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6 de abril de 2015

INATEL Piódão Ultra Trail

Quilómetro 19




Fantástico, isto é fan-tás-ti-co. A Montanha vestida com as cores da Primavera, pincelada de lilás e verde para onde quer que olhe, emoldurada pelo céu azul. O silêncio característico, pesado, apenas cortado pelo som das eólicas cada vez mais perto. Da aldeia que ficou para trás, ao fundo, chega o som do sino da Igreja, deve ser perto da hora de almoço. Eu estou a subir até ao ponto mais alto de todo o percurso e sinto-me bem. Apesar de me ter baldado ao reforço muscular, os treinos dos últimos meses devem estar a dar resultado. Não tenho bastões a que me amparar, agarro-me às coxas e mantenho a passada forte, enquanto passo pessoas. Passo várias pessoas. Sinto-me fresca e feliz. A 200 metros do topo faço um telefonema (...)

Quilómetro 33



Horrível, isto é hor-rí-vel. A Montanha vestida de Primavera sufoca-me com um abafo de Verão. O silêncio é cortado pelo som de insectos que passam e que afasto preguiçosamente, com medo que fiquem presos no suor que trago colado à pele. Oiço cigarras e animais rastejantes, que se afastam por entre as ervas secas à medida que me aproximo e prefiro nem saber o que são. Devia ter feito reforço muscular. Não trago bastões, e maldigo a falta que me fazem. Sigo apoiada às coxas, não páro, mas cada passo lento é dado a muito custo. À minha frente, mais acima, um atleta grita um "FODA-SE", assim, sem censura, com todas as letras, que lhe sai da alma. Entendo-o perfeitamente (...)


Inatel Piódão Ultra Trail 





Por mais tempo que passe, impossível não ficar contagiada pela expectativa e ansiedade que envolvem o início de uma prova. As cores dos diferentes equipamentos, a agitação dos atletas, o burburinho das conversas, com uma ou outra boca e picanços entre amigos, as gargalhadas nervosas, o cheiro a cânfora dos géis musculares e, ultimamente, o ruído dos drones que sobrevoam a partida, contribuem para uma envolvência agradavelmente familiar e, ao mesmo tempo, sempre diferente.
Toda a letargia das últimas semanas ficou para trás, como se, durante a viagem, tivesse levado um banho de alma ao descer a montanha, mergulhar na bruma que envolvia as povoações no fundo do vale e tornado a emergir, ao chegar a Piódão. Mais concretamente, ao INATEL, que fica um pouco mais acima da aldeia, o que pode não parecer significativo à primeira vista, mas acreditem que será significativo depois de 50km, quando virem a Meta lá em cima e parecer que nunca mais lá chegam.





Os primeiros quilómetros

Depois de ultrapassado o engarrafamento inicial, foram cerca de quatro quilómetros bastante pacíficos e rolantes onde, apesar do sol, ainda era possível sentir a aragem fresca da manhã. Pela primeira vez desde há algum tempo não tive dores de "aquecimento" nos gémeos e pude desfrutar na plenitude o início de mais um dia memorável.





Quilómetro 5

Aos cinco quilómetros a contemplação medidativa em que seguia é um bocado abalada com o aproximar do som de uma manada em fuga! Afinal, eram só os primeiros atletas dos 21km que se aproximavam a, parecia-me a mim, uma velocidade vertiginosa. Encosto-me à direita por diversas vezes para os deixar passar, não houve atropelos nem necessidade de vozes de comando a gritar "à esquerda!", que me deixam o cérebro com dislexia sob pressão e tenho de, em décimas de segundos, acertar com o lado ao qual encostar. Tenho calma, vou devagar, e vou fazer o dobro dos quilómetros, aproveito as pausas para tirar fotos.
Chega também o primeiro PAC, em Chãs de Éguas, onde páro apenas para beber um copo de água, refrescar-me um pouco no chafariz do miradouro, e sigo. Agora é que a prova vai começar.









Quilómetro 7

Acabei de passar por um atleta do Trail Curto que segue na companhia do cão. Até aqui nada de novo, já vi atletas caninos noutras provas. Mas este atleta era mesmo 'pecanino', não muito mais do que três quilos de garra e determinação. "Uma máquina", segundo o dono, que me afirmou que o companheiro tinha patas para o desafio.
E eu começo a questionar-me se terei pernas. Estamos a menos de metade de uma subida aos "esses", que se prolongará até aos 10km e nos fará ganhar mais de 600 metros de acumulado em cerca de 4 km. Apesar de não muito inclinada, parece interminável. Há quem opte por cortar as curvas e atalhar a direito pelo meio do mato. Questiono a "legalidade" da atitude, já que, apesar de assim a inclinação ser muito maior, também se retiram bastantes centenas de metros ao percurso.
Opto por não olhar muito para a fila colorida de formiguinhas que se vê a cruzar a serra acima e concentro-me em manter o ritmo de passada larga. Às vezes arrisco uma corrida, mas não muito. Tenho o pé direito dormente, já parei para alargar um bocado os atacadores, pois poderia ser disso, mas a dormência continua. Só quando ensaio aquelas passadas de corrida é que o sangue volta a circular. Será assim até ao topo do primeiro monte, sempre a caminhar sem "sentir o pé". Foi uma experiência muito estranha e ligeiramente preocupante. Depois começo a correr e passa.
A primeira grande subida ficou para trás.








Quilómetro 16

Foi a primeira vez que estive na fila para um abastecimento. Parece mentira, mas como o abastecimento fica num pequeno miradouro com telheiro, os atletas concentrados em frente às mesas, sem avançarem, congestionaram um pouco o espaço, mas nada de grave. Quando chega a minha vez, como fruta e bebo água. Estamos no segundo PAC, em Malhada Chá e, daqui para a frente, os dois percursos separam-se. Desço as escadas e sigo a placa a indicar a Ultra. Avisto ao longe as ventoinhas, sei que vamos começar novamente a subir, desta vez até à parte mais alta do percurso, a roçar os 1400 metros de altitude. Serão outros 4km para ganhar quase 600 metros de acumulado mas, desta vez, quase a direito.







Quilómetro 19 (cont.)

(...) Do outro lado atendem e ouvem a minha felicidade. - "Sinto-me bem!", digo. A segunda grande subida da prova ficou para trás e, anestesiada pela paz que sentia, não me custou quase nada. O fotógrafo da prova apanha-me de telemóvel na mão e brinca: "Afinal isto não custa nada, até vêm a falar ao telefone!", e eu respondo que estou a ligar para o reboque! (Na verdade, na altura ainda não precisava, mas se soubesse tinha feito uma chamada de prevenção para o km33... Mas já lá vamos).
Será também aqui que trocarei umas palavras com outra atleta e ela me diz que o pior da prova já estava para trás e eu, crédula, acreditei. Afinal, segundo o gráfico, assim parecia.






Quilómetro 20

As eólicas! Incrível a felicidade que se pode retirar de pequenas coisas, como o acto de correr ao lado de ventoinhas. Sinto-me pequenina e grande, ali no topo, onde se avista também a minha serra e o olhar se perde no horizonte. Há outros atletas que também estão encantados com a imensidão das eólicas e tiram selfies sob as mesmas. Eu sigo, quero aproveitar o momento. Esta foi, sem dúvida, a minha parte favorita de toda a prova. Só eu, as montanhas, e o vento.










Quilómetro 25

Chego ao PAC3, em Covanca, e agarro numa mão cheia de batatas fritas e mastigo-as com a rapidez e sofreguidão de quem parece que não come há semanas. Não há muita margem para delicadezas nestes abastecimentos, sobretudo porque este coincidia com a hora de almoço.
Depois do vale das eólicas tinha-se seguido uma descida vertiginosa onde invejei, pela primeira vez, quem tinha o travão e apoio dos bastões. Além disso, o típico terreno pedregoso fazia mossa na planta dos pés cansados. Valeu o descanso da estrada em "recta" (na medida do possível, em montanha), que antecedeu este abastecimento.
A meio caminho entre as batatas, uma metade de banana e a sopa, avistei o Eduardo, com o seu estilo inconfundível. Sabia que era a sua primeira Ultra e fui perguntar-lhe como estava a correr. Tentei não demorar muito neste abastecimento, a ideia era fazer a pausa maior naquele que se seguia, porque sabia que era antes da terceira grande subida. Desejo um resto de boa prova e continuo, ainda a mastigar um bocado de fruta.








Quilómetro 32

Estou sentada a mastigar uma barrinha de cereais. Parece que ainda há bocado saí de um abastecimento a mastigar fruta... Na minha cabeça, a distância entre o PAC 3 e o PAC 4 foi muito curta, embora ainda tenham sido 7km. Tenho memória de ter corrido um pouco em asfalto, falado com um atleta que vinha com algumas dores, e quase ter aterrado com os queixos no chão numa descida em single-track, não fosse o apoio de um pinheiro ao qual consegui agarrar-me à última da hora. Fiz o resto da descida bastante devagar e criei um comboio enorme de atletas atrás de mim. Perguntei diversas vezes se alguém queria passar, mas ninguém parecia com muita vontade (devem ter assistido à minha quase queda mortal) e tive de ser eu a assumir a responsabilidade e pressão de estabelecer o ritmo da locomotiva. Mal apanhei o terreno mais seguro tentei compensar a velocidade e quando dei por mim estava em Fórmea, no abastecimento do km32.
Não me apetece sair daqui. Eu não comi nada disso, mas este abastecimento era um luxo: havia bifanas feita na brasa à nossa frente, camarão (!!!) e até minis. O local também é bastante pacato e caricato, em xisto e junto a um pequeno ribeiro. Tal como eu, dezenas de outros atletas ocupam todos os lugares sentados disponíveis, em bancos de pedra ou mesmo nas escadas. Está-se bem aqui, quase a criar a moleza que se segue à refeição. Tenho de me lembrar que estou numa prova e faço-me novamente ao caminho, subindo as escadas que nos levam daquele pequeno éden a caminho da próxima subida. Se soubesse, tinha ficado mais um bocadinho...








Quilómetro 33 (cont.)

(...) O homem que desabafou com F grande olha para trás e, vendo que vem uma senhora (eu), pede desculpa. - "Esteja à vontade, entendo-o perfeitamente", respondo eu. - "Só não grito uma asneira também para poupar energias", acrescento, mas esta parte só dentro na minha cabeça.
Para terem uma ideia, há umas centenas de metros tinha avistado uma cobra, preta, enroscada a meio do trilho, e tinha ficado sem reacção a olhar para ela. "Estou tão cansada, vais ter de ser tu a desviar-te", disse-lhe eu telepaticamente, e ela deve ter ouvido, porque se desviou, a serpentear a caminho do abrigo. Ainda hoje estou surpreendida com a minha calma perante tal avistamento, eu que odeio cobras, só para verem o que o desgaste físico faz a uma pessoa...
Se a zona das eólicas foi a minha parte preferida, esta foi a pior parte de toda a prova para mim. Foram "só" 3km a subir o monte, mas de forma muito inclinada, e o sol aquecia-me a pele e os músculos já de si a escaldar. Pela segunda vez na prova, invejei os bastões de quem passava. Não será a última.
Depois de ter atravessado o que me pareceram ser os nove níveis do Inferno e de ter achado que não seria mais capaz de tornar a correr no resto da vida da prova, cheguei finalmente ao topo. E, milagrosamente, consegui retornar a corrida e tudo!






Quilómetro 36

PAC5 Penedos Altos

- Não és amigo do Cardoso, do CAL?
E era mesmo! Reconheci a t-shirt do Clube de Atletismo de Lamas, esse grande clube que conheço devido ao blogue do Carlos, também conhecido por Papa Kilómetros. E assim pessoas desconhecidas tornam-se "conhecidas" e tive companhia para alguns quilómetros. Falou-se de São Mamede e do grupo de Pernetas que irão fazer os 100km. Quando estamos no km36 de uma prova de 50, ouvir alguém falar de uma prova de 100 parece uma ideia completamente insana. É diferente quando estamos a conversar numa esplanada, sem empenos, a planear a próxima Ultra. (Muita força!)

Apesar de estarmos no topo, temos seeeempre de ir até ao cume dos cumes (claro) e ainda faltava subir até àquele piquinho que se vê nas fotos, a Capela de Nª Srª das Necessidades.






Quilómetro 41

A vista do Colcurrinho. Daqui para a frente, é sempre a descer.

Ambulâncias e bombeiros sempre presentes. Quase sempre nos topos.
(Conseguem descobri-las todas ao longos das fotos?)

PAC6


Quilómetro 42

Esta descida... (Cadê os meus bastões?)



Quilómetro 46

Depois da descida que se seguiu ao Colcurrinho, onde protagonizei uma espécie de dança pata-choca para a fazer (não sabem o que é uma dança pata-choca? Esperem até encontrar uma descida de muito desnível ao fim de 42km de prova...), seguiu-se um estradão teoricamente corrível. Agradeço ao rapaz que passou e me deu força (e um bocadinho de orgulho para não caminhar quando todos estavam a correr), porque aqui já vinha a acusar o cansaço. Avistava-se já o INATEL ao longe, à direita, mas o estradão começou a virar para a esquerda...


Quilómetro 49

Está quase!
Será que está?...
Chego com as plantas dos pés a arder depois da descida até Foz de Égua. O último abastecimento anunciado para os 47km estendeu-se um bocadinho e, apesar de saber que tínhamos de virar para Foz de Égua (que merece bem uma visita, é lindo) antes de entrar em Piódão, estar a correr e a ver o edifício do INATEL a "afastar-se", doeu um bocadinho no coração (e nas pernas).
Na chegada ao PAC7 sou recebida com uma grande ovação porque "vem aí uma senhora!". É a vantagem de haver poucas mulheres neste percurso (concluímos 19, em mais de 200 homens), mas fiquei com pena dos  companheiros que me seguiam e que não tiveram direito a tanta festa. :)
Aqui não quis parar, estava na ânsia da meta. Uma placa anunciava que faltavam apenas 2,8km, mas eu acho que era mentira, porque ainda levei uma boa meia hora a chegar a Piódão! Mais de 10min/km?? Que é isto?!
São os últimos quilómetros de uma Ultra que termina a subir... :) (Mesmo assim fiquei contente, porque no abastecimento estavam a prever cerca de 40 minutos até à meta e eu na altura nem queria acreditar que ainda tinha tanto tempo pela frente...)




Quilómetro 51

- "Força menina, que coragem!", Grita-me uma senhora sentada à porta de sua casa. Eu acho que sorrio e faço um ligeiro aceno, mas já nem sei. A aldeia deve ser linda à luz dos raios quentes do final do dia, mas eu já estou com a cabeça na meta e estou decidida a terminar antes de o sol se pôr. Peço um último esforço aos pés que se massacram contra o piso em pedra e correm. Ainda correm. Passo dois ou três atletas. Turistas que se passeiam por Piódão param para nos bater palmas e dar ânimo. 


O INATEL ao cimo. Tão perto e tão longe...



A 200 metros da Meta

Começam as escadas e já não aguento. Os pés colaboraram mas as pernas já não. Subo muito lentamente e sou ultrapassada pelos atletas que tinha acabado de passar e que agora me dão força. Já oiço a música e a voz do speaker que vai anunciando as chegadas. Daqui a poucos minutos será a minha vez. "Só mais uma escada", repito vezes sem conta sem olhar para cima, para a vista não trair a mentira que me conto.

A meta ao cimo, tão perto e tão longe...

Fim

Naquele fôlego que só o avistar da Meta dos dá, consigo correr os últimos metros de estrada que se seguiram às escadas. Cortei a Meta, já está! E o sol brilha, fraco, mas ainda brilha.
- "Ainda vem toda fresca!", dizem (simpáticas) as senhoras do abastecimento. Agarro numa bifana e enfio quase metade na boca, esgalgada de fome.
- "É shó phor fhora", respondo de boca cheia entre mastigadelas. Acho que as assusto.

Nunca uma bifaninha e uma canja me souberam tão bem! É verdade o que dizem, os ares da Serra dão fome... :) E foram muitas horas nesta Serra a que quero voltar.