Todos aqueles que correm têm "O" armário. Pode até nem ser um armário. Pode ser uma gaveta, um canto no guarda-fatos, uma cesta no quarto, um alguidar no fundo da lavandaria... Mas o conceito é o mesmo. "O" armário é o baú de recordações da corrida, o depósito têxtil das nossas conquistas, o emaranhado físico das provas feitas, o caos suado do nosso esforço. Vulgarmente é também conhecido por "o armário onde estão as tshirts".
Ao início todo ele é religiosamente organizado. A primeira tshirt, depois a segunda, guardadas com o cuidado de uma peça de museu extremamente valiosa, que é posta a arejar de tempos a tempos, em algum treino (mas não muito, para não estragar). Depois, com o passar do tempo e a gradual participação em provas, o armário começa a ganhar dimensões assustadoras. De tal forma, que até temos medo de enfiar demasiado o braço naquela confusão, não vá dar-se o caso de sermos sugados para uma outra galáxia de planetas de algodão, poliéster e tecido técnico. Outras vezes, chego a suspeitar que no armário habita um monstro devorador de tshirts, pois só isso explica que não consigamos encontrar aquela tshirt azul com as letras cinzentas, daquela prova de 2012, que queríamos mesmo usar no treino de hoje, apesar de termos outras dezenas à disposição.
Os dias vão passando, acabamos por tirar sempre a tshirt que está mais à mão, enquanto olhamos de soslaio para o interior do armário e pensamos que temos de o organizar "um dia destes"...
No meu caso, como a situação já estava a adquirir contornos que poderiam pôr em causa a minha integridade física*, tive de enfrentar o mostro e arrumar O armário.
*(a sério, o armário fica num ponto mais elevado e, sempre que tinha de tirar uma tshirt, tinha de fechar rapidamente a porta, não fosse dar-se um desabamento das restantes e eu só vir a ser encontrada dias mais tarde, soterrada sob quilos de pano colorido.)
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| O Antes. |
O que eu não contava, é que este acto de arrumar fosse abrir uma caixa de Pandora de recordações e nostalgia, o que dificultou bastante o meu trabalho.
- "Xiiii, a t-shirt da MINHA PRIMEIRA PROVA! Não a via há anos, enterrada no meio dos destroços das outras tshirts, mas, decididamente, tem significado, não posso desfazer-me dela."
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| S. Silvestre dos Olivais 2011. A Primeira. |
- "OMD, a PRIMEIRA VEZ QUE BAIXEI DA HORA AOS 10 KM! Nem pensar em doá-la, vou guardá-la para sempre, mesmo que não a use nunca porque o tecido causa-me alergia no pescoço ao raspar enquanto corro.
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| Corrida Dona Estefânia 2012. Era sempre a direito, perfeita para bater recordes, e assim foi. |
A estas seguiram-se a da primeira Meia-Maratona, da primeira prova de trail, da primeira Ultra... A ideia era guardar as melhores, deitar fora as que já estivessem em más condições e juntar outras quantas, que já não uso, para doar. Mas como é que uma pessoa escolhe entre filhos? Como?!
Agora fora de brincadeiras, é engraçado as memórias que ficam associadas a uma peça de roupa e que me ocorriam quando pegava em cada uma. Sabiam que a banda sonora do Indiana Jones fazia parte da minha playlist na minha primeira prova? (Ahah, que totó...) Sabiam que o meu pai esteve presente na prova em que baixei da hora e me acompanhou, também, em parte da minha primeira Meia Maratona? E que fiz parte de uma equipa de estafetas na Maratona de Lisboa 2012? Que foi nesta prova que me comecei a apaixonar por Sintra? Que assei de calor no Almonda de 2013 e que, por causa disso, essa prova ficou para sempre riscada da agenda para mim, mesmo que noutras edições, entretanto, até tenha chovido? Que Mafra se tornou especial, no dia em que fiz o Raide à Tapada? Que, mesmo sendo uma tartaruga, fiz aqui o meu primeiro pódio? Que, por esse país fora, conheci locais e pessoas que, provavelmente, nunca teria conhecido de outra forma? Eu sabia disso tudo, mas já não me lembrava. Só foi preciso arrumar o baú das memórias.
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| O Depois. |
Bom, não sei se esta crónica vos vai dar vontade de fazer arrumações - provavelmente não - mas eu gostei desta viagem ao passado. "Corro para criar memórias", como já por aqui escrevi um dia (e, já agora, os 26km da Lagoa de Óbidos foram a minha primeira prova nocturna, feita com um frontal muito fraquinho, que quase não durou a totalidade da prova. Felizmente, tinha três companheiros de corrida.)
Acabei por me desfazer de menos tshirts do que aquelas que gostaria. Por outro lado, ainda sobram bastantes para um dia mandar fazer uma manta de retalhos da minha "carreira" desportiva.
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| Exemplo de um "race quilt", dos muitos encontrados por essa net fora. |
- "Ah, e tal, tudo muito bonito. Mas, e correr que é bom, pá?"
Pois, cá vamos! Já corri mais, mas também já corri menos (ver meses que se seguiram ao OMD). Sempre sem falhar aos fins-de-semana, menos consistente durante a semana (nada de novo, portanto). Mas depois falamos melhor sobre isso.
No entanto, o meu Garmin, tal como algumas das minhas tshirts, já merecia uma reforma. Tenho-o desde 2012, o que não parece assim tanto, mas sabemos bem que, em termos de tecnologia, é quase como se fosse pré-histórico. O modelo foi descontinuado e, talvez por isso, tem dado muitos problemas na actualização e transferência dos treinos, para já não falar dos dias em que se recusa a treinar (não apanha satélites). Assim sendo, ainda não tenho as contagens destes dois últimos meses. Vou instalar uma aplicação no telemóvel entretanto, só para ter algum controlo.
E vocês? Como anda a vossa colecção de retalhos para a futura manta de feitos desportivos?

































































