"Os pés não vão aonde o coração não está."
Aqui estou eu, em Vila de Rei, de pés e coração. A cabeça está dividida. O corpo está cansado. A prova ainda nem começou.
Não conhecia Vila de Rei, e o facto desta prova do Território Circuito Centro nos dar a oportunidade de passar pelo centro geodésico de Portugal foi um grande atractivo. No final, e apesar de dar fotos engraçadas, a passagem pelo marco que assinala o centro do país acabou por ser o que menos me lembro. Bom, ficou-me na memória a subida até lá chegar, mas por outras razões! :)
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| Subida ao Picoto da Melriça - Centro Geodésico de Portugal. |
Apesar de estar inicialmente inscrita para a Ultra, e devido às
razões já referidas, irei acabar por fazer apenas o Trail Curto. O percurso era partilhado até cerca dos 18 km e, desta forma, ainda tive a companhia do Artur, que me puxou moralmente,
e talvez também fisicamente numa ou outra subida, antes da separação dos dois percursos.
A prova teve uma partida muito rápida, ou não fosse esta de apuramento para o Mundial do Trail. Os primeiros quilómetros são bastante rolantes e dá logo para separar o trigo do joio, ou seja, os craques dos coxos, portanto não há atropelos. :)
Embora lentinha, até me estava a aguentar razoavelmente bem, até entrarmos numa zona arada, com rasto seco de um tractor, que para mim é dos pisos mais traiçoeiros para se correr. Tive de caminhar. Mas também, se não fosse ali, seriam 300 metros mais à frente, quando se inicia a subida ao Picoto. Penso que foi aqui que precisei do meu primeiro puxão (cof cof) moral (cof cof)...
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| Marco geodésico do centro de Portugal. |
O que vale é que, 58 anos depois, quando chegámos lá acima, a paisagem era bonita e seguia-se uma descida. O problema é que era um trilho muito técnico e os meus asics, perfeitos em conforto, são um horror em aderência. Escorregam e escorregam, deixando-me ainda mais insegura na minha exímia técnica. Tive de me encostar algumas vezes para deixar passar "descedores" mais rápidos.
Apesar de saber que seria uma prova "perdida" à partida, tentei fazer o melhor da situação. Não estava fácil. Nos estradões e terreno relativamente plano ainda conseguia imprimir algum ritmo de corrida, mas as subidas era para esquecer e nas descidas simplesmente não tenho jeito. E a prova bem que teve umas quantas dessas...
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| As subidas... |
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| E as descidas... |
Acho que nunca consumi tanto gel (coisa que nem gosto muito) para tentar ir mantendo a energia. Ainda por cima, quando chegámos ao primeiro abastecimento, já não havia fruta nenhuma, apenas umas tostas ou umas bolachas. Não sou de ligar a abastecimentos fartos, mas já não ter, pelo menos ali na mesa, nem umas bananas, achei uma falha. No abastecimento seguinte já haveriam mais coisas, mas nota-se que os jovens que estavam por detrás eram bastante inexperientes e pareciam um pouco perdidos em relação ao que fazer. Não culpa deles, obviamente, que estavam ali a doar o seu tempo, mas penso que numa prova desta importância esta questão dos PACs será um ponto a melhorar.
Quanto a mim, estava a iniciar a altura da prova que chutou o pinoco do centro geodésico para canto, nas memórias que levo de Vila de Rei...
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| O trilho das cascatas. |
A descer e relativamente corrível, com alguma atenção a passagens mais escorregadias, deu para fazer aquela que foi, para mim, a parte mais zen de toda a prova, num bonito cenário com o som do ribeiro como fundo.
Deixou de ser tão zen quando o atleta que ia à minha frente deu um espalho monumental numa das partes em que tivemos de atravessar a linha de água. Apesar das cordas e dos bombeiros presentes, era necessário ter muita atenção para evitar as pedras mais lodosas e aquela queda até a mim me doeu! Bom, ele levantou-se logo, portanto não foi nada de grave, embora acredite que tenha andado dorido durante uns dias (por decoro, não digo onde... ;)).

Pouco depois, dá-se a separação dos percursos e eu, apesar de já ter tomado a decisão, confesso que fiquei um pouco aborrecida. Gosto de ver tudo, correr tudo, e ter virado ali para o trail mais curto foi como optar por viver a prova pela metade. Parvoíces, eu sei, já que não estava em condições de fazer mais quilómetros, não ia valer a pena. Já fiz outras provas em que me arrastei e sabia que conseguia terminar esta prova também mas, nessas outras provas, não havia um motivo aparente e nesta sim. Correr com o coração é muito bonito mas há que levar também a cabeça. Segui a placa dos 23 km.
Nos últimos três quilómetros, bastante duros, já que acompanham o sentido ascendente de várias cascatas, acabei por fazer as pazes com a minha decisão. Estava a ser duro, muito duro, escalar aquelas rochas, imagino o que seria fazê-lo com quarenta e muitos quilómetros nas pernas.
Mas, pelo menos, justifiquei as paragens com várias fotos. :)
Horas mais tarde, já depois de ter terminado a minha prova, estaria eu naquela última subida do trilho das cascatas, onde falta cerca de 1 km até à Meta, a ver passar os atletas da Ultra e a dar uma força. Foi a parte favorita de todo o meu dia. Invejava-os mas, ao mesmo tempo, estava aliviada por não ser eu ainda ali. Cansados, doridos, de olhar baixo, a perguntar sofregamente (os que ainda tinham fôlego) se "faltava muito"... Ah, o alivio de já estar ali sentada! Mas depois a força, a garra, a glória de saber que conseguiam, mesmo que tenham passado horas desde que os primeiros terminaram e já estivesse a anoitecer... Ah, como os invejo!
Mas agora, que ainda sou eu que ali vou, não sei que só falta 1 km para a Meta. As pernas ardem, sinto o rosto contraído do esforço, provo os lábios salgados de suor. "Mas ainda falta muito?!" O gps diz que não, mas nestas alturas não acreditamos em nada. Nem no outro atleta que já acabou a prova dele e vem a descer o carreiro e que me diz que já só faltam 800 metros. "Pfff, deve faltar deve..." Só via árvores e mato. Quem diria que a vila se escondia já ali, uma vila que não lhe basta ser o centro de Portugal, mas ainda partilha as imediações com cascatas e trilhos bonitos.
O Território Circuito Centro de Vila de Rei não é uma prova fácil. Tem muitos estradões rolantes, verdade, o que alguns atletas mais puristas não gostam, mas nem por isso perde a dureza. Aliás, acho que o facto de intercalar zonas rolantes com trilhos técnicos a torna um autêntico rebenta-pernas para quem não souber gerir (e mesmo gerindo...). Seria, portanto, uma prova desafiante mesmo que estivesse no pico da forma. Desta vez segui a cabeça, mas tenho de lá voltar com o coração, os meus pés precisam de conhecer o resto.