7 de junho de 2014

Treinos por Trilhos de Sintra #6 - As arribas

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
in "Mar Português", Fernando Pessoa


Parada a olhar o mar, ela pensa naqueles que, há cerca de 600 anos, olhavam este mesmo mar, quem sabe neste exacto local, e questionavam o que haveria para lá da linha do horizonte. Foi uma época áurea, de navegadores intrépidos, que arriscavam rumo ao desconhecido.
Ela, apesar do fascínio da montanha, tem em si os genes lusitanos que a atraem para este abismo azul, e que a fazem, de vez em quando, descer da serra para procurar aquela inquietação relaxante, o temor e a calma em iguais doses, que só o oceano provoca.

Bem menos intrépida que os seus antecessores, não embarca por mares nunca dantes navegados, mas gosta de dedicar o seu domingo a correr à descoberta de caminhos nunca antes calcorreados.

Por entre esta floresta de abetos e silvas existe um trilho, juro-vos!
Aqui está ele, um pouco mais definido.

Caminhos que levam aos lugares de sempre...

Peninha.
Ou a outros, já conhecidos, mas aos quais há muito se devia uma visita. Foi desta.

Cabo da Roca.

Na descida para a Azóia, o passo solto de corrida (solto, porque é a descer, bem entendido!) faz-se lado a lado com dezenas de motorizadas que peregrinam ao local, numa partilha de asfalto inevitável. O que se perde em paz sonora, ganha-se em impacto visual, à medida que os passos nos aproximam das falésias.

O Fim da Europa.

Chegada ali, onde termina a terra e começa o mar, fiz então uma pausa para absorver a imensidão do que via, para compreender aqueles para quem o fim da terra foi apenas o início de um caminho muito maior. E também para recuperar para o que ainda me esperava. A terra termina aqui, mas o  treino, com pouco mais de 12km, ainda nem vai a meio. Contorno o azul, iço as velas da corrida e aproveito o vento sempre presente no local.

Flyyyy!
Dali para a frente, será um sobe e desce constante, numa ondulação de arribas mais ou menos inclinadas, mais ou menos "corríveis", mais ou menos perigosas, mas sempre lindas.



Às vezes, o que parece ser um trilho definido termina abruptamente. São becos sem saída, miradouros, ou caminhos pouco percorridos que a vegetação reclama para si. Por vezes conseguimos reencontrá-lo uns metros à frente, outras temos de improvisar uma nova volta, recuar, virar à esquerda quando o que queremos é ir pela direita. Nos trilhos, nem sempre a distância em linha recta é a mais rápida e acontece frequentemente nem sequer ser a mais viável.


Eu vejo onde quero ir, mas como lá chegar? (A eterna questão.)

Mas é bom ir à deriva quando se descobrem outros portos, tão ou mais bonitos do que o que tínhamos programado.


E, com quase 20km percorridos, todos merecem uma praia onde ancorar.


A água fria atrai os músculos cansados como o canto de uma sereia. Nem luto, procuro activamente a origem do som e cedo ao mergulho, naquela que é a melhor parte destes treinos estivais.



Mas porque nem tudo são mares calmos, a cada treino pode enfrentar-se uma tormenta. Neste caso, depois da pausa fresca, seguiu-se uma longa e lenta subida, de inclinação moderada, sem sombras e com o sol a pique. O meu Adamastor particular. É nesta altura que as velas da corrida são amainadas e a embarcação segue devagar, como que arrastando atrás de si uma âncora esquecida.

"Ó Mar salgado, quanto do teu sal" foi suor que aqui deixei...

Solidária, a natureza vem em meu resgate. Passa uma lebre (das verdadeiras, de quatro patas, não daquelas que nos marcam o ritmo nas provas), que cruza o trilho em saltos elegantes e velozes, em seguida um faisão, num encontro de primeiro grau em que nem sei qual de nós se assustou mais, e começo novamente a focar-me na beleza.

 

Até a aproximação do final do treino e das primeiras casas permite a beleza de correr em ruas com o nome de Amor (mesmo que a dita rua fosse sempre a subir, raiosparta!) e, em seguida, com o nome de Paz (finalmente no topo!). Era daqueles bairros típicos, encurralados entre mar e serra, horríveis de se viver, como devem imaginar... ;)

Quando se termina o treino de domingo, ficam na memória paisagens como as de cima. E gráficos como o de baixo!

O mar estava revolto! :)

30,5km, cerca de 1400 metros de acumulado positivo. Foi a minha maior distância em treino até ao momento. Experiências fantásticas à parte, também sabe sempre bem terminar e ver estes números. São os dias em que o corpo acompanha os voos da alma.


Bom fim-de-semana!

5 de junho de 2014

Corrida Solidária Bosch 2014 - Dorsais




Eu sou da opinião de que o simples acto de correr ajuda-nos a contribuir para um mundo melhor. Por nós, que o fazemos por gosto e, dessa forma, somos mais felizes, e pelos outros, que nos rodeiam, e agradecem essa troca de felicidade no trato. Podendo aliar essa vertente a uma causa imediata e palpável, melhor ainda. Por essa razão, venho falar-vos da Corrida Solidária Bosch:

"Uma corrida solidária, em que o valor angariado entre inscrições e patrocínios é doado a instituições de solidariedade social. O valor angariado através do apoio de parceiros e das inscrições é totalmente revertido a favor de cinco instituições: uma de âmbito nacional - Ajuda de Berço – e quatro instituições locais - Centro de Emergência Infantil da Cáritas de Aveiro, Centro de Acção Social do Concelho de Ílhavo, Associação Humanitária Mão Amiga de Albergaria-a-Velha e ainda o fundo de apoio a alunos da Universidade de Aveiro com necessidades especiais."

No próximo dia 29 de junho, às 09h, vai ter então lugar a terceira edição da Corrida Solidária Bosch Portugal, que vai ligar as cidades de Ílhavo e Aveiro em duas vertentes: a caminhada de 5km e a corrida, que tem um percurso de 10km.

E eu tenho o prazer de, através da Organização do evento, poder contribuir com, pelo menos, mais duas presenças. Tenho dois dorsais para os dois atletas mais rápidos a cortar a Meta, que, neste caso, será apenas enviarem-me um email, com "Corrida Solidária Bosch" no assunto, indicando o nome e número de BI/CC.


Para mais informações sobre o regulamento: http://corridabosch.fullsport.pt/


Boa sorte!

2 de junho de 2014

E o que fica é a certeza de querer continuar

Uma vez vi um episódio do Dr. House, em que uma paciente sofria de uma patologia da qual agora não me recordo o nome, mas que fazia com que se lembrasse de tudo o que acontecera na sua vida. A memória dela era como um disco rígido em que ficavam registados todos os acontecimentos e todas as conversas, sem nenhum critério ou filtro. O que à primeira vista poderia parecer uma bênção, na verdade estava a dar-lhe cabo da vida, porque era incapaz de manter uma relação afectiva de qualquer espécie. Toda e qualquer discussão ou desavença que tivesse tido com alguém, todas as palavras proferidas, eram vividas como se tivessem acabado de acontecer, provocando-lhe a dor e desilusão constantes, tornando-a incapaz de superar o sucedido. Não sei porque razão as suas memórias negativas se sobrepunham a todas as outras, mas, no caso desta mulher, "o tempo cura tudo" era um conceito desconhecido. Para esta mulher, o "tempo" das coisas era sempre recente.

Não consigo explicar melhor, nem sei se tal patologia existe ou foi apenas exacerbada para efeitos televisivos, mas dou graças à minha memória selectiva, porque, de outra forma, nunca correria na vida.

Salvo raríssimas excepções, há sempre um momento durante a corrida (só um, se tivermos sorte) em que estamos a odiar aquilo com todas as forças. Podem ser só uns breves segundos, podem ser alguns minutos ou, a minha solidariedade se também já passaram por isso, arrastar-se durante longos e penosos quilómetros. Aquele momento, vocês sabem, do: "Mas para que é que me meto nisto?"

Às vezes grita e ecoa dentro da nossa mente.

- "Mas para que é que me meto nisto?"

Páro e olho em volta.

- "MAS PARA QUE É QUE ME METO NISTO??!"

Páro e olho em volta.

O que vale é que, ao contrario da paciente do Dr. House, esse momento passa. Passa sempre. Por vezes no minuto seguinte, por vezes apenas alguns quilómetros depois, por vezes só mesmo no momento em que cruzamos uma meta, real ou fictícia, e terminamos de correr.

No fim do dia, é disto que me vou lembrar.

A verdade é que, mais tarde ou mais cedo, a filtragem da memória se encarrega de apaziguar as dores morais e tudo torna a parecer possível. E o: "Xiça, nunca mais na vida!", rapidamente passa a: "Mal posso esperar pela próxima!". Geralmente, uma próxima ainda mais dura e desafiante. Claro.

Memória selectiva, obrigada por seres benevolente com os meus sonhos.


Nota: Fotos do belíssimo treino longo de Domingo, que merece posterior destaque. Os momentos de auto-dúvida foram breves, mas intensos, sobretudo para as minhas coxas e glúteos. Óbvio que quando me sentei no carro, de regresso, já só pensava em voltar.


Boa semana!