Era difícil manter os olhos na estrada com a aproximação de Montejunto. Os campos, que a ladeiam, são verdejantes e frescos, com a serra como pano de fundo. A chuva intermitente dos dias anteriores serviu para avivar as cores e refrescar o ar. Hoje já não chove. Hoje, está o primeiro dia de calor desde há muito tempo. Durante uns minutos, enquanto a estrada serpenteava serra acima, chegamos a ficar envolvidos em brumas e tenho a esperança de que a temperatura desça um bocadinho. Para lá do vidro é tudo tão bonito e mágico. Continua a ser difícil manter os olhos na estrada. Quem diria que havia um local como este relativamente perto de casa? Se soubesse, já tinha para cá vindo treinar.
Quando contornamos a encosta o sol regressa em força e ilumina a chegada ao quartel, local da partida, no meio de uma paisagem mais seca e inóspita, típica do cume das serras. Sim, decididamente, o primeiro dia de calor desde há muito tempo. Vamos levantar os dorsais e o chip em formato de pulseira, e tudo se desenrola de forma relativamente rápida. São 9 horas e já estou na partida, entre cerca de outros 60 atletas, enquanto converso com amigos das corridas que já não via há algum tempo. Até aqui, nada indicava que este não seria um dia de prova como todos os outros.
É dada a partida e começamos imediatamente a subir. Vamos pelo asfalto que nos leva para fora do quartel e vira na direcção do parque de campismo. É uma subida gradual, por isso faz-se bem e a ritmo certo.
Com pouco mais de um quilómetro abandonamos a estrada para cortar por um estradão que começa a descer, perdendo o desnível que tínhamos ganho até então, e ainda mais.


Esta descida irá prolongar-se praticamente quase até ao sopé, primeiro em piso largo, mas cheio de pedra, depois em single-track, em terra seca e escorregadia. Esta parte da descida foi feita a um ritmo bastante lento e cauteloso. Por azar, foi quando começámos a ser alcançados pelos primeiros atletas da prova dos 21km, o que causa ali alguns momentos de tensão, já que quase não havia espaço para me desviar e eles chegavam lançados. Isto vai fazer com que tenha de parar bastantes vezes e começa a deixar-me nervosa. Primeiro sinal de que alguma coisa não estava bem. Eu nunca fico nervosa em provas, apenas antes, os nervos de adrenalina habituais que se evaporam mal soa o tiro de partida. Mas agora, tanta pausa forçada que tive de fazer, e ter de ir de ouvido atento para perceber a aproximação de atletas e encontrar rapidamente um nicho onde me encostar para não atrasar nem ser levada à frente, começaram a afectar-me. Foi um alívio quando finalmente chegámos ao ponto mais baixo, mesmo que isso significasse que iria iniciar-se a íngreme subida de quilómetro e meio até ao primeiro abastecimento, aos 6km.

Depois de uma pequena recta que deu para correr um bocadinho, uma placa anuncia que a próxima subida "Vai doer!". Mais à frente, outra indica que "Vai valer a pena" e eu sorrio, porque sei que sim, vale sempre, e por isso é que estou aqui. Esqueço-me da tensão dos quilómetros anteriores e começo a dar uso aos músculos de escalada.
Uma perna à frente da outra, mãos apoiadas nas coxas. Seguimos numa enorme fila de atletas dos 38km e dos 21km que entretanto se misturaram. A vegetação adensa-se e não corre um ar. Levo uma mão à testa e limpo o suor. No meio do abafo, sinto suores frios. Isto não pode ser bom. Paro e encosto-me para o lado onde posso. Deixo passar todos os atletas que me seguiam, alguns comentam alguma coisa mas eu nem fixo, nem respondo. Procuro a minha cara conhecida, que seguia mais abaixo, e, quando a vejo, oiço-me dizer numa voz que não parece a minha: "não me estou a sentir bem".
Não me estou a sentir bem. As mãos tremem quando ingiro o gel que me passam para as mãos, numa tentativa de restabelecer rapidamente o açúcar, e bebo água. Aos poucos, as caras que sobem e nos ultrapassam começam a tornar-se mais distintas. Não me estou a sentir bem, mas não quero continuar ali, onde há pouco espaço para mais de uma pessoa de cada vez e não corre uma brisa que seja. Assim que recupero um bocadinho, faço os metros que faltam até ao abastecimento.
A vista do primeiro abastecimento era muito bonita, a lembrar os campos verdejantes por onde tinha passado de manhã. Também fica num espaço mais descoberto e corre uma aragem fresca. Sinto-me melhor. Não sei porque tive a quebra de há pouco, se devido a uma má nutrição, se devido ao calor, mas deixou-me sem energia nenhuma. Consigo caminhar e até correr, se for preciso, mas comecei a questionar-me se deveria continuar. O dia começava a ficar cada vez mais quente, veio-me à memória o inferno do
Almonda e a corrida zombie do
CUT e se seria capaz de conciliar as duas coisas. Mas estava com 6km e não é o início que define como uma prova há-de correr, por isso decidi seguir até ao próximo abastecimento e reavaliar a partir daí.
Por azar, pouco mais à frente, perdemo-nos do percurso. Culpa de ir a seguir os atletas da frente e não olhar para as sinalizações. Esta prova esteve sempre muito bem assinalada, com fitas e placas de incentivo e informação das diferentes distâncias. Quando muito, pecou por excesso de placas. Com os 21km e os 38km e a Caminhada a cruzarem-se várias vezes, bastava um olhar menos atento para seguir na direcção errada. Fica a sugestão de usarem diferentes cores para cada distância, de futuro. De qualquer forma, como disse, a sinalização estava irrepreensível, seguimos na direcção errada por distracção. Foram apenas uns 200 a 300 metros, mas a descer, o que significa que tivemos de voltar para trás e subir. Acho que foi aí que desisti de tentar correr.

Seguiu-se a subida até ao ponto mais alto da serra, aquela que mais esperava, porque "chegar lá acima e olhar em volta" é aquilo que mais me move nesta experiência de trilhos pelas serras e montanhas e que faz tudo valer a pena, como dizia a placa. Mas não neste dia. Neste dia, esta subida de 3 km vai-me parecer interminável e quase só vou olhar para baixo, para os meus pés, que se movem ao ritmo mais lento possível.
Parei mais ou menos a meio para ver o que ainda faltava:
e o que tinha ficado para trás:
A menos de 1km do topo:
Quase lá...
Cheguei.
Era assim que a minha mente estava a processar o momento. Quase por monossílabos, inexpressiva, sem emoção. Fiquei contente de chegar ao topo, claro, mas não fiquei
feliz, nem me lembro de ter olhado em volta.
Estava sem energia, o que não era inédito para mim, mas, sobretudo, estava sem emoção. Pela primeira vez, não estava a tirar qualquer prazer de estar numa prova. Não era culpa do local, que era lindo, nem das pessoas, muito prestáveis. Sabia que, se continuasse, iria conseguir terminar a prova. Iria custar-me muito e sofrer bastante com o calor e, se por um lado, o sofrimento não me preocupa (quer dizer, quem corre sabe que é inevitável!), por outro, preocupava-me o facto de ter nova quebra apenas por capricho. Não valia a pena. Esta não era a minha prova. Assim que aceitei isso tornou-se tudo mais fácil.
Quando surgiu a separação dos percursos, 21km para um lado e 38 km para outro, despedi-me do A., que me acompanhava, e segui para os 21km. Sem dramas, sem arrependimentos.
Segui os últimos 6km até à meta sempre a passo. Não tinha energia para correr e não queria ficar pior, agora que ia sozinha. Levei o telemóvel à mão, por precaução e qualquer eventualidade, e até prometi ligar, mas cedo me apercebi de que não havia rede na serra. No entanto, havia ainda bastantes atletas dos 21km em prova atrás de mim, acabei por nunca ir sozinha. Pensei que, assim que estivesse só, ia chorar, revoltar-me com a minha decisão, reagir intempestivamente, mas fiquei bastante admirada com a minha serenidade.
Cortei a meta e avisei a organização da minha alteração de percurso. Sabia que por ter feito os 21km em vez dos 38km, para os quais me inscrevi, ia significar que não ia aparecer classificada, mas não me importei. Fui ao carro buscar a minha mochila, tomei um duche frio, que até me soube bem, e, depois de comer qualquer coisa, fui fazer algo que nunca tive oportunidade de fazer antes, já que sou quase sempre das últimas a chegar: fui ver os últimos metros dos atletas que chegavam.
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| Local a 200 metros da meta. |
Enquanto esperava e aplaudia, genuinamente contente, por quem chegava, tive tempo de assimilar o que se tinha passado. O arrependimento nunca chegou, embora confesse que acabei por ficar um pouco triste. Triste porque, por mais que uma pessoa treine e se prepare, há sempre tanta condicionante que pode correr mal. Esta não era a minha prova, mas... e se fosse? E se fosse daqui a um mês?
E triste porque, naquele dia, não gostei de correr. Odiei correr. Vomitei correr. Estava em trilhos novos e bonitos e não queria lá estar. E, sem qualquer pretensão atlética, o "gozo" é a única coisa que me faz correr. No meio do sofrimento há sempre uma chama que nos faz continuar e voltar. Ser feliz nos trilhos é o que eu sou, e naquele dia não fui.
Irei falar mais sobre este tema, a propósito do que tem sido toda a minha preparação para a aventura de Junho, mas esta não é a crónica para isto. Esta é a crónica do Montejunto Trail, que, apesar de só ter feito os 21km, merecia ser corrido na sua totalidade.
Hoje, até já penso lá voltar para treinar, um dia destes, com os tracks das provas. É uma serra com muita pedra, trilhos muito técnicos e até alguns locais sem qualquer trilho, para correr por onde dá. Dureza e beleza aqui tão próximas. Só lhe falta uma ribeirazita ou cursos de água, para aliviar no calor do Verão (em certos troços da prova trouxe-me
déjà vus de Almonda). Quanto à Organização, também esteve impecável. Quer dizer, se houvesse duches de água quente no final seria melhor (ihihih), mas como esteve calor até acabou por não custar muito. Percurso durinho, mais técnico que em anos anteriores, pelo que disseram, mas sempre bem assinalado e com escuteiros em cruzamentos ou locais de travessia de estrada. Abastecimentos com o essencial (tinha umas barrinhas caseiras de que fiquei fã!) e, no final, ainda tivemos direito a almoço. Frango assado na brasa, canjinha, pão, batatas fritas e fruta para repetirmos as vezes que quiséssemos. Almoçámos já deviam ser umas 15h e ainda havia bastante comida. Os voluntários sempre muito simpáticos e prestáveis, apesar de já estarem há horas a servir o almoço à torreira do sol.
Serra de Montejunto, conheci-te num mau dia. Prometo que hei-de voltar e ainda havemos de ser muito felizes juntas.