pouco antes de Manteigas, tivemos alguns obstáculos distractivos....
Fazer estas rotas, a correr ou a caminhar (e a nadar/boiar :)), é uma das melhores formas de aliar o treino à vertente turística. A maior parte está bem assinalada, embora por vezes não tenha a devida manutenção. Tenham isso em conta na hora de fazer uma previsão do tempo que irão demorar a percorrê-las.
Neste caso em específico: Covão d'Ametade, Cântaros e início do Vale Glaciar (até Manteigas, aprox. 10 km), tem a vantagem de ser um percurso com vários pontos de água, para abastecimento e para refrescar nas horas de maior calor, o que é uma grande ajuda, uma vez que a maior parte do percurso é exposto.
E com esta crónica fechamos o capítulo da Serra da Estrela (por enquanto!), até porque se seguem outras montanhas. Entretanto, este fim-de-semana andei pelos "montes" da Ericeira e arredores, no GNR Trail. Como correu depois de tantas semanas na ronhice? Fiquem para ler. :)





























