Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
in "Mar Português", Fernando Pessoa
Parada a olhar o mar, ela pensa naqueles que, há cerca de 600 anos, olhavam este mesmo mar, quem sabe neste exacto local, e questionavam o que haveria para lá da linha do horizonte. Foi uma época áurea, de navegadores intrépidos, que arriscavam rumo ao desconhecido.
Ela, apesar do fascínio da montanha, tem em si os genes lusitanos que a atraem para este abismo azul, e que a fazem, de vez em quando, descer da serra para procurar aquela inquietação relaxante, o temor e a calma em iguais doses, que só o oceano provoca.
Bem menos intrépida que os seus antecessores, não embarca por mares nunca dantes navegados, mas gosta de dedicar o seu domingo a correr à descoberta de caminhos nunca antes calcorreados.
Caminhos que levam aos lugares de sempre...
Ou a outros, já conhecidos, mas aos quais há muito se devia uma visita. Foi desta.
Na descida para a Azóia, o passo solto de corrida (solto, porque é a descer, bem entendido!) faz-se lado a lado com dezenas de motorizadas que peregrinam ao local, numa partilha de asfalto inevitável. O que se perde em paz sonora, ganha-se em impacto visual, à medida que os passos nos aproximam das falésias.
Chegada ali, onde termina a terra e começa o mar, fiz então uma pausa para absorver a imensidão do que via, para compreender aqueles para quem o fim da terra foi apenas o início de um caminho muito maior. E também para recuperar para o que ainda me esperava. A terra termina aqui, mas o treino, com pouco mais de 12km, ainda nem vai a meio. Contorno o azul, iço as velas da corrida e aproveito o vento sempre presente no local.
Dali para a frente, será um sobe e desce constante, numa ondulação de arribas mais ou menos inclinadas, mais ou menos "corríveis", mais ou menos perigosas, mas sempre lindas.
Às vezes, o que parece ser um trilho definido termina abruptamente. São becos sem saída, miradouros, ou caminhos pouco percorridos que a vegetação reclama para si. Por vezes conseguimos reencontrá-lo uns metros à frente, outras temos de improvisar uma nova volta, recuar, virar à esquerda quando o que queremos é ir pela direita. Nos trilhos, nem sempre a distância em linha recta é a mais rápida e acontece frequentemente nem sequer ser a mais viável.
Mas é bom ir à deriva quando se descobrem outros portos, tão ou mais bonitos do que o que tínhamos programado.
E, com quase 20km percorridos, todos merecem uma praia onde ancorar.
A água fria atrai os músculos cansados como o canto de uma sereia. Nem luto, procuro activamente a origem do som e cedo ao mergulho, naquela que é a melhor parte destes treinos estivais.
Mas porque nem tudo são mares calmos, a cada treino pode enfrentar-se uma tormenta. Neste caso, depois da pausa fresca, seguiu-se uma longa e lenta subida, de inclinação moderada, sem sombras e com o sol a pique. O meu Adamastor particular. É nesta altura que as velas da corrida são amainadas e a embarcação segue devagar, como que arrastando atrás de si uma âncora esquecida.
Solidária, a natureza vem em meu resgate. Passa uma lebre (das verdadeiras, de quatro patas, não daquelas que nos marcam o ritmo nas provas), que cruza o trilho em saltos elegantes e velozes, em seguida um faisão, num encontro de primeiro grau em que nem sei qual de nós se assustou mais, e começo novamente a focar-me na beleza.
30,5km, cerca de 1400 metros de acumulado positivo. Foi a minha maior distância em treino até ao momento. Experiências fantásticas à parte, também sabe sempre bem terminar e ver estes números. São os dias em que o corpo acompanha os voos da alma.
Bom fim-de-semana!
Ela, apesar do fascínio da montanha, tem em si os genes lusitanos que a atraem para este abismo azul, e que a fazem, de vez em quando, descer da serra para procurar aquela inquietação relaxante, o temor e a calma em iguais doses, que só o oceano provoca.
Bem menos intrépida que os seus antecessores, não embarca por mares nunca dantes navegados, mas gosta de dedicar o seu domingo a correr à descoberta de caminhos nunca antes calcorreados.
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| Por entre esta floresta de abetos e silvas existe um trilho, juro-vos! |
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| Aqui está ele, um pouco mais definido. |
Caminhos que levam aos lugares de sempre...
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| Peninha. |
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| Cabo da Roca. |
Na descida para a Azóia, o passo solto de corrida (solto, porque é a descer, bem entendido!) faz-se lado a lado com dezenas de motorizadas que peregrinam ao local, numa partilha de asfalto inevitável. O que se perde em paz sonora, ganha-se em impacto visual, à medida que os passos nos aproximam das falésias.
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| O Fim da Europa. |
Chegada ali, onde termina a terra e começa o mar, fiz então uma pausa para absorver a imensidão do que via, para compreender aqueles para quem o fim da terra foi apenas o início de um caminho muito maior. E também para recuperar para o que ainda me esperava. A terra termina aqui, mas o treino, com pouco mais de 12km, ainda nem vai a meio. Contorno o azul, iço as velas da corrida e aproveito o vento sempre presente no local.
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| Flyyyy! |
Às vezes, o que parece ser um trilho definido termina abruptamente. São becos sem saída, miradouros, ou caminhos pouco percorridos que a vegetação reclama para si. Por vezes conseguimos reencontrá-lo uns metros à frente, outras temos de improvisar uma nova volta, recuar, virar à esquerda quando o que queremos é ir pela direita. Nos trilhos, nem sempre a distância em linha recta é a mais rápida e acontece frequentemente nem sequer ser a mais viável.
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| Eu vejo onde quero ir, mas como lá chegar? (A eterna questão.) |
Mas é bom ir à deriva quando se descobrem outros portos, tão ou mais bonitos do que o que tínhamos programado.
E, com quase 20km percorridos, todos merecem uma praia onde ancorar.
A água fria atrai os músculos cansados como o canto de uma sereia. Nem luto, procuro activamente a origem do som e cedo ao mergulho, naquela que é a melhor parte destes treinos estivais.
Mas porque nem tudo são mares calmos, a cada treino pode enfrentar-se uma tormenta. Neste caso, depois da pausa fresca, seguiu-se uma longa e lenta subida, de inclinação moderada, sem sombras e com o sol a pique. O meu Adamastor particular. É nesta altura que as velas da corrida são amainadas e a embarcação segue devagar, como que arrastando atrás de si uma âncora esquecida.
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| "Ó Mar salgado, quanto do teu sal" foi suor que aqui deixei... |
Solidária, a natureza vem em meu resgate. Passa uma lebre (das verdadeiras, de quatro patas, não daquelas que nos marcam o ritmo nas provas), que cruza o trilho em saltos elegantes e velozes, em seguida um faisão, num encontro de primeiro grau em que nem sei qual de nós se assustou mais, e começo novamente a focar-me na beleza.
Até a aproximação do final do treino e das primeiras casas permite a beleza de correr em ruas com o nome de
Amor (mesmo que a dita rua fosse sempre a subir, raiosparta!) e, em
seguida, com o nome de Paz (finalmente no topo!). Era daqueles bairros típicos, encurralados entre mar e serra, horríveis de se viver, como devem imaginar... ;)
Quando se termina o treino de domingo, ficam na memória paisagens como as de cima. E gráficos como o de baixo!
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| O mar estava revolto! :) |
30,5km, cerca de 1400 metros de acumulado positivo. Foi a minha maior distância em treino até ao momento. Experiências fantásticas à parte, também sabe sempre bem terminar e ver estes números. São os dias em que o corpo acompanha os voos da alma.
Bom fim-de-semana!






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