Ou
o dia em que o corpo me morreu.
Versão Apontamentos Europa-América:
1km de prova:
-"
Isto hoje não vai ser fácil."
3km de prova:
- "
Isto hoje não está nada fácil."
(Silêncio)
7km de prova:
- "
Estou a morrer."
(Silêncio)
(Silêncio)
10km de prova:
- "
Morri."
20km de prova:
- "
Morri."
(Silênnnnciooooo)
30km de prova:
- "
Conta-me histórias."
(Silêncio)
40 km de prova:
- "
Acho que vou ter de beber para esquecer este dia."
(Silêncio)
47km de prova:
- "
Depois disto tudo, e já que cheguei até aqui, se cair para o lado, tu faz o favor de me arrastar até para lá da linha da meta."
(Silêncio)
49,5km de prova:
- "
Vamos correr e sorrir, para ao menos ficar com uma boa foto de Meta." (Bom ver que ainda estava capaz de pensar nas coisas importantes.)
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O Caldas Ultra Trail foi uma prova de muitos silêncios. Ainda estou para saber o que aprendi, se é que há alguma coisa para aprender, por ter concluído esta prova. Sei que não houve qualquer mérito em terminá-la. Foi daqueles dias em que o mais sensato seria desistir. O percurso em si não era particularmente difícil, embora toda a parte das arribas e alguma areia fizessem o seu desgaste. Não estava enjoada, nem especialmente cansada, simplesmente não tinha energia, faz sentido? Os meus músculos parecia que tinham sido substituídos por gelatina.
Assim sendo, porque insisti em continuar? Primeiro, porque, ao contrário do meu corpo, a minha mente queria mesmo estar ali. Toda aquela zona desconhecida, com a sua paisagem costeira, impossível não querer saber o que vinha no quilómetro seguinte. E, segundo e mais importante, tive sempre esperança de que iria "ressuscitar". Já tive "mortes" noutras provas e consegui sempre recuperar e, regra geral, terminar em força. Desta vez isso não aconteceu. Desta vez, fui sempre o bonequinho dos videojogos dos anos 90, desesperado à procura de mais energia, quando a barrinha já está só com um traço vermelho e a música ganha tons de urgência a anunciar o GAME OVER. Foi o meu optimismo inocente que me levou a persistir metro após metro, na esperança de encontrar a moeda que me fizesse ganhar mais uns minutos, a nuvem ou o cogumelo que me levassem para um nível superior de força máxima. Nunca aconteceu.
Se realmente aprendi alguma coisa, foi que existe jogo para além do GAME OVER, se quisermos (e se, como era o caso, a prova não tiver tempos limites). Não vamos é ter créditos, nem bónus, nem vitórias, nem a princesa à espera para nos dar um beijinho no final.
(Espero que também tenham jogado Super Mario Bros. na vossa infância/juventude, senão os últimos parágrafos não vos farão muito sentido e vão pensar que o sol das Caldas da Rainha estava muito forte.)
Agora, se vale a pena continuarmos em modo "training level"? Isso caberá a cada um decidir, tendo em conta os seus objectivos. Sei que, uma semana depois, apesar da facada no ego, fico contente por ter terminado. Mas passar toda uma prova num exercício de humildade, em desfile de fragilidade humana, não foi pêra doce. Seguem-se os meus pensamentos, pontuados por algumas considerações à prova.
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| Todas as fotos por ajb, excepto as indicadas. |
O dia estava encoberto e com muita humidade. Meia hora antes foi o suficiente para levantar os dorsais nas calmas, junto com a t-shirt e um copo desdobrável que será muito útil em provas futuras. Gosto de ofertas úteis, já que as medalhas acabo por as pôr a um canto, à espera do dia em que finalmente as organize.
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| Fotografia retirada da página de facebook da prova. |
Pouco depois das 8h era dada a partida. Começo na cauda do pelotão, como de costume, mas vai ser preciso pouco mais de 800 metros para perceber que aquele não vai ser um dia fácil.
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Isto hoje não vai ser fácil", digo.
Calma, é só o início, sabes que levas sempre algum tempo a aquecer, conheces as manhas do teu corpo. Vão doer-te os gémeos, os primeiros quilómetros vão ser difíceis, duvidosos, vais sentir-te cansada, mas depois passa. Depois recuperas...
- "
Isto hoje não está nada fácil", reforço ao km3.
Estou completamente encharcada em suor e não consigo estabilizar a respiração anormalmente ofegante. Não sei se é um bom sinal tão cedo na prova. Mas esta primeira parte está a ser muito corrível, se calhar começaste muito rápido, relaxa, respira fundo... Não olhes para trás! Vamos em último? Sabes que consegues recuperar, consegues sempre. Calma. Relaxa. Respira fundo.
Até ao segundo abastecimento o percurso será, de facto, muito corrível, mas a minha disposição não melhorou. Continuo com a respiração desgovernada e vou ter de começar a parar para caminhar mesmo em zonas sem dificuldades de maior. Depois começam a aparecer zonas com areia e as caminhadas começam a tornar-se ainda mais frequentes. Comi uns morangos no primeiro abastecimento, na Fonte Santa, junto com uma barrinha que tinha trazido, mas continuo sem energia.
- "
Morri", repito em voz alta por, pelo menos, duas vezes. Acho que é óbvio para quem me acompanha e (des)espera, mas quis reforçar. Tenho a esperança que a força apareça, trazida pela brisa do mar, no abastecimento dos 23km em Salir do Porto. Vai ter de aparecer, se quero conseguir sobreviver à segunda parte da prova, maioritariamente em arribas.
As pessoas dos abastecimentos e locais de controlo do CUT foram das mais simpáticas e prestáveis de todas as provas em que participei. Pena hoje não conseguir retribuir a atenção de forma mais expressiva. Aqui, os voluntários sabem das coisas e dão informações úteis, sem paninhos quentes. Avisam do "pior" que está para vir, quantos quilómetros vai demorar e como é o percurso, mas também dão ânimo. "Aquela duna ali à frente? Sim, é para subir!"
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| Foto retirada da net. |
Pára de tirar fotografias deste meu momento humilhante e ajuda-me a subiiiir! Não vês que estou morta? Não vês que é uma zombie que está aqui a tentar escalar esta duna sem deixar nenhum bocado para trás, para além da dignidade, que ficou ali em baixo aos primeiros metros quando tive de curvar as costas quase até ao chão para conseguir avançar?
Pensei que junto à vegetação a subida fosse mais fácil, mas os pés enterram-se na mesma e não consigo levantá-los com a rapidez suficiente para impedir que um quilo de areia me entre para os ténis. Não vale a pena sacudi-los ainda, porque a duna que subimos iremos ter de descer mais à frente. Descer uma duna é muito mais divertido que subi-la. E é fácil, temos a segurança de um piso suave. Largo por ali abaixo quase como o Kilian Jornet naquela foto que partilhei com vocês na crónica anterior (só que não.) Mas tive aqui, penso, dos pequenos momentos de leveza que me foram permitidos ao longo da prova. Aproveitei bem.
Entretanto, esta era a paisagem a metade do trail...
Na próxima praia que aparecer vou-me sentar e descansar um bocado. Continuo sem energia, vou ter mesmo de parar. Parar = deixar de caminhar. Este constante sobe e desce, sobe e desce, assemelha-se-me a um carrossel viciado do qual não consigo sair. Assim até me custa desfrutar deste local lindíssimo, para o qual às vezes me obrigo a olhar e respirar fundo. Deverei ficar no abastecimento do km33? Vale a pena continuar assim, sem energia, com músculos de gelatina? É isto que se sente e se pensa quando estamos perto de um DNF?
No meio da dificuldade que foi toda a prova, estes foram os quilómetros piores. Toda a conversa é feita na minha cabeça, pouco falo, e não quero dizer em voz alta que estou a pensar desistir. Isso era tornar a decisão muito real, e ainda não estou segura de que o quero. Preciso de me distrair, preciso de afastar os pensamentos negativos. Roubo a frase à música dos Xutos, num código já conhecido de socorro:
- "
Conta-me histórias", peço-te.
Conta-me histórias para, ao ouvir as tuas palavras, calar as minhas que ecoam na cabeça. Sei que consigo terminar a prova, mas não vai ser uma história bonita. Conta-me as tuas. Distrai-me. Por favor..
O Miradouro da Boa Vista foi crucial, já que a história desta Ultra poderia ter ficado por ali. A haver um ponto final, seria este, uma vez que chegando ao próximo abastecimento, no km44, dificilmente iria fugir à ideia do "já que cheguei até aqui, faço mais um esforço e concluo..."
Ali, aos 33km, passei a cara e os braços por água, sentei-me, comi... e decidi continuar. Ainda seriam cerca de 7km de arribas até ao próximo abastecimento, onde o percurso tornava novamente a virar para o interior e o terreno se tornava menos agreste. Não estava com dores e, se me perguntassem, diria até que nem estava cansada, não sentia dores musculares e a respiração já tinha estabilizado, "apenas" não tinha energia. Ali, aos 33km, ainda tinha esperança de "ressuscitar".
10 horas de prova no pior dos casos, tinhas pensado tu? Dez horas vai ser muito bom, neste lindo estado! Todos te ultrapassam, até aquele, até aquela, aqueles que sabes que nesta liga dos últimos tu consegues sempre ganhar. Bem-feita! OMD, não é? Ui, fazes 70km em montanha e depois vens para aqui armada em carapau de corrida, agora arrasta-te para aí para veres o que é bom. Arribas a dar-te 1000 a ZERO. Hoje não apanhas ninguém. Hoje nem a ti te apanhas. Hoje tens sorte se não fores varrida.
- "
Acho que vou ter de beber para esquecer este dia" - disse, só em parte a brincar. Curiosamente, um dos prémios de finisher por ter chegado nas primeiras 10 mulheres (eram só 9!:)) foi uma garrafa de vinho branco. Parece que me ouviram os pensamentos, embora a garrafa continue ainda hoje guardada no meu armário da cozinha. Mas, na altura, a imagem de uma imperial fresquinha (ou duas, ou três..), quem sabe numa esplanada à beira-mar - uma beira-mar pacífica e veraneante, não esta das arribas que agora goza comigo e o meu sofrimento - era o que me estava a motivar para tentar concluir mais depressa.
Pensa no copo gelado e a espuma a escorrer-te pelos lábios, tu esticadinha numa cadeira, finalmente em REPOUSO... E continuei.
- "
Depois disto tudo, e já que cheguei até aqui, se cair para o lado, tu faz o favor de me arrastar até para lá da linha da meta!", pedi.
Para chegar ao abastecimento do Miradouro Green Hill foi preciso fazer uma última descida técnica para depois enfrentar a última grande subida da prova. Ali nem quis parar muito, queria acabar! Seguimos as fitas que se afastavam do mar para entrar numa zona de moradias. Foi fácil seguir a sinalização ao longo de todo o percurso, sempre bem identificado, e apenas nos enganámos uma vez por distracção: eu porque estava em coma e o companheiro de corrida porque ia distraído com o telemóvel (quem acompanha uma zombie tem tempo de responder a sms, telefonar à família e consultar o estado da actualidade nacional e mundial, e mesmo assim de vez em quando tem de olhar para trás para não se afastar muito :))