10 de janeiro de 2017

Do outro lado de uma prova (voluntária num abastecimento)

Hoje estou aqui para falar da experiência que tive como voluntária numa prova. Era algo que sempre quis fazer e acabou por vir numa boa altura. Tal como já disse, por vezes, é importante tirar o foco de nós e orientá-lo para os outros, para aprender a relativizar. Portanto, adianto desde já que fui voluntária, mas fui eu quem acabou por receber mais desta experiência. Mas comecemos do início.

Custou um bocadinho, mas tive de pôr a mão na consciência (e nos pneus que se começavam a acumular da falta de treino) e admitir que não estava preparada para participar novamente na versão ultra da Ericeira Trail Run. Não é uma prova com um percurso particularmente bonito ou desafiante, mas acaba por ser uma boa forma de terminar o ano das corridas, num local pelo qual tenho algum carinho, e, além disso, gostava da ideia de me manter totalista.
Estando excluída a participação na prova dos 50 km restava a participação nos 20 km mas, depois, surgiu uma oportunidade ainda melhor, quando vi que procuravam voluntários para ajudar nos abastecimentos. Seria totalista, mas não como atleta.

E foi assim que, às 8h30 da manhã desse Sábado, estava no local combinado para nos dirigirmos para o nosso posto. Neste caso, seria o PAC 3 (correspondente ao PAC 2 da prova mais curta), na Senhora do Ó, respectivamente aos 30 e aos 15 km de cada prova.

Chegando ao local, a ultra já tinha tido início há cerca de 15 minutos, mas o trail curto só se iniciaria às 9 horas, o que dava alguma margem para irmos organizando as coisas. E que coisas são essas? Por exemplo, montar as mesas, fazer o inventário do que fica e vai para outros abastecimentos e descarregar as águas, outras bebidas e alimentos da carrinha.
Tenho a dizer que, como sempre, os homens ficam com o trabalho mais pesado e as senhoras trataram da disposição dos alimentos nas mesas.


Tudo arrumadinho, à espera dos atletas.

Foi engraçado porque, nesta parte, apercebi-me como o facto de ter participado em provas ajuda a perceber o que poderá fazer falta e a maneira mais prática de dispor as coisas. Por exemplo, colocar logo umas quantas tostas já com o mel, para os atletas que vão com mais pressa não estarem a perder tempo e saber, de entre os alimentos, os que têm mais saída. Para mim, existe uma Santíssima Trindade nos abastecimentos, que é: bananas, marmelada e... tomate com sal! Poderia haver alguns abastecimentos só com isto, tudo o resto é acréscimo. A senhora que estava a tratar dos alimentos comigo não tinha ideia da fama deste último (compreensivelmente, pois nunca tinha participado numa prova), mas eu disse logo que seria das coisas mais consumidas, a par das míticas bananas, e acertei. Muito gostamos nós, os atletas de trail, de tomate com sal! É daquelas combinações que sabe melhor numa prova.

Depois, ficámos a aguardar o contacto do PAC 2, que nos informaria quando os primeiros atletas passassem, para podermos começar a tratar da fruta (não quisemos cortar logo a banana para não começar a ficar negra. Quem são os voluntários mais queridos e preocupados, quem são?)

Vista do abastecimento.

Estradão por onde surgiam os atletas.

Entretanto começam a chegar os primeiros atletas que, como seria de esperar, não param no abastecimento. Por enquanto são apenas ainda os atletas dos 20 km, que chegam aqui com 15 km de prova e continuam disparados. Como havia uma separação dos dois percursos uns 50 metros mais à frente, temos de ir sempre avisando, porque nem imaginam a quantidade de atletas que vai tão focada que nem vê as placas!

Depois, deu-se aquela que penso ter sido a única falha do nosso abastecimento. Um dos atletas que ia, penso, nos dez primeiros, e dos poucos que parou para abastecer, perguntou-nos pelo CR7... Pois é, sabiam que tínhamos a presença do Cristiano Ronaldo no nosso abastecimento?!

Aqui está ele.

(Parece que agora o futebolista madeirense também dá a cara numa bebida energética.) O problema é que houve um atraso no transporte do isotónico em questão, de um abastecimento para o outro, e só chegou já tinham passado os primeiros atletas. Foi só um atleta que deu pela falta e foi um atraso de apenas uns dois minutos, mas não interessa. Mesmo que a restante prova corresse bem, este atleta já teria pelo menos esta queixa (justificada).  Ficámos um pouco chateados com essa situação... Mas bom, daí para a frente não faltou nada e estávamos sempre atentos para ir repondo os alimentos mais solicitados (sem surpresas: tomate, laranjas e bananas.)

Enquanto os corredores vão espaçados é fácil estar sempre em cima do acontecimento - apontar o número do dorsal, encher depósitos de água, arranjar recipientes para aqueles que não levam copos (embora no regulamento constasse que não haveria copos nos abastecimentos e cada atleta ficaria encarregue de levar o seu), o problema é quando o pelotão engrossa e começam a chegar cinco... dez... quinze atletas de cada vez. Nesta fase limitei-me a apontar o número de dorsal, para que pudesse haver controlo e comunicação entre abastecimentos, para saber se ninguém se teria perdido ou desistido entre um e outro.

Quando o pelotão começa novamente a alargar-se, fui ajudar com a hidratação. Água e coca-cola são as opções mais concorridas, mas não imaginam as mixórdias que se fazem para ali! Por exemplo, pó+cola+água+CR7, TUDO misturado. Desde que que funcione e não provoque nenhum desarranjo intestinal mais à frente... Vale tudo! :) Quanto ao CR7, eu própria o provei (salvo seja!) numa fase mais calma e tenho a dizer que é um isotónico espectacular...mente banal! Nem gritei um "Síiiiii" quando o bebi, nem saí dali a fazer fintas artísticas com a bola. Uma desilusão... Se dará mais power para correr não sei, porque não abandonei o posto, mas os atletas que provaram, gostaram.

Por volta do meio-dia, uma hora da tarde, as coisas começaram a acalmar. Nesta liga dos últimos vi alguns atletas com os quais já partilhei muitos quilómetros em provas, inclusive o grupo de quatro ou cinco atletas com que tinha feito grande parte desta prova no ano anterior. Foi muito giro.

Às 14 horas já só faltavam passar três atletas e fomos recolhendo as coisas que já não seriam necessárias. Dois desses atletas apareceram pouco depois. Era corredores de primeiro terço do pelotão, da ultra, mas que se tinham perdido logo a seguir ao primeiro abastecimento, seguindo por engano as fitas da prova mais curta. Chegaram lá a contar as peripécias pelas quais tinham passado, que incluíam atravessar o rio com água quase até à cintura... Mas vinham animados e encararam o engano com bom espírito. Que tenha tido conhecimento, mais ninguém se perdeu.
Finalmente, a última atleta era uma senhora alemã que estava por Portugal de férias, viu o anúncio da prova e acabou por inscrever-se. Nada como descobrir um país através dos seus trilhos!

Abastecimento ao fundo.

E pronto, a minha primeira experiência junto a uma organização de uma prova foi esta. Penso que não será a última. Foi interessante saber como se processa o "outro lado", para dar valor, embora já o fizesse antes. Acreditem que ninguém fica mais chateado quando alguma coisa corre mal do que aquelas pessoas que ali estão. Salientando o facto de que a maioria está ali como resposta a um pedido de ajuda, e não sabe nada da prova, apenas do local onde está, por isso, se não ajuda mais, é porque não consegue. Não foi este o caso. Eu, por acaso, já conhecia o percurso, mas a Organização convidou os voluntários para uma reunião prévia, de forma a informar e distribuir tarefas. Infelizmente não pude estar presente, mas notou-se que havia ali vontade de integrar os voluntários, para os mesmos não sentirem que caíram ali de pára-quedas, como às vezes acontece em algumas provas.

A maior parte daquelas pessoas está ali a disponibilizar o seu tempo, sem receber nada em troca, por isso merece, no mínimo, o nosso (dos atletas) obrigado. No dia seguinte a esta experiência, voltei a estar do lado dos atletas. Ia em modo Walking Dead, mas nunca me esqueci de agradecer. ;)

2 de janeiro de 2017

Bem-vindo 2017

Agora que passou mais um ano, está naquela altura de reflexão e planeamento em relação aos próximos 365 dias (364, ao dia de hoje). Por isso, é o que farei agora, apesar de já ter duas crónicas semi-escritas e em atraso.(Nada como procrastinar para começar bem o ano.)

2016 pode ser resumido da seguinte forma: um primeiro semestre em crescendo de treinos, até ao grande objectivo da prova dos três dígitos, em Junho; e, depois, um segundo semestre de queda abrupta na quantidade e qualidade de quilómetros. Atenção, não foi uma suave descida em curva, foi uma queda-livre mesmo.  Com uma ligeira ascensão em Dezembro, para me redimir dos quilómetros em falta e dos quilos em excesso (que, sem surpresas, funcionam de forma inversamente proporcional).
Aqui fica um pequeno resumo em gráfico:



Ainda em Novembro, perante a minha recorrente queixa de quebra de forma, havia quem me perguntasse: "Como é possível dizeres que estás em baixo de forma se ainda há duas ou três semanas correste uma Maratona??!". A essas pessoas respondia que sim, é possível. Claro que, comparando com uma pessoa sedentária, estou em forma. Reduzi significativamente o número de treinos, mas nunca deixei de correr. No entanto, comparativamente aos últimos anos, é notório o meu decréscimo.

Apesar de tudo, levo de 2016 dez participações em provas, das quais destaco, obviamente, aquela ali para os lados da Serra da Estrela, não sei se já tinha falado dela, os 106 km do OMD. E, depois, por ter sido inesperada e feliz, a minha primeira prova de estrada desde 2013, a Maratona do Porto.

A crónica sobre o OMD foi, de longe, a mais lida do ano, bem como as das semanas que lhe antecederam e seguiram. De entre estas, os pensamentos de uma pessoa apreensiva - acagaçada, pronto - a duas semanas do desafio, foi a que obteve mais atenção (vocês gostam de drama!).
Fora do âmbito das provas, a história do armário das t-shirts também reuniu consenso, bem como o debate "desistir/persistir". Aprendi também que as pessoas gostam muito de cascatas e os treinos que exploram quedas de água estão entre os mais visualizados, como este ou este.

Foi fácil notar que 2016 foi também um ano mais fraco ao nível da escrita, coisa que, não fazendo promessas, espero alterar este ano, já que, a par dos treinos, é do que sinto mais falta. Escrever é algo que me dá muito prazer e isso foi perdido no tumulto do ano. Aproveito para agradecer a quem ainda vai passando por aqui, aos amigos e aos silenciosos e, inclusive, a novos leitores que mandam mensagem a dizer que estão a ler o histórico das crónicas DESDE O INÍCIO! (Medo...) É preciso coragem e resiliência, acho que têm aí fibra para serem ultramaratonistas, just sayin'...

Agora, em relação a 2017, como já disse, o que mais quero é recuperar o ânimo na corrida. Correr a brincar, com o espírito de criança feliz por estar apenas ali. Às vezes uma pessoa esquece-se do que é mais importante. Tudo o resto, em termos de objectivos, virá por acréscimo.
Existe um desafio maior que gostava de tentar, lá mais para o final do ano, mas, como está dependente de algumas variáveis que não apenas os treinos, apenas referirei quando/se for certo. Entretanto, já estive a alinhavar o primeiro semestre, a estudar as provas em que gostava de participar. Das curtas e, sobretudo, das longas, claro, porque continua a ser o que mais gosto, apesar de agora mais parecer um urso obeso a arrastar-me sofrivelmente pelos trilhos.

Imagem bastante representativa.

Voltar a uma rotina de treinos não tem sido fácil e é um exercício de humildade. Não nego que vai levar um bocado a recuperar os mínimos para poder continuar a participar nas provas que quero.
O certo é que irei voltar à Serra da Estrela. Porque preciso, porque é como uma prenda a mim mesma, porque, lá, me sinto verdadeiramente em casa. Apenas não sei é quantos quilómetros farei, dependerá de como as coisas correrem até lá e se irei, ou não, participar posteriormente na tal prova que tenho na ideia.

Também ainda não será este ano que vou ao Monte Branco, apesar de neste momento ter os pontos necessários para participar em todas as suas provas excepto o UTMB (por três pontinhos!).



Tal como toda a malta dos trilhos, no final do ano tive curiosidade de ir ver como estava de pontos para a prova mítica. Desde 2013, quando descobri os trilhos, ou talvez antes disso, que sonho em lá ir. Nunca pensei que alguma vez esse sonho estivesse tão acessível (quer dizer, em termos de pontos, falta o r€sto...) Confesso que fico triste de saber que os pontos adquiridos em 2015 irão prescrever este ano, mas, por outro lado, ainda fico com pontos suficientes para fazer o CCC em 2018, se assim o desejar/for possív€l. Ou, então, talvez o destino seja um dia o UTMB (sim, fica aqui escrito!) e até lá irei acumulando pontos noutras experiências igualmente memoráveis.

E é isto. Depois falarei melhor das provas que pretendo fazer em 2017.


Um excelente ano a todos!

22 de dezembro de 2016

O desejo e a estrela


Lembram-se da Fonte dos Desejos?


Este ano, ela lá está novamente.

Apelidaram-na de Árvore dos Desejos, e não Fonte, mas, por detrás de uma fotografia nocturna de má qualidade, o processo do pedido do desejo mantêm-se.


Ao contrário dos outros anos, este ano sei exactamente o que pedir.


Aqui fica um resumo, por pontos, do que se tem passado por aqui nos últimos tempos.

1. Tenho corrido.
2. Tenho corrido, mas pouco.
3. Tenho corrido, mas pouco, e sem ânimo,

O ponto 1 é bom, o ponto 2 é - de tempos a temos - normal, porém, o ponto 3 é preocupante. Ao início, pensei que fosse uma ligeira depressão pós-OMD (afinal, tinha sido uma grande conquista e deixava-me com dúvidas em relação ao que se poderia seguir), mas, depois, ideias para futuras conquistas começaram a surgir, mas o ânimo para me dedicar a elas não.
2016 tem sido um ano de grandes mudanças para mim e, embora isso não seja sempre necessariamente mau, acho que o stress das incertezas começou a atingir-me. A corrida manteve-se como o fio condutor, permanente, que já é na minha vida há alguns anos mas, ao contrário das outras vezes, que era como uma lufada de ar fresco no meio do caos, agora era apenas algo que fazia. Porque sim. Porque já não sei fazer de outra maneira. Por outras palavras, tinha perdido o ânimo.

Foi apenas agora em Dezembro que decidi recorrer a "tratamentos de choque" da corrida. Entre eles, decidi participar numa prova com desnível considerável para quem andava a correr pouco mais do que uma vez por semana. O meu pensamento foi: ou vai ou racha. Depois conto-vos quão bem correu. (SPOILER: Ahahaha!)
Depois, e porque, por vezes, o melhor é tirar o foco de nós próprios e orientá-lo para os outros, para aprender a relativizar, fui fazer algo que já queria fazer há muito tempo mas ainda não tinha tido oportunidade: ser voluntária numa prova. Adorei a experiência! Essa crónica já está preparada e será a próxima a sair.

Entretanto, e porque agora devem andar ocupados com as festividades, aqui ficam os meus votos de saúde e paz, que o resto a gente corre atrás.

A Estrela de 2016.
(Ver estrelas de 2015 e 2014.)


Foi esse o meu desejo, enquanto dava os três nós na fonte: correr atrás*. Ânimo.


BOM NATAL!


* Se bem que, neste meio da corrida, correr à frente seria muito melhor. ;) Mas vocês entendem.