4 de maio de 2017

Cork Trail


- Olha lá, Coruche é Alentejo ou Ribatejo?

Que os leitores da zona, se tiver algum, me desculpem, mas assumo aqui a minha ignorância e a vontade de aprender. O engraçado é que não obtive uma resposta firme e, mesmo após uma rápida consulta googliana, não fiquei completamente esclarecida. E o principal motivo para querer esclarecer esta dúvida era para saber se poderia considerar o Cork Trail como a minha estreia em trilhos alentejanos. Parece que não...
Mas, de uma coisa tinha a certeza: neste riba Tejo além do Tejo, ia estar um dia de muito calor.


Com uma Primavera recém-inaugurada em força, e o receio de haver poucas sombras, ia preparada para o pior, mas acabou por não ser assim tão mau. Sim, o percurso tinha muito estradão exposto mas, para minha surpresa, percorremos vários single-tracks em zonas arborizadas, claramente muito frequentados pelo pessoal de BTT da zona.


O Cork Trail são 23 km com 650m D+, o que a torna uma prova muito corrível para trilhos. Basta dizer que o primeiro classificado a completou pouco abaixo da 1h50. Eu, que demorei só um bocadinho mais que isso ;), também achei a prova acessível, embora o constante carrossel também seja desgastante.


Havia algumas subidas mais a pique e complicadas, mas sempre curtas. Inclusive uma, logo ao início, que parecia uma autêntica duna de areia, poucos metros depois de termos atravessado um pântano alagado. Fiquei logo ali com mais dois quilos de peso nos ténis.


Tentei correr sempre nas rectas e quando o terreno o permitia, mas ali para o km 10 tive uma quebra e começou a ficar complicado. É nestas alturas que tudo nos incomoda: o calor, o toco de 2 cm no meio do trilho, as moscas, o pólen... e as placas deixadas pela organização. Esta que se segue, do fatídico km 10, parecia que era mesmo a gozar comigo!

"Em grande forma"... Pfff!

Felizmente, depois do segundo abastecimento, pelo km 14, as coisas começaram a melhorar. O sol estava cada vez mais quente, mas estávamos a atravessar uma zona com árvores e sombra e isso ajudou.


Passámos umas quantas pessoas que estavam a quebrar devido ao calor, mas eu agora queria era acabar mais depressa para não apanhar as horas mais quentes. Não foi fácil, sobretudo numas últimas subidas que ainda nos estavam reservadas no final, com as respectivas descidas mais técnicas onde, desta vez, fui eu a dar um grande bate-cu, embora sem gravidade.


Na passagem pelo último PAC tivemos direito a um chuveiro de água fria, o que deu para me refrescar quase, quase, até à Meta, não fosse aparecer ainda uma última subida que me deixou a ferver em todos os sentidos - "Para quê ainda esta subida aqui a 1 km do fim, para quê??!!" - mas a Meta lá aparece e eu até consigo acelerar para a cruzar, ultrapassando mais dois atletas incautos a 200 metros do fim.

Tinha-se passado um mês desde Vila de Rei e os treinos estavam reduzidos ao mínimo, por isso sabia que não podia esperar muito, mas estava com saudades dos trilhos e achei que 23 km e 650m D+ eram uma forma "acessível" de voltar. Não contava com o calor que estava nesse dia, confesso, mas à nossa chegada tínhamos a bela da bifana e uma mini, portanto acabou tudo bem. :)

29 de abril de 2017

TCC - Vila de Rei


"Os pés não vão aonde o coração não está."


Aqui estou eu, em Vila de Rei, de pés e coração.  A cabeça está dividida. O corpo está cansado. A prova ainda nem começou.


Não conhecia Vila de Rei, e o facto desta prova do Território Circuito Centro nos dar a oportunidade de passar pelo centro geodésico de Portugal foi um grande atractivo. No final, e apesar de dar fotos engraçadas, a passagem pelo marco que assinala o centro do país acabou por ser o que menos me lembro. Bom, ficou-me na memória a subida até lá chegar, mas por outras razões! :)

Subida ao Picoto da Melriça - Centro Geodésico de Portugal.

Apesar de estar inicialmente inscrita para a Ultra, e devido às razões já referidas, irei acabar por fazer apenas o Trail Curto. O percurso era partilhado até cerca dos 18 km e, desta forma, ainda tive a companhia do Artur, que me puxou moralmente, e talvez também fisicamente numa ou outra subida, antes da separação dos dois percursos.

A prova teve uma partida muito rápida, ou não fosse esta de apuramento para o Mundial do Trail. Os primeiros quilómetros são bastante rolantes e dá logo para separar o trigo do joio, ou seja, os craques dos coxos, portanto não há atropelos. :)
Embora lentinha, até me estava a aguentar razoavelmente bem, até entrarmos numa zona arada, com rasto seco de um tractor, que para mim é dos pisos mais traiçoeiros para se correr. Tive de caminhar. Mas também, se não fosse ali, seriam 300 metros mais à frente, quando se inicia a subida ao Picoto. Penso que foi aqui que precisei do meu primeiro puxão (cof cof) moral (cof cof)...

Marco geodésico do centro de Portugal.

O que vale é que, 58 anos depois, quando chegámos lá acima, a paisagem era bonita e seguia-se uma descida. O problema é que era um trilho muito técnico e os meus asics, perfeitos em conforto, são um horror em aderência. Escorregam e escorregam, deixando-me ainda mais insegura na minha exímia técnica. Tive de me encostar algumas vezes para deixar passar "descedores" mais rápidos.

Apesar de saber que seria uma prova "perdida" à partida, tentei fazer o melhor da situação. Não estava fácil. Nos estradões e terreno relativamente plano ainda conseguia imprimir algum ritmo de corrida, mas as subidas era para esquecer e nas descidas simplesmente não tenho jeito. E a prova bem que teve umas quantas dessas...

As subidas...


E as descidas...


Acho que nunca consumi tanto gel (coisa que nem gosto muito) para tentar ir mantendo a energia. Ainda por cima, quando chegámos ao primeiro abastecimento, já não havia fruta nenhuma, apenas umas tostas ou umas bolachas. Não sou de ligar a abastecimentos fartos, mas já não ter, pelo menos ali na mesa, nem umas bananas, achei uma falha. No abastecimento seguinte já haveriam mais coisas, mas nota-se que os jovens que estavam por detrás eram bastante inexperientes e pareciam um pouco perdidos em relação ao que fazer. Não culpa deles, obviamente, que estavam ali a doar o seu tempo, mas penso que numa prova desta importância esta questão dos PACs será um ponto a melhorar.

Quanto a mim, estava a iniciar a altura da prova que chutou o pinoco do centro geodésico para canto, nas memórias que levo de Vila de Rei...

O trilho das cascatas.

A descer e relativamente corrível, com alguma atenção a passagens mais escorregadias, deu para fazer aquela que foi, para mim, a parte mais zen de toda a prova, num bonito cenário com o som do ribeiro como fundo.


Deixou de ser tão zen quando o atleta que ia à minha frente deu um espalho monumental numa das partes em que tivemos de atravessar a linha de água. Apesar das cordas e dos bombeiros presentes, era necessário ter muita atenção para evitar as pedras mais lodosas e aquela queda até a mim me doeu! Bom, ele levantou-se logo, portanto não foi nada de grave, embora acredite que tenha andado dorido durante uns dias (por decoro, não digo onde... ;)).


Pouco depois, dá-se a separação dos percursos e eu, apesar de já ter tomado a decisão, confesso que fiquei um pouco aborrecida. Gosto de ver tudo, correr tudo, e ter virado ali para o trail mais curto foi como optar por viver a prova pela metade. Parvoíces, eu sei, já que não estava em condições de fazer mais quilómetros, não ia valer a pena. Já fiz outras provas em que me arrastei e sabia que conseguia terminar esta prova também mas, nessas outras provas, não havia um motivo aparente e nesta sim. Correr com o coração é muito bonito mas há que levar também a cabeça. Segui a placa dos 23 km.


Nos últimos três quilómetros, bastante duros, já que acompanham o sentido ascendente de várias cascatas, acabei por fazer as pazes com a minha decisão. Estava a ser duro, muito duro, escalar aquelas rochas, imagino o que seria fazê-lo com quarenta e muitos quilómetros nas pernas.
Mas, pelo menos, justifiquei as paragens com várias fotos. :)



Horas mais tarde, já depois de ter terminado a minha prova, estaria eu naquela última subida do trilho das cascatas, onde falta cerca de 1 km até à Meta, a ver passar os atletas da Ultra e a dar uma força. Foi a parte favorita de todo o meu dia. Invejava-os mas, ao mesmo tempo, estava aliviada por não ser eu ainda ali. Cansados, doridos, de olhar baixo, a perguntar sofregamente (os que ainda tinham fôlego) se "faltava muito"... Ah, o alivio de já estar ali sentada! Mas depois a força, a garra, a glória de saber que conseguiam, mesmo que tenham passado horas desde que os primeiros terminaram e já estivesse a anoitecer... Ah, como os invejo!

Mas agora, que ainda sou eu que ali vou, não sei que só falta 1 km para a Meta. As pernas ardem, sinto o rosto contraído do esforço, provo os lábios salgados de suor. "Mas ainda falta muito?!" O gps diz que não, mas nestas alturas não acreditamos em nada. Nem no outro atleta que já acabou a prova dele e vem a descer o carreiro e que me diz que já só faltam 800 metros. "Pfff, deve faltar deve..." Só via árvores e mato. Quem diria que a vila se escondia já ali, uma vila que não lhe basta ser o centro de Portugal, mas ainda partilha as imediações com cascatas e trilhos bonitos.

O Território Circuito Centro de Vila de Rei não é uma prova fácil. Tem muitos estradões rolantes, verdade, o que alguns atletas mais puristas não gostam, mas nem por isso perde a dureza. Aliás, acho que o facto de intercalar zonas rolantes com trilhos técnicos a torna um autêntico rebenta-pernas para quem não souber gerir (e mesmo gerindo...). Seria, portanto, uma prova desafiante mesmo que estivesse no pico da forma. Desta vez segui a cabeça, mas tenho de lá voltar com o coração, os meus pés precisam de conhecer o resto.

26 de abril de 2017

40ª Corrida da Liberdade

Depois de quase quatro anos sem participar em provas de estrada (excepção para a Maratona do Porto), agora, pumbas, duas em quatro dias!


"No dia 24 de Abril de 1974, um grupo de militares comandados por Otelo Saraiva de Carvalho instala secretamente o posto de comando do movimento golpista no quartel da Pontinha, em Lisboa. Às 22h 55m é transmitida a canção E depois do Adeus, de Paulo de Carvalho. Este é um dos sinais previamente combinados pelos golpistas, que desencadeia a tomada de posições da primeira fase do golpe de estado. O segundo sinal é dado às 0h20, quando a canção Grândola, Vila Morena de Zeca Afonso é transmitida pela Rádio Renascença, que confirma o golpe e marca o início das operações."


A última edição em que tinha participado foi a 36ª, mas ainda me lembrava razoavelmente bem do percurso. Partimos junto ao Quartel da Pontinha, atravessamos Benfica, Telheiras e Alvalade, para depois seguir na direcção de Entrecampos, percorrer a Avenida da República, Saldanha, Marquês, e daí descer até à Meta, nos Restauradores, seguindo os passos da Revolução. E é por entre cravos, e após a largada simbólica das pombas, que é dada a partida para os perto de 11 km da Corrida da Liberdade.

O primeiro quilómetro ainda é feito junto aos colegas de equipa, mas depois cada um seguirá no seu ritmo. O meu será, mais uma vez, confortável, pois a ideia, após concluir a prova, é ainda regressar a casa a correr (sensivelmente 9 km).

Mesmo assim, em prova, distraída pelo ambiente, acabo por correr a ritmos que nunca faria em treino, e é bom ver que me sinto confortável mantendo um ritmo que é raro atingir nos trilhos. Quando não temos de nos preocupar onde metemos os pés, a tarefa é facilitada. :)

Fiz a prova a sentir-me sempre bem, inclusive após a passagem dos túneis, que são as "montanhas" deste percurso, e depois foi só desfrutar da descida do Saldanha até à Meta, onde, aparentemente, tentei ultrapassar toda a gente que ia à minha frente a ver se ainda ficava em primeiro, tal o ritmo que imprimi. Estava a ver que cruzava a Meta nos Restauradores e só parava no rio Tejo, não era o embalo que levava! :)

Chegando à Praça dos Restauradores há sempre alguma confusão na zona dos garrafões, embora não tão má como no último ano em que participei, e desta vez havia, sem dúvida, muito mais gente a participar. Numa prova gratuita, ainda assim temos direito a uma t-shirt, medalha e um saco com uma garrafa de água reutilizável bastante catita. Após 40 anos, continuam todos de parabéns. E venham muito mais edições!

Recordo-me de, no primeiro ano em que participei na Corrida da Liberdade, ter encontrado um amigo do meu pai que tinha corrido de mochila porque "estava a fazer um treino" e ainda ia correr até casa. Na altura, lembro-me de ter pensado: "mas porque é que alguém há-de querer correr ainda mais a seguir a isto?!". Pois é... Desta vez fui eu a cromita que correu de mochila e que ainda ia regressar a casa a correr. E não fui a única!

Enfio as coisas na mochila, bebo mais um golo de água, dou uma trinca numa barrinha e siga para o resto do "treino", num ritmo ainda mais confortável ;), mas contente, porque há dois meses sentia-me cansada com muito menos que isto.

- " 'Bora, qu' agora é sempre a direito!"



(A seguir é que é mesmo a crónica de Vila de Rei, juro!)