- Vale a pena perderes mais uma unha do pé? - pergunta de mim, para mim, perto do km 60.
E foi assim que o número de unhas que desejamos preservar se tornou uma bitola para avaliar a importância de uma prova. É uma bitola tão válida como outra qualquer e que adquiriu uma relevância significativa naquele sábado, quando levava mais de 11 horas de corrida e estava a pouco mais de 10 km da meta, e a minha resposta foi:
- Não.
O OMD 70k 2017 foi azarado desde o início. Com altas temperaturas ao longo do dia e uma má disposição que me impedia de me alimentar com a frequência desejada e, mais para o fim, até beber água.
Era para ter ficado pela Torre, aos 35km, por razões que depois contarei, sem remorsos. No entanto, ainda não tinha cumprido a razão pela qual quis voltar à Estrela, por isso segui.
A Garganta de Loriga, sem surpresas, tornou a custar. A minha never-ending story que este ano me abrasou a planta dos pés e me fez pagar uma unha. Era para ter ficado por Loriga, aos 47km, por razões que depois contarei, sem remorsos. No entanto, e embora ainda não o soubesse, ainda não tinha cumprido a razão pela qual quis voltar à Estrela, por isso segui.
Agora, para além da má disposição, cada passada era como caminhar sobre brasas. Cheguei a Valezim. Na pequena corporação de bombeiros, à beira da estrada principal, um controlo de passagem antes do PAC de Lapa dos Dinheiros, a 2 km de distância.
- Vale a pena perderes mais uma unha do pé?
- Não.
"Epá, Rute, mas a tão poucos quilómetros do fim, isso é quase morrer na praia! Não dava para continuares?" Dar, dava. Mas já não valia a pena. Este ano o prémio não estava na conclusão. Como é que eu soube? Porque o ano passado a minha resposta à pergunta anterior teria sido um determinado: sim! Ou melhor, teria sido um expansivo: F*CK YEAH!!! Teria pagado com as unhas todas, se fosse preciso, para ser finisher. Por isso, desta vez, eu soube: o que tinha ido ali fazer estava feito, não era necessário continuar. Sem remorsos.
O engraçado, é que até estava a fazer uma boa prova em termos de registo temporal, para mim. Se não diminuísse muito o ritmo nos últimos quilómetros, até iria melhorar o meu tempo em relação à minha prova de 2015. Portanto, se nem isso foi motivação suficiente para continuar, é porque tinha chegado a altura de dizer:
E foi assim que o número de unhas que desejamos preservar se tornou uma bitola para avaliar a importância de uma prova. É uma bitola tão válida como outra qualquer e que adquiriu uma relevância significativa naquele sábado, quando levava mais de 11 horas de corrida e estava a pouco mais de 10 km da meta, e a minha resposta foi:
- Não.
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| Tão linda, tão brutal. |
O OMD 70k 2017 foi azarado desde o início. Com altas temperaturas ao longo do dia e uma má disposição que me impedia de me alimentar com a frequência desejada e, mais para o fim, até beber água.
Era para ter ficado pela Torre, aos 35km, por razões que depois contarei, sem remorsos. No entanto, ainda não tinha cumprido a razão pela qual quis voltar à Estrela, por isso segui.
A Garganta de Loriga, sem surpresas, tornou a custar. A minha never-ending story que este ano me abrasou a planta dos pés e me fez pagar uma unha. Era para ter ficado por Loriga, aos 47km, por razões que depois contarei, sem remorsos. No entanto, e embora ainda não o soubesse, ainda não tinha cumprido a razão pela qual quis voltar à Estrela, por isso segui.
Agora, para além da má disposição, cada passada era como caminhar sobre brasas. Cheguei a Valezim. Na pequena corporação de bombeiros, à beira da estrada principal, um controlo de passagem antes do PAC de Lapa dos Dinheiros, a 2 km de distância.
- Vale a pena perderes mais uma unha do pé?
- Não.
"Epá, Rute, mas a tão poucos quilómetros do fim, isso é quase morrer na praia! Não dava para continuares?" Dar, dava. Mas já não valia a pena. Este ano o prémio não estava na conclusão. Como é que eu soube? Porque o ano passado a minha resposta à pergunta anterior teria sido um determinado: sim! Ou melhor, teria sido um expansivo: F*CK YEAH!!! Teria pagado com as unhas todas, se fosse preciso, para ser finisher. Por isso, desta vez, eu soube: o que tinha ido ali fazer estava feito, não era necessário continuar. Sem remorsos.
O engraçado, é que até estava a fazer uma boa prova em termos de registo temporal, para mim. Se não diminuísse muito o ritmo nos últimos quilómetros, até iria melhorar o meu tempo em relação à minha prova de 2015. Portanto, se nem isso foi motivação suficiente para continuar, é porque tinha chegado a altura de dizer:
- Estrela, tens o meu coração, mas não podes ficar com mais nenhuma unha!
Apesar de todas as peripécias, algumas desagradáveis - para além dos pés em mau estado, posso, ou não, ter regurgitado líquidos junto a uma fonte - que farei questão de descrever pormenorizadamente (almas sensíveis abstenham-se de ler a crónica, foram avisados!), a prova acabou por ser memorável, no bom sentido. Por exemplo, porque foi completamente diferente daquilo que estava à espera, e não me refiro só à má disposição. A minha ideia inicial, como vos disse, era ir matar saudades, namorar a montanha, passar horas na sua companhia solitária. No entanto, das três participações que já levo desta prova, esta acabou por ser aquela em que menos tempo estive sozinha o que, não sendo o que eu queria, acabou por ser o que precisava.
Algumas crónicas são histórias de superação, motivadoras, outras são de reveses, cheias de acontecimentos mundanos, reais. A crónica do OMD deste ano não vai ser muito motivadora, quanto mais não seja por ter sido uma prova mais racional do que emocional (e eu, mais do que ninguém, gosto de um bom drama!). No entanto, está repleta de pequenas lutas pessoais e aspectos menos glamorosos da corrida que também merecem ser abordados. Serra da Estrela, nua e crua.
E eu, que ia só para ver as vistas... :) aprendi por lá o que precisava, e não o que queria.
Apesar de todas as peripécias, algumas desagradáveis - para além dos pés em mau estado, posso, ou não, ter regurgitado líquidos junto a uma fonte - que farei questão de descrever pormenorizadamente (almas sensíveis abstenham-se de ler a crónica, foram avisados!), a prova acabou por ser memorável, no bom sentido. Por exemplo, porque foi completamente diferente daquilo que estava à espera, e não me refiro só à má disposição. A minha ideia inicial, como vos disse, era ir matar saudades, namorar a montanha, passar horas na sua companhia solitária. No entanto, das três participações que já levo desta prova, esta acabou por ser aquela em que menos tempo estive sozinha o que, não sendo o que eu queria, acabou por ser o que precisava.
Algumas crónicas são histórias de superação, motivadoras, outras são de reveses, cheias de acontecimentos mundanos, reais. A crónica do OMD deste ano não vai ser muito motivadora, quanto mais não seja por ter sido uma prova mais racional do que emocional (e eu, mais do que ninguém, gosto de um bom drama!). No entanto, está repleta de pequenas lutas pessoais e aspectos menos glamorosos da corrida que também merecem ser abordados. Serra da Estrela, nua e crua.
E eu, que ia só para ver as vistas... :) aprendi por lá o que precisava, e não o que queria.
















