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20 de outubro de 2014

Extremamente cansada e feliz na Lousã

Começa a ser difícil, e até injusto, nomear alguma prova de trilhos como a "mais bonita". Cada zona tem o seu encanto e cada percurso as suas particularidades especiais. Mas digamos que, até agora, o Trail Serra da Lousã foi aquele que mais se aproximou do meu ideal de Paraíso Outonal de Corrida. O bosque, os cogumelos (!!!), as aldeias de xisto, os riachos, as cascatas... Tinha um bocadinho de lama e pedra a mais em alguns sítios, mas o que é uma prova sem alguns desafios? Até o tempo colaborou com aquela névoa que gosto tanto. 


A minha mente esteve encantada o tempo todo, o corpo é que se revoltou um bocado. Era uma prova dura, com muito acumulado, sobretudo para quem ainda sentia a memória de Arga nas células. Ou seja, desta vez não houve qualquer luta mental, o desafio foi mesmo apenas físico, contra um organismo que fraquejou nos primeiros quilómetros e umas pernas que batalharam nos restantes. Mas está feito, e adorei!

Este é um trail daqueles que deve ser feito pelo menos uma vez. Infelizmente o meu telemóvel deixou de colaborar e por isso não tenho muitas fotos do percurso, e acho que nenhuma a partir do km25. Mas, acreditem em mim, mesmo que não seja em prova é uma zona que merece uma visita. Levem calçado adequado e aventurem-se pelos percursos pedestres que ligam os lugares de xisto. Passámos por muitos grupos de caminhada. Se forem nesta altura e levarem um saco para o vosso passeio, ainda voltam para casa com quilos de castanhas para o jantar... Por alguma razão a vila se haveria de chamar Castanheira de Pêra. ;)

Crónica destes 42km e mais alguns, em seguida.

Boa semana!

17 de outubro de 2014

Os míscaros

- Estás a ver aquele ali? Com o pé amarelo? Aquele podes apanhar, é dos bons.

Eu olho e parece igual a todos os outros cogumelos que já enchem o saco.
Estes cogumelos, ou melhor, os míscaros, são uma iguaria muito apreciada na minha terra. É preciso saber distingui-los e o olho de lince neste ritual de separar os bons dos maus por entre a miscelânea de espécies silvestres parece-me quase mágico.

- Aqueles ali é que não convém tocar. Estás a ver o pezinho de lado assim e assim e aquele pormenor aqueloutro e tal? [Aparte: não prestei atenção. Em retrospectiva devia tê-lo feito, não sei se algum dia a minha vida vai depender disso].

- Ahhhh…, digo eu. Mas não vejo qualquer diferença para os anteriores.

- Basta um único cogumelo venenoso no tacho no meio dos outros todos para poder morrer toda a gente que comer esse prato, sabias?

Fascina-me e aterroriza-me em doses iguais esta roleta russa que as pessoas jogam com a vida na apanha dos míscaros. “Basta um cogumelo venenoso…”

Voltamos para casa com o saco cheio, as minhas tias e eu. A humidade pinga das agulhas dos pinheiros e a nossa respiração é expelida em golfadas de vapor. Ao longe vêem-se as casas em xisto, com chaminés a fumegar. Da forma que estão dispersas no meio da paisagem, aparentemente sem nenhuma lógica ordenada, dir-se-ia que também ali cresceram do dia para a noite como os cogumelos. Gosto desta simetria imperfeita. Cheira a fogão a lenha, é Outono e está frio na Serra. Mais logo vai haver arroz de míscaros ao jantar, feito não num fogão a lenha, mas a gás. - Está mesmo bom!, vai dizer a família mais tarde. Eu não sei, não comi. Até hoje recuso-me a comer cogumelos silvestres, mas continuo a gostar muito de os ver, de participar como espectadora no ritual da “ida aos míscaros” e de depois passar toda a noite com o coração nas mãos, atenta ao mínimo sinal de síncope por parte de quem os comeu. (Esta última parte já não gosto tanto).

O que tem esta história a ver com corrida? Aparentemente nada.

Mas havia um cogumelo gigante no percurso da Serra d’Arga. Tão grande que acredito que terão sido poucos os atletas que não tenham dado por ele. Dava para alimentar uma família de quatro (se não fosse dos venenosos).

E, além disso, até hoje não posso ver paisagens como estas...




Fotos retiradas da página oficial da prova.


… que não me apeteça logo andar por lá a correr.


Por isso é que amanhã vou estar na Serra da Lousã, porque, em maior ou menor escala, toda a gente tem a sua roleta russa. Aquilo com a sua dose de risco, mas que dá emoção à vida. Esta é a minha.